No mundo dos sonhos com as fábulas escoteiras

No mundo dos sonhos com as fábulas escoteiras
A aventura está apenas começando

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Ariranha, o Cão Lobo inesquecível.


Lendas Escoteiras.
Uma história baseada em fatos reais.
Ariranha, o Cão Lobo inesquecível.

          Nunca esqueci esta história. Ficou marcada em meu coração pra sempre. Ainda era Escoteiro lá pelos idos da década de cinquenta quando conheci Ariranha. Seis dias para ser exato convivemos juntos em um acampamento de tropa na Mata do Quati. Não dá para esquecer, pois foi nossa segunda Olimpíada Escoteira, e a cada ano elas marcavam época. Idéia do Munir, um Pioneiro meio afastado do grupo. Chefe Jessé relutou, mas a Corte de Honra achou a ideia esplêndida. Era uma Olimpíada diferente. Sempre acampávamos em uma clareira próxima ao Rio do Morcego, onde se avistava a bela cachoeira do Sonho. Na época da Piracema era um espetáculo ver os peixes tentando subir nas corredeiras e pulando sobre as pedras. Se podia pegar com a mão.

          As provas eram somente de atividades aventureiras e técnicas. – Subir em árvores de seis metros de altura com tempo marcado – atravessar o rio nadando em dez minutos ida e volta (60 metros). – Fazer vinte e cinco nós escoteiros ou de marinheiro em seis minutos de olhos fechados. – Deixar-se cair da cachoeira (oitos metros) em um tambor vazio de duzentos litros. – Semáforas e Morse uma prova onde tínhamos grandes sinaleiros. – Fazer um café e pão do caçador em oito minutos. – Uma fogueira em dez minutos que durasse quarenta minutos sem alimentar. – Cortar uma tora de madeira de oito polegadas em oito minutos usando só um facão. – Trilha e pista de animais e tantas outras que deixaram saudades.

         O caminhão da prefeitura nos deixou pela manhã na trilha da mata que levava ao Rio do Morcego. O resto era a pé. Apenas quatro quilômetros. Adorávamos este acampamento anual. A Patrulha se preparava meses antes. O troféu pela vitória alcançada não eram medalhas. Podia ser uma faca Escoteira, um canivete Suíço, uma bússola, distintivos de lapela com flor de lis, moedas de boa ação. Prêmios que ambicionávamos muito. Cada Patrulha tinha o seu campo separado da outra mais ou menos por quarenta metros. As pioneiras eram feitas no primeiro dia, pois no segundo as Olimpíadas começavam.

         Lembro que estava fazendo uma fossa para o WC quando avistei Ariranha. Notei algum diferente. Parecia um lobo Guará, mas tinha o pêlo meio amarelado e quase sem rabo diferente do lobo cinzento que conhecia bem. Quem sabe era um cruzamento com um vira-lata qualquer com alguma loba perdida por aí. Ele nunca sentava. Sempre em pé, orelhas para o alto e olhando sem piscar o que fazíamos. Quando me aproximava ele dava alguns passos para trás e parava. Durante todo o dia ele ficou lá, próximo ao nosso campo de patrulha. Acho que foi o Pedregulho o intendente quem lhe deu o nome de Ariranha. Porque não sei. À noite quando íamos dormir ele ficava na entrada do pórtico com se fosse velar nosso sono. Pela manhã impreterivelmente lá o encontrávamos.

        Durante a realização das provas da Olimpíada, ele ficava muito próximo a mim. Uma vez entrando na mata a procura de uma pista pisei em falso e um enorme corte se fez em minha perna bem abaixo do joelho. Ele veio até a mim pela primeira vez e lambeu onde o sangue escorria. Parou na hora. Quando passei a mão em seu pêlo saltou de lado e tomou distância. Uma noite acordamos com seus latidos. Latia para uma enorme cascavel que impreterivelmente invadiria nosso campo. Ele a espantou. Outra vez seus latidos foram mais altos e foi à tarde quando estávamos tomando banho no córrego da Lagartixa. Desta vez era uma Onça parda. Fugiu com seus latidos.

          Durante os seis dias de campo, Ariranha lá permaneceu. No último dia no cerimonial de bandeira Ariranha se colocou ao meu lado na ferradura. Não esperava por isto. Ele não me olhava. Seus olhos estavam fixos na bandeira Nacional. Devia ter assistido todos os cerimoniais que aconteceram. Enquanto ela farfalhava ao sabor do vento e descia dos céus seus olhos acompanhavam. Quando as patrulhas deram o grito ele ficou no meio e pela primeira vez se deixou abraçar. Foi um espetáculo comovente. Todos os escoteiros das demais patrulhas vieram também abraçá-lo, pois já era querido por todas as patrulhas. Ao partirmos ele nos acompanhou até a estrada onde pegaríamos o caminhão da prefeitura. Ao subir na carroceria ele estava lá me olhando. Abanando o pequeno rabo ele deu um uivo enorme. Gritante e choroso. Como se fosse um lobo de verdade se despedindo para sempre. Ainda nos acompanhou por alguns quilômetros, mas depois sumiu em uma curva no meio da poeira da estrada.


           Foi um retorno triste e comovente. Todos os Escoteiros tinham os olhos vermelhos e um silêncio geral na carroceria do caminhão. Eu voltei para casa chorando. O uivo de Ariranha me marcou muito. As lembranças ficaram gravadas para sempre. Chorei por vários dias. Nunca me perdoei por não trazê-lo comigo, mas meu pai disse que ele era da floresta, nunca iria se acostumar na cidade. Chamei o Romildo na semana seguinte e fomos até lá de bicicleta. Rodamos e rodamos e nem sinal de Ariranha. Nunca mais o vi, mas nunca mais o esqueci. Ariranha ficou marcado em nossa Patrulha Lobo. No nosso livro de Atas ele teve um lugar especial. Não sei se é fácil explicar como se ama um cão/lobo em poucos dias e nunca mais o esquece. Não sei mesmo. Até hoje me lembro de Ariranha com saudades. Histórias são histórias, tem umas que marcam, tem outras que ficam gravadas em nossa mente para sempre!

domingo, 1 de fevereiro de 2015

João Papudo que morava nas florestas verdes do Brasil.


Lendas escoteiras.
(Um repeteco gostoso de reler)
João Papudo que morava nas florestas verdes do Brasil.

            O aviso estava dado. Chefe João Soldado (era sargento, mas o apelido pegou) autorizou. Batista nosso intendente logo nos disse que não nos preocupássemos. O material estaria pronto em vinte e quatro horas. Platão o cozinheiro iria entregar a lista de mantimentos para cada um dia seguinte bem cedo. Tudo era dividido. Pedrinho o Monitor sorriu de orgulho da patrulha. Todos sabiam como e quando deviam fazer. – Sairemos na quinta pela manhã. Vamos aproveitar bem o feriado. A reunião de patrulha acontecia na casa do Mino Pastel o sub. monitor. Seriam quatro dias bem aproveitados. Destino? As Florestas Verdes do Brasil. Que nome eim? Mas foi Ditinho quem a batizou assim. Estivemos lá duas vezes. Na primeira vez ao chegarmos ao cume do morro do João Papudo ficamos abismados. A floresta era verde, um verde musgo lindo, no seu seio muitos Ipês das flores amarelas. – Ditinho, para ser o Brasil falta o branco e o azul, eu disse. Ele riu. Vado Escoteiro O céu meu amigo e as nuvens em sua volta.

         Ninguém nunca esqueceu João Papudo. Ele tinha no pescoço um papo enorme. Hoje chamam de Bócio que é devido ao aumento da glândula tireoide. Fácil de operar nos dias de hoje, mas naquela época não. Ficou nosso amigo pelo simples fato de o cumprimentarmos, tomar café com ele e comer sua “brevidade” uma das melhores que já comi. Ninguém gostava dele. Logo ele uma alma de Deus. Só por causa do papo no pescoço todos tinham medo e asco. Um absurdo. Na primeira vez que chegamos lá para acampar assustamos. Ele estava na porta com uma foice enorme. Ninguém se mexeu. – Um café? Ele disse. - Porque não? Respondeu Pedrinho. Daí para a amizade foi um pulo. Ele queria conhecer o grupo e a escoteirada. –Apareça amigo, será bem recebido. Nunca foi. Quando ele precisava fazer compras ou vender suas plantações só ia à cidade à noite, e enrolava no pescoço um cachecol para ninguém ver sua deformidade.

           Foi Motosserra, isto é o Lorenzo o escriba da patrulha quem deu a ideia de uma vez por mês fazermos uma campanha do quilo e levar para ele. Na primeira vez chorou e disse não. Ele não merecia. Não falamos nada. Deixamos lá e voltamos. Pedrinho colocou em votação qual o melhor local para acamparmos naquele feriado prolongado. Foi descartada a Lagoa da Lua Branca, a montanha do Gavião, o vale do Esplendor e as Campinas da flor vermelha. Eram ótimos locais, mas as Florestas verdes do Brasil ganhavam de longe de todas e iriamos saudar nosso amigo João Papudo. Dito e feito, seis da manhã café no papinho, pé no caminho. Sete e meia a bordo das nossas máquinas voadoras chegamos. Na porta ninguém. Estranhamos. João Papudo sempre estava lá nesta hora. A porta estava aberta e chamamos. Nada. Entramos, pois ficamos preocupados. João Papudo estava gemendo e suando na sua cama de palha. Seu corpo tremia. No chão vimos muita água e sujeira, sinal que ele estava ali a mais de dois dias.

          O que fazer? Sabíamos que nosso acampamento nas Florestas Verdes do Brasil foi para o brejo. João Papudo tinha prioridades. Nunca iriamos deixá-lo ali a mingua e sem ninguém. Tinhamos que levá-lo urgente para o Hospital Santa Inês, o único da cidade. Mais de quinze quilômetros. Patrulha boa não se aperta. Luiz Nantes o Porta Corrente, nosso Sinaleiro e socorrista deu a solução. Mãos a obra. Duas horas e estava pronto. Fizemos uma maca com o toldo da cozinha, cada ponta amarramos em uma bicicleta. Usamos quatro e pé na taboa. Antes das onze estávamos na porta do hospital. Não o deixaram entrar. Ninguém se arriscou a ir ver o que se tratava. Pedrinho correu a chamar o Chefe João Soldado. Estava na sede do batalhão e veio correndo. Ameaçou, xingou fez tudo e eles nem deram bola. Foi até a casa do Juiz Ponderado e nada. Chamou o Delegado Praxedes e nada. Uma enfermeira Dona Adelaide nos chamou e deu uns comprimidos. Quem sabe ajuda? Com nosso cantil fizemos João Papudo tomar.

          Os Escoteiros e seniores do grupo estavam chegando. Uma aglomeração se fez. – Vamos levá-lo para a porta da prefeitura. Se o prefeito não tomar providências ele vai ver com quem estão se metendo, disse o Sênior Jovialto, nove anos no grupo. Um mestre na ação no grupo. Aliás, tínhamos poucos amadores. O prefeito chamou a policia. Chefe João Soldado era policia. Nem deu bola. A patrulha Touro correu a sede e trouxe um enorme toldo da chefia. Armado com rapidez no jardim da prefeitura. Uma cama foi improvisada. João Papudo era tratado pelos Escoteiros na porta da prefeitura. Doutor Melão o prefeito foi lá reclamar. Pé de Pato um lobinho segunda estrela pegou na mão dele. – Doutor prefeito, venha ver como ele está. Afinal o senhor não tem coração? Ele deu meia volta e sumiu nas salas da prefeitura.  O povo aglomerava na praça em frente. Doutor Noel um medico antigo na cidade veio ver João Papudo. – Malditos disse – Um simples bócio faz dele um homem marcado? – Venham comigo a minha clinica.

               A história termina aqui. Doutor Noel tratou dele e conseguiu uma internação para operar na Santa Casa da Capital. Dois meses depois eu estava recebendo o meu Correia de Mateiro. Orgulhoso, já tinha o cordão dourado e o vermelho e branco. Esperando a Primeira Classe. Poucos conseguiam. Tinham de ralar para conseguir. Todo mundo olhou para o portão. Eis que ali estava João Papudo em carne e osso. Agora não tinha mais o papo. Orgulhoso levantava a cabeça como a mostrar – Nunca mais! Doutor Noel, vocês e Deus me deram a alegria de viver. João Bonito (mudamos o apelido dele) entrou na ferradura, foi saudado com uma enorme palma escoteira. Não teve jeito, chorou igual menino. Fez questão de dar um abraço em cada um. Abraço gostoso, sincero, amigo.


             Seis meses depois João Bonito fez a promessa. Nunca vi ninguém chorar assim. Vá lá, uma promessa é uma promessa. Nossa tropa ganhou um novo assistente. João Bonito era um novo homem. Trabalhava durante o dia na prefeitura (o prefeito com vergonha e não querendo perder as eleições o admitiu como auxiliar geral) e a noite estudava. Três anos depois terminou o curso Técnico em Contabilidade. João Papudo perdeu o papo, mas ganhou uma cidade. Hoje e feliz cortejando Dona Mocinha uma alegre e linda jovem do Bairro Tatu Bola. Ficou um Chefe Escoteiro todo pomposo. As Florestas Verdes do Brasil tiveram nossas presenças por muitos anos. A casa onde João Bonito morava foi jogada ao chão para uma nova estrada até Muzambinho. Histórias que se foram histórias de Escoteiros. E quantas mais por este Brasil imenso?

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Micoçar o Charreteiro e o Comissário Escoteiro Viajante. (uma história baseada em fatos reais)

  
Lendas Escoteiras.
Micoçar o Charreteiro e o Comissário Escoteiro Viajante.
(uma história baseada em fatos reais)

                 Poderia dizer que é uma história quase real. Duvidar de Micoçar, do Comissário Viajante seria desagradável pelos fatos acontecidos na época. Se querem saber eu nunca esqueci o Micoçar. Ele tinha uma charrete. Transportava pessoas. Naquela época eram chamadas de “freguês”. O termo cliente surgiu tempos depois. Se não me engano eram uns vinte charreteiros na cidade. Viviam disto. Quase não existia taxi na minha cidade. Só dois e um era um Fordeco azul desbotado. Os Charreteiros eram educados. Na estação da estrada de ferro formavam uma fila e ninguém atravessava o outro. Eu nos meus dezesseis anos conhecia todos eles. Micoçar era o mais conhecido por oferecer rosas brancas às moças que alugavam sua charrete. Andei muito em sua charrete.

                 Um dia ele apareceu na sede Escoteira. Ao seu lado um “freguês”, ou melhor, Chefe Escoteiro. Ficamos boquiabertos com a figura. Não era comum. Desceu uniformizado, garboso e se apresentou: - Sou o novo Comissário Escoteiro Viajante nesta região. Chame seu Chefe. Caramba! Nosso Chefe do Grupo era o Chefe João. Só ia a sede uma vez por mês. Sargento da policia militar. Gente boa, e meu segundo pai. Nossas reuniões não são como hoje. Sem aqueles programas de corre aqui corre ali. Tinhamos Bandeira, oração, e mais nada. Éramos duas patrulhas sêniores a Gavião e a Elefante. De vez em quando saia um jogo bolado ali na hora ou um repetido de um gostoso já feito. O restante era treinamento de técnicas Escoteiras ou sentar na praça em frente para contar patacas. Isto acontecia pouco pois na maioria das vezes estávamos navegando em alguma floresta, montanha ou explorando rios em um vale qualquer. Não sei se o que fazíamos era o certo, mas dos treze seniores só um tinha entrado como escoteiro os demais vieram dos lobinhos. Romildo Monitor pediu ao Chiquinho para levá-lo a casa do Chefe João.

                  À tarde daquele sábado fomos chamados a casa dele. Ele estava sério. - O Comissário quer fazer uma reunião para mostrar como se faz. Disse que o que viu vocês fazendo estava errado. Exigiu que eu estivesse presente. Se não fosse um Escoteiro educado eu teria mandado prendê-lo. Arrogante o moço. Eu não vou, mas vocês todos devem ir. A reunião ficou marcada para domingo pela manhã. Em frente à sede e atrás do Cine Pio XII. Havia um campinho de futebol onde nos reuníamos. Ele queria a tropa Escoteira, mas ela estava acampando na Caverna do Macaco próximo ao Rio Doce. No domingo lá estávamos. Ressabiados. Não sabíamos o que ele ia aprontar. Chegou como sempre com o Micoçar. Ele alugava a charrete pelo dia inteiro. Apresentou-se a nós – Sou Chefe Escoteiro do grupo “tal” no Rio de Janeiro. Como hoje viajo muito como representante comercial (conhecíamos como caixeiro viajante) fui nomeado Comissário Viajante para ensinar aos grupos da minha área como fazer escotismo e exigir o registro de cada um de vocês!

                 Assim ele começou a reunião. Sério e sizudo. Tudo nos padrões que hoje conhecemos. Eu mesmo dei muitas sessões em cursos falando sobre isto. Não estava errado. Mas aprontou uma correria que nos deixou perplexos. Queria a todo custo fazer uma competição entre nós. Éramos amigos. Nunca gostamos disto. Nenhuma Patrulha era mais que a outra. Até ai tudo bem. A missa acabou e um mundão de gente ficou ali nos olhando. Nesta hora ele resolveu cantar uma canção. Hoje muito apreciada e até adoro cantar. Mas naquela época? A “Piaba”. Sai, sai, sai oh piaba saia da lagoa. E quem entrava na roda dava uma umbigada e tinha que rebolar. O povo todo em volta dando gargalhadas. Nós todos vermelhos de vergonha. Na minha vez entrei rebolei um pouco e sem querer olhei para o Micoçar que ria a valer e gritava baixinho; - Telirio! Telirio! Para quem não sabe esse coitado (desculpe o termo) era o único Gay conhecido da cidade. Quer comprar uma briga? Chame o outro de Telirio. Desisti. Romildo também. O povo morrendo de rir. O chefão gritando: - voltem todos. Não dispensei ninguém!

                 Coitado. E quem obedeceu? Ficamos ali de braços cruzados morrendo de vergonha por ficar rebolando. O pior que hoje quando lembro penso comigo como eram os tempos passados. Hoje adoro cantar a Piaba e rebolar. Risos. Ele saiu com Micoçar e foi direto a casa do Chefe João. Micoçar olhou para trás rindo e falou baixinho para mim – Telirio! Oh! Vontade de esmurrar o Micoçar. Só sei que ele falou cobras e lagartos com o Chefe João. Ameaçou fechar o grupo. Ameaçou tanto que o Chefe João o pegou pela camisa, o arrastou até a Charrete de Micoçar e disse – Suma! Leve este lixo para o hotel. Se aparecer na minha frente de novo vou deixar você uma semana no xilindró! Dia seguinte o Chefe João nos contou toda a conversa. Disse que não éramos seniores. Sim um bando de indisciplinados (até certo ponto com razão). Exigiu que se fizesse um Conselho de Tropa e destituísse ambos os Monitores. Disse que enquanto não fizermos tudo isto o grupo nunca seria registrado.

                  Interessante. Nunca fomos registrados. Nosso grupo tinha mais de trinta anos de atividade e nunca fizemos registro. E quem precisava? “Belle Époque”, outros tempos. Uma Segunda Classe suada. Primeira Classe? Não era para qualquer um. Um orgulho do caqui curto e chapelão. Orientar com os ventos, com a lua, com as estrelas e as constelações. Pescar para comer na hora, armadilhas de pássaros para um bom assado. Comer mandioca do mato, aipim. Uma sopa de capim gordura. Bananas verdes fritas na brasa. Bundinhas de Tanajura na panela estouravam como pipocas. Risos. Nunca desistíamos do escotismo. Tinha pena dos novatos. Quase não havia vaga. Trinta e seis lobinhos onde só podia ficar vinte e quatro. Cinco Patrulha de oito onde deveriam ser quatro. Sênior? Este sim. Não era para qualquer um. Duas Patrulhas só. Cidade pequena. Nesta idade a maioria dos rapazes estouravam a idade na tropa e tinham de trabalhar. Serem aprendizes. Ainda não existia a Semana Inglesa. (parar aos sábados ao meio dia).

                   Outro escotismo? Pode ser. Escotismo do campo. Sem chefes. Só os monitores indo e vindo. Viver na natureza. Olhando as flores desabrocharem. Colocando os pés na água fria e cantar baixinho – Ah! Que delicia! Olhar o sol caminhando para o oeste e dizer – É para lá que vamos! Hoje não dá mais. GPS, ele lhe mostra tudo. O Chefe ali com você. Alguns fazendo tudo. Você não precisa pensar. Nem calcular mais se precisa. O Google lhe dá as respostas de tudo. Tabuada? Ficou na história. Um celular ou um smartphones para quando der uma parada na jornada entrar no Facebook. Ver os e-mails. Isto sim é moderno. Olhar os pássaros? Os animais? Descobrir novos caminhos? Quem sabe olhar a abóboda celeste e descobrir uma estrela desconhecida? Ver um cometa riscando os céus e saber de qual constelação estava vindo ou indo? Nada disto. Tudo mudou e para melhor. Nesta época moderna não cabe mais um Romildo, um Jessé, um Taozinho um Israel ou mesmo um Micoçar ou eu mesmo. Belos taxis hoje. Uma charrete só como peça de museu.

            E se quiserem saber eu e Micoçar anos depois nos tornamos grandes amigos. O tal Comissário alugou sua charrete por dois dias e não pagou. Foi embora e deu o cano. As patrulhas fizeram uma “vaquinha” e pagaram em suaves prestações. Sua charrete me levou a belos lugares por vales e rios desconhecidos. Charretes! Também foram engolidas pela modernidade. Pelos novos tempos!

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Uma cidade chamada Felicidade.


Lendas escoteiras.
Uma cidade chamada Felicidade.

                  O Barão Franz Sebastian Denutz Nasceu em Regensburg no leste da Baviera. Seus pais quando conheceram Hitler se assustaram. Sua maneira de agir ao assumir o poder o assustou. Sentiu que tudo podia dar errado para sua família. O Barão estava com vinte e seis anos e sofria uma atrofia na perna o que doía horrivelmente. Médicos consultados não resolveram. Disseram ser uma doença incurável. Católicos e judeus tinham receio que quando Hitler mostrasse a que veio eles iriam perder tudo. Afinal ele e sua família eram judeus. Ele doente e Hitler falando em raça pura muita coisa ia mudar. Chamou toda a sua família para uma reunião. Explicou tudo. Falou sobre o Brasil. Poderiam comprar umas terras, plantar cana de açúcar e viver a paz que aquele pais oferecia. Corria o ano de 1937. Em agosto daquele ano embarcaram para o Brasil a bordo do navio Chalupas.

                   Chegaram a Santa Rita do Passa Quatro em uma tarde de setembro. O Barão Franz comprou no Rio de Janeiro um Ford 29, muito querido na época. O povo todo na rua para conhecer os novos visitantes. No dia seguinte foram conhecer as terras  Foram 25.000 hectares de terra adquiridos do Coronel Laviola. O Barão era incansável. Construiu um império. Não sabia como explicar, mas sua perna não doía mais. Ainda estropiada, mas sem dor. Em dez anos construiu uma grande Usina de Açúcar, plantou 800.000 pés de café e fundou uma cidade. Isto mesmo. “Felicidade” foi seu nome de batismo. Nos estatutos pouca coisa – 1ª’ – Nesta cidade todos serão felizes – 2ª’ Todos que forem possuídos possuidores de necessidades especiais terão aqui um tratamento especial. Eram quatro ruas, calçadas com pedras de granito em formato de mosaico. As casas não tinham muros. Eram separadas por canteiros de flores. Naquela região o Barão Franz fundou o primeiro Grupo Escoteiro. O chamou de Grupo Escoteiro Estrelas Cintilantes. Disse que todos os participantes teriam direito a uma estrela e ser feliz. Todos os meninos e meninas portadores de necessidades especiais seriam bem vindos.

                   Dois anos mais tarde mandou construir em uma área arborizada diversos chalés que eram destinados a famílias com filhos portadores de necessidades especiais. Contratou na Europa diversos professores, médicos, pedagogos, para que desse toda a assistência que fossem necessária aos jovens que ali agora residiam. Foi nesta época que nasceu Tim Tim Soneca. Ficou famoso em toda a região. Mudou toda a história Escoteiro da região. O Barão tinha por ele um amor especial. Não o demonstrava, mas sabia que em pouco tempo iria ir desta para melhor ou pior, só Deus sabia. A família de Tim Tim Soneca morava em Santa  Rita do passa Quatro. Quando ele nasceu foi uma surpresa. A parteira Dona Matilde nunca acreditou no que vira. Ele nasceu dormindo. Todos acharam que estava morto. Mas seu corpinho respirava. Não havia médicos na época. Só em Ribeirão Preto. Sem posses deixaram de lado.

                    Vinte dias depois Tim Tim Soneca acordou. Deu um belo de um sorriso e disse – Bom dia! Que susto! Vinte dias de nascido e falando? Muitos que estavam na morada da Família Souza saíram correndo. A cidade toda veio para ver. Tim Tim Soneca estava conversando naturalmente com todos na casa. Disse que precisava dormir treze horas por dia. Ninguém devia acordá-lo. Dito e feito. Às seis da tarde ele dormiu e só acordou dia seguinte às sete da manhã. Quando o Barão Franz soube de Tim Tim Soneca ofereceu uma bela casa bem no centro de Felicidade. Não deu outra. Lá foram eles para uma nova história em suas vidas. O Barão queria Tim Tim Soneca ao lado dele. Queria educá-lo. Uma grande amizade surgiu ali. Aos sete anos Tim Tim Soneca entrou para os lobinhos, aos onze foi para os escoteiros. Na sede ele tinha um quarto. Quando dava a hora ele ia para lá e dormia suas treze horas. Nos acampamentos ele tinha sua barraca e os chefes sabiam que na hora ele tinha licença para ir dormir. Assim ordenou o Barão e assim era feito.

 

                     Tim Tim Soneca passou para os sêniores e depois os pioneiros. Em 1951 com vinte anos assumiu a direção do grupo. Sempre dormindo suas treze horas. Tudo aconteceu quando a cidade foi invadida por um bando de bandoleiros que há tempos saqueava cidades na região. O Barão estava velho. Não tinha mais aquela força do passado. A cidade foi subjugada pelos bandidos. Quando eles dominaram todos Tim Tim Soneca dormia. O Chefe do bando um tal de Periquito Dedo Duro achou estranho aquele marmanjo dormir assim. Tentou acordá-lo e não conseguia. Mandou seus capangas o jogarem no Rio  Mogiguaçu. Tim Tim Soneca levou um baque. Acordou afundando na água turva do rio. Subiu a tona e viu uma turba de homens atirando nele. Nadou para a outra margem. Sentiu seu corpo encorpar. Sua pele ficou vermelha. Correu rio abaixo até a ponte da Laguna. Voltou a Felicidade. Uma luta sem trégua começou entre Tim Tim Soneca e o bando de Periquito Dedo Duro. A cada bandido um soco bem dado e ele caia para não levantar nunca mais. Periquito Dedo Duro soube que Tim Tim Soneca estava liquidando seu bando. – Como pode um homem como ele vencer mais de oitenta bandidos?

                     O Grupo Escoteiro foi chamado pelo Barão. Meninos e meninas em cadeiras de rodas, muletas, mancando, uns pulando se reuniram na praça. Declararam guerra para os bandidos. Tim Tim Soneca já tinha mandado por terra mais de quarenta bandidos. Infelizmente o sono chegou de novo. Bem na Praça Tim Tim Soneca deitou na rua e dormiu. Periquito Dedo Duro sorriu. Correu até onde estava Tim Tim Soneca. Sabia que se desse nele um tiro toda a cidade iria ficar sem reação. Quando ele chegou em frente à Tim Tim Soneca que deitado na rua dormia, apontou a arma e ao puxar o gatilho recebeu uma paulada na cabeça. Toda a cidade saiu às ruas e armados com faca, enxadas, facões e paus atacaram a bandidada que saiu correndo de Felicidade. No dia seguinte um batalhão de soldados de Ribeirão Preto chegou à cidade. Prenderam todo o bando de Periquito Dedo Duro.

                   Nunca em tempo algum um Grupo Escoteiro formado só por excepcionais mostraram tanta coragem. O próprio Barão trouxe do Rio de Janeiro toda a cúpula do escotismo brasileiro. Foram medalhas de valor para todos. Tim Tim Soneca foi considerado o herói Escoteiro da cidade. Felicidade seguiu seu caminho. Mostrou ao mundo que quando se quer se faz. Só que nem todo mundo tem em suas fileiras um Tim Tim Soneca que quando acordado virou um herói, um forte  e alguém que sabe fazer o que deve ser feito. Tim Tim Soneca até hoje tira sua soneca de treze horas. Agora investido no cargo do Barão que se aposentou, criou um corpo de oito homens, que carrega junto a ele dois colchonetes, pois se der sono, Tim Tim Soneca dorme onde estiver.

                   Quem me contou esta história jurou ser verdade. Antonio Lorota era meu amigo e escoteiro. Eu sempre acreditei nele. (risos). Eu mesmo quando fui a Santa Rita do Passa Quatro procurei a tal cidade Felicidade. Ninguém sabia ninguém conhecia. Verdade ou não, um dia saiu no jornal o Estado de Minas quase uma página inteira homenageando o falecimento de Tim Tim Soneca. De onde era o jornal só dizia que era a  cidade de Felicidade. Risos. Nunca ninguém soube onde ficava, mas que alguém pagou ao jornal pagou. Quem foi o jornal não disse. Para mim que sou um contador de histórias pode ser verdade. Que na eternidade Tim Tim Soneca possa dormir em paz!        

Apenas um poema.


Apenas um poema.

Hoje me lembrei deste pequeno poema que escrevi há muitos anos. Comecei a escrever um pequeno artigo para publicar hoje à noite, quando vou dormir, e me sentindo meio nostálgico pensei nele. Mas ele o poema não é triste falei pra mim mesmo. Tem razão. Não é, mas me faz lembrar que o escotismo tem tudo para transformar a juventude em homens e mulheres dignos da nossa pátria. Querem ler o poema? Fiquem a vontade.

Quem são eles?

Ei você, por favor, me diga, quem são eles?
Estes sorrisos cantorias são mesmo deles?
Aonde vão com essa tralha no costado,
Partem em bandos nem parecem assustados
Dizem que vão para os campos e montes,
Cheios de esperanças a beber água na fonte?

Sei que são meninos cheios de esperanças
A correr com bandeiras nas andanças,
No regato águas límpidas e formosas,
Contam casos contam prosas.
No lusco fusco do sol da tarde
Armam barracas sem fazer alarde.

Usam mochilas, distintivos e chapéu.
Usam lenço amarrados ao arganéu.
Na ravina eles gostam das flores
Orgulham da promessa, dos seus valores.
Armam barracas, arvoram bandeiras.
A moeda da boa ação está na algibeira.

Ei jovem, me diga quem são?
Vejo vocês fazendo boa ação,
Moço, sou menino, sou faceiro,
Olhe bem, sou Escoteiro!
Amo a Deus, amo meus amigos
Amo a pátria e da lei os seus artigos.

Pensei que eram simples meninos
Enganei-me, eram divinos.
Batutas, energia que consomem
Sem duvida em breve serão homens.
Nunca seriam esquecidos forasteiros
Pois ali estavam verdadeiros Escoteiros.

Se um dia perguntarem Aonde vão
Diga com calma com amor no coração.
Eles? Meu amigo, são alegres faceiros
São meninos, eles são Escoteiros.
Vivem de sonhos correndo neste céu cor de anil,
São sinceros, são amigos, são Escoteiros do Brasil!

Chefe Osvaldo

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Como é difícil dizer adeus!


Hora de dormir, descansar... e sonhar!
Como é difícil dizer adeus!

                      A tarde chegou e já partiu. A noite agora é minha companheira inseparável. Aqui sentado em minha varanda me lembrei dele. Porque não sei. Chamava-se  Antonio Trevisan, mas o apelido dele era Bocalarga. Nunca soube o porquê do apelido, pois ele não tinha uma boca grande. Quem pôs o apelido nele saiu do grupo e foi embora da cidade. Era uma espécie de norma ter um apelido. Chamavam-me de Vado, Pescoço ou Valente. Valente eu nunca fui, pois o medo sempre foi meu companheiro por toda a minha vida. Ele sempre chegava à sede sorrindo. Que belo sorriso. Era olhar para ele e a gente se sentia bem e logo estava sorrindo como ele. Um bálsamo para a tropa. Nos fogos de conselho bastava ele olhar para todos e sorrir e logo a tropa estava gargalhando. Ninguém nunca o viu triste. Seu rosto não demonstrava. Se precisasse de alguém que fazia questão do oitavo artigo da lei, Bocalarga seria ele. Um dia ele me contou que seu rosto era assim desde que nasceu, mas ele chorava e sofria muito com isto. Não dava para mudar sua expressão.

                           Lembro que ele um dia me procurou sorrindo. Mas quando falou seus olhos encheram-se de lagrimas. - Monitor, ele dizia. Meu pai foi preso. Dizem que ele era assassino, matava por dinheiro. Eu nunca soube disto Monitor. O que eu vou fazer de minha vida? Seus olhos vermelhos e seu sorriso era um contraste por aquela dor que ele sentia. O pai dele foi condenado a dezenove anos de prisão. Bocalarga continuou no Grupo Escoteiro. Não havia motivo para afastá-lo. Éramos um grupo de amigos e irmãos. O que aconteciam de ruim com os parentes para nós não tinha valor. O lema de um por todos e todos por um para nós era questão de honra. Lembro quando fomos acampar na Pedra do Mosquito. Bocalarga era da patrulha touro e eu da Raposa. Como era uma subida íngreme sempre amarrávamos um cabo em uma corda comprida para segurar quem escorregasse e não caísse no despenhadeiro. Bocalarga não amarrou bem o cabo. Escorregou e caiu de uma altura de mais de quarenta metros. Não foi em queda livre. Foi batendo o corpo nos arbusto até que se estatelou no fundo.

                   Todos correram para ajudar. A corda serviu para chegar até ele. Ele gemia de dor, mas sua face sorria. Que coisa gente. Que coisa! Fizemos um Balso pelo Seio e ele foi içado. Mais dores ele sentiu e sorria. Levado ao hospital teve fratura exposta no joelho e em uma costela. Época que não sabíamos ainda como carregar feridos nestes casos. Eu mesmo o levei nas costas por um quilometro até a Fazenda do seu Damião. Usou muleta por muitos anos. Sempre sorrindo. Sua mãe era costureira e resolveu ir embora para Monte Azul. Tinha lá uma tia e duas sobrinhas. Boca Larga não queria ir, mas ficar com quem? Na estação esperando o trem rápido da manhã, eu, Bocalarga e uma dezena de Escoteiros, calados não sabíamos o que dizer. Uma tristeza geral e Bocalarga sorrindo. Penso que ele dizia para si – Maldito sorriso. Meu coração sangra, não quero ir e não posso ficar aqui! Todos chorando e eu a sorrir?

                     O trem chegou de mansinho. Na plataforma fizemos um circulo. Cantamos para ele a Canção da Despedida. Todos chorando e Bocalarga sorrindo. Queríamos dizer que não era mais que um até logo. Um dia certamente tornaríamos a nos ver. O trem partiu. Ele na janela sorrindo. Vi em seus olhos as lagrimas caírem. Ficamos parados na plataforma até que o trem sumiu na curva do Boi Marinho. Voltamos tristes para casa. É muito difícil dizer adeus a quem está sorrindo, mas que sabemos estar chorando. Oito anos depois o vi em Caratinga. Falamos por pouco tempo. Ele estava com alguns cavaleiros e pensei que trabalhava de vaqueiro em alguma fazenda próxima. Ele balançou a mão dizendo adeus com o sorriso de sempre, eu fiz o mesmo. Nunca mais o vi, mas guardei dentro de mim o seu sorriso de fel. Um sorriso que não era dele. Ninguém nunca soube que ele chorava ninguém. Quem ia acreditar? É, é mesmo difícil dizer adeus a quem está sofrendo.

                      Enquanto estava a escrever estas pequenas memórias me lembrei de uma frase: -... Se meus olhos mostrassem a minha alma, todos, ao me verem sorrir, chorariam comigo... ''


Boa noite meus amigos e minhas amigas. Hora de dormir e pensar que a terça será especial para todos nós...

sábado, 24 de janeiro de 2015

O fantástico vôo do pára-quedas amarelo


Lendas Escoteiras.
O fantástico vôo do pára-quedas amarelo

“Se um homem dispuser de uma peça de pano impermeabilizado, tendo seus poros bem tapados com massa de amido e que tenha dez braças de lado, pode atirar-se de qualquer altura, sem danos para si”. A frase é de Leonardo da Vinci, considerado um dos primeiros projetistas de pára-quedas, invento que possibilitou ao homem realizar o eterno desejo de voar - mesmo que por alguns segundos.

                   Quando somos crianças temos sonhos, desejos e não nos preocupamos se será alcançado ou não. Basta sonhar. Criamos em nossa mente tudo aquilo que gostaríamos de realizar. Nada há ver com a história, mas quando minha mente me leva ao passado de criança, lembro-me da personagem de Dibs: em busca de si mesmo. (autoria de Virginia M. Axline) È a história de uma criança que lutou pra conquistar sua identidade através do processo psicoterápico. O Livro oferece uma visão daquilo que chama busca de si mesmo. No final Dibs consegue emergir como uma pessoa brilhante e talentosa. Um verdadeiro líder.

                  Eu estava com treze anos. Pertencia a patrulha da Raposa. Éramos sete. Uma felicidade sem par. Sem televisão, sem internet, ainda sem pensar nas namoradas, pois a patrulha escoteira era nossas vidas. Reuníamos praticamente todos os dias. Amigos dentro e fora do escotismo. Cuidávamos com cuidado de nossa intendência. Pobre claro. Pouca coisa – um lampião a querosene, panelas de alumínio doadas por nossas mães, uma machadinha um facão tudo conquistado a duras penas. Duas barracas de duas lonas era nosso céu nos acampamentos. Daquelas usadas pelo exército na década de trinta.

               Estavam velhas e por mais que cuidássemos elas estavam se diluindo. Não tínhamos mais o que fazer. Tudo que nos disseram para fazer fizemos. Estava difícil acampar. Lonas extras? Nem pensar. Um preço que não tínhamos como pagar. Um dia achei uma revista na casa de uma tia, e vi um lindo pára-quedas. Encantei-me com ele. Mas como ter um para nós? Seria uma grande barraca. Daria para armarmos facilmente e caberia todo mundo.

            Sabia que era um sonho. Cidade pequena, só um cinema, uma igreja, uma praça com um coreto, alguns ricos e a maioria pobres. Em nossos acampamentos de fins de semana perdíamos muito tempo montando abrigos naturais. Tínhamos uma técnica própria, mas mesmo assim perdíamos tempo na construção. Um dia, acho que foi em um domingo de sol, vimos um avião sobrevoando a cidade. Uma surpresa. Isto nunca acontecia. Só ouvíamos os roncos de um que passava todas as quartas feiras pela manhã.

           Em dado momento, vimos alguém voando fora do avião (um teco-teco). Um pára-quedas se abriu. O povo da cidade parou. Embasbacados todos olhavam para o céu. Que beleza! Que espetáculo! O homem do céu caiu bem na praça e um bêbado que todos chamavam de Sebastião Barrigada ajoelhou-se no pé do pára-quedista e gritou bem alto – Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! Todos caíram na risada.

              Eu não tirava os olhos do para queda amarelo. Ele enrolou tudo com carinho e explicou que sua irmã iria se casar e ele não queria chegar atrasado. Por isto o salto no para-queda. Ele não iria decepcionar Mercedes. Conhecia-a. Irmã de Laudivino nosso sub. Monitor. Grande. Fui correndo a casa dele. Chamei os demais da patrulha. Conseguimos o para quedas. Arquimedes o irmão de Laudivino nos presenteou. Um presente dos céus!

             Levamos o pára-quedas para a sede. Todos os escoteiros do Grupo se juntaram a nós. Ninguém tirava os olhos dele. Chefe Jessé chegou mais tarde. Sorriu. Grande chefe! “Fazer fazendo” era seu lema. Abrimos o pára-quedas para conhecer melhor. Muitas cordinhas de nylon que não conhecíamos. Uma época de cordas de cânhamo. Aquelas de fibras nos faziam arregalar os olhos. Foi aberto o para quedas. Nossa sede ficava na entrada da cidade. Na estrada do Alvarenga. Próximo ao rio das Flores.

              Um pé de vento apareceu de uma hora para outra. Levantou o pára-quedas. Todos correram. Eu não. Agarrei-me as cordas. Amarrei-me em uma delas. Era meu sonho! Não iria perdê-lo nunca! Fui levantado no ar. O pára-quedas com a força do vento se elevou a vários metros de altura. Virei um menino voador. Um medo incrível, mas não larguei o pára-quedas. Fui elevado a mais de oitenta metros de altura. Não vi. Meus olhos se mantinham fechados. Pedia a Deus que não deixasse perder o pára-quedas.

            A cidade inteira viu o menino escoteiro agarrado ao pára-quedas. Não entenderam nada. Uma multidão seguiu o pé de vento e o pára-quedas. Ele desceu suavemente na baixada do cristão. Graças a Deus! O local não tinha árvores e era um descampado onde acampamos várias vezes. Não tive um arranhão. Todos bateram palmas. Abri os olhos e vi uma multidão em minha volta. Sebastião Barrigada estava lá – Louvado seja o menino filho de Deus! Disse.

             O pára-quedas deu uma linda barraca. Durou anos. Mesmo depois que fui para os seniores e finalmente os pioneiros, lá estava os raposas orgulhosos de sua barraca de pára-quedas. A única nas redondezas. Ninguém tinha. Só ela. A Raposa que nunca mais esqueci. Não sei o que aconteceu depois. Cresci, mudei de cidade, participei de outros grupos, mas acreditem, nunca mais esqueci o fantástico pára-quedas amarelo. Um sonho que se realizou!

Um dia a maioria de nós irá se separar. Sentiremos saudades de todas as conversas jogadas fora, as descobertas que fizemos dos sonhos que tivemos dos tantos risos e momentos que compartilhamos...


Boa noite meus amigos, que o domingo seja fantástico para todos vocês!