No mundo dos sonhos com as fábulas escoteiras

No mundo dos sonhos com as fábulas escoteiras
A aventura está apenas começando

sábado, 20 de setembro de 2014

O mistério da morte do Delegado Juvêncio.


Lendas Escoteiras.
O mistério da morte do Delegado Juvêncio.

           Hubert foi chamado a Secretaria de Segurança Pública na capital. Não foi muito satisfeito, pois tinha um acampamento programado com sua Tropa Escoteira. Seria o primeiro com a participação de oito jovens de sexo feminino. A tropa sempre teve três patrulhas. Decisão de Corte de Honra. Agora viria a quarta, mas as jovens seriam diluídas nas demais patrulhas. Quatro meses se passaram quando foram abertas as vagas. Ele não queria ficar só na tropa como chefe. Tentou sua filha Luciana que fora bandeirante, mas ela não quis. Maria Elizabeth mãe do Escoteiro Tadeu aceitou. Não entendia nada, mas tinha uma grande vontade em aprender. Hubert trabalhou por muitos anos como investigador no 25º Distrito. Era considerado um dos melhores, mas idade chegou e achou melhor se aposentar. Não estava Velho, pois tinha apenas 54 anos e nem iria parar. Um escritório de investigações particulares lhe daria o que fazer no dia a dia. Pelo menos agora ele tinha tempo para se dedicar a formação de jovens através do escotismo, o que ele sempre desejou.

          Doutor Morales o recebeu como sempre. Um abraço forte e um aperto de mão mais forte ainda. Com a mão esquerda é claro. Ambos cresceram na Patrulha Touro e até os seniores viviam juntos como dois irmãos. Da mesma idade ele e o Doutor Morales ambos escolheram o mesmo caminho profissionalmente. Hubert poderia ter ido mais longe, mas não era bom politico ao contrário de Morales. Ambos eram bem considerados na policia investigativa e Hubert era famoso pelos casos escabrosos e misteriosos que resolveu. Sempre que um nebuloso aparecia e Morales era pressionado pelo governador ele apelava a Hubert e este sempre se saia bem. Hubert lembrava que quando seniores quase foram mortos por quadrilheiros que faziam contrabando de droga. Em uma excursão a Praia do Sul eles viram os barcos descarregando e a noite roubaram um deles para levar até Capitania. Seria uma apreensão enorme, mas a bandidada pegou-os na boca da botija quando davam as primeiras remadas. Foram amarrados e conseguiram se livrar das cordas. Duas horas depois a policia cercava o contrabandistas.

         Não ficaram como heróis. O Delegado gritou com os dois o perigo que correram. – Vocês poderiam estar mortos uma hora desta – ele disse. O Conselho da Tropa Sênior se deliciou. Afinal eles eram metidos a serem os melhores. Mas não ficou só nesta aventura, muitas outras aconteceram. Daí para a Academia de Policia foi um pulo. Ambos nunca abandonaram o escotismo. Sempre iam quando podiam ao grupo amigo mais proximo. Infelizmente não dava para assumir uma chefia e isto era o sonho de Hubert. Agora achando que estava em paz lá ia ele de novo atender ao pedido de um amigo e irmão Escoteiro. Ele sabia que não havia como fugir. Essa é a divisória que nos separa do mistério das coisas que chamamos vida. Não vamos entrar em detalhes de tudo que o Morales lhe confiou. Partiu no mesmo dia. Um carro da Segurança Pública com motorista o levou até a cidade de Ouro Fino. Chegaram à noitinha de terça feira. Na delegacia não tinha ninguém. Disseram que fechava as cinco, agora só no outro dia.

             Hubert não queria perder tempo. Procurou o barbeiro no centro da cidade, pois sabia que lá teria as informações que precisava. O barbeiro é o homem sempre bem informado. As fofocas e as verdades tinham ali o seu casulo predileto. Soube de pouca coisa. O Delegado Juvêncio fora enforcado dentro da delegacia. Ninguém viu e ninguém sabia o porquê. Quando ia saindo da barbearia viu dois Escoteiros seniores de uniforme indo para a sede. Lembrou-se de si mesmo e do Morales. Claro que os parou e se apresentou como Escoteiro. Eles riram e o convidaram para a reunião dos seniores que seria feita naquela noite. Turma alegre e de bem com a vida. Sempre sorrindo. Não eram muitos. Naquela noite eram oito, mas quatro tinham faltado. Devia ser por causa do trabalho. Era muito comum. Eles se deliciaram com as historias de Hubert, mais ainda quando souberam que ele era um detetive aposentado.

                 - O que o trouxe aqui Chefe? Perguntou Heraldo um sênior sempre sorridente e que parecia querer saber de tudo. – Hubert abriu o jogo. Não queria ter vindo, mas seu amigo praticamente exigiu sua vinda. Contou suas aventuras como sênior, o que fizeram e por ambos se dedicaram a ser policiais. Os seniores prestavam a máxima atenção no que ele contava. – Quando ele explicou seu objetivo em descobrir o que ouve com o delegado Juvêncio, se ele se enforcou ou foi enforcado, cada um queria dizer o que pensava. Ficou lá na sede com eles até a meia noite. Heraldo e Zé Antonio disse que sabiam o que aconteceu. – Fácil Chefe. Se o senhor apertar Daninha ela conta tudo. – Quem é Daninha? – Chefe Daninha é mulher do Zé Eustáquio. Ele caladão sempre desconfiou da mulher. É forte que nem um touro. – Não estou entendo amigos, quer dizer que foi ele quem matou o Delegado? – Claro que sim Chefe, ela com medo de ser morta por ele disse que o delegado havia pressionado para ela ser dele.

                   - Mas como eles entraram na delegacia? Afinal a porta e as janelas estavam trancadas! – Chefe, ela não contou, mas era amante dele. Tinha uma copia da chave. Ela entrou sozinha e depois o Zé Eustáquio entrou atrás. Levou um pozinho para colocar na bebida do Delegado, ele desmaiou e aí foi fácil pendurar ele em uma viga e enforcá-lo. – E o bilhete que ele dizia que queria morrer? – Chefe! – Daninha era escrivã da policia. Tinha a assinatura do delegado e vários relatórios. Não foi difícil ela treinar a sua letra. – Bah! E como vocês sabem de tudo isto? – Ora, ora Chefe. Afinal somos seniores. O senhor não acha que nesta cidade nada acontece à gente não iria investigar? A gente tinha foto dos dois Chefe. Ninguém nos perguntou e nem a gente iria dizer nada. Afinal sabemos que o Zé Eustáquio era o principal distribuidor de drogas na região!


                 - Cacilda, pensou Hubert. Nem eu como sênior sabia tantas coisas. O resto foi simples. Seis policiais civis chegaram à cidade, prenderam Zé Eustáquio e Daninha que confessaram o crime. – E aí Chefe, perguntou Nivaldo o Monitor da Patrulha Monte Sião – E a cidade o que pensou de tudo? – Hubert sorriu, pois havia chegado a tempo foi acampar com seus seniores e agora na Conversa ao pé do fogo contava tudo o que viu e sentiu. – Pois é Nivaldo, só agradeci aos seniores de lá. Afinal não é nossa obrigação ficar sempre alerta? Se somos escoteiros temos que estar de olhos e ouvidos abertos! – Chefe isto é para lobinho!  - Melhor ainda Nivaldo, ainda bem que o lobinho aprendeu assim. E eles ficaram até altas horas da noite, conversando, contando causos, cantando e comendo gostosas bananas assadas na fogueira até que um lobo uivou na montanha, dizendo que era hora de dormir!

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

O sequestro da Lobinha Aninha Pata Tenra.


Lendas escoteiras.
O sequestro da Lobinha Aninha Pata Tenra.

                  Falar de Aninha era sempre motivo de diversão. Oito anos, um ano e meio na Alcatéia, com seu apelido de Pata Tenra era uma menina alegre espevitada, brincalhona e sempre animada. Em qualquer roda de lobinhos escoteiros ou chefes ela adorava conversar com todos, sempre com um sorriso nos lábios e como gostava de contar piadas. Seu repertório era formidável. Quase nunca repetia uma piada. Onde ela conseguia decorar tantas ninguém sabia. Diziam e sua mãe confirmava que ela mesma escrevia. Ficava em seu quarto até altas horas da noite escrevendo uma para o dia seguinte. Na escola uma rodinha formava em volta dela no recreio. Só para ouvir suas piadas e dar gargalhadas. No Grupo Escoteiro todos faziam o mesmo. Quando ela faltava às reuniões e todos sabiam que era por motivo de força maior o comentário era o mesmo – Aninha não veio? Uma falta grande ela fazia.

                  Sua matilha tinha verdadeira veneração por ela. Os amarelos sabiam que ela animava todas as atividades. Disse para todos que já tinha lido do começo ao fim o Livro da Jângal. Contava histórias da Alcatéia de Sheone e sempre com uma pitada divertida. Sua mãe e seu pai sempre a alertaram para ser mais comedida principalmente com estranhos. E um dia o pior aconteceu. Aninha Pata Tenra saiu cedo de casa naquele domingo dizendo aos pais que ia ao catecismo. A igreja era perto. Sempre deixaram. Saiu as nove e as doze não tinha voltado. Sua mãe ficou preocupada. Quando deu uma hora foi atrás de Aninha. Na igreja disseram que ela tinha saído às dez e meia. Onde ela teria ido? Da igreja foi à casa de uma das melhores amiga dela. Nada. Nanda disse que não tinha visto ela no domingo. De casa em casa e ninguém sabia noticias de Aninha Pata Tenra. A cidade era pequena. Todos conheciam Aninha.

                  O delegado colocou todos os soldados a vasculharem a cidade atrás dela. Centenas de habitantes percorriam aqui e ali e até fora da cidade a sua procura. À tarde chegando e o desespero tomava conta da mãe e de muitas amigas dela na Alcatéia. A noite chegou. Um choro geral. Onde foi parar Aninha? Nunca souberam de algum “tarado” na cidade e Aninha magrinha, sem nenhuma beleza que pudesse chamar atenção poderia ter sido sequestrada? Dinheiro? Sua família não tinha. Eram humildes e lutavam pela comida do dia a dia. Alguém disse que um automóvel azul cruzou a cidade naquela manhã. – Para onde foi? Perguntou o delegado. Para a fazenda do Chico Espinhaço. Lá foi o delegado com mais de trinta automóveis atrás o seguindo.

                   Na fazenda viram o carro azul. O delegado entrou na sede e chamou o Chico. Ele saiu à porta com um estranho. O delegado o inquiriu sobre Aninha. – Nunca ouvi falar ele disse. A turba que estava próxima correu e o pegou de jeito. Se o delegado não desse uns tiros para o ar eles o teriam linchado. Dois soldados o levaram para Passo Alto uma cidade próxima. Ele não poderia ficar em Rio da Prata. A cadeia não oferecia condições. Reviraram a fazenda do Chico Espinhaço. Ele ficou revoltado. Mais ainda porque gostava muito de Aninha. Afinal era diretor no Grupo Escoteiro e nunca tentaria fazer mal a ela.

                 Pela manhã ninguém tinha dormido. A procura não terminou e nem parou. A cidade em peso nas ruas. Uma revolta grande. Mandinho era Monitor dos Gaviões. Chamou a Patrulha para procurar. Um cachorro latia sem parar próximo ao Riacho do Lambari. Correram até lá e viram Aninha em cima de uma mangueira enorme. Ela chorava. Tiritava de frio. Ajudaram-na a descer. – O que ouve? Perguntou Mandinho. Ela chorando disse que foi pegar umas flores silvestres fora da cidade e deu de cara com uma onça pintada. Correu e subiu na árvore. A onça ficou quase a noite toda olhando para ela e deitada no tronco da árvore. Não dormiu. Quando o dia amanheceu viu que a onça tinha partido. Não sabia descer. Ficou com medo de cair e quando resolveu pular mesmo se machucando viu o cão latindo e vocês apareceram.


                 A cidade inteira vibrou quando viu Aninha viva. O padre rezava missa por ela e quando soube agradeceu a Deus. Seus pais choravam de alegria. No sábado na reunião do Grupo Escoteiro todos queriam ouvir a sua história. Aninha como sempre animada e esperta contava aumentando tudo. Já não era uma onça, mas duas com seis filhotinhos! Dizem que “quem conta um conto aumento um ponto”. Serviu de lição para Aninha e para todos os lobinhos e escoteiros. Nunca sair sozinho. Sempre em duplas ou mais gente, e dizer sempre aonde vão. Aninha aprendeu. Nunca mais andava sozinha. O sequestro ficou na memória da cidade. Seus habitantes contavam tanto que os viajantes acreditavam. E o Senhor que foi preso esqueceram-se dele. Ficou no xilindró por quatro meses. Coitado. Dizem que chorava a mais não poder. Brasil, oh meu Brasil brasileiro. Mas quem sabe serviu também de lição para o delegado? Risos!

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

O último toque de silêncio!


Lendas Escoteiras.
O último toque de silêncio!

           Tony Blanco chorava copiosamente a minha frente ali naquele bar em uma travessa da Avenida São João. Não me lembrava do nome da travessa, mas ficava próximo ao número 300. – O Senhor se lembra Chefe Osvaldo do Pintassilgo? – Claro que me lembrava. Ele e Tony Blanco eram amigos inseparáveis. – Pois é nunca tive um amigo fiel como ele. Amigo mesmo. De todas as horas. Éramos de Patrulha diferente da sua. Lembro que o Senhor era da patrulha Lobo e nós da Touro. Mas fizemos juntos muitos acampamentos. Lembra-se daquela jornada na Ilha do Cajuru? Foi demais não? – Eu lembrava. Minha mente passeava pelo passado. – Pois é Chefe Osvaldo, desculpe chamá-lo assim. Não sou mais Escoteiro. Eu hoje não sou nada. Um molambo largado na vida. Não tenho família, amigos, nada e nem ninguém que se preocupe por mim.

            A vida sempre a nos reservar surpresas. Um filho me pediu para ir até a Santa Efigênia comprar uns itens de computador para ele. Quando desci do ônibus na São João senti que ia passar mal. Corri até um bar em uma travessa da avenida e pedi um copo de água mineral. O remédio estava comigo. Ajuda mas não muito. Depois tinha que sentar e respirar por alguns minutos. Foi então que o vi. Nada mais nada menos que Tony Blanco. Maltrapilho, sujo, cara lisa, mantinha o mesmo corpo forte do passado quando puseram nele o apelido de Maciste. Mas era uma sombra do passado. A última vez que o vi foi em 1978, em um Seminário Escoteiro em Juiz de Fora. Nunca mais nos encontramos. – Pois é Chefe faz tempo não? Mas ele não sorria. Tony me conte o que aconteceu ao Pintassilgo?

            Morreu Chefe. Morreu. Uma morte horrorosa. Ficamos juntos até 1980. Morávamos juntos, mas sempre mantendo a fleuma de amigos somente. Ele nunca me deixou. O Senhor sabe disto. Por causa dele não casei com a Das Dores. Gostava dela, mas mesmo aconselhando a ele arrumar uma namorada ele ria e dizia – Não quero. Se arrumar vou casar. Se casar você deixa de ser meu amigo. Olhe Chefe muitos interpretaram mal esta amizade. Acho que não entendem que para ser amigos de verdade não precisamos de subterfúgios. Basta gostar. Gostar de maneira simples, sem desejos, sem aspirações que não seja estar junto de quem gosta. Das Dores riu de mim quando disse isso a ela. Interpretou mal. Vim para São Paulo. Pintassilgo veio também. Comecei a trabalhar em uma construtora como Mestre de Obras. Ele também. Alugamos uma pequena casa no Bairro Cajuru. Pequena mas dava para nós.

             - Tony, você ainda toca o Clarim? Perguntei. Lembra quando eu e você nos exibíamos na “banda” do Grupo Escoteiro mostrando nossas qualidades? E quando formos servir no exército? Ficaram em dúvida entre eu e você ser o corneteiro da unidade. Ele me olhou e mesmo com os olhos marejados de lágrimas deu um pequeno sorriso e disse – O joguei fora. Tinha de jogar – Porque meu amigo? – Pintassilgo um dia desapareceu. Tentei encontrá-lo por toda a cidade. Perdi o emprego por que não ia trabalhar. Passou-se dois meses. Que falta Chefe eu sentia dele Chefe. Nada ajudava. Não conseguia emprego fixo. Fui para as ruas. Morador de rua. Aqui e ali uns trocados. A vida ali é dura, mas hoje aprendi. Sei me virar.

               - Largou mesmo o escotismo? – Larguei. Cheguei a ajudar em um grupo próximo a minha casa. Mas senti dificuldade. Aqui se fazia tudo diferente. Gostava dos jovens, mas implicaram com Pintassilgo. Ele sempre junto. Falaram coisas que não gostei. Não entendiam o valor de uma amizade. – Olhe, eu fui a várias delegacias, lá zombavam de mim pelo que eu era. Fui a hospitais, Rodei em prontos socorros, fui ao IML e nada. Não dormia direito. Ainda tinha meu clarim guardado na caixa como quando comprei. Havia anos que não tocava. Um dia com minha carrocinha na descida da Avenida Angélica, avistei o Nonô, o Senhor deve lembrar-se dele. Era Monitor da Pica Pau e sumiu também com sua família. Eu não sabia quem era ele. Não tinha cabelos e seu nariz fino e comprido não dava para esquecer. – Ele me viu e me reconheceu. Convidou-me para tomar uma cerveja e até pagou para mim um almoço. Fazia dois dias que não comia.

                 - Você soube o que aconteceu ao Pintassilgo? Ele disse. – Não! Conte-me. Faz cinco anos que estou procurando. – Morreu torturado por traficantes na Favela da Caixa D’água. – Chorei na hora. – Por quê? Porque meu Deus? – o confundiram com o Maneco Tiro Certo. Eram quadrilhas rivais. Você não sabe, mas sou investigador da 17º Delegacia. Fui ver uma denuncia anônima. Cortaram sua cabeça, seus braços e pernas. Depois atearam fogo. – Ficamos em silêncio por muito tempo. Eu não sabia o que dizer. – Depois perguntei – E onde foi enterrado? Acho que no Cemitério de Vila Alpina. – E você meu amigo, ainda nesta vida de morador de rua? – Conversamos mais algumas horas e ele se foi. Deixou-me um cartão. – Se precisar telefone disse. Lembrei-me do Chefe Tonho que dizia – Um Escoteiro é sempre irmão. Nunca deixa um dos seus na mão.

                     - À tarde do dia seguinte fui até o cemitério de Vila Alpina. Tomei um banho no Albergue que fiquei hospedado. Coloquei meu uniforme Escoteiro. Estava guardado. Nunca me desfiz dele. Todos os mendigos de lá assustaram. Peguei um ônibus até Vila Alpina. A mocinha que me atendeu não tirava os olhos de mim. Disse-me onde ele estava enterrado. Joviel Peixoto. Eu sabia seu nome. Não havia sepultura. Um buraco. Mais nada. Pedi uma pá emprestada. Fiz uma tampa de terra. Tirei de outros túmulos um pouco de capim. Claro algumas flores também. Achei duas taboas. Fiz uma cruz. À mocinha me olhava de longe. Já estava escurecendo. Tirei da minha bolsa meu clarim. Meus olhos se encheram de lágrimas. A boca seca. Não conseguia tocar.

                    - Chefe Osvaldo, eu o vi em pé na sepultura. Sorria, não disse nada, estava de uniforme Escoteiro. Brilhava na escuridão. Me fez a saudação Escoteira. Desta vez toquei meu clarim com garra. E como toquei. O mais triste toque de silencio que toquei em minha vida. – Sabe Chefe Osvaldo, eu vi, eu vi mesmo muitos que ali morreram ficarem de pé em suas sepulturas calados. Eu vi relâmpagos no céu. Eu vi uma estrela brilhante em cima de nós.
             
                    - Enquanto ele me contava o acontecido eu me lembrei de um pequeno poema que tinha lido – “Os clarins tocam pelos heróis, que morrem pela ignorância humana. O Silêncio é das vozes que se calam diante das injustiças e barbárie que são cometidas contra quem não pode por si, se defenderem”.  Eu conhecia o toque. O toquei milhares de vezes. É um toque triste. Fiquei ali com Tony. Eu também chorava. O bar vazio. Dei a ele meu cartão. Escureceu. Não podia mais comprar o que meus filhos pediram. Despedi-me dele oferecendo ajuda. – Obrigado Chefe Osvaldo. Obrigado. Já tenho o suficiente para viver minha vida de morador de rua. É minha sina. Aqui estou vivendo e aqui morrerei. Saiu me dando um aperto de mão e um Sempre Alerta.


                   - Falar mais o que?

sábado, 13 de setembro de 2014

Os amores de Laureano, o Pioneiro do Rei.


Lendas Escoteiras.
Os amores de Laureano, o Pioneiro do Rei.

                  Laureano estava perdendo o estímulo para continuar no Clã Pioneiro. Os demais amigos ali eram entusiastas e as reuniões eram bem frequentadas. Laureano já tinha pensado em sair. Só um motivo o mantinha ainda no Clã. Rosália. Isto mesmo. Ele se apaixonou por Rosália. Uma paixão incrível, mas Rosália gostava de Almir. Laureano ia às reuniões e a via ao lado dele, muitas vezes de mãos dadas e olhares lânguidos, amorosos e todos sabiam que dia menos dia eles iriam se casar. Laureano devia saber que o caminho que escolheu não foi o certo. Tentou uma vez ficar sem participar por um mês. Quem sabe poderia esquecer-se dela? Impossível. Uma sede terrível abatia todos os dias seu pensamento. Sede de vê-la, olhar seu sorriso, sentir seus olhos nos seus. Amainar a dor terrível que jazia no fundo do seu coração. O pior de tudo era que Almir era um grande Pioneiro. A caminho de sua Insígnia de BP era um exemplo para todos. Sem ser mandão era um líder que sabia ser liderado. Em todos os programas que o Clã programava ele dava suas sugestões, mas aceitava de bom grado o que a maioria decidisse. Um concorrente no amor impossível de se derrotar.

                  Naquela sexta chegando à sede Escoteira viu o carro dela se aproximando. Quando parou notou dois jovens estranhos e sem perceber entraram no carro ordenando que seguisse em frente. Era um sequestro sem sombra de dúvida. Laureano ficou sem ação, pois foi tudo muito rápido. Nem mesmo os rostos dos bandidos ele viu direito. Gritou chamando os demais que já haviam chegado à sede. Um deles o Bertinho tinha um fusca e chamou Laureano para tentar encontrar o carro de Rosália. Gritou para os demais para avisar a policia. Bertinho era amigo de Laureano desde os tempos de tropa Escoteira. Aprontaram poucas e boas na Patrulha Touro. Virando uma esquina avistaram o carro de Rosália. Parado em frente um caixa vinte e quatro horas. Um sequestro relâmpago só podia ser. Bertinho parou o carro bem atrás dos bandidos. Um erro. Nunca devia ter feito isto. O certo era ir em frente e chamar a polícia. Mas Laureano não pensou duas vezes, correu até o carro de Rosália e tentou forçar a porta para retirá-la dali. Dois tiros. Um no peito e outro no pescoço. Laureano caiu. Jogaram Rosália pela porta.

                  Laureano ficou em coma quatro meses. Todo o dia lá estava Rosália ao seu lado. O Clã sempre que podia estava também presente. Quando acordou do coma o primeiro rosto que viu foi o de Rosália. Pensou que ela o amava e falando baixinho disse a ela tudo que sentia. Rosália já fazia uma ideia do amor de Laureano. Mas ela amava Almir. Teria que ser sincera. Explicou a Laureano tudo que sentia por ele. Nada mais que uma grande amizade. Laureano fechou os olhos. Preferia ter continuando naquele sono profundo, onde nada via a não ser uma nevoa ao seu redor. Lembrou-se da mulher de branco, do homem das barbas brancas que nada diziam e só sorriam. Quando abriu os olhos ela se fora. Sua mãe e seu pai estavam ali sorrindo para ele. A noite recebeu a visita de Almir. Que grande Pioneiro ele era. Foi franco. Explicou que amava Rosália. Na sua sinceridade o ódio de Laureano se transformava em amor. A escolha era de Rosália dizia, ou ele ou eu. Para ele não importava. Amava Rosália, mas devia saber perder. Não se ganha todas as batalhas.

                    Um ano depois Laureano já de alta pensava se devia voltar ou não ao Clã Pioneiro. Desde que saíra do hospital praticamente se escondeu de todos. Não respondia aos telefonemas, os recados, nada. Achou que estava esquecendo Rosália. Seu coração já não batia tanto. Uma tarde foi fazer uma inscrição para o vestibular. Já tinha feito pela internet agora era fazer o depósito. Ao sair do banco, deu de cara com ela. Foi uma surpresa. Como estava linda! Ela sempre foi à mulher mais bonita que tinha conhecido. Ela sorriu para ele. Caminhou até onde ele estava.  Ela deu para ele aquele sorriso encantador que fazia disparar seu coração. Cinco homens armados anunciaram o assalto. O vigilante reagiu. Uma troca de tiros. Ele pulou em cima de Rosália. Jogou-a ao chão. Fez de suas costas um escudo para ela. Desta vez não houve coma. Não houve volta. Laureano morreu ali com varias balas no corpo.


                     O cemitério da Saudade nunca viu tantos pioneiros e escoteiros juntos. Até de cidades distantes havia representantes. Nunca se viu tantos pioneiros cantando com emoção a Canção do Clã. Era como se Laureano fosse morar naquela montanha, bem perto do céu, onde existia uma lagoa azul. Nunca se viu tantos pioneiros chorando. A emoção tomou conta de todos. Não se sabe de onde, mas um clarim se ouviu. Alguém “acarapinhado” em uma arvore próxima tocava a canção e todos acompanhavam. Morreu Laureano. Ele estava marcado para morrer. Ele tinha de passar por isto. Na primeira vez escapou, mas na segunda seria impossível. Outras vidas ele teria, se encontraria de novo com Rosália. Também com Almir. Estava escrito nas estrelas. Os amores de Laureano, um rei sem paixão que não perdoava ninguém, a morte encomendada. São coisas do passado. Lá na última morada de Laureano, um casal, ela de branco ele com suas barbas brancas deram a mãos a ele e se foram. Uma nuvem os levou para o céu!     

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Lepitop, o Gato Escoteiro.


Lendas Escoteiras.
Lepitop, o Gato Escoteiro.
        
                Ninguém sabia sua origem e de onde ele tinha vindo. Nem tampouco onde morava. Há anos todas as reuniões lá estava o Lepitop. Quem lhe deu este nome também não tinham a menor ideia. A única certeza era que impreterivelmente quando o primeiro Escoteiro ou o primeiro lobinho chegasse à sede lá estava Lepitop. Interessante era que se algum Chefe fosse fazer algum serviço na sede e não houvesse Escoteiro presente, Lepitop não aparecia. Porque não gostava de adultos não sei explicar. Lepitop tinha um amor todo especial por Narinha da Matilha Rosa e Jarilson da Patrulha Raposa. Talvez porque eles descobriram que ele adorava arroz misturado com carne moída. Mas foi Narinha quem primeiro observou que ele só comia em prato de louça. Luxo?

              O Gato Lepitop tinha pelos longos com manchas brancas e incríveis olhos azuis. Um só. O outro era coberto por uma mancha branca. Muitos visitantes que iam ao grupo eram surpreendidos pelo Gato Lepitop. Sua fama percorreu toda cidade de Luar Azul. Quando a reunião começava com a chamada geral para o cerimonial de bandeira Lepitot também se formava sempre ao lado do responsável pela cerimonia. Agora ninguém ria, mas quando a bandeira subia farfalhando com o vento, ele ficava olhando e não tirava os olhos enquanto ela não alcançasse o topo. Depois corria para junto da Patrulha Raposa e durante o grito ele ficava no meio de todos, e claro, sempre no final ouviam seu “miau”. Por favor, não riam. É pura verdade. Eu vi com meus olhos que a terra a de comer.

             Lepitop não perdia nada. Da Patrulha corria para a Alcatéia para ver se conseguia alcançar o grande uivo. Quando a Akelá abaixava os braços ele ao seu lado abaixava também. Quando os lobinhos pulando e gritando o melhor, lá ia Lepitop pulando também. Sempre com seu “miau” no final. Em toda a reunião Lepitop corria de sessão em sessão. Quando a reunião terminava, Narinha e Jarilson corriam até a sede e lá colocavam sua comida. O arroz com carne moída. Lepitop ronronava, passava de leve o rabinho na perna de ambos e comia com gosto. Uma vez resolveram descobrir onde ele morava. Claro que perguntaram por toda a vizinha, mas ninguém soube informar. Narinha e Jarilson sempre se preocuparam com suas refeições aos sábados e durante a semana? Não acreditavam que ele aguentasse tanto tempo sem comer.

           O Gato Lepitop começou a ficar famoso. O Comissário do Distrito soube e foi lá visitar. O Diretor Regional também. Da UEB não veio ninguém. Quem sabe muito longe para viajar até Luar Azul.  Até o Redator Chefe do Jornal Capacete de Ouro foi lá no grupo entrevistar Lepitop. Disseram a ele que o gato falava. Risos. Um dia o pior aconteceu. O Gato Lepitop não apareceu na reunião. Os lobinhos e escoteiros sempre de olho no portão. As reuniões foram péssimas. Sem o Gato Lepitop tudo parecia ir por água abaixo. Esperaram a semana seguinte e nada. Só viam-se olhos marejados de lágrimas. Desde os lobinhos até os escoteiros e seniores. Claros os chefes e os pioneiros ao seu modo sentiam-se angustiados.

           Todo o Grupo Escoteiro fez um mutirão de buscas. As famílias dos escoteiros ajudavam. Toda a cidade foi vasculhada e a todos foi perguntado se conheciam o Gato Lepitop. Três semanas e nada. Impossível dar reunião. Ninguém queria fazer nada. Só choro e choro. Narinha coitada não parava de chorar. Nem na escola estava indo mais. Jarilson sempre com os olhos marejados de lágrimas. O Conselho de Chefes e a Diretoria do Grupo Escoteiro se reunirão muitas vezes em busca de uma solução. – A melhor seria dar férias a todos. Pelo menos um mês. Quem sabe poderiam voltar com novo ânimo? Foi um dia triste. A boca pequena todos sabiam o que ia acontecer.

          O Diretor Técnico tocou sua trombeta com o sinal de reunir. Antigamente era uma algazarra. Todos vinham correndo, sorrindo e era uma beleza ver os gritos de Patrulha e as apresentações. Fazia dó agora. Um silêncio mortal. Só olhos encharcados de lágrimas. Soluços em profusão. Um gato, apenas um gato para fazer tudo aquilo? Mas não era só um gato, era o Gato Lepitop. Aquele que era amado por todos. Meu Deus! Impossível! O Chefe começou a falar das férias e eis que aparece na porta do pátio nada mais nada menos que o Gato Lepitop. Ele na frente todo garboso, atrás dele uma linda gata amarela de pelos longos e mais atrás três gatinhos cinza e outros amarelos. Em fila indiana. Como se estivessem marchando! Um espetáculo que quem viu jamais iria esquecer.


         Lepitop tinha casado. Estava em lua de mel. Sua esposa Natibook tinha dado a luz três lindos gatinhos. Asustek, Epad e Android todos foram muito bem cuidados por Lepitop. Gritos de urras, milhões de sorrisos, canções, pulos saltitantes eram como se a luz tivesse voltado ao Grupo Escoteiro de Luar Azul. A notícia correu e toda a cidade foi até lá para ver. Foguetes foram lançados no ar. Abraços se deram aos montes. E assim, a paz voltou a reinar no Grupo Escoteiro de Luar Azul. Tudo por causa de um gatinho, um não agora eram quatro! E assim termina a história. Dizem que boi não é vaca e feijão não é arroz e então meus amigos, quem quiser que conte dois!

domingo, 7 de setembro de 2014

O lobisomem de Holambra.


Histórias Escoteiras.
O lobisomem de Holambra.
(uma história escrita pelo Chefe Kleber Svidzinski)

                            Não conseguia entender por que os cachorros da rua estavam uivando, todos, sem parar. Mas não era isso que me tinha feito perder o sono. Na verdade nem tinha me atentado a este detalhe dos cães, não conseguia pegar no sono, tinha uma aura estranha no ar, algo inquietante. Percebi que minha cadela Mona também fazia coro aos uivos.
De repente, como num passe de mágica, todos, sem exceção, pararam de uivar. Incrível. Foi que se tivesse acontecido uma ordem para aquilo. Instintivamente olhei no relógio digital que ficava na cômoda a minha frente... Meia noite em ponto. Confesso que aquilo me intrigou me deixou meio impressionado.
- Lúcia – chamei minha esposa – está acordada?
- Sim Bem, estou. – respondeu-me no mesmo instante.
- Viu isso? Percebeu? - indaguei
- Sim, que será que aconteceu? Está um silêncio estranho, pesado... - respondeu
- Viu que horas são? – perguntei já me virando na cama.
- Muito estranho...

                      Mal ela acabara de mencionar e escutamos uns barulhos de garrafas vazias na nossa área de serviço. Tínhamos um pequeno armário de aço onde colocávamos produtos de limpeza e algumas garrafas de refrigerantes  de vidro vazias. A Mona, gemendo baixinho estava tentando se enfiar dentro do local. Costumava fazer assim quando sentia muito medo,  tipo quando estouravam fogos. Eu e minha esposa trocamos um olhar silencioso, cada vez mais achando aquilo tudo muito, mas muito estranho. Salvo o desespero da nossa cachorra o silêncio continuava pesado, misterioso.
De repente uns ruídos chamaram ainda mais nossa atenção. Ao redor da nossa casa havia uma calçada de ardósia de uns oitenta cm de largura. Começamos a prestar atenção, não conseguíamos falar nada, estávamos petrificados. Alguma coisa estava caminhando lentamente, passando ao lado de nossa janela, eram claramente passos de uma criatura que caminhava sobre duas pernas e possuía garras, o som era característico. Estas faziam barulho ao contato com a ardósia...

                     Eu e minha esposa nos demos as mãos, que criatura dotada de garras caminhava sobre duas pernas somente? E por que ela causava o pânico em minha cadela? Levantei-me lentamente da cama, caminhei até a janela. Os passos haviam se cessado... Silêncio total.  Comecei a me preocupar com minha cachorra, ela estava apavorada, havia parado de se mexer, parecia que não queria ser encontrada, tentando se esconder. De repente um barulho alto na garagem... O alarme de meu carro disparara. Minha esposa quase que foi ejetada da cama, juntos, de mãos dadas, caminhamos em silêncio até a janela que dava vistas a nossa garagem, abrimos uma pequena fresta e fitamos nosso carro. O porta-malas estava aberto...

                        Nesse momento já estava arrepiado da cabeça aos pés. Não conseguia compreender o que estava acontecendo. Minha esposa correu pegar a chave do carro e acionou o controle cessando o som do alarme. O silêncio voltou a ser sepulcral... Não sei como, mas alguém ou alguma coisa havia aberto o porta-malas do carro. Olhei para todos os lados da rua, minha esposa apertava meu braço com muita força, a tensão era grande. - Não posso deixar o porta-malas aberto... Tenho que ir fechá-lo. – disse olhando para minha esposa - Está doido? – respondeu angustiada – Não está sentindo alguma coisa estranha no ar? – em seus olhos percebia uma aflição clara.

                        - Sim, tem alguma coisa acontecendo lá fora, mas não posso deixar meu carro aberto. – respondi meio indeciso. Não sabia se teria coragem para fazer o que me propunha. Holambra é uma cidade com estilo europeu, na época a maioria da casa não possuíam muros de frente as casas ficando bem expostas. Minha preocupação era que quisessem me roubar o carro. - Vamos fazer o seguinte, vou sair lá fora, você fica aqui na porta com as mãos na fechadura, qualquer problema eu vou tentar entrar correndo, você fecha a porta imediatamente e passa a chave, ok? – disse, sem a menor certeza que aquilo seria uma atitude lúcida.

- Não Amor, deixa isso pra lá, pode ser uma armadilha, talvez queiram que você faça exatamente isso – disse agoniada, pegando agora meus braços com ambas as mãos, apertando fortemente.
- Tenho que fazer, não posso deixar nosso carro exposto – minha posição de chefe de família tinha que ser firme, apesar de estar com a mesma preocupação da minha esposa – Fique calma, nada acontecerá, confie – disse, procurando encorajar mais a mim do que a ela.

Olhei mais uma vez pela fresta da janela. O silêncio era quase palpável. A rua completamente deserta, nem cães, nem grilos, nem corujas, nada, somente a respiração tensa, minha e da minha esposa. Fui até a porta, abri-a meio indeciso, temeroso, tentando manter a lucidez, coloquei a cabeça para fora. Minha esposa quase espremendo meus ombros, tensa. Olhei para um lado e outro... Nada. Fui agachando lentamente e olhei por baixo do carro, não havia nenhum sinal, nenhuma presença. Levantei lentamente, olhei para minha esposa, o pânico em seus olhos indicavam claramente a tensão que havia no ar.

Saí lentamente, olhava para todos os lados incessantemente, minha esposa a postos, porta entreaberta, mãos na fechadura. Dirigi-me ao porta-malas do carro, escutava até as batidas do meu coração. Fui baixando a tampa do porta-malas lentamente, evitando fazer ruídos, não deixava de olhar para todos os lados. Não bati a tampa, forcei-a até escutar o clique da trava. Passei a chave e me virei em direção à porta lentamente, tenso.
Na casa que morava, na divisa com os vizinhos havia um pequeno muro, baixo, talvez um metro de altura mais ou menos, somente para delimitar as divisas. Não sei por que, senti um impulso grande de olhar do outro lado do muro da casa de cima. Indeciso mas curioso, fui na direção do muro, continuava tenso, olhei brevemente para minha esposa, ela estava apavorada, me questionava com os olhos. Cheguei na divisa e fui tentar olhar por trás... Quando estava chegando quase na divisa, o susto... GROUFFF...

Um forte sussurro, um hálito quente na direção de meu rosto. Tomado de pânico me virei desesperadamente e corri em direção à porta, passei como um furacão e junto com minha esposa batemos fortemente a porta e quase que no mesmo segundo a trancamos. Corremos para o quarto nos jogamos sobre a cama abraçados, tensos, pânico total. Não precisávamos falar nada.
Seja lá o que foi que nos assustou não era um ser humano. Não sei dizer o que era. A única certeza é que não foi fruto de nossa imaginação, afinal éramos dois a vivenciar aquilo. Não tivemos coragem para voltar e ver se conseguíamos descobrir o que foi aquilo. No outro dia, não havia vestígios nenhum, nenhuma evidência do ocorrido. Somente as garrafas totalmente desarrumadas e uma cadela ainda meio apavorada davam os sinais do que havia sido aquela noite.
Só uma certeza... Não foi sonho, tampouco algo fruto de nossa imaginação.


Um ano depois e a história quase que se repetiu, desta vez em Mogi Guaçu... Mas este será um outro conto. 

terça-feira, 2 de setembro de 2014

A lenda da abelha dourada. (uma história para lobinhos)


Lendas Escoteiras.
A lenda da abelha dourada.
(uma história para lobinhos)

                   A tarde se fora e noite chegou mansamente. Os lobos e lobas saborearam com uma linda sopa feita pela Dona Judite, mãe da Marcileia. Balu e Bagheera levaram a lobada para escovar os dentes e se preparar para a noite. Todos arrumaram seus sacos de dormir e os que não possuíam um colchonete. Na noite anterior custaram para dormir. Muitos conversando e rindo. Sinal de primeiro dia e era sempre assim. Um jogo noturno no campinho de futebol e todos cansados se recolheram.  Balu estava lá com eles enquanto se preparavam pra dormir. – Se não fizerem barulho prometo contar uma história, ele disse. Um silêncio reinante. Lá fora na lagoa sapos coachando, na janela vagalumes tentavam entrar para mostrar ao lampião quem tinha mais luz. Uma luz se destacava na janela, devia ser o primeiro clarão da lua cheia. Balu era alto e forte. Tinha uma voz de tenor e todos o amavam muito. – Vamos Balu, conta! Você prometeu! – Balu olhou de canto a canto e fechando os olhos começou:  

                  Uma vez, a muitos e muitos anos atrás um "Velho" feiticeiro chamou uma borboleta cinzenta, feia, sem graça e disse a ela que ele era seu pai. A borboleta riu. Você não é meu pai. Não pode, já tenho um pai que me dá de comer e beber. O feiticeiro com raiva disse a borboleta: - Se você não acredita vou transformar você em um bichinho que voa e todos vão chamá-la de Abelha dourada.  Terás que ir pelo bosque, de árvore em árvore a procura do néctar da vida para sobreviver.                 Você vai ter asas, mas suas pernas serão três pares de patas. Com elas vai limpar suas antenas, sim, isso mesmo, você vai ter antenas, e pode apoiar e mover para pegar o pólen. Sua língua vai se mover como um canal formado pelas maxilas e vai terminara em um tufo de pelos. Isto para você absorver o néctar da flor. Vou colocar em você uma mandíbula e um maxilar. Eles vão servir para você amassar as escamas de cera e expelir do abdômen. Vai servir também para varrer a colmeia e mutilar seus inimigos.

                Ah! Não esqueça, vou colocar em você uma linda antena, pois elas serão o seu olfato e o tato. Você vai ser muito sensível com elas.  Com elas poderá andar na escuridão da noite, e até construir favos bem feitos. E para terminar vou dar a você um ferrão. Nele você poderá injetar o caule no corpo do seu inimigo. Cuidado, pois ao fazer isso ficará sem ele, pois estará cravado no corpo do seu inimigo. Você não terá pai e sim uma rainha. Vai ser uma rainha má que vai exigir tudo de você. Sua vida será sempre fazer o mel e você não vai poder saborear. A borboleta cinza não chorou. Até gostou de viver, mesmo gostando de um zangão cujo amor por ele nunca pode se realizar, ela viveu feliz por muitos e muitos anos.

               - Ninguém dormia. Todos pensando na Borboleta que agora era uma Abelha Dourada. – Balu! Gritou um lobo, e ela gostou de ser uma Abelha Dourada? – Não sei lobinho, muitas vezes queremos ser o que não podemos ser. Devemos alegrar o que somos e o que Deus nos deu. A vida tem caminhos que não escolhemos e ela a borboleta aceitou sua nova vida como uma abelha dourada. – Mas Balu! E se ela gostava mais de ser uma borboleta cinzenta? – Balu pensou, coçou levemente sua cabeça e fechou os olhos pensando em uma resposta. – Sabe Lobinha, um poeta dizia que ele ouvia o passar do vento, e só de ouvir o vento passar valia a pena ter nascido para ser o que a vida lhe reservou. Tudo vale a pena quando a alma não é pequena. Não é a aparência que nos faz feliz. A felicidade está em nosso coração e não em nosso corpo.

           - E continuou – Tenho certeza que a Borboleta se sentiu feliz em ser uma Abelha Dourada. Ela sabia seu destino e mesmo se não soubesse ela sabia que sua vida era assim. Quem sabe ela pensou que vale a pena viver, nem que seja para dizer que não vale a pena... Os olhinhos se fecharam. Os sonhos de todos agora era um só. Sonhavam em ser amigos da abelhinha dourada e voar no jardim da primavera. Ah! Doce primavera. Quem falou nela sem ter visto seu sorriso, falou sem saber o que era... E a paz reinou no Monte Seoni, onde habitavam os lobos da Alcateia Cinzenta. Ouviam ao longe o ribombar do Rio Waigunga que corria perto dali, e todos naquele sonho inesquecível se transformaram em uma abelha dourada correndo para dormir na Rocha da Paz.

O abutre Chill conduz a noite incerta
E que o morcego Mang ora liberta -
É esta a hora em que adormece o gado,
Pelo aprisco fechado.
É esta a hora do orgulho e da força
Unha ferina, aguda garra.
Ouve-se o grito: Boa caça aquele
“Que a Lei da Jângal se agarra”.
Canto noturno da Jângal.

KIPLING.