No mundo dos sonhos com as fábulas escoteiras

No mundo dos sonhos com as fábulas escoteiras
A aventura está apenas começando

domingo, 7 de setembro de 2014

O lobisomem de Holambra.


Histórias Escoteiras.
O lobisomem de Holambra.
(uma história escrita pelo Chefe Kleber Svidzinski)

                            Não conseguia entender por que os cachorros da rua estavam uivando, todos, sem parar. Mas não era isso que me tinha feito perder o sono. Na verdade nem tinha me atentado a este detalhe dos cães, não conseguia pegar no sono, tinha uma aura estranha no ar, algo inquietante. Percebi que minha cadela Mona também fazia coro aos uivos.
De repente, como num passe de mágica, todos, sem exceção, pararam de uivar. Incrível. Foi que se tivesse acontecido uma ordem para aquilo. Instintivamente olhei no relógio digital que ficava na cômoda a minha frente... Meia noite em ponto. Confesso que aquilo me intrigou me deixou meio impressionado.
- Lúcia – chamei minha esposa – está acordada?
- Sim Bem, estou. – respondeu-me no mesmo instante.
- Viu isso? Percebeu? - indaguei
- Sim, que será que aconteceu? Está um silêncio estranho, pesado... - respondeu
- Viu que horas são? – perguntei já me virando na cama.
- Muito estranho...

                      Mal ela acabara de mencionar e escutamos uns barulhos de garrafas vazias na nossa área de serviço. Tínhamos um pequeno armário de aço onde colocávamos produtos de limpeza e algumas garrafas de refrigerantes  de vidro vazias. A Mona, gemendo baixinho estava tentando se enfiar dentro do local. Costumava fazer assim quando sentia muito medo,  tipo quando estouravam fogos. Eu e minha esposa trocamos um olhar silencioso, cada vez mais achando aquilo tudo muito, mas muito estranho. Salvo o desespero da nossa cachorra o silêncio continuava pesado, misterioso.
De repente uns ruídos chamaram ainda mais nossa atenção. Ao redor da nossa casa havia uma calçada de ardósia de uns oitenta cm de largura. Começamos a prestar atenção, não conseguíamos falar nada, estávamos petrificados. Alguma coisa estava caminhando lentamente, passando ao lado de nossa janela, eram claramente passos de uma criatura que caminhava sobre duas pernas e possuía garras, o som era característico. Estas faziam barulho ao contato com a ardósia...

                     Eu e minha esposa nos demos as mãos, que criatura dotada de garras caminhava sobre duas pernas somente? E por que ela causava o pânico em minha cadela? Levantei-me lentamente da cama, caminhei até a janela. Os passos haviam se cessado... Silêncio total.  Comecei a me preocupar com minha cachorra, ela estava apavorada, havia parado de se mexer, parecia que não queria ser encontrada, tentando se esconder. De repente um barulho alto na garagem... O alarme de meu carro disparara. Minha esposa quase que foi ejetada da cama, juntos, de mãos dadas, caminhamos em silêncio até a janela que dava vistas a nossa garagem, abrimos uma pequena fresta e fitamos nosso carro. O porta-malas estava aberto...

                        Nesse momento já estava arrepiado da cabeça aos pés. Não conseguia compreender o que estava acontecendo. Minha esposa correu pegar a chave do carro e acionou o controle cessando o som do alarme. O silêncio voltou a ser sepulcral... Não sei como, mas alguém ou alguma coisa havia aberto o porta-malas do carro. Olhei para todos os lados da rua, minha esposa apertava meu braço com muita força, a tensão era grande. - Não posso deixar o porta-malas aberto... Tenho que ir fechá-lo. – disse olhando para minha esposa - Está doido? – respondeu angustiada – Não está sentindo alguma coisa estranha no ar? – em seus olhos percebia uma aflição clara.

                        - Sim, tem alguma coisa acontecendo lá fora, mas não posso deixar meu carro aberto. – respondi meio indeciso. Não sabia se teria coragem para fazer o que me propunha. Holambra é uma cidade com estilo europeu, na época a maioria da casa não possuíam muros de frente as casas ficando bem expostas. Minha preocupação era que quisessem me roubar o carro. - Vamos fazer o seguinte, vou sair lá fora, você fica aqui na porta com as mãos na fechadura, qualquer problema eu vou tentar entrar correndo, você fecha a porta imediatamente e passa a chave, ok? – disse, sem a menor certeza que aquilo seria uma atitude lúcida.

- Não Amor, deixa isso pra lá, pode ser uma armadilha, talvez queiram que você faça exatamente isso – disse agoniada, pegando agora meus braços com ambas as mãos, apertando fortemente.
- Tenho que fazer, não posso deixar nosso carro exposto – minha posição de chefe de família tinha que ser firme, apesar de estar com a mesma preocupação da minha esposa – Fique calma, nada acontecerá, confie – disse, procurando encorajar mais a mim do que a ela.

Olhei mais uma vez pela fresta da janela. O silêncio era quase palpável. A rua completamente deserta, nem cães, nem grilos, nem corujas, nada, somente a respiração tensa, minha e da minha esposa. Fui até a porta, abri-a meio indeciso, temeroso, tentando manter a lucidez, coloquei a cabeça para fora. Minha esposa quase espremendo meus ombros, tensa. Olhei para um lado e outro... Nada. Fui agachando lentamente e olhei por baixo do carro, não havia nenhum sinal, nenhuma presença. Levantei lentamente, olhei para minha esposa, o pânico em seus olhos indicavam claramente a tensão que havia no ar.

Saí lentamente, olhava para todos os lados incessantemente, minha esposa a postos, porta entreaberta, mãos na fechadura. Dirigi-me ao porta-malas do carro, escutava até as batidas do meu coração. Fui baixando a tampa do porta-malas lentamente, evitando fazer ruídos, não deixava de olhar para todos os lados. Não bati a tampa, forcei-a até escutar o clique da trava. Passei a chave e me virei em direção à porta lentamente, tenso.
Na casa que morava, na divisa com os vizinhos havia um pequeno muro, baixo, talvez um metro de altura mais ou menos, somente para delimitar as divisas. Não sei por que, senti um impulso grande de olhar do outro lado do muro da casa de cima. Indeciso mas curioso, fui na direção do muro, continuava tenso, olhei brevemente para minha esposa, ela estava apavorada, me questionava com os olhos. Cheguei na divisa e fui tentar olhar por trás... Quando estava chegando quase na divisa, o susto... GROUFFF...

Um forte sussurro, um hálito quente na direção de meu rosto. Tomado de pânico me virei desesperadamente e corri em direção à porta, passei como um furacão e junto com minha esposa batemos fortemente a porta e quase que no mesmo segundo a trancamos. Corremos para o quarto nos jogamos sobre a cama abraçados, tensos, pânico total. Não precisávamos falar nada.
Seja lá o que foi que nos assustou não era um ser humano. Não sei dizer o que era. A única certeza é que não foi fruto de nossa imaginação, afinal éramos dois a vivenciar aquilo. Não tivemos coragem para voltar e ver se conseguíamos descobrir o que foi aquilo. No outro dia, não havia vestígios nenhum, nenhuma evidência do ocorrido. Somente as garrafas totalmente desarrumadas e uma cadela ainda meio apavorada davam os sinais do que havia sido aquela noite.
Só uma certeza... Não foi sonho, tampouco algo fruto de nossa imaginação.


Um ano depois e a história quase que se repetiu, desta vez em Mogi Guaçu... Mas este será um outro conto. 

terça-feira, 2 de setembro de 2014

A lenda da abelha dourada. (uma história para lobinhos)


Lendas Escoteiras.
A lenda da abelha dourada.
(uma história para lobinhos)

                   A tarde se fora e noite chegou mansamente. Os lobos e lobas saborearam com uma linda sopa feita pela Dona Judite, mãe da Marcileia. Balu e Bagheera levaram a lobada para escovar os dentes e se preparar para a noite. Todos arrumaram seus sacos de dormir e os que não possuíam um colchonete. Na noite anterior custaram para dormir. Muitos conversando e rindo. Sinal de primeiro dia e era sempre assim. Um jogo noturno no campinho de futebol e todos cansados se recolheram.  Balu estava lá com eles enquanto se preparavam pra dormir. – Se não fizerem barulho prometo contar uma história, ele disse. Um silêncio reinante. Lá fora na lagoa sapos coachando, na janela vagalumes tentavam entrar para mostrar ao lampião quem tinha mais luz. Uma luz se destacava na janela, devia ser o primeiro clarão da lua cheia. Balu era alto e forte. Tinha uma voz de tenor e todos o amavam muito. – Vamos Balu, conta! Você prometeu! – Balu olhou de canto a canto e fechando os olhos começou:  

                  Uma vez, a muitos e muitos anos atrás um "Velho" feiticeiro chamou uma borboleta cinzenta, feia, sem graça e disse a ela que ele era seu pai. A borboleta riu. Você não é meu pai. Não pode, já tenho um pai que me dá de comer e beber. O feiticeiro com raiva disse a borboleta: - Se você não acredita vou transformar você em um bichinho que voa e todos vão chamá-la de Abelha dourada.  Terás que ir pelo bosque, de árvore em árvore a procura do néctar da vida para sobreviver.                 Você vai ter asas, mas suas pernas serão três pares de patas. Com elas vai limpar suas antenas, sim, isso mesmo, você vai ter antenas, e pode apoiar e mover para pegar o pólen. Sua língua vai se mover como um canal formado pelas maxilas e vai terminara em um tufo de pelos. Isto para você absorver o néctar da flor. Vou colocar em você uma mandíbula e um maxilar. Eles vão servir para você amassar as escamas de cera e expelir do abdômen. Vai servir também para varrer a colmeia e mutilar seus inimigos.

                Ah! Não esqueça, vou colocar em você uma linda antena, pois elas serão o seu olfato e o tato. Você vai ser muito sensível com elas.  Com elas poderá andar na escuridão da noite, e até construir favos bem feitos. E para terminar vou dar a você um ferrão. Nele você poderá injetar o caule no corpo do seu inimigo. Cuidado, pois ao fazer isso ficará sem ele, pois estará cravado no corpo do seu inimigo. Você não terá pai e sim uma rainha. Vai ser uma rainha má que vai exigir tudo de você. Sua vida será sempre fazer o mel e você não vai poder saborear. A borboleta cinza não chorou. Até gostou de viver, mesmo gostando de um zangão cujo amor por ele nunca pode se realizar, ela viveu feliz por muitos e muitos anos.

               - Ninguém dormia. Todos pensando na Borboleta que agora era uma Abelha Dourada. – Balu! Gritou um lobo, e ela gostou de ser uma Abelha Dourada? – Não sei lobinho, muitas vezes queremos ser o que não podemos ser. Devemos alegrar o que somos e o que Deus nos deu. A vida tem caminhos que não escolhemos e ela a borboleta aceitou sua nova vida como uma abelha dourada. – Mas Balu! E se ela gostava mais de ser uma borboleta cinzenta? – Balu pensou, coçou levemente sua cabeça e fechou os olhos pensando em uma resposta. – Sabe Lobinha, um poeta dizia que ele ouvia o passar do vento, e só de ouvir o vento passar valia a pena ter nascido para ser o que a vida lhe reservou. Tudo vale a pena quando a alma não é pequena. Não é a aparência que nos faz feliz. A felicidade está em nosso coração e não em nosso corpo.

           - E continuou – Tenho certeza que a Borboleta se sentiu feliz em ser uma Abelha Dourada. Ela sabia seu destino e mesmo se não soubesse ela sabia que sua vida era assim. Quem sabe ela pensou que vale a pena viver, nem que seja para dizer que não vale a pena... Os olhinhos se fecharam. Os sonhos de todos agora era um só. Sonhavam em ser amigos da abelhinha dourada e voar no jardim da primavera. Ah! Doce primavera. Quem falou nela sem ter visto seu sorriso, falou sem saber o que era... E a paz reinou no Monte Seoni, onde habitavam os lobos da Alcateia Cinzenta. Ouviam ao longe o ribombar do Rio Waigunga que corria perto dali, e todos naquele sonho inesquecível se transformaram em uma abelha dourada correndo para dormir na Rocha da Paz.

O abutre Chill conduz a noite incerta
E que o morcego Mang ora liberta -
É esta a hora em que adormece o gado,
Pelo aprisco fechado.
É esta a hora do orgulho e da força
Unha ferina, aguda garra.
Ouve-se o grito: Boa caça aquele
“Que a Lei da Jângal se agarra”.
Canto noturno da Jângal.

KIPLING.

domingo, 31 de agosto de 2014

Escotismo Civismo e cidadania. Um “causo” do acontecido.


Crônicas de um Chefe Escoteiro.
Escotismo Civismo e cidadania. Um “causo” do acontecido.

              Conheci Marco Aurélio na década de sessenta. Nem sei como fomos nos encontrar ali, em um pequeno arraial, próximo a cidade de Itanhomi. Na época eu tentava a sorte vendendo livros Os empregos praticamente não existiam e eu não podia viver à custa dos meus pais. Com meus vinte e três anos sentia que minha responsabilidade me fazia procurar algum útil e claro, me manter profissionalmente. Era um bar simples, mais para boteco, mas a fome que eu estava nem ligava onde poderia comer. Uma mesa na entrada com dois bancos compridos, coberta de sapé dava uma sombra gostosa e tranquila. Um refrigerante quase sem gelo e dois pães com mortadela era meu almoço e comia como se fosse a melhor refeição do mundo. Disseram-me que ali eu poderia pegar um ônibus para Residência e de lá para minha cidade seria fácil. Ele chegou e sorriu para mim. – Desculpe senhor, posso me assentar aí também? – Claro meu amigo eu disse. Ele riu quando viu o que tinha nas mãos e era igual ao suculento almoço dele. Pães com mortadela e refrigerante.

             E não é que ele era Escoteiro? Ali naquele fim de mundo, comendo um belo lanche de mortadela e logo um Escoteiro chega para jogar conversa fora. Aos poucos ele contou como entrou para o escotismo. – Olhe Vado, sempre morei em Salto Grande, uma cidade de 40 mil habitantes. Eu tenho lá uma pequena fábrica de sapatos herdadas de meu pai que herdou do meu avô. Eu fui educado por eles de uma forma diferente. Na cidade todos me olhavam como se eu não fosse como eles. Claro que não era eu era tudo que meu pai me deu quando jovem, Fazia questão do cavalheirismo, da ética e da cidadania. No entanto levar para todos o que eu pensava era impossível. Como andava de cabeça em pé, e nunca me meti em falcatruas ou mesmo arruaças. Naquela cidade eu era tido como um exemplo para todos. Um tarde de agosto, há três anos passados no final de um domingo, dormitava em minha varanda quando percebi na minha porta uma senhora e quatro Escoteiros. Gostei da maneira com que se apresentaram e como me dirigiram a palavra respeitosamente.

            Se existe uma coisa que sempre fiz questão foi à educação dos jovens com os adultos. E eles se dirigiram a mim dizendo senhor, olhando-me nos olhos, e isto me cativou. Dona Matilde contou-me uma história que me emocionou. A Tropa 222, do Grupo Escoteiro Santo Ângelo estava em vias de desaparecer. O Grupo Escoteiro fundando há oito anos no inicio estava indo muito bem. Com uma Alcateia e a tropa estavam partindo para organizar a tropa sênior em breve. Pedi a ela para me explicar o que era tropa, Alcateia e Grupo Escoteiro. Foi uma aula gratuita de escotismo que ela me deu. Sentados ali na varanda Dona Norma uma espécie de tia que me ajudava nos afazeres da casa nos serviu um café com biscoitos e precisava ver a educação dos quatro jovens a se servirem. Ela foi direto ao ponto quando explicou que o antigo Chefe Fasano, tinha falecido há quatro meses em virtude de um câncer no cérebro. Isto destruiu metade do grupo em um mês. Ninguém aceitava aquele destino, pois amavam o Chefe como se fosse um pai.

            - Senhor Marco Aurélio, viemos aqui contando que vai aceitar nosso convite para ser o Chefe da tropa. Falei com os meninos sobre o senhor e a maioria já o conhece. Para eles teria que ser alguém com moral e ética e o senhor preenche bem seus desejos. Olhei os quatros jovens. Dois meninos e duas meninas. Olhavam-me como se eu fosse o seu líder, aquele que podiam contar. Quer saber? Não pedi um tempo. Aceite de pronto e os sorrisos valeram minha resposta. Sempre me bati com a questão de cidadania, da ética e da honra e nada melhor que um movimento de jovens que acreditam nisto para que eu pudesse colaborar com eles. No primeiro dia conversei com todos, ainda não sabia que o Sistema de Patrulhas me dava à liberdade de ter meninos que dirigem outros meninos. O tempo me ensinou muitas coisas e vi que o escotismo era um manancial para que os jovens tivessem uma formação adequada para um país que precisavam de homens e mulheres em quem se pudesse confiar.

             Quando li os livros Escoteiros do fundador e outros sabia que tinha dado um passo certo. Senti claro que os mais antigos me consideram um seguidor deles, e pouco se abriam para que eu pudesse sugerir e mostrar como funciona uma democracia. Não eram todos, mas aos poucos fui batalhando e com o passar dos anos aceito da forma como era. A cidadania expressa um conjunto de direitos que dá a pessoa a possibilidade de participar ativamente da vida de do governo de seu povo. No escotismo a cidadania não era vista assim. Acreditava e acredito que precisamos ensinar também aos adultos o que ensinamos aos jovens através das patrulhas e dos monitores esta tão falada democracia. Ainda tem alguns que pensam que a democracia seria aquela que o faz dono da verdade e das ações. Eu sei que a participação numa sociedade ideal não é fácil de ser implantada. Como a liberdade consciente e imperfeita numa democracia como a nossa, poderiam todos pensar que seria uma utopia mudar esta visão.

             Aos poucos fui fazendo cursos e vi até que alguns dirigentes que ali se prestavam a colaborar não estavam devidamente preparados para sua função de educador. Para dizer a verdade fiquei em duvida se eu tinha amigos Escoteiros ou lideres que só mandavam e nada mais. Não desisti e fiz outros afinal não é em um dia ou dois que teremos adquiridos todo o conhecimento que precisávamos. No livro do fundador dizia ele que aprender com os jovens é como se cursar uma faculdade escoteira. Eu sabia que quem não tem cidadania está marginalizado ou excluído da vida social e da tomada de decisões e isto poderia colocar a todos numa posição de inferioridade dentro do grupo social. Por isto aceitei o desafio. Fiquei quatro anos ininterruptos. Mas o pior aconteceu. Eleita uma nova diretoria sem eu perceber começou a luta de egos, cada um querendo mostrar sua liderança seu poder e eu novato não entendia bem onde eles queriam chegar.


                 Não deu outra. A disputa de egos foi tanta que um deles pediu a intervenção regional do grupo. Desisti. Isto mesmo fui embora para minha casa. Os meninos choraram e tentaram me demover, mas enquanto estivessem no grupo pessoas atrás do poder em sabia que não tinha condições de ajudar em nada. O grupo não durou três anos. Fechou as portas. – Perguntei a ele e você? O que fez? – Chefe, o caminho estava livre. Voltei, reabri o grupo, convidei pais sem sonhos de poder e hoje estamos fazendo um belo escotismo. – É eu pensava com meus botões. A verdade sempre aparece. Uma buzina e vi a velha jardineira chegando. Um abraço, um aperto de mão e um desejo de nos vermos novamente. Quem sabe? E lá fui eu rumo a Residência onde se tivesse sorte pegaria um ônibus no mesmo dia para casa.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

AS MARAVILHOSAS HISTÓRIAS ESCOTEIRAS III.


AS MARAVILHOSAS HISTÓRIAS ESCOTEIRAS III.

Aos meus amigos e amigas leitores deste blog. Agora vocês terão oportunidade de ter em seus arquivos, um livro só de histórias Escoteiras. Três semanas separando, lendo, comparando e finalmente escolhi 31 espetaculares histórias Escoteiras para o meu novo livro de histórias. Ficou pronto hoje. Histórias escolhidas a dedo. Só as mais lidas mais curtidas e mais comentadas do Facebook e dos meus blogs. Não faltaram seis histórias inéditas ainda não publicadas. 89 páginas de puro deleite e viagens fantásticas no mundo maravilhoso dos Escoteiros. Primeiro tivemos as Maravilhosas Histórias Escoteiras I, depois as Maravilhosas Histórias Escoteiras II e esta última bateu todos os recordes de envio por e-mail. Esta terceira eu tenho certeza que vai agradar a todos participantes do Movimento Escoteiro. Do lobinho ao Chefe, da Escoteira a pioneira. Claro pode agradar também aos nossos dirigentes... Quem sabe?

Agora se você quiser ter o seu exemplar em PDF é só ir lá ao meu e-mail e pedir. Prometo enviar no mesmo dia. Opa! É gratuito. Você não paga nada, mas olhe não peça e não deixe seu e-mail aqui. Não dá para atender você assim. Vamos lá, aguardo seu pedido. Se não gostar reclame com Baden-Powell, ele é o culpado, pois juntamente com Deus me fez um Escoteiro!


elioso@terra.com.br repetindo elioso@terra.com.br

terça-feira, 26 de agosto de 2014

O dia em que Lagoa Vermelha parou para assistir o casamento do Chefe Bento Soares.


Lendas Escoteiras.
O dia em que Lagoa Vermelha parou para assistir o casamento do Chefe Bento Soares.

                 Era uma cidade feliz. Muito mesmo. Todos lá se conheciam e eram grandes amigos. Aos sábados e domingos se reunião na praça central, cumprimentando-se, contando “causos” e lembrando-se dos velhos tempos. Chefe Bento era uma figura de destaque na cidade. Não porque fosse politico, mas pela sua bondade, pelo seu sorriso e pelo seu trabalho em prol da comunidade. Além de Chefe da Tropa Escoteira Andrômeda ele trabalhava no Posto de Saúde da cidade há mais de vinte anos. Dizia-se que quase todos os habitantes de Lagoa Vermelha foram escoteiros e isto quem sabe explica a grande amizade entre eles. Chefe Bento era mesmo diferente. Se fosse padre estaria explicado, mas não era. Sua tropa Escoteira o adorava. Nunca faltou a uma reunião. O Padre Albertinho não fazia nada sem o consultar. Fizeram tudo para ele se candidatar a prefeito e sempre recusou. O Prefeito Belarmino e as demais autoridades tinham por ele o maior respeito.

               Morava em uma casa simples bem próximo da sede Escoteira motivo pela qual ela estava sempre cheia de escoteiros. Sua mãe dona Lindalva tinha uma paciência enorme. Nunca brigava com a meninada. Ela comentava sempre que se Jesus dizia “vinde a mim as criancinhas” porque eu também não faço o mesmo? Chefe Bento estava noivo de Cidinha, uma jovem simples, que trabalhava como servente no Grupo Escolar Flores da Cunha. Magra, loira e uns olhos azuis que quase não se via, porque ficava sempre de cabeça baixa. Cidinha também era um amor de pessoa. Os alunos adoravam seu estilo e só não entrou para o Grupo Escoteiro porque achava que não tinha “estudo” suficiente. Fizera somente o quarto ano primário e parou de estudar para trabalhar. Sua família dependia dela. Chefe Bento e Cidinha namoravam desde crianças. Ambos achavam que não podiam viver um sem o outro. Nunca houve palavras bonitas entre eles de “eu te amo” “estou apaixonado” e só se beijaram uma vez, mas um beijo calmo, nada de língua prá lá e prá cá.

             A cidade em peso esperava o dia do casamento. Seria em 22 de novembro próximo. Menos de cinco meses. Seria uma festa de arromba. O Padre Albertinho fez questão de celebrar o casamento sem nenhum ônus para eles. A igreja vai ajudar também nos móveis do casal. Os lobinhos, escoteiros, seniores e pioneiros se cotizaram para as demais despesas. Uma lista foi passada de mão em mão de casa em casa. Estava quase cheia. Vários fazendeiros prometeram bois, porcos, galinhas e o clube de mães da igreja e do Grupo Escoteiro comprometeram-se a fazer tudo. Tudo caminhava a mil maravilhas. Em 12 de junho a tropa foi acampar na Serra da Felicidade. Sempre acampavam lá. Ficava nas terras do Coronel Adauto, um fazendeiro amigo e conhecido de todos. Na abertura do campo o Coronel Adauto estava presente. Ele gostava de ver a escoteirada formar e cantar o hino Nacional. Todos se espantaram desta vez. Ao lado dele uma bela morena de olhos negros, saia curtinha, cabelos negros longos, corpo escultural. Linda de morrer! – Minha sobrinha disse. Veio morar comigo.

            As patrulhas estavam cismadas. Chefe Bento presente como sempre foi, mas agora tinha ao seu lado a bela Francisca e eram somente sorrisos. Dia e noite juntos. Um dia Pedrinho os viu beijando junto ao moinho do Ventor. Um susto. A tropa toda ficou sabendo. Logo a cidade em peso sabia. Segredos? Ali em Lagoa Vermelha não havia. Todos sabiam de tudo. – Coitada da Cidinha diziam. Ela calada. Parecia que não estava revoltada. Claro, Chefe Bento continuou indo a sua casa como se nada tivesse acontecido. Um dia procurou o Padre Albertinho. - Senhor Padre, disse – Não vou confessar agora. É só um conselho. Não sei o que diz meu coração. Não quero ficar sem a Cidinha. Ela é meu sonho para vivermos juntos para sempre. No entanto não sei, mas estou amando a Francisca. O que faço padre?

                 Lagoa Vermelha em peso “cochichavam” entre si. O disse me disse das comadres eram enormes. Quem é essa Francisca? De onde veio? Tomar o Chefe Bento da Cidinha? Vai ver que é uma “pistoleira” da cidade grande. Onde o Coronel Adauto arrumou esta bruxa? Durante um mês o buchicho não parou. Chefe Bento não sabia o que fazer. Não tinha coragem de olhar nos olhos de ninguém. Sempre de cabeça baixa. O Coronel Adauto um dia pediu para ele ir até a fazenda. E agora pensou Chefe Bento? Ele vai me imprensar na parede. Não sei o que fazer. Nem mamãe soube me aconselhar.

               O dia acabava de amanhecer. Um céu avermelhado prenuncio de um dia quente e sem chuva. Um carro preto, grande atravessou a cidade de ponta a ponta e se dirigiu a fazenda do Coronel Adauto. O povo só ficou sabendo quando Zé das Flores, um vaqueiro da fazenda, entrou no Boteco do Martinho e contou as novidades. O marido da Francisca veio buscá-la. Ela não queria ir. O Coronel Adauto ficou calado. Eram casados e ela devia obrigação a ele. Não concordou com a farsa dela se apaixonar pelo Chefe Bento. Pensou várias vezes contar o que sabia. Era casada com um mafioso da capital. Sujeito perigoso. Ela fugiu dele e mesmo aconselhando a voltar não aceitou.

                 O povo viu o carro preto pegando a estrada da capital com a Francisca dentro. Quando Chefe Bento soube, dizem seus amigos lá do posto de saúde que ele chorou. Dois meses depois o casamento foi realizado. Vieram escoteiros de várias cidades. Fizeram uma bonita passagem de bastões para ele e Cidinha passar quando saíram da igreja. Padre Albertinho sorria também. Quem sabe ele toma jeito? A nova casa estava preparada, mas eles pouco ficaram ali. Pegaram o ônibus de Lagoa Formosa naquela tarde e foram em lua de mel merecida.


                Acompanhei tudo. Sei que o Chefe Bento nunca mais foi o mesmo. Seu sorriso espontâneo desapareceu. Todos diziam que Cidinha estava sempre com os olhos vermelhos. Dois anos depois nasceu Tomé, um ano mais e Marcela veio ao mundo. Pararam por aí. Sei que depois dos dois rebentos o sorrisos voltou ao rosto do Chefe Bento. Sei também que eles viveram felizes para sempre.                       

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Primeira Classe, o sonho de Lord Jim.


Lendas escoteiras.
Primeira Classe, o sonho de Lord Jim.

              Lord Jim era um sonhador. Desde que entrou para os escoteiros ele sonhava. Sonhava com acampamentos, com excursões, com a Patrulha, com as viagens enfim, Lord Jim gostava mesmo de sonhar. Havia uma diferença em Lord Jim, ele sonhava com os pés no chão. Emocionou-se no dia de sua promessa. A tropa em posição de Alerta!  Mino o Monitor ao seu lado, o Chefe Maílson o olhando nos olhos e ele dizendo a Promessa Escoteira sem errar.  Lembrou ali na ferradura quando entrou na tropa. O abraço do Chefe, do Monitor e de todos os patrulheiros da Gavião. Era novo para ele estas provas de amizade. Nunca tinha visto. Diziam que os escoteiros são fraternos. No primeiro acampamento ele sentiu a verdadeira felicidade de viver como um herói das selvas. Aprendeu rápido. Até como cozinheiro ele uma vez ajudou.

                 Quando começou na Patrulha Gavião o batizaram como Lord Jim. Seu nome era Stefano. Gostou do apelido. Quando leu que Baden Powell também foi Lord seu orgulho mudou para melhor. Agora seu sonho era outro. A Segunda Classe. Não foi difícil. Em um ano e meio conseguiu. Melhor ainda a recebeu em uma noite de lua cheia, no Acampamento das Vertentes, acendendo o fogo do conselho com um palito e pulando as chamas três vezes para receber seu nome de guerra. Apesar de que a tradição rezava ser um nome indígena ele pediu para continuar sendo Lord Jim. Seu Monitor o abraçou. Todos deram um enorme grito de guerra da tropa. – Viva Lord Jim! O Chefe Maílson entregou a Segunda Classe e ele se derreteu todo. Não perdia um acampamento, nenhuma excursão. Era um dos primeiros a chegar à sede para as reuniões. Não tinha sonhos de ser Monitor, seu sonho agora era ser um Primeira Classe. Os cordões claro estavam vivos nestes sonhos.

                 As provas foram feitas paulatinamente. Recebeu do seu Monitor como deveria ser e as datas. Ele mesmo procurou o Capitão Lamartine dos bombeiros para que aprendesse a prova das especialidades de Bombeiro e Socorrista. Acampador tirou facilmente. Em dois anos na tropa já tinha mais de trinta noites de acampamento. Comprou um caderno de duzentas folhas e ali anotava tudo. Datas, onde, quando, tempo e as partes importantes que lá aconteceram. Agora estava se preparando para a jornada. Era a apoteose. Todos que fizeram eram respeitados e até endeusados na tropa. Todos queriam ouvir os contos aventureiros da jornada. Aprendeu a ler mapas, tirava de letra os pontos cardeais, colaterais e sub. colaterais, sabia o que era azimute, graus, aprendeu com facilidade a fazer um esboço de Giwell e seu passo Escoteiro e passo duplo eram perfeitos. Nunca em tempo algum ele errou no seu passo duplo. A quilometragem não tinha erros. 

               O dia da jornada chegou. Ele e Levegildo que ele mesmo convidou partiram rumo ao Vale do Roncador. Não conhecia, nunca tinha ido lá. O Chefe e o Assistente distrital Escoteiro tinham conversado antes. Um ônibus o levou até a estradinha do Sitio do Marcondes. Sua mochila estava perfeita. Nada de mais nada de menos. O farnel o de sempre. Um macarrão, uma batata, um arroz, sal, alho e um vidrinho de gordura. Sabão e mais nada. Não estava pesada. Queria levar a velha Silva de guerra, mas os seniores estavam com ela. Sobrou uma Prismática. Tudo bem. Ele a dominava com perfeição. Na porteira abriram o mapa. Na mosca. Era ali mesmo. Ele contava os passos e Levegildo anotava o que via por ali. Dois pintassilgos, um Anu do Brejo, beija flores voando longe, dois macaquinhos pregos no pé de Jaca.

                Às seis e meia da tarde chegaram ao sitio do Marcondes. Não havia duvida. Duvida ouve na senhora que os recebeu. Parecia que não sabia o que eles queriam, mas disse que eles poderiam usar o riacho e acampar a vontade. Uma sopa deliciosa, lavar vasilhame, limpar bem a barraca para evitar animais peçonhentos, e após uma vista no relatório e uma oração foram dormir. Levantaram cedo. Um café, biscoitos nova arrumação e pé na taboa. Agradeceram à senhora e partiram. Sabiam que deviam atravessar a Mata do Canarinho, mas disseram que não eram mais de quatro quilômetros dentro dela.  Engano. Meio dia, uma hora e não saiam de dentro da mata. Voltaram. Foram até o sitio. Perguntaram. O mapa não ajudava. A senhora disse que eles erraram, se voltassem pela serra eles veriam o caminho.

              Duas da tarde. Combinaram de chegar à sede às cinco da tarde. Isto se o ônibus não atrasasse. Agora sim o caminho estava correto. O mapa voltou a funcionar. Só às sete da noite chegaram ao ponto de ônibus. Demorou. Chegaram à sede as onze da noite. O Chefe Maílson preocupado. O Assistente distrital não quis esperar. Foi embora. Disse que não daria a prova. Se não tem responsabilidade com horários não merecem a Primeira Classe, disse. Dito e feito. Foram reprovados. Lord Jim não chorou e nem desistiu. Ele tinha têmpera de escoteiro. Seis meses depois repetiu a jornada. Desta vez conseguiu fazer tudo no horário. Lord Jim fez do seu sonho realidade. Pediu ao Chefe Maílson para que o distintivo fosse entregue também no Fogo de Conselho. Claro que sim o Chefe disse.


             Noite escura, trovões, o fogo aceso. O Chefe queria voltar para o campo. Começou a cair uma chuva torrencial. Lord Jim chorou. Preciso receber agora Chefe! Não posso esperar outro acampamento. Terei feito quinze anos e serei Sênior! A chuva caia aos borbotões. A tropa ficou de pé. Em posição de sentido. Trovões ribombavam pelo ar. Lord Jim ali em pé em frente ao Chefe. Era mesmo um vendaval dos bons. O vento soprava forte. Mino o Monitor colocou a mão no seu ombro. - Você está pronto Lord Jim? Sim ele disse. O Chefe entregou o distintivo de Primeira Classe. Refez a promessa. Deu um enorme sorriso. Um raio assustador atravessou os céus. A luz que ele produziu mostraram um rosto de um Escoteiro orgulhoso e valente. Agora era um Primeira Classe! Agora tinha muitas histórias para contar! Com ribombos e assombros da chuva que caia intermitente, a tropa ainda em posição de sentido cantou o Rataplã. Todo o hino. A selva recebia com orgulho aquela chuva intermitente e o cantarolar dos escoteiros! Ah! Sonhos! Como é bom sonhar e os ver realizados. Viva Lord Jim. O Escoteiro Primeira Classe!  

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

As névoas brancas do Rio Formoso.


Lendas escoteiras.
As névoas brancas do Rio Formoso.

O nada é a profecia da minha partida
o tudo é sopro que busca aquiescer
sou uma cor do arco-iris... Perdida
o lume solar na gota de chuva a correr
para beijar a névoa que deita escondida
a deleitar-se nos braços do amanhecer
Cellina


                      Faz muito, muito tempo quando a nossa Patrulha Sênior descobriu as lindas e espetaculares cachoeiras do Rio Formoso. Eram incrivelmente belas. Ainda sem rastros humanos. Pensei comigo que precisava acampar ali. Três quedas simultâneas, um som imperdível das cataratas caindo sobre as pedras e dando outro salto no espaço. Em volta uma floresta ainda inóspita. A névoa se formava a qualquer hora do dia. Uma visão fantástica. Quando vi pela primeira vez eu estava com meus quinze quase entrando nos dezesseis anos. Descobrimos por acaso. Uma jornada até o Serrado do Gavião onde existiam milhões de Folhas Secas. Um terreno vazio, sem árvores e muitas folhas. Era um mistério saber de onde vinham. Soubemos da história. Vamos lá disse o Romildo. Patrulha Sênior, cheia de ardor, procurando aventuras, vontade de enfrentar desafios e nada como descobrir. Está no sangue dos seniores.

                    O caminho iniciava na Mata do Tenente, famosa porque uma tropa do exército ficou vinte dias perdidos nela. Saíram com dificuldade, fracos e quase morreram. Bem, eles não eram escoteiros como nós. Risos. A mata não era um obstáculo e o rio também não. Dava para andar bem nas suas margens. Com quatro horas de viagem, vimos uma bruma cinza que se espraiava no ar. A mata parecia que estava sendo tomada pelas chamas. Que seria? O ribombar da cachoeira nos fez estremecer. Um espetáculo magnifico. Incrivelmente fantástico! A cachoeira formava redemoinhos no ar. Uma nuvem de vapor cobria certas partes da queda d’água. Os pássaros se deleitavam. Voavam de supimpa naqueles redemoinhos e saiam do outro lado molhados como se estivessem sorrindo. Não entendemos o porquê da névoa. O Rio Formoso era todo formado por quedas de diversos tamanhos e na falta delas, as corredeiras davam outro brilho aquele magnífico rio. Quem o batizou deveria ter sonhado muito com coisas belas, pois o Rio era formoso e um grande espetáculo.

                    Pretendíamos chegar ao Serrado do Gavião ainda naquela tarde e se não parássemos nossa jornada seria cumprida. No entanto o espetáculo a cachoeira nos hipnotizava. Sentamos numa pedra próxima e os barulhos das quedas d’água eram tão intensos que mal dava para conversarmos. O ribombar das águas batendo nas pedras eram imensos.  Romildo o Monitor levantou e fez o sinal. Mochilas as costas. Fomos em frente. Com tristeza, pois sabíamos que na volta o caminho não seria o mesmo. Voltaríamos pela Mata do Peixoto já conhecida. Subimos as pedras, olhamos novamente, pois íamos embrenhar na mata longe do Rio Formoso. Impossível prosseguir. Aquela cachoeira nos hipnotizou. Parecia dizer para nós que não podíamos deixá-la sozinha na noite que estava por vir. Paramos. Um círculo de seis seniores se formou. Ir ou parar? Seis votos a favor, nenhum contra. Todos escolheram e Romildo aceitou. Escolhemos um local próximo à primeira queda para pernoitar. Não armamos barracas. Iriamos dormir sob as estrelas em pedras lisas que as enchentes do Rio Formoso nos reservaram. Sem sinal de chuva. “Vermelho ao sol por, delicia do pastor”. A noite chegou um jantarzinho gostoso foi servido pelo nosso cozinheiro. Fumanchu. Comemos ali mesmo olhando para as quedas no lusco fusco da tarde. Um espetáculo maravilhoso. Era uma visão dos Deuses.

                   Ficamos horas e horas sem conversar. O barulho era imenso. Cada um de nós meditava as maravilhas que nos são reservadas pelo Mestre. A noite chegou de mansinho, o espetáculo maior ainda estava por vir. Uma bruma em forma de nevoa branca foi tomando conta onde estávamos e penetrando na mata calmamente. Ainda mudos. Cada um olhando. Aqui e ali um canto de um gavião procurando seu ninho. Um Tuiuiú posou próximo a nós. Sabíamos que ele iria cantar para chamar sua femea. Não deu para ouvir. O ribombar da cachoeira não deixava. Israel acendeu um fogo. Pequeno. As chamas se misturavam com a névoa branca. Raios vermelhos das chamas ultrapassaram a nevoa. Que espetáculo! Sabia que isto nos marcaria para sempre. Na névoa se formou um céu colorido como se fossem milhares de arco íris noturnos. Ninguém queria falar. Ninguém falou em dormir. Não sei quanto tempo ali ficamos. Estávamos como encantados por uma feiticeira da selva que perdida no tempo  nos inebriou naquela névoa e nos fez esquecer-se de quem éramos.

                   Acordei de madrugada. Amanhecendo. O rosto molhado com o orvalho que caia da bruma branca. Ela nos fez companhia toda a noite. Cada um foi levantando. Arrumamos nossa tralha. Comemos uns biscoitos de polvilho. Olhamos pela última vez aquelas quedas que nos levou sem saber a um paraíso perdido daquele rio que chamavam de Formoso. Calados e mochilas as costas nos pomos em marcha. Alguém olhou para trás, a névoa branca se dissipava. Deu para ver centenas de pássaros se molhando nos respingos da cascata imensa. Durante horas ninguém falou. Sempre olhando para trás. Somente o pequeno trovejar ainda se ouvia das quedas que já haviam desaparecido no horizonte. Nunca mais voltei lá. Ninguém de nós voltou. Passaram uma cerca de “arame farpado” em tudo. O homem só o homem resolvia quem entra e quem sai. Já não havia mais a natureza, pois foi substituída pelos desmandos do ser humano. Aquele que mesmo chegando depois dela, diz arrogantemente: “sou o dono da terra, dono da natureza”.

♫ “Põe tuas mágoas bem no fundo do bornal e sorri”!
O que importa é vencer o mal, mantenha sua alegria,
“Não importa você se zangar, pois o mal vai acabar”! ♫


Quanto ao Serrado do Gavião é outra historia. Não deixou tantas saudades como as Névoas brancas do Rio Formoso.