No mundo dos sonhos com as fábulas escoteiras

No mundo dos sonhos com as fábulas escoteiras
A aventura está apenas começando

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

“Lucy”



“Lucy”

                  Era uma amizade que diziam ser para sempre. Na Matilha Verde havia uma química entre elas. A conta de telefone sempre alta. – Lucy! Precisamos economizar! – Um dia a mãe de Lucy desistiu. Nas reuniões de Alcatéia conversavam o tempo todo. Os chefes compreensivos procuravam entender. Receberam o Cruzeiro do Sul no mesmo dia. A passagem por insistência também foi feita com ambas. Exigiram ficar na mesma patrulha. Os Leopardos tiveram seu momento de glória. Elas deram nova vida à patrulha. Aos quinze passaram para os seniores. Foi difícil ficar na mesma patrulha, pois eram duas e ambas com seis. Uma não poderia ficar com oito, seria desproporcional. Isto não impedia a conversa, os sorrisos, os causos e os segredos que duas moçoilas contavam da vida. Faziam planos para o futuro. Ambas diziam que não iriam casar. Seriam amigas para sempre.

                    Mirtes se apaixonou. Lucy viu o distanciamento. Chorava e pensava que não queria perder a amiga. Encontravam-se agora fora das reuniões poucas vezes. Lucy sentia falta, muita falta. Nas reuniões o sol para ambas não era o mesmo. Não esqueciam os momentos felizes, os acampamentos, os fogos de conselho e principalmente a excursão em Lagoa dos Mares. A lua ajudou, as estrelas deram nova conotação. – Um dia vou morar em uma estrela – Lucy riu. Eu também. Quero sentar em uma ponta brilhante e ver um cometa passar. – Eu não, quero fazer dela minha morada, meu transporte e viajar pelo cosmos conhecer um buraco negro e ir até onde ninguém até hoje foi. As duas riam e contavam suas ilusões seus pensamentos seus sonhos.


                      - Ele quer que eu saia. Disse- sem meias palavras – Ou o escotismo ou eu! Não posso viver sem ele. O amo demais e não tenho como escolher. – Lucy viu a partida de sua amiga e chorou por dias e dias. Ninguém nas patrulhas comentou. Parece que sua falta não era sentida. Ela tinha medo, muito medo de se apaixonar. Medo de ter de decidir entre um e outro. O que diria? Qual ação tomar? Conheceu Miguel, se apaixonou. Era compreensivo, muito mais amigo que um amante. A vida sempre nos coloca em nossa frente várias opções. A escolha é livre, mas, uma vez feita à opção, cessa nossa liberdade e somos forçados a recolher as consequências. Após a reunião ele estava à espera. Nem entrar entrava. Dizia não se sentir bem. De mãos dadas saíram a caminhar. Ela então ouviu o que nunca queria ouvir. Sempre pedia a Deus para isto não acontecer. – “Escolha, ou o escotismo ou eu”...

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

“Amâncio”.


“Amâncio”.

                 Olhou para seu monitor e pensou em dar uma resposta à altura. Eram da mesma idade e Torpedo só mandava e nada fazia. Deu para empurrar a patrulha quando em fila. O jogou no chão algumas vezes. Fervia de raiva. Porque aceitar aquilo? Prometeu a si mesmo sair depois do acampamento em Aguas Formosas. Sonhava com ele. Um ano de preparação. Perder tudo que criou na sua mente? E o Ninho de Águia? E a Ponte Pênsil? Treinou amarras, costuras, desenhou. Deixar tudo para trás? Será que o Chefe não via as ações de Torpedo? Porque aceitar um monitor sem qualidades, mandão, déspota, prepotente a “comandar” uma patrulha que nunca iria aprender a andar com suas próprias pernas dirigidas por um monitor sem formação?

                  Foi para casa pensando o que fazer. Quantos entraram na patrulha e sairiam? Há dois anos quando entrou a patrulha tinha sete, Torpedo entrou e saíram tantos que agora só tinham quatro e olhe que mais de oito entraram depois. Uma conta que não fecha. Resolveu falar de homem para homem. Foi à casa de torpedo. Ficou horrorizado com o que viu. Seu padrasto com uma correia na mão lhe aplicava a maior surra. Sua mãe corria pedindo perdão. Torpedo chorava e gritava. A patrulha policial chegou. Levou o Padrasto de Torpedo. Sua mãe o levou para o hospital, pois estava todo machucado.


                 Chegou ao sábado na sede e abraçou Torpedo. Este espantado não sabia o que dizer. Amâncio sorriu. – Torpedo, a amizade desenvolve a felicidade e reduz o sofrimento. Duplica a nossa alegria quando dividimos a nossa dor. Torpedo sorriu e abraçou forte Amâncio. Ficaram amigos para todo o sempre!

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

“Tininha”


“Tininha”

                  Abriu os olhos lentamente. Tateou com sua mão direita procurando Fofinho seu ursinho de estimação. Nada! – olhou para o lado e viu Betinha sua amiga lobinha deitada ao seu lado. Levantou a cabeça e se assustou. Não era seu quarto. Olhou para a porta de lona esperando sua mãe entrar para dizer que estava na hora da escola. Sua Mamãe não entrou. Ouviu uma voz conhecida gritando Lobo, Lobo, Lobo! Levantar com este frio? Nem morta. Virou para o lado e tentou dormir mais. Sua mente passeava. Onde estava? O que fazia ali? Dormia em uma barraca e nunca dormiu assim. Sorriu, era diferente era bom demais. Sabia que gostava. Lembrou que era Lobinha e as lobinhas são espertas, obedientes e disciplinadas. Será que tinha de lavar o rosto e escovar os dentes como sua mãe fazia quando acordava?

                  Outra vez o mesmo grito. Desta vez mais forte. Lobo, Lobo, Lobo! Levantou. Betinha acordou e olhou para fora da barraca. Já é hora? Tininha sorriu. Saiu devagar da barraca, um frio de rachar. Pegou sua blusa de frio. A Alcatéia se formava, mas faltavam muitos que ainda dormiam. O Balu e a Bagheera iam de barraca em barraca. Tininha sorriu. Foi à primeira vez que dormiu em uma barraca de pano. Acantonou antes, mas dormiram em um quarto bagunçado de tantos lobinhos. Gostava. Divertia-se, se sentia bem com as outras lobinhas. A Akelá era simpática, o Balu fazia cara de feroz, mas logo em seguida dava uma boa gargalhada. Bagueera era mãe, pai, tia e avó. Olhou para o céu e viu o sol chegando. Olhou para a Akelá e ela sorria.


                      Sabia que seria mais um dia divertido. Correu a formar. O dia passou e ela nem se lembrou da mamãe, do papai e do Fredinho seu irmão e do seu urso Fofinho. Quantos dias ainda estaria ali? Não sabia, não importava, amava muito tudo isto. Na matilha Azul ouviu um trinar de um passarinho. Olhou e ele estava em um galho próximo cantando. O mundo sorria, Tininha sorria, a Akelá sorria. Isto era bom demais. Sabia que seria uma Lobinha da selva de Mowgly para sempre. – Melhor Possivel Akelá!  

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

“Tonho”


“Tonho”

                     Na janela olhava os passantes sem falar. Sua mente corria solta tentando costurar os erros e acertos de sua vida. A conversa com Tico foi à gota. Não foi a primeira e sabia que não seria a última. – Chefe, Prisco meu amigo que é Escoteiro no outro grupo me disse que sou pirata. Perguntei a ele o que significava – Ele disse que o Chefe dele dizia que éramos intrusos e não tínhamos direitos. Tentou me convencer a passar para eles. – O que fazer quando um Escoteiro seu diz isto para você? Outras vezes um ou outro que não sabiam das diferenças perguntavam: - Chefe, porque não podemos participar das atividades e acampamento deles? – Afinal não somos todos irmãos? – Seria sua culpa? Tinha sido Escoteiro, fez uma promessa, amava a seu modo o movimento. Admirava o método do fundador. Agora adulto resolveu fazer uma Tropa. Uma experiência, sem a estrutura de um Grupo Escoteiro. As exigências para iniciar não o agradaram. O registro mais ainda. Soube que as normas eram cobradas para tudo.

                    Não tinha diretores. Para dar uma satisfação convidou a mãe de Ricardo uma simples lavadeira para ser a presidente. A Tropa cresceu. Dois anos e agora estavam completos. Vinte e oito escoteiros. Menos de um ou dois saiam por ano. A procura enorme. Não queria quantidade e sim fazer o escotismo que acreditava. Confiava nos monitores, às patrulhas saiam sozinhas, acampavam sozinhas. Dar responsabilidade era sua maneira de ver a formação escoteira. Fora assim com ele. Quando Juvenal o procurou para dizer que ia organizar um Grupo filiado a Direção Nacional ele o parabenizou. – Precisamos de mais escoteiros disse. Mas não foi bem assim. Exigiram de Juvenal o distanciamento. Ele queria fraternidade e encontrou animosidade. Os meninos de um e outro se conheciam, mas na farda eram desiguais. Agora eram piratas, ameaçados de extinção, diziam que seriam levados as barras dos tribunais.


                   Ouviu ao longe o cantar do Hino Rataplã. Eram os Touros chegando do acampamento. O povo da cidade aplaudia. Os escoteiros com suas mochilas, tralhas e carrocinha de peito estufado marchavam com garbo. Pararam em frente sua janela – Sempre Alerta Chefe! Patrulha Touro se apresentado após o acampamento! – Sorriu. As preocupações ficaram para trás. Ele sabia que formava meninos para serem o futuro da nação. O escotismo não tinha dono era de todos. – Sempre Alerta Touros! Parabéns! Estou orgulhoso de vocês!         

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

“Lorenzo”


“Lorenzo”

                  Você me pede para ser Escoteiro. Conta uma parte da sua vida e por isto não acredita em nenhuma religião. Diz para mim que fará tudo que eu pedir, mas que seja liberado da promessa, pois não irá prometer algum que não acredita. Você me confirma que é um humanista e agnóstico, que não pode provar que Deus existe e que suspeita que ele não exista e por isto não quer perder tempo em pensar em religião. Ri e me repete que duas mãos trabalhado fazem mais que milhares unidas rezando. Eu disse a você que seria bem vindo, mesmo que pensasse assim. Pedi para virem teus pais e você se recusou. Disse que eles não pensam como você e que com seus dezesseis anos já é dono de sua vida. Não quis formar opinião e nem discutir religião. Você desde o início dizia que não teme morrer e ir para o inferno ou quem sabe o Paraíso. Confirma que a morte seja um nada e por isto remove todos os medos possíveis da morte. Sorri dizendo que és muito agradecido ao ateísmo.

                    Eu fiquei calado ouvindo você, pensei comigo como seria sua participação junto aos seus companheiros, se aceitaria a fé que eles têm ou sublevaria para mostrar que a fé não existe. Pensei em dizer se você nas reuniões todos orando como se sentiria sozinho sem rezar? Iria respeitar ou iria sorrir? Pensei na sua promessa assistida por todos você dizendo: Prometo fazer o melhor possivel para... Sem Deus? Pensei como seria sua vivencia na natureza, prova viva da criação vendo as formigas, as borboletas coloridas, os beija flores e o cantar dos pássaros se eles também seriam como você. Não existe o outro lado o outro lado é aqui. O que diria quando sua patrulha no alto da montanha visse um lindo por do sol e alguns iriam fazer uma circunflexão e dizer obrigado senhor por ter deixado que eu veja sua grande criação. Até pensei em um santo que dizia: - Nenhum homem diz “Deus não existe”, a não ser aquele que têm interesse em que Ele não exista!

                    Você foi embora, tentou se explicar, mas desistiu. Fiquei tristonho, queria você Escoteiro, queria ter mais um irmão, mas você seria o único, eu e você sabíamos que não ficaria a vontade com alguém que pensa diferente de você.

Sujeito que clama e berra. Contra a vida a que se agarra,
Vive em perene algazarra, colado aos brejais da terra.
Do raciocínio faz garra, com que à verdade faz guerra,
Na desdita em que se aferra à ilusão em que se amarra.

De mente sempre na birra. Ouve a ambição que lhe acirra
A paixão que o liga à burra. Mas a luz divina jorra

E a vida ganha a desforra na morte que o pega e surra.

“Nina”


“Nina”

                   Não foi Lobinha. Entrou por causa de Marly. No inicio adorava. Tinha sonhos, queria acampar, excursionar tudo aquilo que sua Avó Maninha lhe contou. Entregou-se de corpo e alma. Que o sol queimasse que a tempestade caísse dos céus. Se o frio era de rachar ela sorria. Seguiu a trilha que lhe ensinaram. O que fazia virou paixão. Um amor profundo aquela filosofia que amava. Dizia para si que seria escoteira para sempre. Queria fazer tudo, estar em todos os lugares, conquistar milhões de amigos. Sorria e chorava nos fogos de conselho. Seu pai morreu de câncer. Nunca pensou que isto iria doer tanto. O amava tal qual o escotismo, mas muito mais.

                    Chorou pelos cantos da casa dia e noite e não conseguia esquecer. Perguntou a Deus o que tinha feito para perder alguém que amava tanto. Não tinha resposta. Pensou em deixar o Movimento Escoteiro. Sem seu pai para contar suas aventuras, seus amores, suas dores, suas paixões pelo sol quando se despedia nas tardes quentes, ou quando abria a porta da barraca e ele entrava sem pedir agora não tinha mais o sabor do passado. Abriu um livro que estava na mesa. Nas primeiras páginas estava escrito: Ama e faz o que quiseres. Se calares, calarás com amor. Se gritares, gritarás com amor. Se corrigires corrigirás com amor. Se perdoares, perdoarás com amor. Se tiveres o amor enraizado em ti, nenhuma coisa senão o amor serão teus frutos. Santo Agostinho.


            Olhou para o céu, sabia que seu pai aplaudia onde estivesse. Vestiu seu uniforme. Partiu rumo ao escotismo e seus amigos. A paz voltou a morar em seu coração. Ter fé é acreditar naquilo que você não vê. A recompensa por essa fé é ver aquilo em que você acredita!

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Na beira do caminho tinha uma flor, tinha uma flor na beira do caminho.


Hora de dormir, amanhã é outro dia.
Na beira do caminho tinha uma flor, tinha uma flor na beira do caminho.

                             Era um sol do meio dia. Quente, fervendo o sangue do Escoteiro caminhante. Mal dava para olhar a frente de tão quente... O chapéu de abas largas tentava segurar os raios solares. A camisa ensopada. Ele pensou em tirar o lenço e a camisa. Ficar com a camiseta que estava por baixo. Mas esqueceu desta vontade. Aprendeu a andar uniformizado onde fosse. Não importa se tinha alguém a vê-lo ou não. Há horas esperava encontrar uma arvore frondosa, a beira do caminho. Nada. A estrada era de terra e quase não cabiam dois veículos passando um pelo outro. Ele sabia que ainda tinha chão para percorrer. Não fora com sua patrulha pela manhã. Prova de matemática. Um mais dois cinco mais oito e ele aprendeu a tabuada assim nas jornadas da vida. Agora não. Não calculava a soma divisão ou a multiplicação. Precisava parar para descansar, mas e a árvore frondosa que não aparecia?

                            Tirou seu cantil e bebeu dois goles. Não mais. Ele não sabia quanto tempo de caminhada ainda tinha para encontrar um riacho. Ali era impossível. Tudo estava seco, nem o verde do campo se via. O chão do caminho era terra pura e vermelha. Se chovesse valha-me Deus o barro que formaria. Um, dois, quatro seis quilômetros de pé no chão. Sua mochila pesava. Ele estava acostumado. Bastava encontrar uma árvore frondosa, apenas um cochilo e ele andaria outros seis se necessário. E os pássaros? Ele não via nenhum. Naquele sol escaldante nem pássaro se arriscaria a voar pelos céus. Ele passou por ela. Na beira do caminho. Nem reparou. O sol não deixava. O chapéu quebrando a testa para esconder o calor e a claridade escondia as belezas que não existiam na beira do caminho.

                           Andou alguns passos e parou. Sua mente tinha gravado a flor na beira do caminho. Pensou o que seria e a mente o obrigou a lembrar. Voltou-se calmamente e a viu... Linda, vermelha, quase do tamanho de uma rosa. Mas não era uma rosa. Somente ela com sua planta a segurar como se fosse cair com o peso. Não havia vento, ela não se mexia. Mas era linda. A mais linda flor que ele tinha visto. Deu meia volta até a flor na beira do caminho. Quem pensaria que na beira do caminho tinha uma flor? Verdade, mas na beira do caminho tinha uma flor. Ficou de frente a ela. Viu que ela sorria e não se importava com os raios de sol que não penetravam nas suas pétalas. Tirou sua mochila e se agachou em frente a ela. Um perfume suave percorreu suas narinas. Gostoso, delicioso. Agradável de cheirar. Era um balsamo para manter o corpo firme. Aquela sublime fragrância jogava todo seu perfume no Escoteiro que caminhava no sol do caminho.

                       Ficou ali estático por minutos que se transformaram em horas. Ela a flor na beira do caminho o hipnotizava. Ele precisar seguir precisava chegar ao acampamento antes do anoitecer. Seus amigos da patrulha o esperavam. Então o sol se escondeu. Uma nuvem branca com pássaros esvoaçantes chegaram. Um vento sul começou a soprar. A flor balançou na sua planta, mas não caiu. O Escoteiro procurou um galho e o fincou junto à flor. Do seu cantil molhou a linda flor da beira do caminho. Precisava seguir adiante. O tempo não espera, e ele olhou a flor pela ultima vez. Grande, Vermelha, quase do tamanho de uma rosa. O Escoteiro partiu olhando para trás. Uma enorme tristeza o invadiu. A flor da beira do caminho balançou de um lado a outro. Como se estivesse agradecendo o que o Escoteiro fez por ela.

                         Era só uma flor, uma flor vermelha linda a beira do caminho. E ele viu que na beira do caminho tinha uma flor, tinha uma flor na beira do caminho, tinha uma flor, no meio do caminho tinha uma flor...
(Baseado no poema de Drummond – No meio do caminho tinha uma pedra.).


Boa noite meus amigos e minhas amigas. Uma noite linda e sonhos maravilhosos. Durmam com Deus.