No mundo dos sonhos com as fábulas escoteiras

No mundo dos sonhos com as fábulas escoteiras
A aventura está apenas começando

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Quando os destinos decidem o caminho a seguir.


Lendas Escoteiras.
Quando os destinos decidem o caminho a seguir.

             Eles se conheceram no Grupo Escoteiro Montanhas da Lua. No inicio quase não se falavam. Paulo era um Chefe entusiasta, vivia na tropa como se fosse um dos meninos de patrulha. Todos o adoravam. Ele fazia questão de dar o exemplo. Mesmo solteiro era homem honrado e trabalhador. Muitas vezes acreditou nas palavras dos meninos e nunca negou a nenhuma patrulha que fizessem atividade sem a presença do Chefe. Ele aprendeu a confiar. Sabia que quando fizesse um jogo onde não se poderia ver não precisava de venda. Se o Escoteiro ou a Escoteira disse que podia confiar e se completasse dizendo a palavra de Escoteiro ele sabia que ali tinha honra, tinha lealdade, tinha palavra. Ele fazia questão de aplicar o sistema de patrulhas corretamente. Quando começou viu a tropa com poucos jovens. Seis meninas, sete Escoteiros. Em menos de um ano as patrulhas estavam completas. Ele adorava isto, fazer atividades Escoteiras com uma tropa bem preparada, onde podia se dizer que não havia amadores era muito bom.

               Marlene nem sabia por que entrou para a Alcateia. Não conhecia ninguém. Um dia passou pela sede rumo à padaria do bairro. Viu olhou, entrou e gostou. Resolveu participar. Foi aceita, pois tinham poucos voluntários. A Alcateia cresceu, ela adorava os lobinhos. Entraram mais duas assistentes. Não conhecia o movimento e agora aprendia depressa. Notou a presença de Paulo na tropa. Ficaram amigos, mas só dentro do escotismo. Ele era simpático e educado. Nonato o Diretor Técnico um dia convidou a todos os chefes para passarem em sua casa, beberem um refrigerante, e comerem um churrasco. Sua esposa fazia aniversário. Não eram muitos, mas com a diretoria havia pelo menos uns quinze participantes. Marlene e Paulo sem perceber ficaram horas conversando. Descobriram que tinham muito em comum. O namoro teve efeito duradouro. O noivado não demorou. Casaram-se numa tarde de sábado na igreja São Pedro com as bênçãos do Padre Wolflang. Um alemão abrasileirado que adorava os Escoteiros, pois foi um em Aldenhoven cidade em que nasceu na Alemanha.

                   Paulo amava Marlene que amava Paulo. Todos diziam que era difícil ter um casal assim. Iam para as reuniões de uniforme a pé de mãos dadas. A vizinhança adorava os dois. Quando Paulo pediu a Akelá para liberar Marlene para a tropa ouve um susto, mas todos acharam que era direito. Afinal a Tropa Escoteira tinha dez meninas e só o Paulo como Chefe não era direito. Um belo dia Paulo chegou do trabalho e recebeu a noticia que sempre sonhou – Vamos ter um filho! Ele sorriu de orelha a orelha. Ser pai era seu sonho. Pediu para Marlene que não fizesse o exame para saber se seria menino ou menina. Ele gostaria de saber quando nascesse. Ela concordou. Todo diziam que era menino e ou menina. Não havia unanimidade. Dizem que todo parto se culmina à noite ou de madrugada. Em Três Ranchos havia um pequeno posto de saúde com um medico. Ela fez o pré-natal em Valverde, oitenta quilômetros de estrada ruim e cheia de buracos. Ia lá duas vezes por mês. O Hospital Santa Cecilia tinha boas condições para parto.

                   Nos meses de espera, não se preocuparam com nomes. – Quando chegar a hora vamos escolher dizia Paulo. Dito e feito, duas da manhã de terça começaram as contrações. Dona Epifania parteira achou melhor irem imediatamente para Valverde. Paulo preparou o mais que pode seu fusquinha. Foram em quatro, ele Dona Epifania, José de Arimatéia seu vizinho e amigo. Nem saíram da cidade caiu um enorme temporal. Paulo dirigia devagar, preocupado e esperançoso. Sorria em pensar que poderia ser um menino. Devia ser bom ter um filho homem pensava. Marlene sonhava com uma menina, ela queria ter uma, pois em sua família só havia homens. O carro derrapou e bateu em uma árvore. Ninguém se machucou. Marlene viu suas contrações aumentarem. Dona Epifania disse que não dava para fazer o parto ali – “O menino tá virado Chefe”! Ela disse. Paulo fechou os olhos sem saber o que fazer. Ele era um Escoteiro, tinha iniciativa, mas e agora? O que fazer? O Fusca não ligava e ele não tinha ideia de como proceder.

               Paulo começou a ficar desesperado. Rezava pedindo a Deus que não lhe tirasse seu filho e Marlene. José de Arimatéia disse que ele ia até a fazenda do Coronel Totonho. – Eu sei que ele tem uma charrete lonada. Vai me emprestar tenho certeza. Sumiu na trilha rumo à fazenda debaixo daquele mundaréu d’água. Duas horas depois chegou com a charrete. Ainda tinham mais de quarenta quilômetros a percorrer. A chuva caia aos borbotões. Marlene sofria, mas não dizia nada. Matinha um tênue sorriso e não reclamava dos solavancos da charrete na estrada. Menos de doze quilômetros para chegar e eis que a estrada estava fechada por um enorme barreira. Houve um desmoronamento. Não havia como passar. De novo José de Arimatéia pôs mãos à obra. Derrubou a cerca de arame farpado. Paulo o ajudou. Não foi fácil não tinham ferramentas. Uma hora depois e o dia clareando conseguiram atravessar o pasto cheio d’água e muitas vezes com a charrete atolando. Às seis da manhã chegaram ao hospital e não havia médicos!

           Paulo carregou Marlene no colo, pois ela parecia ter desmaiado. Pediu o telefone a atendente e ela se negou. José de Arimatéia pulou o balcão e deu o telefone para Paulo que ligou para Adalberto, um Chefe Escoteiro de lá. Às nove da manhã a rua do hospital estava cheia de Escoteiros. Faixas e cartazes diziam – Onde está o medico? Onde está a prestação de serviço do hospital de nossa cidade? Uma patrulha Senior foi até a casa do prefeito. Outra atrás do delegado. Dez e meia chegou um medico correndo. Onze e meia o parto foi realizado. Paulo nervoso não sabia o que fazer. Junto a ele o seu grande amigo que o salvou José de Arimatéia o abraçava. Dezenas de chefes da cidade dando a força que ele precisa. Um médico chegou com cara de quem não quer nada – Quem é o Senhor Paulo? – Sou eu, ele disse. Venha comigo, por favor. Precisamos conversar – Um silêncio enorme. Todos pensavam a mesma coisa. O pior aconteceu!


           Um minuto depois Paulo entrou na recepção gritando. Nasceu! Nasceram gêmeos, um menino e uma menina, Marlene está sorrindo de felicidade! Os gêmeos foram batizados em maio na Igreja de São Pedro sob as bênçãos do Padre Wolflang. A história do nascimento dos gêmeos foi contada por muitos e muitos anos. José de Arimatéia foi padrinho dos dois, de Nany e Nando. Tem histórias de finais tristes e de finais felizes. Esta eu sei que a felicidade graças a Deus existiu. Uma viagem que acredito nenhuma jovem esperando um filho pode passar. Dizem que nos finais de todos os contos se diz que eles foram felizes para sempre. Foram mesmo. A família de Paulo e Marlene sempre foram o casal mais feliz de Três Ranchos. Pode haver outros, mas escoteiramente falando eles tinham o sorriso do tamanho do coração Escoteiro que possuíam.

domingo, 18 de janeiro de 2015

A morada da felicidade existe entre o céu e a terra.


Lendas Escoteiras.
A morada da felicidade existe entre o céu e a terra.

                  Um silêncio sepulcral na sala de aula. Se entrasse uma mosca pela janela seria como o barulho de um avião levantando voo. Dona Nena de olhos semi-serrados em sua mesa lia um livro comum. Os meninos e meninas calados fazendo uma redação. “Como evitar Escorpiões”. Ela tinha dado uma aula sobre o tema. De vez em quando passava os olhos pela sala. Uma austeridade que era reconhecida em toda cidade. Seus ex-alunos tremiam quando encontravam com ela. Um grito estridente assustou todo mundo – Escorpiões na sala. Corram! Uma correria e uma gritaria sem fim. Dona Nena também assustou. Viu que a sala esvaziou em segundos. Olhou de novo. Só Ruanito sentado, compenetrado fazendo a redação. Dona Nena o pegou pelas orelhas e o levou ao Diretor. Não era a primeira vez.

                 Aniversário da cidade. Na praça um enorme palanque. Várias festividades programadas. O Prefeito Paredes discursando. Ao seu lado Dona Eufrásia sua esposa. Muitas autoridades juntos. O povo em pé na praça. Alguém gritou alto! – Uma cobra! Uma cobra! É uma cascavel! Ela atravessava o palanque devagar rumo às escadas. Um reboliço. O delegado Marcondes esvaziou seu revolver na cobra. Pá, pá e pá! Ela não parou. Gente gritando, caindo, o palanque quebrando. Dona Eufrásia caiu sobre a multidão. Seu vestido novo subiu até as orelhas. O Povo viu tudo. Ela adorava azul com bolinhas amarelas. A multidão dá praça correndo pela Avenida Tiradentes. A praça vazia. Muitos de pernas e braços quebrados foram para o pronto socorro. Só o Zé Bedeu um bêbado ria sem parar e gritava: “Viva Ruanito, o único gente boa da cidade!”. Sentado no banco da Praça Ruanito olhava sério para tudo aquilo. Na sua mão a linha de pesca que usou para puxar a cobra morta.

              Todos sabiam que onde havia estripulias tinha a mão de Ruanito. Seu pai já fora intimado várias vezes na delegacia. Alfredão adorava o filho. Sua mulher fora internada na casa de repouso Santo Angelo há muitos anos. Diziam que ela era louca. Ele não achava. Ela só gostava de se divertir. A cidade não tinha ninguém capaz de ajudar seu filho. Naquela época falar em psiquiatras ou analistas seria um palavrão. Chefe Cleyde era assistente de Tropa. Sempre soube de Ruanito. Tinha pena dele. Um dia tentou com todos os chefes do grupo a aceitá-lo. Ninguém quis. Convenceu o Chefe Manollo a dar uma oportunidade ao menino. – Ele quer se um de nós? – Não sei disse – Se ele quiser vamos tentar por seis meses.  Ela foi a sua casa. O pai de Ruanito gostou da ideia. Ele não disse nem sim e nem não. Olhou indiferente para a Chefe Cleyde.

               Quando foi apresentado à tropa todos se assustaram. Já conheciam sua fama. Romerito era o Monitor mais antigo. Dá Patrulha Peixe Boi. Com quinze anos ainda não tinha ido para os seniores. A pedido do Chefe Manollo ficou até os dezesseis. Era considerado o guia da tropa.  Ficou responsável por Ruanito. Ele o pegou pela mão e o levou até um grande abacateiro que dava sombra no pátio onde se reuniam. – Está vendo aquela formiga? Ela está a “Escoteira” significa aquela que anda só. Você vai ficar aqui e observar quando ela encontrar uma folha e levar para sua morada. Marque o tempo e quantas vezes ela deixa cair à folha! Ruanito olhou para Romerito, olhou para a formiga e não disse nada. Sentou na grama de olho na formiga. A reunião terminou às seis e meia da tarde. Ruanito sentado. Romerito o viu quando ia saindo. Romerito foi embora. O deixou lá. Nem até logo disse. A sede vazia. Ruanito firme sentado no pé do abacateiro.

              Às duas da manhã alguém bateu na porta da casa de Romerito. Ele com sono levantou-se e ao abrir a porta viu Ruanito todo molhado. Chovia a mais de quatro horas. O mandou entrar. Foram para a cozinha onde preparou um café forte.  – “Foram doze horas, vinte e quatro minutos e trinta segundos”. A folha caiu vinte e três vezes e vinte e três vezes a formiga repetia fazendo tudo de novo. Sempre com uma nova tentativa. Pensei em ajudá-la. Mas será que serviria para ela aprender como deveria fazer? Quando ela conseguiu entrou em um buraquinho no tronco do abacateiro não apareceu mais. Romerito olhou para Ruanito. Não disse nada. Pegou dois guarda chuva e o levou até sua casa. Seu pai dormia sono solto.

             No sábado seguinte pela primeira vez Ruanito foi apresentado a Patrulha. Romerito perguntou: - Algum de vocês conseguiram seguir a formiga do abacateiro? Cada um olhou para o outro e não disseram nada. Uma prova muito difícil. Apertem a mão de Ruanito. Ele conseguiu! Os escoteiros olharam espantados. Três meses depois Ruanito fez a promessa. A tropa feliz. Muitos seniores e chefes preocupados. Chefe Cleyde acreditava na mudança. Chefe Manollo era outro que sorria. A cidade se assustou quando viu Ruanito de Uniforme andando garboso pela Avenida Tiradentes. O delegado tirou o boné da cabeça. O Prefeito veio à janela da prefeitura para vê-lo. Zé Bedeu na sua bebedeira dava risadas e gritava: - Viva Ruanito, o maior Escoteiro do Brasil!

           E assim termina a história. Aquela cidade passou a ser uma feliz morada da felicidade. Ela ficava bem ali, bem próxima entre a terra e o céu!

Boa noite a todos vocês meus amigos e amigas. Que a semana seja frutífera e cheia de felicidade. Durmam com Deus! 

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Maria Morena Escoteira que nos fez sonhar...


Lendas Escoteiras.
Maria Morena Escoteira que nos fez sonhar...

¶ Linda morena, morena, morena que me faz penar
A lua cheia que tanto brilha, não brilha tanto quanto o teu olhar.¶

              Ah! Rotina. Quanta rotina nos meus sábados Escoteiros. Não que eu não gostasse de estar lá com a meninada. Nada disto, eles para mim eram parte da minha vida, mas vai chegando momentos que a gente não se motiva, nada ajuda uma tarde modorrenta e mesmo acampando aquele “Tchan” do começo não existe mais. Vez ou outra eu me perguntava o que estava fazendo ali em Luar do Sertão. Já devia ter ido embora há muito tempo. Afinal estava solteiro vinte e cinco anos em uma cidade onde só se falava da vida dos outros, onde os velhos sentavam na praça a jogar damas, e o programa aos sábado se resumir a um baile no Clube Mediterrâneo, ou um sessão no cinema Palácios. Não podia reclamar, tinha um bom emprego no Banco do Brasil. Bem quisto e me disseram que seria um futuro gerente, pois meu trabalho era elogiado. Mas não era só isto, meus pais velhinhos não podiam ser abandonados pelo seu único filho. E os Escoteiros? Nasci lá como lobo e até hoje sou um eterno apaixonado.

¶ Tu és morena uma ótima pequena não há branco que não perca até o juízo
Onde tu passas sai às vezes bofetão toda gente faz questão do teu sorriso ¶

           Mas era só. As moçoilas de Luar do Sertão eram insossas, sem graça e até que namorei umas três, mas não deu certo. No inicio como Chefe estranhei. Queria era continuar Escoteiro, fazendo estripulias no campo, pioneirias impossíveis, descobrir novos campos campinas e montes onde eu achava que ninguém ainda conhecia. Mas o tempo foi passando, a rotina seguia seu rumo e o vento da alegria esqueceu de me dar um luar com muitas estrelas no céu. Os meninos Escoteiros da tropa estavam enfadados, já havia alguns que não apareciam sempre. Naquele sábado nem sei por que estava fazendo o jogo de feiticeiros e estátuas. Jogo chato, amolante e sem graça. Eu não gostava dele e sabia que a meninada Escoteira também não. Matias Risonho me fez um sinal – O que foi Matias? – O chefão está chamando. – De novo pensei. De vez em quando Matusalém o Diretor Técnico dava nos nervos. O cara era de doer e gostava de falar. Olhei para trás e até pensei em deixá-lo de molho por alguns minutos. Ele merecia.

¶ Teu coração é uma espécie de pensão de pensão familiar à beira-mar
Oh! Moreninha, não alugues tudo não deixe ao menos o porão pra eu morar.¶

               O que? Quem estava com ele? Quem era ela? Uma Deusa? Desceu do céu? Onde ele arrumou aquilo tudo? Uma linda morena como nunca tinha visto, linda? Não mais que isto estupenda morena. Larguei a tropa jogando e fui em passos rápidos até ela. Ela sorria para mim, meu Deus! Que sorriso! Morena linda, esgalga, penumbrosa, parece à flor colhida ainda orvalhada no justo amanhecer. Apresentou-se – Maria Morena, Escoteira da cidade do Garanhuns. Sou Chefe lá! Pronto! Já sabia qual cidade ia morar para sempre! Graças a Deus que naquele sábado de homem só eu. Mais Elisete, Elizabeth e Noreth da Alcateia. Estava pasmado, ou melhor abestalhado com tão magnifica mulher. Uma morena de olhos grandes, parecendo jabuticabas colhidas na hora ao amanhecer, lábios carnudos avermelhados, sorrisos que derrubavam os maiores exércitos que marchavam para a guerra. Era um sorriso de Atena, deusa da guerra, da sabedoria, da habilidade a titã da sabedoria.
    
¶ Por tua causa já se faz revolução vai haver transformação na cor da lua
Antigamente a mulata era a rainha desta vez, ó moreninha, a taça é tua.¶

             Dei um sempre alerta sem graça tentando fazer uma pose de Brad Pitt. Meu corpo tremia, meu coração batia e abestalhado por ver tão linda mulher no pátio da sede. Ela me olhou com os olhos húmidos brilhantes e com uma voz de Afrodite a dizer que seus exércitos iriam vencer a mais sublime das batalhas me perguntou: Posso fazer um estágio com o Senhor por dois meses? – Dois? Nunca, você vai estagiar comigo para sempre! Agora meu coração é seu e a tropa é sua, pensei. Uma voz chata me dizia – “Ah, porque não a deixas intocada Chefe Poeta, tu que és Chefe, na misteriosa fragrância do seu ser, feito de cada Coisa tão frágil que perfaz esta rosa”! – Uma voz esganiçada, grossa, feia, mil vezes maldita ecoou no ar – Mozinho! Vai demorar? – Olhei para o maldito. Moreno brabo, feio, atarraxado, pior de uniforme disformado, de uma vez só estraçalhou meu coração! Seu marido? Noivo? Acosturado? Pé de Café? Danado, estragou tudo! – Olhei para ela, ela desanuviou o horizonte que despontava raios e trovões e disse: – Já vou Mozinho! Virou para mim, com aquela cara inocente, tão doce, tão amada, tão linda, tão adocicada e disse: – Posso voltar no sábado? 

- ¶ Mas (diz-me a Voz) por que deixá-la em haste agora que ela é rosa comovida
De ser na tua vida o que buscaste tão dolorosamente pela vida ? Ela é morena rosa, poeta... Assim se chama... Sente bem seu perfume... Ela te ama...¶

Linda Morena, uma marchinha de Lamartine Babo.

Alguns versos de Vinicius de Morais. 

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

As aventuras de Zezé Escoteiro. O encantador de serpentes!


Lendas Escoteiras.
As aventuras de Zezé Escoteiro. O encantador de serpentes!

              Quando Zezé fez nove anos seu pai lhe comprou uma corneta. Calma, era de plástico ele nunca poderia comprar uma de metal como as usadas nas fanfarras da escola e do Tiro de Guerra. Zezé não podia ver ninguém desfilando que ele ia atrás. Era um se fosse um menino da fabula do Flautista de Hamelin sendo levado pelo som do mágico que tocava a flauta. Uma linda fábula, mas aqui minha história é outra. Sei pai queria lhe comprar um tambor ou um tarol, mas o dinheiro andava curto. Durante dias ninguém aguentou Zezé e sua corneta. Ficava o tempo todo com ela a tocar, mas o som era aquele parecido com um berrante. Algumas semanas depois a vizinhança deu graças a Deus, pois Zezé esqueceu sua corneta. Com onze anos pediu ao seu pai para levá-lo nos Escoteiros. Apesar de família humilde lá foi ele de mãos dadas com seu pai no dia da reunião. Zezé amou o escotismo. Fez dele uma parte de sua vida. Não pensem que Zezé era especial, não era. Apenas mais um na Patrulha Pavão que ele aprendeu a defender com sua própria vida. Claro era assim que o Monitor ensinava.

                   Zezé era um dos primeiros a chegar à sede e um dos últimos a sair. Sabia que aos sábados não tinha ninguém na rua para brincar com ele e agora sendo Escoteiro não sentia vontade de ficar com seus amigos conversando. Eles não diziam nada com nada. Veio à primeira excursão, Zezé ria a toa. Era disciplinado e tudo que o Monitor ou o Chefe mandasse ele obedecia. Se for para ficar na fila ele fazia questão de andar bem atrás e olhando os passos do da frente para “acertar o passo” conforme gritava o sub Monitor lá atrás. Aprendeu tudo que o Monitor lhe ensinou. Armar barracas, andar com facas, facões, machadinhas e mesmo pesado ficou vários dias treinando com um machado do lenhador que existia em sua casa. Aprendeu orientação, a ler mapas, era bamba em sinais de pista e ninguém o superava em semáforas e Morse. No terceiro acampamento da tropa aconteceu um fato curioso. A patrulha jogava bastão para atravessar um regato e ele cair fincado do outro lado para esticar a corta de uma ponte que iriam fazer.

                  Quando iam saindo até o córrego das lagartixas voadoras, ele se lembrou de sua corneta. Sempre a levava consigo e nunca a tocou no campo. Sabia que o Chefe não gostava e ele sempre pensando um dia tocar para ver se os pássaros iriam pousar em seu ombro. Leu sobre isto e queria tentar. Naquele dia o Chefe estava preparando uma pista molhada, para todos aprenderem a reconhecer pessoas, pássaros e animais pelas pegadas. Ele sem ninguém ver pegou na mochila dentro da barraca sua corneta de plástico. Antes da patrulha seguir em marcha de estrada Zezé sorrindo tocou sua corneta. Um barulho horrível. Uma nota só. Todos os Escoteiros da patrulha olharam para ele espantados. Não é que ele parou e viram muitas cobras correndo? Toquinho nunca viu isso. Era Monitor de patrulha há três anos  e quase não se via cobras no campo. Mas desta vez elas estavam escondidas. Ao ouvir o som da corneta levaram o maior susto  e se mandaram.

                  Toquinho fez questão de contar para todos os monitores e eles insistiram para Zezé ir tocar a corneta no campo deles. Chefe Estrela não acreditou e foi com eles para ver Zezé tocar. Começou a rir com aquele som horrível. Mas não é que muitas serpentes que estavam por ali se mandaram? Claro que nunca houve um caso de mordida de cobra com eles, mas agora ele estava mais tranquilo. A fama de Zezé Escoteiro correu toda a cidade. Era dona Chiquinha pedindo para ele tocar no seu quintal, era Dom Manuel prefeito para ele tocar na praça onde já apareceram serpentes venenosas. Até o Coronel Ludovico insistiu com ele para ir a sua fazenda, passar uns dias lá e espantar as cascaveis que de vez em quando matavam suas vacas leiteiras que não sabiam defender. E os Grupos Escoteiros da cidade? Sempre atrás dele para ir ao acampamento tocar sua famosa corneta para as mães dos escoteiros dormirem em paz.

              Muitos quiseram pagar, mas Zezé Escoteiro naquele jeitinho de matuto caipira agradecia. Dizia que era um Escoteiro e o que fazia era sua boa ação. Seu pai e sua mãe começaram a ficar preocupados. Todos os dias havia alguém chamando Zezé para tocar sua corneta em algum lugar. Tudo que é bom dura pouco ou não dura nada. A sina de Zezé estava com dias contados. Claro, dizem que em volta da cidade e nos locais de acampamentos não havia mais cobras.  Começaram a reclamar de Zezé Escoteiro. Diziam que as pragas nas plantações de feijão e milho estavam aumentando. Sapos multiplicaram-se. Zezé era o culpado por tudo de ruim que acontecia com as plantações. Estava havendo um desaparecimento de espécies e subespécies que dependiam das serpentes para manter a diversidade biológica de tudo que existe em nosso planeta. Antes o Zezé Escoteiro era um herói e agora era condenado por diversificar a vida das espécies ali em sua cidade Ouro Negro.

               A vida de Zezé mudou, mas seu amor ao escotismo não. Ficou um menino triste, mas acreditava que fez o bem sem olhar a quem. Nunca cobrou nada. Ele sempre nos acampamentos era o que mais ria o que mais contava suas histórias. Era aquele que amava o campo, amava as estrelas, o luar, sempre pensando que um dia iria seguir o sol que caminha para o oeste. Montepino veio correndo avisar ao Zezé que proximo da lagoa do Jacaré havia uma enorme cobra. Zezé pegou sua corneta e foi lá ver. Era grande mesmo, sem mentira tinha mais de oito metros, gorda enorme e parecia dormir. Zezé não sabia ninguém tinha contado para ele como era uma Sucuri. Elas habitam em lagoas e rios e quando a fome aperta comem de tudo, tartarugas, quatis, capivara e até bezerros pequenos. Comem não vão engolindo aos poucos apertando sua vítima. Como enxerga mal usa a sensibilidade de sua língua e focinho para primeiro comer a cabeça da vítima.

              Zezé Escoteiro nunca tinha lido sobre isto. A Sucuri não tem veneno. Foge ao primeiro sinal de perigo. Zezé chegou devagar, a menos de dois metros tocou sua corneta. Nada, a cobra parecia dormir. Zezé tomou coragem e foi até a cabeça da cobra, com um pé pronto para correr tocou com a maior força sua corneta na cabeça da cobra. Só Zé Pequetito viu o que aconteceu. Contou para todo mundo e a história se espalhou pela cidade. Ao tocar a corneta a cobra levou o mais susto. Sem perceber abriu a bocarra e vomitou com força tudo que estava em seu estomago em cima de Zezé Escoteiro! Zezé espantado saiu correndo cheio de gosma, de pedaços de carne, sangue e outras coisas mais. Ficou mais de quatro horas se lavando no córrego da Traíra. Jogou longe sua corneta. Jurou para sim mesmo que nunca mais, mas nunca mais mesmo iria tocar corneta para espantar serpentes. 


               Não pensem que Zezé Escoteiro desistiu de ser Escoteiro. Quando alguém na cidade pedia para ele contar como foi ele nunca recusou. Dava belas risadas e dizem que até hoje a história da Sucuri que vomitou em Zezé é contada em todos os lugares que davam enormes gargalhadas de tudo!

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

O Chefe Escoteiro de lua Verde.


Lendas escoteiras.
O Chefe Escoteiro de lua Verde.

                     Três patrulhas. A quarta só no ano seguinte. Tropa nova, com menos de seis meses de atividade. O Chefe Galício era novo, menos de vinte e três anos. Resolveu um dia ser Escoteiro. Nunca foi. Achou nos guardados do seu pai um livro chamado Escotismo Para Rapazes de Baden Powell o fundador. Leu em uma noite. Gostou. Seu pai quase não falava. Vivia em uma cadeira de rodas. A mãe morrera há anos. Ele o arrimo da família. Sempre pensou em ir embora de Lua Verde. Só conseguiu terminar o segundo grau. Cidade pequena, menos de dez mil habitantes. Sem perspectivas de crescimento profissional. Não podia deixar seu pai. Para sobreviverem ele montou uma quitanda. Pequena. Na frente de sua casa para não pagar aluguel. Algumas verduras, frutas, doces, e quando pode comprar uma geladeira, refrigerantes e algumas guloseimas geladas. Dava para seguir adiante a cada mês. O “fiado” era a parte mais difícil. Como negar ao Seu Romerildo? A Dona Eufrásia e a tantos outros? Eram como ele. Nem sabiam o que iam comer amanhã.

                    Depois que leu o livro o releu diversas vezes, pensou com seus botões. - Porque não ter uma tropa Escoteira? E assim fez. Mãos a obra. Convidar meninos foi fácil, a sede também não foi difícil. Ficaram num pequeno porão da Igreja Matriz. Mas Galício não entendia nada. Começou assim na raça, nem sabia que existia autorização, alguém responsável acima dele. Ele e os Raposas, os Tigres e os Leões eram os escoteiros mais felizes do mundo. Amigos, irmãos, juntos sempre. Quando os viam pela cidade a correr pelos campos, parecia um bando de meninos loucos a fazerem suas aventuras fantásticas. Galício adorava. Um dia recebeu uma carta. Era do Grande Chefe Escoteiro da Capital. O convidava para um curso. Todas as despesas pagas. Porque não ir? A quitanda deixou na mão de Quinzinho e Marquinho. Dois Monitores que sempre o ajudavam nos sábados quando a quitanda estava cheia.

                   Partiu de trem para a capital. Quinze horas de viagem. Na chegada se informou onde era o Parque da Montanha. Pegou o bonde. Desceu no final e dai seguiu a pé. Eram mais seis quilômetros. Nada que assustasse Galício. Quando chegou viu muitos chefes. Bastante. Gostou do curso. Não gostou de alguns. Prepotentes, vaidosos, cheios de importância. Porque perguntava? Aprendeu muito. Resolveu que devia ter uma Alcatéia. Mas quem convidar? No trem quando retornava pensava a respeito. Uma jovem morena sentou ao seu lado. Galício teve duas namoradas. Pouco tempo com elas. Nunca pensou em casar. Novo. Agora com seu pai entrevado não tinha esse direito. Ela o olhou de cabeça baixa. Galício viu que chorava. – Por quê? Perguntou. Ela não respondeu. Acordou com ela dormindo em seu ombro. Reparou que era muito bonita, mas tinha o olhar envelhecido por uma vida de lutas.

                    Toda a viagem ela chorava. Galício insistiu. Ela nada dizia. Só disse que deveria ter morrido e Deus quis assim. Que seja. - Vai para onde? Sem destino respondia – Sem destino? Não tem amigos, parentes, nada? Não tenho. Quando chegou à estação de Lua Verde tinha resolvido. Desça comigo. Ficará uns dias em minha casa. Ela assustou – Descer? E sua família? Não se preocupe. Uns dias em Lua Verde você irá colocar a cabeça no lugar e saberá aonde ir e o que fazer. Ela desceu. A cidade inteira na janela vendo Galício e a bela morena. Quem era? Ele casou? Ele não disse nada. Sua vida continuou. Seu pai nem perguntou. Os escoteiros nada disseram. Sua vida mudou. Lena era uma mulher perfeita. Cuidava da casa. Fazia tudo. Seu pai tinha os olhos brilhando quando estava ao seu lado. A cidade inteira comentando. E a Tropa? Alguns pais querendo tirar os filhos. Os comentários não eram bons. Uma mulher da vida, só podia ser.

                   Galício resolveu casar com Lena. Ela disse não. Por quê? Você não tem ninguém. – Ela chorando disse que ia contar a verdade. Era mulher de vida na capital. Gostava de um soldado. Ele prometeu casar com ela. Morreu em tiroteio com bandidos. Chorou muito e o pior. Tinha AIDS. Sim, isto mesmo! Ainda em fase inicial.  Galício manteve seu pedido. Não importa. Quero você como minha mulher. Casaram-se na Igreja de São Judas Tadeu. Cerimônia simples. Ele uma vizinha e as três patrulhas escoteiras. Casou de uniforme. Ela feliz. Sorria. Viveram muitos anos. Lena se tornou Akelá. Os lobinhos adoravam sua Chefe. Galício e Lena nunca fizeram sexo. O amor dos dois eram diferentes. Lena morreu com quarenta e oito anos. Seu velório foi assistido por toda a cidade. Dizem que virou santa. Não sei. Mas seus lobinhos hoje homens feitos nunca esqueceram a Chefe que tiveram. Galício chorou por muitos anos. Morreu com sessenta e quatro anos.


                  Conheci ambos. Sempre quando vou a Lua Verde não deixo de fazer uma visita ao tumulo dos dois. Lado a lado. Escreveram uma lápide simples. Nem sei quem escreveu. – “Aqui jaz, dois amantes que nunca foram. Amaram o escotismo e com ele viverão para sempre no céu!”.

domingo, 4 de janeiro de 2015

Minha maior amiga foi uma Coruja de olhos verdes.


Lendas escoteiras.
Minha maior amiga foi uma Coruja de olhos verdes.

                       Eu conheci uma Coruja. Por favor, não riam de mim. Não foi uma coruja qualquer. Imagine, ela me olhando e eu olhando para ela e pam! Surgiu um amor e uma amizade eterna. Eu era amigo de uma Coruja. Alguém já foi amigo de uma Coruja? Eu fui e sou. Ela me disse um dia que apesar de ser um menino e ela uma ave, ela nos considerava irmãos! Podem acreditar, pois eu acreditei! Eu tenho certeza do dia que surgiu a maior amizade que já encontrei em minha vida.  Faz tempo. Muito tempo. Quem sabe mais de sessenta anos? Sim, acho que foi isso mesmo. Numa floresta densa, fumacenta, mas gostosamente adorável. Difícil para caminhar, abrindo caminhos entre espinhos com meu bastão, usando uma bússola silva velha de guerra, pele queimada, braços e pernas arranhadas, alguns profundos com sangue ao redor. Quem disse que paramos? Quem disse que voltamos ou desistimos? Nunca! Escoteiros não desistem! Ela me disse que nos acompanhava de longe. Disse que não sentiu pena de mim. Não gostava de meninos. Eles eram malvados. Jogavam pedras. Disse que não viu meu rosto. Disse que o meu chapelão de três bicos atrapalhavam.

                      Quando a vi pela primeira vez foi na clareira que fizemos. Difícil. Um matagal imenso. Não foi um Fogo de Conselho. Não foi não. Lembro que fizemos um “foguito” pequeno, a clareira amarelou. Apenas uma “Conversa ao pé do Fogo”. Canções, “causos”, planos de jornada, gargalhadas, enfim coisas de escoteiros. Não vi as estrelas. As árvores não deixavam. Não havia lua. Escuro. Muito escuro. Apenas nosso lampião vermelho a querosene com seu lusco fusco brilhava. Teve um momento sublime. Isto sempre acontece sempre quando escoteiros estão reunião em plena floresta. Um silêncio, segundos que se ouviam apenas os grilos zumbir. Ela para chamar a atenção crocitava baixinho, e me olhava com seus olhos verdes profundos como se fosse me hipnotizar. Ninguém viu. Só eu. Todos foram dormir. Estavam cansados e eu também. A Coruja fez um sinal. Como se eu devesse ficar ali. Todos foram e eu fiquei. Um silêncio tomou conta da floresta. Nem os grilos zumbiam mais. Vi alguns vagalumes ao lado da Coruja. Pareciam ser seus olhos noturnos a mostrar o caminho.

                      Senti seu peso nos ombros quando ela pousou. Olhava para mim. Não piscou. Eu não sabia o que fazer. Dizem que na floresta as corujas são sábias, todos a procuram para aconselhar. Uma vez disseram que era o símbolo da deusa Atena. Ela se chamava Olhos Brilhantes. Contaram-me que uma Sociedade Secreta de nome Bohemian Clube onde anualmente se encontravam só os poderosos eram convidados. Dizem que a reunião era em uma floresta ao norte de São Francisco, e ficavam em volta de uma grande pedra talhada como se fosse uma coruja. Escreveram em baixo: “Weaving dealing spiders come not here”. Parece que vem a ser uma frase de Shakespeare que significava: “Deixe seus negócios sujos na porta”. Dizem que poucos contam até hoje o segredo da cerimônia. Quem contou morreu de morte misteriosa.

                      Mas isto não importa. Importa a amizade que fiz com a Coruja. Quantas coisas belas naquela noite eu e ela conversamos. Eu contei minha vida de menino para ela. Ela me olhava e não piscava. A melhor ouvinte que já tive. Perguntei a ela se era uma ave de mau agouro. Ela riu. Quem sabe? Quem sabe? Disse. Mas olhe retrucou, quando tem uma festa no céu ou aqui na floresta eu pio e canto sem parar. Ela me disse que sabia canções Escoteiras. Ri baixinho. Não acreditas? E começou a cantar A Arvore da Montanha. Cantava com uma voz linda. Cantou outras. Notei que o por do sol aparecia através das árvores. Notei que eu tinha me esquecido dos meus amigos na barraca e de que precisávamos partir logo ao amanhecer. Até o orvalho da madrugada não o senti no rosto. Ela me olhou. Passamos uma bela noite juntos. Noite inesquecível. Impossível ter outra como aquela. Ela disse – Adeus! Porque perguntei? Nunca mais voltarei. Dizem que entre nós quem conversa com meninos é condenada ao exílio. – Venha comigo! Venha morar comigo! Eu levo você para a cidade! Fica na minha casa. Lá tem um pé de Jacarandá lindo!  Não posso ela disse e voou entre os galhos negros e a folhagem espessa para nunca mais voltar!
             
                       Eu conheci uma Coruja. Não foi uma Coruja qualquer. Imagine, ela me olhando e eu olhando para ela e pam! Surgiu uma amizade eterna. Eu era amigo de uma Coruja. Alguém já foi amigo de uma Coruja? Eu fui e sou. Ela me disse um dia que apesar de ser um menino e ela uma ave, ela nos considerava irmãos! E acreditem! Eu acreditei! Pena que ela se foi e eu me fui também. Nunca mais voltei naquela floresta. Não sei se ela já morreu se está no exílio. Eu? Estou aqui. Sempre se lembrando daquela noite que conheci uma Coruja de Olhos verdes brilhantes. Apenas uma noite. Noite que nunca mais irei esquecerei...

Uma excelente noite durmam com Deus e amanhã estaremos todos juntos novamente. Boa noite!

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

O caminho da felicidade é o salario do Chefe Escoteiro.


Conversa ao pé do fogo.
O caminho da felicidade é o salario do Chefe Escoteiro.

O céu estremece.
A terra balança.
E num sorriso de criança;
Ainda existe a esperança
de sermos felizes!


                       Terminou a reunião. Alguém vai procurar você. – Chefe, por favor, assine aqui. Assinou. Eram os seus proventos. Você está sendo regiamente pago. Um ótimo salário. Poucos te invejam, entretanto. Eles não sabem o valor do seu salário. Sua assinatura foi feita com as pupilas dos seus olhos. Não tem canetas, lápis, nada. Ali estavam espalhados pelo pátio, centenas de milhões de reais, ou melhor, centenas de milhões de felicidade. Este é o nome dos seus proventos. Seu holerite tinha forma de estrela brilhante com poucas coisas escritas. Ali estava os olhinhos do Lobo Feliz, da Lobinha que pensava primeiro nos outros. Ah! Lá está também a face faceira do Escoteiro. Da Escoteira cortês. Sem falar no Sênior que aprendeu o que é honra. Da guia que se orgulha em ser leal. Chiii! Eram muitos os escritos nos seus proventos, no seu holerite.

                       Um dia convidaram você. Seja um voluntário escoteiro. Quanto pagam? Você perguntou. Muito! Vais ter o maior salário do mundo. Sem muito esforço pessoal. Apenas dedicar parte do seu tempo para complementar sua renda familiar. Coisa pouca. Coisa de milhões! Terás aborrecimento sim, terás tristezas também. Poderá até ficar doente pelas intempéries do tempo. Mas quando receber e ler o que ganhou no seu holerite Escoteiro vais ficar orgulhoso. Nenhum astro, nenhum cantor, nenhum alto membro da comunidade científica, nenhum político terão a oportunidade de receber o tanto do que irás receber. Eles nunca farão o que você faz. Eles nunca poderão julgar sua vitória para ter direito a este enorme salario. Eles não sabem o que é isto.

                    Vais ter sim que ser um deles para justificar sua paga. Vais ser sem dúvida um professor. Ensinar muito. Quem sabe um astro também, pois terás de jogar com eles em todos os momentos. Claro vais ser um religioso. Terás de entender a espiritualidade de cada um e ajudar na vida pessoal de todos. Terás que mostrar o valor de Deus, da natureza, das florestas, dos rios e oceanos. Irá com eles inventar coisas maravilhosas que poderão deixar para trás os maiores cientistas da humanidade. Irás cantar como nunca cantou em sua vida. Vais ter que saber politica para resolver os problemas que irão aparecer. E serão muitos. E claro, irás ser um Chefe, um líder, um sargento ou até um general, mas diferente. Usarás como arma o seu coração.

                      Irás viajar com eles por longas terras, irás fazer longas jornadas e sabe, vai se maravilhar quando os ver sorrir pela primeira vez. Ai começa o seus proventos. Vais lembrar-se de Bruno Raphael que dizia: - Da bravura dos grandes nasce à glória. Do sorriso das crianças a felicidade. Do olhar dos inocentes a certeza da esperança. De suas mãos a construção do futuro e assim você pode continuar a sonhar... Com os pés no chão. Lembre-se da lei do retorno, pois não haverá consideração com seus erros. Mas lembre-se que saber perdoar é importante para que outros perdoem você também. Irás tirar do próprio bolso para ajudar, suas horas de lazer e alegria serão outras. Muito mais difíceis, mas muito superior a tudo que fizeste. Não é só diversão. Agora tem um propósito.

                     A sua volta muitos o olharão com desconfiança até que irá chegar o dia do seu salario. A cada ano irás receber seu décimo terceiro salário. Isto quando um deles estampar em suas fardas as conquistas que você ajudou-os a receber. Dizem que a cada década você terá um prêmio extra. Um dia vai vê-los entrando na sociedade, homens feitos alegres, com altivez não exagerada, mas que olharão para você e o verão como um dos responsáveis pela formação de suas vidas. A cada aperto de mão, a cada Melhor Possível ou Sempre Alerta seus bolsos ficaram mais avolumados com os aumentos dos proventos que virão. A cada volta de um acantonamento ou acampamento verás pilhas de sorrisos financeiros aos seus pés.

                     Não será fácil seu trabalho. Irás enfrentar relâmpago e tempestades. Pais insatisfeitos, amigos de farda com críticas, trabalho extra e adicional noturno acrescido de alta periculosidade pelas intempéries da vida, e até quem sabe com pagamentos atrasados. Foram sorrisos tardios. Mas no fim, seus proventos serão enormes. Horas sem dormir. Horas de correria. Atender a todos sem olhar a quem. E quando chegar ao final da jornada, na hora de receber, vai dizer – Valeu a pena. Valeu sim. Olhar a volta e ver sorrisos em profusão. Sorrisos de crianças. Os mais lindos sorrisos que existem na face da terra. E eles, os sorrisos serão sim, o maior valor dos seus proventos. Enormes, e a cada um mais você ficará mais rico. Uma grande soma no Banco da Felicidade. E pode sacar quando quiser. Com cheque ou não. Ele está lá armazenado. Um bilhão de felicidade.  Para você. Pois foi você quem o fez por merecer o sorriso de uma criança. E não foi ele, o seu chefão quem disse que a verdadeira felicidade é fazer a felicidade dos outros?       

Olhe para o sorriso singelo de uma criança, deite na grama e olhe para as estrelas e cante com os amigos. Depois disso, ainda há quem diga que o simples fato de viver e se fazer realmente existir, seja tão complicados?