No mundo dos sonhos com as fábulas escoteiras

No mundo dos sonhos com as fábulas escoteiras
A aventura está apenas começando

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Como era verde o meu vale!


Lendas escoteiras.
Como era verde o meu vale!

Nunca conheci meu vale,
Nos meus sonhos era verde na primavera
Lilás no inverno
E dourado no outono
Mas era meu vale, lindo, e ali
E podia viver meus sonhos
Que nunca mais esqueci!

Conheçam a fórmula para a felicidade
Felicidade = P + (5xE) + (3xA)

. Na equação, P corresponde à pessoa (características da visão de vida, adaptabilidade e flexibilidade), E mede o que é essencial ou existencial (saúde, estabilidade financeira, amizades) e A representa as coisas que o entrevistado considera como "em alta" em sua vida (autoestima, ambições, expectativas). A autoestima, expectativas, ambições e senso de humor (H) também são adicionadas, em menor escala.

                     Ninguém acreditou quando viu. Nem eu mesmo. Inacreditável! Impossível! Médicos, psicólogos todos aqueles que deram sua contribuição para a recuperação de Aninha se estivessem alí, estariam tão perplexos como eu. Tudo fora tentando no passado. Longas viagens, passeios, terapia, enfim, seria por assim dizer uma interminável lista, com todos os tipos de tratamento e sujestões. Eu desconhecia esse fato. Nem mesmo me dei por achado quando me falaram de Aninha. Aninha! Olhos negros, pequenos, nariz afilado, cabelos encaracolados negros e cortados curtos. Nos seus sete anos não chamava atenção, quieta no seu canto, sem sorrir, sem olhar para ninguem. Sempre voltada para o nada, como se estivesse em outro mundo, em outra dimensão.

                   Só fui conhecer a historia de Aninha, muitos anos depois quando tentaram enturmá-la em uma matilha na alcateia do grupo que participava. O que me disseram foi uma historia fragmentada, onde nada se ligava, a não ser sua profunda tristeza, fechada em sí propria. Quando nasceu seus pais não observavam nada de anormal em Aninha. Claro, quase nunca chorava. Rir? Nunca viram. Aos dois anos desconfiaram que ela tivesse algum problema. Não sabiam o que era. Não tinham a menor idéia. Entretanto, verificaram que ela tinha toda caracteristica de uma criança autista. Afastava-se do mundo, das meninas de sua idade. Inclusive dos seus próprios pais.

                 Ela vivia sozinha. Fechada em seu mundo. Não fazia amigos. Quando chamada muitas vezes nem respondia. Seus olhos não tinham uma direção fixa. Aqui e ali e nunca olhava ninguem diretamente. Parecia procurar algum no infinito. Brincadeiras com outras crianças? Nunca. Bem Aninha falava corretamente. Pelo menos a fala era perfeita. Mas o que mais entristecia aos seus pais, era o sorriso. Nunca viram Aninha sorrir. Nem chorar. Na escola seus professores sentiam enorme dificuldade em acompanhá-la. Aconselharam aos seus pais que procurassem ajuda especializada. Alí na companhia daquelas crianças ela não se enturmava, não se desenvolvia e tudo que eles fizessem não era do seu agrado.

                Seus pais levaram Aninha a diversos medicos, terapeutas, psicólogos e nenhum deles foram capazes de diagnosticar o que se passava com Aninha. Descartaram a possibilidade de ser ela autista. Todos os testes indicavam o contrário. Os pais de Aninha faziam de tudo. Nos fins de semana a levavam em cinemas, shopings, parques, tudo onde diziam que as crianças sorriam e brincavam. Aninha não. Levavam uma vida modesta. Seu pai trabalhava em um Banco na cidade, e seu salário era acanhado. Mas o suficiente para que desse todo conforto a sua familia e principalmente a Aninha.

                Um dia, eu estava em casa, revendo um filme e que tinha visto diversas vezes. Um dos meus preferidos. “Como Era Verde o Meu Vale". É um daqueles filmes que ficam na lembrança para sempre.  Acho que, mesmo para quem já o assistiu revê-lo é reviver as mesmas emoções movidas pela história do jovem Huw e de sua família.  Há quem diga que ele era o preferido do diretor John Ford.  Talvez uma das grandes causas do sucesso desse filme seja o fato dele criar, de alguma forma, um forte sentimento de família que persiste mesmo enfrentando a obrobpobreza, greves, acidentes etc. Deu-me um estalo! Eureka! Quem sabe o escotismo pode ajudar?

                 Liguei para a Akelá Silvia na mesma hora, passava da meia noite, e falei sobre Aninha. Ela já conhecia a historia. Perguntei se tentaram convidá-la a ingressar na alcatéia. Ela me disse que a familia esteve lá em duas reuniões. Entretanto Aninha não mostrou nenhum entusiasmo. Nem mesmo ficou prestando atenção a movimentação das lobinhas. Não me dei por vencido. Eu acreditava que devia existir uma maneira de Aninha se interessar por alguma coisa que poderia ser a solução para ela. O escotismo poderia ser a fórmula para a felicidade de Aninha. Felicidade = P + (5xE) + (3xA). Não conhecem? Nem eu. Inventei agora. E isso me fez acreditar mais e mais no que pretendia fazer. Eu sabia que esta fórmula é a chave mestra da força do movimento escoteiro.

                Estudei meu plano nos minimos detalhes. Falei com os pais de Aninha, com a Akelá, com o Diretor Técnico sobre o plano. Riram de mim. Com que base diz isso? Se tantos especialistas tentaram e não conseguiram, voce agora achou a fórmula certa? Falavam. Mas eu acreditava. Queria o aval de todos. Os pais de Aninha não se animaram, mas tampouco foram contra. Tinham tentado tudo e sempre nutriam a esperança de ver Aninha sorrir. Só uma vez bastaria diziam. Não sabiam como era seu sorriso. Ela nunca sorriu.

                 O dia chegou. Eu não tinha medo ou receio. Se desse certo, teria feito meu papel escoteiro da boa ação. Se desse errado, paciencia. Sempre devemos tentar. Se um dia formos nos criticar, que seja por ter feito e não por ter deixado de fazer. O dia foi de sol, a tarde uma linda tarde prenunciava o sucesso no meu empreendimento. Eu acreditava piamente que daria certo. Fui à casa de Aninha. Tudo estava preparado. Esperamos dar umas oito horas da noite. Ela dormia profundamente. Sua mãe a carregou até o carro.

                A viagem foi curta. Chegamos logo ao sitio onde a Alcateia Waingunga acantonava. Eu sabia que o Fogo de Conselho seria por volta das nove da noite. Teriamos que transportar Aninha sem ela acordar, até o local, e ali sentada em uma cadeira de praia e no escuro, Aninha seria acordada com a chegada das lobinhas, que caladas iriam ficar em volta da fogueira e dando as mãos cantariam bem alto a Canção do Fogo do Conselho. Aninha acordaria e vendo as chamas altas e tantas meninas alegres e cantando poderia levar um choque de felicidade. Seria possivel?  Quando contei para os coadjuvantes todo o plano eles riram a valer. Incrédulos! Em acreditava que ia dar certo.

                Todos os chefes presentes e os pais olhavam para Aninha. A espera fora infindável. A canção terminou, o fogo crepitou as chamas subiram ao alto, os passaros norturnos piavam, até uma coruja voou de seu ninho em busca de sossego. Aninha acordou espantada, surpresa e assustada. Ficou em pé, e vendo tantas lobinhas dançando em volta do fogo, eis que o inusitado aconteceu. Aninha passou a seguir os passos das outras. Cantava baixinho: ¶ Na Roca do Conselho, o uivo do Aquelá. E na Jângal distante, respondem os Lobinhos - Au au u u. Au Au u u. ¶¶.

                   Aninha agora sorria, brincava e cantava com as outras meninas. Seus pais pularam de contentes, o sorriso deles era contagiante. Os incrédulos de olhos arregalados, não acreditavam no que viam. Durante todo o Fogo de Conselho Aninha participou ativamente. Esqueceu os seus pais. Suas amigas agora eram as meninas da matilha Marron. Fora adotada e muito bem recebida por elas. Em pouco tempo ela conhecia tudo da Jangal. No monte Seone, onde habitava a alcatéia sua mente vivia agora. Conhecia o Rio Waigunga, que corre dos montes Seone e forma os pântanos nas baixadas, não esquecia nenhuma parte quando contava a historia de Oodeypore, a cidade onde nasceu Mowgly e onde Bagheera a pantera negra esteve presa.

               Aninha mudou. Muito mesmo. Ninguem explicava como podia ter acontecido assim. Seus pais comentavam com amigos que o escotismo é a formula do sucesso para os jovens. Todos os sábios doutores tentaram e nada conseguiram. Agora em um simples Fogo de Conselho aconteceu à cura de sua filha. Eles se transformaram. Suas tristezas acabaram. Encontraram a fórmula da felicidade junto com ela. Aninha fez a promessa, um dia sem sol, mas parecia que o vento sul trazia toda a força dos Campos de Bhurtpore.

               Foi um dia que marcou muito. Eu estava lá. Não podia perder. Era como se Hathi e seus filhos também estivessem presentes. Aninhados em um degrau da escada Baghera e Baloo se deliciavam com a promessa de Aninha. Enroscada no mastro da bandeira, Kaa ria e dizia, “Somos do mesmo sangue, tu e eu!” O lobo Gris e seus irmãos davam um grande uivo de felicidade. Até mesmo os Bandar-log, o povo macaco, agora tambem estava feliz ali, vendo Aninha dizendo com todo amor: “Prometo, fazer o melhor possivel para...”

               Muito tempo depois, fiquei sabendo que Aninha em sua casa chamava seus pais, e alí com o fogo da lareira acesa, contava historias da Jangal e soube tambem que alguns parentes, vizinhos e amigos se reunião para sentir a força da felicidade de Aninha, quando ela contava ou narrava com sua voz linda, em pé, olhando nos olhos de todos em sua volta e apontando um por um dizia, - Voces precisam conhecer a Lei da Jangal, Baloo, o urso pardo sempre dizia que essa lei vigora na selva e é antiga como o céu. Dizia ainda que assim como o cipo que envolve a árvore, a Lei do Lobinho envolve todos nós.

              Aninha ficava horas narrando. Ninguem arredava o pé. Pareciam encantados como se Kaa a serpente ali tivesse passado. Conheceram todas as personagens, e até tinham medo de Shere Khan.  – Porque voce matou? Perguntou Hathi, pelo prazer de matar? Shere Khan respondeu isso mesmo. Era meu direito. A noite é minha voce sabe. Que direito é esse de que fala Shere Khan? Perguntou Mowgly. É uma historia antiga, tão velha quanto à propria selva. Então Hathi narrou cabisbaixo, descrevendo como o medo se apoderou dos habitantes do outro lado do rio. Mas essa é outra história...

              Foi maravilhosa a recuperação de Aninha. A Alcateia Waingunga passou a ser outra. Agora Aninha dava o toque da alegria e da felicidade. Ninguem ria mais que ela, quando brincava ou jogava era como se fosse à primeira vez. Entregava-se de corpo e alma. A matilha marron nunca mais foi à mesma. Corria, saltitava, gritavam e Aninha mostrava a todos sua mais suprema alegria e felicidade do mundo. É como Aninha mudou. Como o escotismo faz milagres. Lembro-me que um dia lí, não me lembro onde, que cada pessoa que passa na nossa vida, passa sozinha, porque cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra. Ela não nos deixa só, porque deixa um pouco de sí e leva um pouquinho de nós. Essa é a mais bela responsabilidade da vida e a prova de que as pessoas não se encontram por acaso.

              Não sei por que, me lembrei de outro filme, famoso, uma ficção cientifica cujo título era Blade Runner. Em um momento triunfal, onde a justiça e a coragem se fazem presentes, o androide antes de morrer disse – “Eu vi coisas que voces nunca acreditariam. Naves de ataque em chamas perto da Borda de Orion. Vi uma luz do farol cintiliar no escuro, na Comporta Tannhauser. Esses momentos todos se perderam no tempo, como lágrimas na chuva. Hora de morrer”. Nada há ver. Não irei morrer. Mas ví muito mais. Ví Aninha sorrir. Valeu uma vida e esses momentos nunca se perderão no tempo, como lágrimas na chuva. Para mim, o sol brilha de uma maneira firme. Quem viu Aninha sorrir pela primeira vez, nunca mais vai esquecer.

             O tempo passou. Mudei de cidade, nunca mais ouvi falar na Aninha. Agora deve estar uma moça feita com seus 18 anos. Tenho certeza que ainda está sorrindo. Sua vida agora é outra. Todo o passado se foi e ela aprendeu a sorrir, descobriu a felicidade. O porquê de antes e o porquê de agora, não sei explicar. Não sou psicólogo. Nem um doutor entendido no assunto. Mas sou um escoteiro, e sei por natureza que o escoteiro vive sorrindo, a vida para ele é bela e é formada de doces e grandes momentos de alegria e felicidade.

            Sei também que as dificuldades ele o escoteiro deixa em um canto do armário, um dia vai lá e dá um jeito nela. Ajudando o próximo, amando seus irmãos e sendo amigos de todos, não importa quem. Ele, o escoteiro faz a sua felicidade. Eu acho que sou feliz, muito. Contribui para que Aninha descobrisse a fórmula. Qual? Felicidade = P + (5xE) + (3xA) resultado- ESCOTISMO! Uma linda maneira de viver e ser feliz! Amo e adoro ser escoteiro!

Não me canso de procurar a tal fórmula da felicidade completa e talvez quando a encontrar perceba que sempre faltará um dos elementos...

Talvez aí resida à mágica dessa incansável busca.


sexta-feira, 16 de maio de 2014

O Chefe Escoteiro de lua Verde.


Lendas escoteiras.
O Chefe Escoteiro de lua Verde.

                     Três patrulhas. A quarta só no ano seguinte. Tropa nova, com menos de seis meses de atividade. O Chefe Galício era novo, menos de vinte e três anos. Resolveu um dia ser Escoteiro. Nunca foi. Achou nos guardados do seu pai um livro chamado Escotismo Para Rapazes de Baden Powell o fundador. Leu em uma noite. Gostou. Seu pai quase não falava. Vivia em uma cadeira de rodas. A mãe morrera há anos. Ele ó arrimo da família. Sempre pensou em ir embora de Lua Verde. Só conseguiu terminar o segundo grau. Cidade pequena, menos de dez mil habitantes. Sem perspectivas de crescimento profissional. Não podia deixar seu pai. Para sobreviverem ele montou uma quitanda. Pequena. Na frente de sua casa para não pagar aluguel. Algumas verduras, frutas, doces, e quando pode comprar uma geladeira, refrigerantes e algumas guloseimas geladas. Dava para seguir adiante a cada mês. O “fiado” era a parte mais difícil. Como negar ao Seu Romerildo? A Dona Eufrásia e a tantos outros? Eram como ele. Nem sabiam o que iam comer amanhã.

                    Depois que leu o livro o releu diversas vezes, pensou com seus botões. - Porque não ter uma Tropa Escoteira aqui na cidade? E assim fez. Mãos a obra. Convidar meninos foi fácil, a sede também não foi difícil. Ficaram num pequeno porão da Igreja Matriz. Mas Galício não entendia nada. Começou assim na raça, nem sabia que existia autorização, alguém responsável acima dele. Ele e os Raposas, os Tigres e os Leões eram os escoteiros mais felizes do mundo. Amigos, irmãos, juntos sempre. Quando os viam pela cidade a correr pelos campos, parecia um bando de meninos loucos a fazerem suas aventuras fantásticas. Galício adorava. Um dia recebeu uma carta. Era do Grande Chefe Escoteiro da Capital. O convidava para um curso. Todas as despesas pagas. Porque não ir? A quitanda deixou na mão de Quinzinho e Marquinho. Dois Monitores que sempre o ajudavam nos sábados quando a quitanda estava cheia.

                   Partiu de trem para a capital. Quinze horas de viagem. Na chegada se informou onde era o Zoológico. Pegou o bonde. Desceu no final e dai seguiu a pé. Eram mais seis quilômetros. Nada que assustasse Galício. Quando chegou viu muitos chefes. Bastante. Gostou do curso. Não gostou de alguns. Prepotentes, vaidosos, cheios de importância. Foram seis dias acampados. Viveu com seis deles em uma patrulha. Pensou consigo se eles sabiam que pertenciam a uma fraternidade. Aprendeu muito. Resolveu que deviam ter uma Alcatéia. Mas quem convidar? No trem quando retornava pensava a respeito. Uma jovem morena sentou ao seu lado. Galício teve duas namoradas. Pouco tempo com elas. Nunca pensou em casar. Novo. Agora com seu pai entrevado em uma cadeira de rodas não tinha esse direito. Ela o olhou de cabeça baixa. Galício viu que chorava. – Por quê? Perguntou. Ela não respondeu. Acordou com ela dormindo em seu ombro. Reparou que era muito bonita, mas tinha o olhar envelhecido por uma vida de lutas.

                    Toda a viagem ela chorava. Galício insistiu. Ela nada dizia. Só disse que deveria ter morrido e Deus quis assim. Que seja. - Vai para onde? Sem destino respondia – Sem destino? Não tem amigos, parentes, nada? Não tenho. Quando chegou à estação de Lua Verde tinha resolvido. Desça comigo. Ficará uns dias em minha casa. Ela assustou – Descer? E sua família? Não se preocupe. Uns dias em Lua Verde você irá colocar a cabeça no lugar e saberá aonde ir e o que fazer. Ela desceu. A cidade inteira na janela vendo Galício e a bela morena. Quem era? Ele casou? Ele não disse nada. Sua vida continuou. Seu pai nem perguntou. Os escoteiros nada disseram e nem perguntaram, amavam seu Chefe e sabiam que ele nunca tomava decisões erradas. Sua vida mudou. Lena era uma mulher perfeita. Cuidava da casa. Fazia tudo. Seu pai tinha os olhos brilhando quando estava ao seu lado. A cidade inteira comentando. E a Tropa? Alguns pais querendo tirar os filhos. Os comentários não eram bons. Uma mulher da vida, só podia ser.

                   Galício resolveu casar com Lena. Ela disse não. Por quê? Você não tem ninguém. – Ela chorando disse que ia contar a verdade. Fora mulher de vida na capital. Gostava de um soldado. Ele prometeu casar com ela. Morreu em tiroteio com bandidos. Chorou muito e o pior. Tinha AIDS. Sim, isto mesmo! Ainda em fase inicial.  Galício manteve seu pedido. Não importa. Quero você como minha mulher. Casaram-se na Igreja de São Judas Tadeu. Cerimônia simples. Ele uma vizinha e as três patrulhas escoteiras. Casou de uniforme. Ela feliz. Sorria. Viveram muitos anos. Lena se tornou Akelá. Os lobinhos adoravam sua Akelá. Galício e Lena nunca fizeram sexo. O amor dos dois era platônico, diferente. Lena morreu com sessenta e dois. Seu velório foi assistido por toda a cidade. Dizem que virou santa. Não sei. Mas seus lobinhos hoje homens feitos nunca esqueceram a Chefe que tiveram. Galício chorou por muitos anos. Morreu com oitenta e quatro anos.

                  Conheci ambos. Sempre quando vou a Lua Verde faço uma visita ao Grupo Escoteiro que sempre os teve no coração. Nunca deixo de fazer uma visita ao tumulo dos dois. Lado a lado. Escreveram uma lápide simples. Nem sei quem escreveu. – “Aqui jaz, dois amantes que nunca foram. Amaram o escotismo e com ele viverão para sempre no céu!”.


terça-feira, 13 de maio de 2014

Os dois lados da felicidade.


Lendas escoteiras
Os dois lados da felicidade.

                     Esta é uma história que aconteceu em algum ponto da vida moderna, onde a visão era ofuscada pela tecnologia e os jovens deixaram de ser sonhadores para viver um presente que eles mesmos não tinham certeza se era ali que morava a felicidade. Tudo começou quando o acampamento resolveu falar. O acampamento nunca falava. Era humilde. Nunca se revoltou. Agora mais triste se sentia, pois só falavam em novos tempos. Ele sabia que Olhos Azuis Profundos não era Escoteira. Pensou em nada dizer, pois existem dias e horas que calar é melhor. Mas ele sabia de sua importância e pediu se podia falar. A Internet, a Televisão e o Celular riram bastante. O que uma barraquinha “mixuruca” tem a dizer? O acampamento era educado. Não gostava de jactar-se. Nunca fez isso. Sabia do reconhecimento daqueles quem o conhecia. Mas neste dia ele resolveu falar, dizer quem era, ele sabia que os outros deveriam saber o quão importante ele era.

                  - Eu meus amigos, poderia oferecer a Olhos Azuis Profundos o perfume das flores silvestres. Poderia mostrar a ela a mais bela e misteriosa flor da floresta, o desabrochar de Orquídea branca lá em cima da montanha no carvalho centenário. Ela iria ver os olhos brilhantes como os dela na Coruja Buraqueira da noite escura e sem luar.  Poderia mostrar a ela a beleza do Balé dos Beija Flores na primavera. Ensinar a ela a seguir as estrelas brilhantes no firmamento. Quem sabe um passeio de sonhos na Via Láctea? Iria mostrar a ela como reconhecer as estrelas, que sabe a Alfa-Centauro? Já pensou ela ver ouvir a chuva caindo na mata? Leve, calma como se fosse uma linda sinfonia imperdível aos ouvidos de um velho mateiro. E o cheiro da terra molhada? Ah! Demais meus amigos. E a noite iria cantar com ela em volta do fogo junto a tantas amigas de verdade que lá estarão.

         - Iria contar para ela a história da pena azul, que um dia sobrevoou o horizonte onde eu estava. Era apenas uma pena. Uma pena de um pássaro qualquer. Pequena, um azul desbotado que bailava ao sabor do vento. De quem seria? De uma rolinha marrom? De um Canário Belga amarelo? Podia ser de muitos pássaros e eu nunca a identifiquei. Fiquei ali olhando seu bailado, o vento leve, o céu azul um sol vermelho queimando a terra. Não sei quanto tempo ela ficou suspensa no ar, mas eu hipnotizado não tirava os olhos até que o vento aumentou e ela se foi para sempre. Fiquei ali acampado na beira do Rio dos Mil Amores esperando. Quem sabe o vento a traria de volta? A tarde chegou e com ela a noite. Ela não voltou. Hora de esquecer a pena, pois sabia que nunca mais iria vê-la de novo.

                  - E o acampamento, parecendo querer trazer de uma só vez toda sua nostalgia, continuou – Eu gostaria de ver Olhos Azuis Profundos sorrir com o nascer do sol, e maravilhar-se com o por do sol, iria jogar, passear, fazer jornadas, ter uma fome tal que comeria um elefante o que não faz agora. Iria tenho certeza maravilhar-se na piracema, a ver os peixes saltitantes na cascata da nevoa branca, tentando alcançar o inatingível.  Ela meus amigos iria sentir orgulho de sí mesma. Não seria mais dependente, pois ali iria aprender junto à natureza uma vida de aventuras. Ela iria colocar uma mochila e partir para um mundo de sonhos, mas sonhos reais onde nada estava previsto. Ela iria descobrir um novo mundo ao meu lado. Iria aprender a fazer fazendo e depois meus amigos quando retornasse, ela saberia que o escotismo e eu poderemos lhe oferecer muito mais.

                     - O Acampamento parou por uns instantes, voltou novamente a falar com voz tristonha e disse para terminar – Ela meus amigos, Olhos Azuis Profundos se continuar com um celular, a internet e uma TV em breve terá as pernas e os braços atrofiados. Ela não andará mais. Ela agora viaja com vocês vendo outros fazerem e ela nada fazer. Sua mente irá desaparecer na loucura do tempo. Nunca irá ver Deus em plena natureza, na cascata do riacho, nas campinas verdejantes, nas noites e no amanhecer de um novo dia. Eu fico triste por ela. Triste porque só ela pode dizer sim ou não e vocês e eu somos meros coadjuvantes! E sabem? Fico triste por vocês, pois estão presos em uma quarto, em uma sala e se um dia a luz faltar e a bateria acabar vocês desaparecem como o vento na tempestade. Eu? Nunca vou desparecer, com chuva ou não, tendo eletricidade ou não. Eu sou a mão de Deus aqui na terra!


               E o acampamento voltou a sua condição de um simples ser inanimado, sem voz, agora contente, pois teve a oportunidade de mostrar aquelas máquinas que ele tinha muito mais a oferecer. Cabia a Olhos Azuis Profundos escolher agora o seu caminho. 

domingo, 11 de maio de 2014

Um Capitão, um Coronel, um batalhão, dezenas de jacarés e... Muitas lambanças!


Crônicas de um Chefe Escoteiro.
Um Capitão, um Coronel, um batalhão, dezenas de jacarés e... Muitas lambanças!

         Não gosto de contar estas lambanças do passado. Muitos não acreditam e outros já me disseram que lambanças não se contam. Será? Eu não penso assim. Se não acreditam paciência eu também costumo não acreditar. Risos. E não contar porque não? Se eu gosto de escrever acho que tenho este direito. Sempre existe a possibilidade de o leitor ler e depois de ler pensar que não leu! Mas não vamos perder tempo. Senhoras e Senhores! Com vocês duas lambanças não tão boas como às outras já publicadas:

Primeira – 1968 - Regional em um estado brasileiro. À noite na sede regional dando plantão. Entra um Coronel da PM. Educado, simpático e ainda fez o Sempre Alerta no melhor estilo inglês batendo as botinas. Apresentou-se. Foi logo no assunto – Preciso de alguém para dar um curso para alguns voluntários na minha cidade. Queremos organizar um Grupo Escoteiro e não temos ninguém que conhece bem o escotismo. Terá todo apoio. Prefeitura, Lyons, Rotary, Maçonaria e Batalhão da Policia Militar. Conversamos por meia hora. Resolvi eu mesmo ir lá e preparar estes voluntários com um informativo. Dois dias. Expliquei sobre se poderia ser acampado. Dei detalhes. Dei relação de materiais. No dia determinado embarquei no noturno das onze da noite. Cheguei lá pelas sete da manhã. Um sargento em um jipe me esperando. Fomos para o local. Um clube de campo com um belo bosque. Barracas armadas e alinhadas uma ao lado da outra. Uma recepção militar. 60 soldados, cabos e sargentos formados em dois batalhões. Um corneteiro tocou “saudação à autoridade” quando cheguei.

E agora José? Ia ser difícil começar no sistema de patrulhas. Mesmo assim formei dez patrulhas com seis cada. Dei tempo para grito, escolha Monitor e chamei os monitores. O capitão não saia do meu lado. Vieram marchando e prestaram continência. O curso não foi ruim. Difícil esquecer o militarismo. O Capitão não gostava do que eu fazia. Não disse nada. Dois dias. No final todos eles sem uniforme. Civil. Se divertindo a valer. Patrulhas ótimas. Escotismo na “pinta”. Dei adeus. No retorno o capitão me levou até ao quartel para apresentar ao Coronel Comandante na cidade. Disse que foi informado como foi o curso. Não gostou. Seus soldados são soldados. Sem diálogos. Disse que não iam mais fazer o grupo. Melhor seria uma Guarda Mirim. Perdi meu tempo? Na estação todos os alunos estavam lá. Abraços, sorrisos, lágrimas e despedida. Juraram que o grupo ia sair. Uma semana depois fui chamado ao Quartel Geral da Policia na capital. O coronel pediu desculpas. Pela primeira vez soldados, cabos e soldados fizeram um abaixo assinado. Pediam o grupo. O coronel da cidade foi trocado. Um grupo surgiu. Cinco anos depois um dos melhores do estado!

Segunda – Estávamos em marcha de estrada, minha Patrulha com seis jovens. Israel não estava. Cansados. Interessante não sabia onde estávamos indo. Uma estradinha de terra. Dos dois lados plantação de cana. Uma hora depois um enorme lago. Tínhamos que atravessar. Dar a volta seria uma enormidade. Mais de oito horas para dar a volta. Achamos uma parte estreita. Mas diacho! A lagoa cheia de jacarés. Nadar ali não dava. Jacaré de lagoa não dá trégua e adora o gostoso corpo humano. Marinho estava com uma corda de 40 metros. Romildo descobriu que os jacarés seguiam sempre dentro da água onde a Patrulha ia. Na parte estreita eles ficaram enfileirados. – Deram a ideia e acho que foi o Fumanchú que se alguém corresse muito e saltasse em cima dos jacarés com algumas passadas iria chegar do outro lado. Levando duas cordinhas finas e depois envia-las por arco e flecha de volta poderia puxar a corda grossa.


Que cara inteligente. Pular em cima dos jacarés fazendo eles de escada. Risos. E quem se habilita? Todos olhando para mim. – Eu não! Nem pensem nisto! Mas eu era no colégio o melhor saltador. Escolha certa. Preparei-me. Fiquei de short. Tirei os sapatos. Se conseguisse não ia ser difícil fazer uma “Falsa Baiana” e todos poderiam atravessar e depois rir dos jacarés. Fechei os olhos, fiz uma oração, tomei distância e lá fui eu correndo. Pulei um, dois, três e no quarto perdi o equilíbrio. Cai de maduro dentro da lagoa. Vários jacarés me olhando e passando a língua de um lado e outro da bocarra. Comida farta pensaram. Eu era gordinho. Chorava e gritava, comida de jacarés! Meu Deus! Acuda-me! Acordei com minha mãe me chamando. Tirava uma soneca em minha rede. Ainda bem que foi um sonho. Suava a cântaros. Ainda bem. Detesto jacarés!          

domingo, 4 de maio de 2014

Takala, o vira latas que só sabia amar.


Lendas escoteiras.
Takala, o vira latas que só sabia amar.

“Recolha um cão de rua, dê-lhe de comer e ele não morderá: eis a diferença fundamental entre o cão e o Homem”.

            Ele tentava entender o porquê, mas era um cão, um mísero cão vira lata que achou que tinha um lar para morar. Cão não fala e dizem que não pensam. Ele nem mesmo raciocinava quando ela o jogou pela porta do carro no meio da rua naquela tarde fria e com uma chuvinha intermitente. Pensou que era uma brincadeira apesar de que ela nunca brincou com ele. Batia sim, chutava seu corpo e um dia lhe deu varias varadas porque ele queria fazer xixi e a porta estava fechada. Tentou correr atrás do carro de sua dona, mas já era Velho demais para isto. Logo ela sumiu em uma esquina e ele perdeu o carro de vista. Ficou parado no meio da rua e vários carros desviando e por pouco não foi atropelado. Alguém lhe deu um chute e ganindo correu para o passeio debaixo de uma marquise. Ele ficou ali por pouco tempo todos que passavam lhe davam um ponta pé ou gritavam com ele. Molhado ele gania de frio. Não sabia o que fazer. Nunca passou por isto, nunca.

           Takala não sabia quando era feliz ou quando estava triste. Era um cão um vira lata com mais de doze anos. Sempre vivera perdido em um sitio pobre e quando o menino da cidade começou a brincar com ele sua vida rejuvenesceu. Ele nem entendeu porque sua mãe o deixou levar para sua casa. Durante meses foi feliz enquanto ele estava junto. Brincavam corriam e Takala se sentia outro. Um dia o menino sumiu. Sua mãe chorando pelos cantos. Ele não sabia o que houve, pois era um cão vira lata e cão vira lata não pensa. Quando ela o pegou pelo rabinho e o jogou no carro ele não entendeu nada muito menos quando ela o jogou porta afora. O que fazer? A chuva apertava cada vez mais. Correu pela calçada até encontrar um viaduto. Ali escondeu em um buraco pequeno, mas que ninguém poderia bater nele. A fome chegou. Comia pouco, pois sua dona não lhe dava quase nada só o menino que sumiu. O dia clareou e a chuva passou. Precisava encontrar comida e água. Ainda havia algumas poças que ele saboreou.

        Começou a passear pelas arvores e flores que havia em baixo do viaduto. Viu do outro lado da rua um menino assoviando para ele. Sorriu. Será que terei um novo dono? O menino o chamou. Estava vestido de azul com um lenço no pescoço. Para Takala a roupa pouco importava ele queria era um dono amigo, que gostasse dele. Correu atrás do menino e eles ficaram brincando de pega, pega e o menino de azul sorria a mais não poder. Chegaram a um portão. Takala sabia que não o deixariam entrar. Sempre foi assim, cão vira lata ninguém gosta e ele nunca teve pedigree. O menino de azul entrou e o portão fechou. Takala ficou ali, pois pensava que alguém poderia lhe dar alguma coisa para comer. Algum tempo depois o portão se abriu e apareceu o menino de azul sorrindo o chamando para entrar. O rabinho de Takala nunca balançou tanto. Ao entrar viu muitos meninos de azul, de chapéu todos gritando e sorrindo. O menino de azul o levou até uma cobertura. Fez sinal para ele ficar ali.

       Outros meninos e muitas meninas de azul se aproximaram de Takala. Ele sorria nunca pensou em ter tantos amigos. Latiu, um latido fraco quase mudo. Vários meninos correram e trouxeram comida para ele. Era muita comida ele nunca viu tantas assim. Comeu e quando comia levantava a cabeça com medo de um chute de um tapa, pois sua dona sempre fazia isto. Já escurecia e os meninos estavam indo embora. O menino de azul veio com uma moça e Takala viu que conversavam muito. O levaram até um galpão coberto e aberto na laterais. O menino de azul mostrou para ele um pequeno capacho, uma vasilha d’água e muita comida encostada a parede. O pegou no colo e o beijou. Takala viu que seu coração batia. Nunca ninguém o beijara. Ele ficou ali naquele galpão, pois agora era seu novo lar. Sempre a esperar que o menino de azul chegasse.

     Um dia eles chegaram cedo. O sol mal tinha nascido. Takala sorriu, pois ele agora amava aqueles meninos e meninas de azuis. O seu amigo o pegou no colo e entrou com ele em um ônibus. Takala tremeu, de novo não! Pensou em latir, em morder e só o medo de ser jogado pela porta de novo o fez calar. Fechou os olhos embaixo da poltrona. Ele não sabia rezar, mas seu instinto o alertava para tudo. Durante horas ele ficou no ônibus tremendo de medo. Quando chegaram foi uma algazarra, todos correndo e Takala correndo atrás deles. Nunca Takala o vira latas foi tão mimado, tão cercado de amigos e a noite ele uivava para a lua como a dizer – Agora eu sou feliz, pois posso amar... No terceiro dia ele correu atrás do seu amigo de azul que se embrenhou em um bosque. Takala adorava aquela brincadeira. Sentia seu coração batendo, seu corpo tremendo, mas ele sabia que não podia parar. Correram tanto que uma hora ele deitou. Uma dor incrível no seu coração. Coração velho de vira latas que só sabem amar.

      Ao seu lado o menino de azul ria e rolava no capim verde chamando Takala. Ele não aguentava mais. A dor era muito forte. Viu uma serpente enorme se enroscar para dar o bote no menino de azul. Ele sabia o que era uma serpente, pois quando jovem seus donos corriam delas no sitio em que morou. Takala fez um esforço enorme. Levantou gemendo, pulou em cima da serpente latindo fraco, respiração ofegante. A serpente o mordeu na sua jugular. O menino de azul saiu correndo chamando a moça que tomava conta. Vieram vários. Não encontram a serpente e nem Takala. Os meninos e as meninas de azuis choravam. Ao voltar para a fazenda viram ao longe uma serpente e um cão lutando. Correram até lá. Tarde demais. Takala estava morto, mas conseguiu matar a serpente. Aquela noite nunca se viu tantos meninos e meninas de azul a chorarem. Custaram para dormir.

      De manhã uma surpresa. O sol brilhava nunca se viu tantos pássaros no céu. Uma revoada sempre acontecia em cima deles. A moça amiga do menino de azul fez um lindo esquife verde. Ela reconheceu que Takala foi um herói e precisava ser homenageado. Onde seria a cerimonia fúnebre fizeram um grande círculo. Para um simples vira lata Takala teve honras de estilo. Quando o cobriram cantaram uma linda canção. Para os Escoteiros era conhecida - A Canção da Despedida. Takala não sabia o que era esta canção, sentado perto dali estranhava que ninguém o via. Só o menino de azul que sorria para ele. Viu em uma nuvem branca uma grande Vira Latas branca, sorrindo para ele, focinhos com focinhos ela e ele deixavam as lágrimas de alegria cair. Ela deu um latido leve e correu pela nuvem, Takala correu atrás dela e sumiu no horizonte azul. O menino de azul também chorava e ao chamado da moça todos ficam firmes e fizeram uma saudação que Takala já conhecia. Era o Grande Uivo. Feito em homenagem a Takala, um vira latas que só sabia amar e foi para o céu.


- “A compaixão pelos animais está intimamente ligada à bondade de carácter, e pode ser seguramente afirmado que quem é cruel com os animais não pode ser um bom homem. A compaixão por todos os seres vivos é a prova mais firme e segura da conduta moral.”
- “O Homem tem feito na Terra um inferno para os animais”.

sábado, 3 de maio de 2014

E o Pássaro Azul levou meus sonhos para nunca mais voltar!


Crônicas de um Chefe Escoteiro.
E o Pássaro Azul levou meus sonhos para nunca mais voltar!

                - Porque Pássaro Azul eu não tenho mais direito em sonhar? E não posso mais acreditar em meus sonhos? – Chefe, seus sonhos são tristes, nostálgicos, não existe mais aquela alegria do passado. Ele disse – Olhe dentro de você. Qual foi a ultima vez que cantou uma canção? Qual foi a última vez que apertou a mão de um amigo Escoteiro? Você se fechou dentro de si, só ouve a voz do vento e ele nunca trás para você a doce primavera do passado em forma real. – Seu mundo é imaginário. – Você ainda não viu que a forja que temperou o aço do que você foi feito acabou. – Não vai mais existir aquela alegria de tempos idos. Ela não pertence mais a você. Ela está em outros sonhos, agora dos jovens que fazem a sua maneira um belo escotismo.

                - Olhei para o Pássaro Azul que sorria um sorriso enigmático, como a perscrutar no espaço o que seria eu para ele. Tinha um porte altivo, sem encarar ele procurava saber quem era eu. Para descobrir todas minha vicissitude analisava os meus medos, as circunstâncias que cercaram a minha vida. Para ele eu não era casual e imperecível. Na sua maneira de pensar não existe o acaso. E para ele eu estava criando em minha mente uma possível volta no tempo, o que seria eternamente impossível. – Veja Pássaro Azul, você está analisando o meu sorriso, a minha atitude, isto até é fácil. Você é contra o que eu penso, acha que estamos vivendo um momento único na história.  – Deve ser por isto que levou meus sonhos. – Você não tem este direito.

                 - Às vezes Pássaro Azul eu me sinto só. Não do calor humano. Esses não me faltam. O Pássaro Azul não entendia o porquê minha luta era o nada contra o nada. Muitas vezes pensei em desistir. Mas seria o que sou? Seria o intransigente que me leva a sonhar o impossível? – O Pássaro Azul sorriu. – Todos nós somos um pouco intransigente. Do outro lado também eles existem. Mas eles são os que decidem e você não. Lágrimas caíram no meu rosto. O Pássaro Azul atingiu-me fundo. Não sei se merecia. Nos meus sonhos que ele levou não quis desservir ninguém. Acreditava que amava a todos que conheci. – Engano seu, ele disse. – Acredito que você ainda não viu a forma de amor que criou para você.

                 - Mas não fique triste. Ainda deixei pequenos sonhos contigo. Sonhos reais, palpáveis. Siga aquele poema que um dia falou das tristezas, ande sempre em frente, não crie ilusões, ilusões nada trazem de beneficio. Não ande nas sombras. Assopre o pensamento triste. Deixe escorrer esta lágrima que cai do seu rosto. Se necessário vá até o fundo do poço, mas volte renovado. O Pássaro Azul me trouxe uma lição de vida. Avaliar o que fui e o que devo ser e ver a nova meta da minha vida. Sempre achei que fui feliz. A minha maneira acreditei. Tinha que mudar. Mudar para melhor. Cantar as mais belas canções. Procurar no espaço o que não encontrei na terra. 

                   O Pássaro Azul voou por sobre as nuvens fez uma ou duas paradas como a dizer pela última vez: - Não esqueça. Quando encontrar a sua alegria de viver, respire fundo. Deixe a energia cósmica entrar em você. Abra a janela. Deixe que os pardais procurem a luz para você. Se encontrar, coloque-a dentro do peito. Lembre-se, a felicidade é seu objetivo. E ele se foi zigzagueando pelo horizonte até desaparecer no azul do céu profundo. Meu coração encheu-se de júbilo. Perdi uma parte dos meus sonhos, mas ele me deu parte das respostas que eu procurava. A felicidade existe. Está ao nosso lado. Quando cantamos com o coração ela está junto. Lembrei-me de uma canção antiga, linda, que me marcou muito:


- Este ano, quero paz no meu coração. Quem quiser ter um amigo, que me dê à mão. – O tempo passa, e com ele caminhamos todos juntos. Sem parar. Nossos passos pelo chão vão ficar. Marcas do que se foi. Sonhos que vamos ter como todo dia nasce em cada amanhecer!

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Molécula, Um Escoteiro amado e odiado.


Crônicas de um Chefe Escoteiro.
Molécula, Um Escoteiro amado e odiado.

            Já dizia Confúcio que para conhecermos os amigos é necessário passar pelo sucesso e pela desgraça. No sucesso, verificamos a quantidade e, na desgraça, a qualidade. Não era o caso de Molécula, ou melhor, Nando Orinoco da patrulha Águia quando o conheci. Você olhava para ele e não sustentava o olhar. Ele era firme, como a inquirir tudo que você sabia e não contava para ninguém. Parecia saber tudo que você pensava. Sua maneira franca com o passar dos anos lhe trouxe muitos amigos, mas um número enorme de inimigos. Molécula não era de esconder as verdades. Se ele pensava a seu respeito mesmo que não agradasse ele dizia. Todos nós sempre pedimos para nos dizerem a verdade e quando ela é dita dependendo da maneira com quem foi dita não gostamos. Molécula era franco. Franco demais. Ele comentava com alguns que a verdade é tão preciosa que precisa de tantas mentiras para não ser reveladas. Isto ele nunca iria fazer.

           Quando foi lobinho Molécula ouviu mais do que falou e quando falava sai de perto. Os chefes da Alcateia não gostavam dele. Só porque dizia o que pensava. A Akelá por várias vezes tentou dizer a ele que a vida não é assim, não podemos sair por aí a dizer o que pensamos das pessoas. – Mentir então Akelá? Não posso dizer que a senhora é chata? Que o Balu não usa desodorante? Que a Bagheera só fica abraçado ao filho dela? Responder o que? No confessionário quando o Padre dizia que seus pecados estavam perdoados em nome de Deus ele dizia – Padre, o senhor fala com Deus? O padre sem jeito dizia que Deus falava com ele através da oração – Pode me apresentar a ele? Tenho algumas reclamações e sugestões a fazer! Dizem que a amizade é uma predisposição recíproca que torna dois seres igualmente ciosos da felicidade um do outro. Mas quem disse que Molécula fazia os outros felizes? – Passou para a tropa e a Alcateia pela primeira vez sorriu de verdade. Na passagem foi uma verdadeira salva de palmas. Disseram que ficar livre de Molécula era uma benção.

        Até que na Patrulha Águia todos aceitavam como ele era. Coitado de alguém da patrulha que quisesse “morcegar” no acampamento. Ele dizia tudo que pensava e mais ainda. Chegava a dizer que o melhor era não vir mais ao acampamento. – Aqui patrulheiro é um por todos e todos por um! Se você não procede como tal se manda! Claro que o patrulheiro reclamava com o Monitor que comentava com o Chefe e que discutiam em Corte de Honra. Mas falar o que de Molécula? Afinal não devemos falar sempre a verdade? Todos nós sabemos quão difíceis é falar à verdade o que sentimos. Pode ser a nossa verdade e não a verdade do outro. Sempre achamos que pouco importa o julgamento que fazem da gente. Temos sempre em mente que devemos ser autêntico e verdadeiro. Mas você é assim? - Chefe – quando falar fale mais distante, o senhor fica só cuspindo em mim! - Norival, você não tem namorada, isto é uma deslavada mentira! – Gegê, por favor, não é porque você colocou o lenço na roupa civil que está uniformizado. Não está não. Lenço é para ser usado com uniforme!

       Molécula cresceu e passou para a tropa Sênior. Foi bem na hora que as meninas chegaram. Foi à conta. Molécula quando viu Patávio namorando a Lucília não deixou de barato. – Aqui fazemos escotismo. Namorar é na casa de vocês ou em outro lugar. Afinal ficamos aqui duas horas e meia e vêm vocês com esta? E assim Molécula começou a ter problemas com os Seniores e Guias. Chefe Gilmar o chamou e disse que ele não devia ficar falando tudo que pensasse. - As pessoas não gostam Molécula! Bem Chefe Gilmar ouviu o que não queria. A verdade dói? - Chefe, isto aqui não é uma tropa sênior, virou bagunça! – Chefe Gilmar ficou vermelho. Molécula ainda completou – O senhor viu no acampamento. Qualquer tempo livre eles e elas ficam se abraçando, beijando e o senhor não fala nada? Será que o senhor é um voyeur? – Chefe Gilmar o mandou para casa. Volte em dois meses!

          Molécula não reclamou. Ficou os dois meses em casa. Chamou seu pai e sua mãe e explicou o porquê o suspenderam. Eles quiseram tirar satisfação com o Chefe, afinal quando ele foi inscrito disseram que quem estava entrando eram os pais, o filho fazia parte da família – Agora o suspendem sem ao menos um recado, um telefone? Molécula pediu aos pais que não. Ou ele resolvia ao seu modo ou era melhor nunca mais voltar aos escoteiros. Voltou após os dois meses. Levou uma carta escrita a mão e tirou cinco cópias Xerox. Mandou uma para o distrital, uma para o regional e uma para a nacional. Ele enviou outra copia para a WOSM (World Organization of the Scout Movement) todas com firma reconhecida em cartório. Na carta explicava tudo que acontecia em seu grupo, sua suspensão, o namoro, a falta do sistema de patrulhas, pois nos grandes acampamentos regionais e nacionais cada um ia sem a sua patrulha e muitas vezes com outras finalidades que não o escotismo. Foi um Deus nos acuda.


         Até hoje se comenta o que Molécula fez. A UEB teve de se explicar com a WOSM, a região teve que se explicar com a UEB, o distrito teve que se explicar com a região e o grupo teve de se explicar com o distrito. Fizeram de tudo para expulsar Molécula, mas quem disse que conseguiram? Eu mesmo quando voltei a visitar o Grupo Escoteiro onde Molécula cresceu, eles me olharam desafiadoramente como a dizer – Deixe que o danado fique no seu lugar, ele saiu do grupo com dezoito anos e foi servir o exército. Fiquei pensando e rindo comigo – Coitado dos soldados, do Sargento, do Capitão e do General! Bem pelo menos lá ele não teria folga. Ou era expulso ou pegava uns dias de xadrez. Não sei se Molécula conhecia a celebre frase – “quem fala demais, dá bom dia a cavalo”. Mas vamos lá, será que ele não tem razão? Ops! Esqueci-me de dizer, um dia vi molécula na entrada da prefeitura, portava um uniforme de Capitão e precisavam ver sua pose!