No mundo dos sonhos com as fábulas escoteiras

No mundo dos sonhos com as fábulas escoteiras
A aventura está apenas começando

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

João Papudo que morava nas florestas verdes do Brasil.


Lendas escoteiras.
João Papudo que morava nas florestas verdes do Brasil.

            O aviso estava dado. Chefe João Soldado (era sargento, mas o apelido pegou) autorizou. Batista nosso intendente logo nos disse que não nos preocupássemos. O material estaria pronto em vinte e quatro horas. Platão o cozinheiro iria entregar a lista de mantimentos para cada um dia seguinte bem cedo. Tudo era dividido. Pedrinho o Monitor sorriu de orgulho da patrulha. Todos sabiam como e quando deviam fazer. – Sairemos na quinta pela manhã. Vamos aproveitar bem o feriado. A reunião de patrulha acontecia na casa do Mino Pastel o sub. monitor. Seriam quatro dias bem aproveitados. Destino? As Florestas Verdes do Brasil. Que nome eim? Mas foi Ditinho quem a batizou assim. Estivemos lá duas vezes. Na primeira vez ao chegarmos ao cume do morro do João Papudo ficamos abismados. A floresta era verde, um verde musgo lindo, no seu seio muitos Ipês das flores amarelas. – Ditinho, para ser o Brasil falta o branco e o azul, eu disse. Ele riu. Vado Escoteiro O céu meu amigo e as nuvens em sua volta.

         Ninguém nunca esqueceu João Papudo. Ele tinha no pescoço um papo enorme. Hoje chamam de Bócio que é devido ao aumento da glândula tireoide. Fácil de operar nos dias de hoje, mas naquela época não. Ficou nosso amigo pelo simples fato de o cumprimentarmos, tomar café com ele e comer sua “brevidade” uma das melhores que já comi. Ninguém gostava dele. Logo ele uma alma de Deus. Só por causa do papo no pescoço todos tinham medo e asco. Um absurdo. Na primeira vez que chegamos lá para acampar assustamos. Ele estava na porta com uma foice enorme. Ninguém se mexeu. – Um café? Ele disse. - Porque não? Respondeu Pedrinho. Daí para a amizade foi um pulo. Ele queria conhecer o grupo e a escoteirada. –Apareça amigo, será bem recebido. Nunca foi. Quando ele precisava fazer compras ou vender suas plantações só ia à cidade à noite, e enrolava no pescoço um cachecol para ninguém ver sua deformidade.

           Foi Motosserra, isto é o Lorenzo o escriba da patrulha quem deu a ideia de uma vez por mês fazermos uma campanha do quilo e levar para ele. Na primeira vez chorou e disse não. Ele não merecia. Não falamos nada. Deixamos lá e voltamos. Pedrinho colocou em votação qual o melhor local para acamparmos naquele feriado prolongado. Foi descartada a Lagoa da Lua Branca, a montanha do Gavião, o vale do Esplendor e as campinas da flor vermelha. Eram ótimos locais, mas as Florestas verdes do Brasil ganhava de longe de todas e iriamos saudar nosso amigo João Papudo. Dito e feito, seis da manhã café no papinho, pé no caminho. Sete e meia a bordo das nossas máquinas voadoras chegamos. Na porta ninguém. Estranhamos. João Papudo sempre estava lá nesta hora. A porta estava aberta e chamamos. Nada. Entramos, pois ficamos preocupados. João Papudo estava gemendo e suando na sua cama de palha. Seu corpo tremia. No chão vimos muita água e sujeira, sinal que ele estava ali a mais de dois dias.

          O que fazer? Sabíamos que nosso acampamento nas Florestas Verdes do Brasil foi para o brejo. João Papudo tinha prioridades. Nunca iriamos deixá-lo ali a mingua e sem ninguém. Tinhamos que levá-lo urgente para o Hospital Santa Inês, o único da cidade. Mais de quinze quilômetros. Patrulha boa não se aperta. Luiz Nantes o Porta Corrente, nosso Sinaleiro e socorrista deu a solução. Mãos a obra. Duas horas e estava pronto. Fizemos uma maca com o toldo da cozinha, cada ponta amarramos em uma bicicleta. Usamos quatro e pé na taboa. Antes das onze estávamos na porta do hospital. Não o deixaram entrar. Ninguém se arriscou a ir ver o que se tratava. Pedrinho correu a chamar o Chefe João Soldado. Estava na sede do batalhão e veio correndo. Ameaçou, xingou fez tudo e eles nem deram bola. Foi até a casa do Juiz Ponderado e nada. Chamou o Delegado Praxedes e nada. Uma enfermeira Dona Adelaide nos chamou e deu uns comprimidos. Quem sabe ajuda? Com nosso cantil fizemos João Papudo tomar.

          Os Escoteiros e seniores do grupo estavam chegando. Uma aglomeração se fez. – Vamos levá-lo para a porta da prefeitura. Se o prefeito não tomar providencias ele vai ver com quem estão se metendo, disse o Sênior Jovialto, nove anos no grupo. Um mestre na ação no grupo. Aliás, tínhamos poucos amadores. O prefeito chamou a policia. Chefe João Soldado era policia. Nem deu bola. A patrulha Touro correu a sede e trouxe um enorme toldo da chefia. Armado com rapidez no jardim da prefeitura. Uma cama foi improvisada. João Papudo era tratado pelos Escoteiros na porta da prefeitura. Doutor Melão o prefeito foi lá reclamar. Pé de Pato um lobinho segunda estrela pegou na mão dele. – Doutor prefeito, venha ver como ele está. Afinal o senhor não tem coração? Ele deu meia volta e sumiu nas salas da prefeitura.  O povo aglomerava na praça em frente. Doutor Noel um medico antigo na cidade veio ver João Papudo. – Malditos disse – Um simples bócio faz dele um homem marcado? – Venham comigo a minha clinica.

               A história termina aqui. Doutor Noel tratou dele e conseguiu uma internação para operar na Santa Casa da Capital. Dois meses depois eu estava recebendo meu Correia de Mateiro. Orgulhoso, já tinha o cordão dourado e o vermelho e branco. Esperando a Primeira Classe. Poucos conseguiam. Tinham de ralar para conseguir. Todo mundo olhou para o portão. Eis que ali estava João Papudo em carne e osso. Agora não tinha mais o papo. Orgulhoso levantava a cabeça como a mostrar – Nunca mais! Doutor Noel, vocês e Deus me deram a alegria de viver. João Bonito (mudamos o apelido dele) entrou na ferradura, foi saudado com uma enorme palma escoteira. Não teve jeito, chorou igual menino. Fez questão de dar um abraço em cada um. Abraço gostoso, sincero, amigo.


             Seis meses depois João Bonito fez a promessa. Nunca vi ninguém chorar assim. Vá lá, uma promessa é uma promessa. Nossa tropa ganhou um novo assistente. João Bonito era um novo homem. Trabalhava durante o dia na prefeitura (o prefeito com vergonha e não querendo perder as eleições o admitiu como auxiliar geral) e a noite estudava. Três anos depois terminou o curso Técnico em Contabilidade. João Papudo perdeu o papo, mas ganhou uma cidade. Hoje e feliz cortejando Dona Mocinha uma alegre e linda jovem do Bairro Tatu Bola. Ficou um Chefe Escoteiro todo pomposo. As Florestas Verdes do Brasil tiveram nossas presenças por muitos anos. A casa onde João Bonito morava foi jogada ao chão para uma nova estrada até Muzambinho. Histórias que se foram histórias de Escoteiros. E quantas mais por este Brasil imenso?

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Cascudo um Escoteiro sonhador.



Lendas escoteiras.
Cascudo um Escoteiro sonhador.

       O ônibus parou no ponto e desci. Meu tempo era curto, portanto não podia ficar olhando aqui e ali. Estava na Av. São João e mais dois quarteirões eu iria encontrar a Rua Santa Efigênia. Talvez pela pressa eu dei um esbarrão forte em um transeunte e ele olhou-me desaforado. Não queria briga e pedi desculpas. Ele que tinha caído no chão levantou e me encarou. Poxa, pensei! Não vim aqui para isto. O desconhecido deu um belo sorriso – Monitor! É você? – Olhei para ele. Não reconheci. Estava de terno, um sujeito forte, cabelos negros bem penteados. O danado até que era simpático. – Desculpe amigo, pelo jeito estivemos juntos no passado no escotismo. Ele deu belas risadas chamando a atenção de outros que passavam. – Olhe bem Monitor! Sou eu, Josiel de Arimatéia a que você e os outros da tropa chamavam de Cascudo! Caramba, como ele mudou, agora eu me lembrava de nosso glorioso passado. Ele se aproximou de mim bateu os calcanhares e gritou bem alto: – “Sempre Alerta Monitor”! Quem passava sorria.

       Nos abraços efusivamente – Vamos beber alguma coisa. Eu pago ele disse. Na esquina bem proximo a Avenida Ipiranga encontramos um barzinho aconchegante. Olhei para ele, se transformou em um homenzarrão bem mais alto que eu. Ele ria de satisfação – Monitor! Como foi bom encontrá-lo. Quanto tempo eim? – É meu amigo – falei. Muito tempo. Mais de quarenta anos. E você me fale de você – eu disse. Monitor eu ralei muito neste mundo. Você deve se lembrar do meu pai um pobretão. Coitado. Mas me formei e hoje sou Promotor de Justiça. – Nossa! Pensei. – Que bom eu disse. Mas desistiu do escotismo? Lembro que você era um entusiasta. – Olhe Monitor, acho que você sabe, é muito difícil entrar e participar de um Grupo Escoteiro como o nosso no passado. Enquanto estudava nem pensei em procurar um grupo depois quando me formei achei que podia ajudar. Ele riu e continuou – Mas eles não querem ninguém como eu. Preferem pessoas mais humildes que não discutem muito. – Pensei comigo como as coisas mudaram.

      - Mas Monitor não vamos falar sobre isto. Porque não se lembrar daqueles tempos? – Porque não pensei. – Olá posso me sentar com vocês? Olhei e vi um senhor de uns sessenta anos cabelos grisalhos, óculos de grau bem grossos e uma bengala – Não estranhem meu pedido ele disse. Também fui Escoteiro e sênior. Estive na luta pelas estradas da vida e só me dei conta que era hora de parar a cinco anos passados. Cansei. Estava solteiro, não tive ninguém ao meu lado. Tentei como você entrar em um grupo. Sempre amei o movimento Escoteiro, foi ele quem me deu a força para enfrentar tudo que enfrentei. – Ele já estava sentado. – Não parou por ai, outro sentado numa mesa próxima sorria. Deu-nos o sinal de Sempre Alerta. – Posso participar com vocês? Claro eu disse. Quatro antigos Escoteiros se encontrando por uma cisma do destino. Cada um querendo lembrar e contar histórias do seu passado. Todos dizendo que não se adaptaram ao escotismo de hoje. Tentaram mas viram que eram peixes fora d’água.

        Mas bons Escoteiros não ficam reclamando. Eles quando se encontram é para contar causos e causos. Lembrei-me de um Chefe que me enviou um convite -
Chefe! Aguardamos sua visita. No meu grupo o senhor vai poder contar muitas “historinhas”. Ri a valer. Contar “historinhas”! Sei que quando começamos a contar nosso passado era onze da manhã. Agora passava das seis da tarde. Cada um telefonou para sua cara metade explicando. Não guardei o nome de todos e eu pouco falei. Quantas histórias foram contadas. As noites das cobras, o vale seco, o Calcanhar de Aquiles onde todos tinham medo de ir, o Delegado que prendeu uma patrulha inteira, quinze escoteiros correndo de seis emas selvagens, e assim foi até o cair da noite. Pensei comigo que não era só eu o contador de histórias. Todos aqueles antigos Escoteiros também tinham a sua.

        Se quatro antigos Escoteiros em um pequeno bar tinham tantas coisas para contar quem diria se estivessem em uma floresta, numa clareira qualquer, uma noite sem lua e o céu estrelado eles contariam histórias a noite toda. Nos olhos de cada um eu via a chama da esperança, a vontade de voltar no passado, às saudades que machucam, mas que ajudam a viver. Ninguém comentou sobre suas dificuldades atuais, sua vida familiar ou profissional. Ali os quatro saudosos só lembraram-se do passado. Ah! Os poetas, sempre eles para nos dizerem tudo do passado, a dizer que saudade é amar um passado que ainda não passou, é recusar um presente que no machuca, é não ver o futuro que nos convida... Aguinaldo Silva escreveu isto. Melhor é ler Confúcio dizendo que a experiência é uma lanterna dependurada nas costas que apenas ilumina o caminho já percorrido. Quem sabe ao partir uma pequena lágrima rolou docemente nos rostos daqueles velhos Escoteiros.

       Cheguei e em casa quase meia noite. Pelo meu sorriso a Célia sentiu que eu estava feliz. Contei para ela o encontro com Josiel de Arimatéia, o Cascudo, um escoteiro da minha patrulha, contei do Geraldo Nonato que nunca vi e que devia ter sido um grande escoteiro e do Leandro Farias um Velho Escoteiro como eu. Ela me ouviu com um olhar gostoso e um sorriso carinhoso. Existem muitas felicidades que não vemos. A maior delas é estar ao lado de uma criatura maravilhosa que sempre me apoiou. Uma grande companheira, a mulher que amo. Não esperem muitas aventuras neste conto simples. Comecei do nada e termino com a história de um grande amor. Um não são dois. O primeiro minha linda esposa querida e o segundo meu escotismo maravilhoso. Ambos jamais esquecerei!

Eu amo tudo o que foi
Tudo o que já não é
A dor que já me não dói
A antiga e errônea fé
O ontem que a dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Você sabe o que tem do outro lado da montanha?


Crônicas de um Chefe Escoteiro.
Você sabe o que tem do outro lado da montanha?

Ei você! Não pare na subida da montanha. Prossiga. Você está apenas no inicio. Não queres ver o outro lado? Será que lá não tem coisas lindas para ver? Você é livre, livre para decidir sua vida. Corra atrás dos seus sonhos dos seus desejos. Não fique preso ao seu horizonte de hoje. Deixe o vento levantar seus cabelos, deixe o aroma das flores perfumarem seu caminho. Do outro lado da montanha quem sabe seu espírito irá se libertar e não ficará preso nas adversidades da vida.

Olhe a frente, veja as estrelas no céu. Não podes contar quantas são, mas podes imaginar. Olhe! Veja e pense naquela estrela cadente! Para onde foi? Quem sabe depois da montanha você vai descobrir seu caminho para o sucesso? Vamos, aprume o corpo, mochilas às costas, solte sua bandeira e deixe a chuva cair na sua face, mas não pare. Continue. A vida é sua e é hora de tomar decisões. Quantas mais difíceis melhor. Se você for bom Escoteiro terá grandes ideias e elas vão refrescar sua jornada pela vida. Você é livre, caminhe com suas próprias pernas, veja o rumo, trace seu destino e vá... Lá depois da montanha quem sabe vais ver a beleza do universo vais sentir a brisa a lhe afagar o rosto, irás beber a água límpida da fonte que jorra. Ouvirá o canto do sabiá, e um arco íris colorido, e ele dizendo a você que ali mora a felicidade. Afinal meu amigo ou minha amiga, você é um bravo do escotismo. Tens o Rataplã na mente e BP no coração.


Avante! Do outro lado da montanha iremos ver um novo mundo, basta querer para conhecer!

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Nas asas da imaginação.




Crônicas de um Chefe Escoteiro.
Nas asas da imaginação.

       Mamãe! Por favor, não chore! Eu disse que voltarei mamãe, eu não vou para a guerra, eu vou acampar e já volto. Irei aprender a ser homem Mamãe! A senhora ouviu o Chefe falar, que aqui é uma escola de honra! Aqui se aprende a sermos ético e verdadeiro, pois agora eu sou um escoteiro! Não foi ele quem disse que todos nós um dia iremos andar com nossas próprias pernas Mamãe? A senhora não quer me ver crescer e depois se alegrar em saber que sou um homem de caráter? Eu vou acampar minha Mãe. Eu vou pisar nas terras puras do meu país, vou sentir a natureza em meu coração. Deixe que leve seu espírito comigo, me dá um beijo e um abraço e enxugue estas lágrimas. Elas estão fora de lugar. Minha querida Mamãe reze por mim e por meus amigos. Peça a Deus que ele nos proteja, pois ele nunca deixou de proteger os Escoteiros. E quando voltar Mamãe eu estarei sujo por fora quem sabe apesar de que o Escoteiro está sempre limpo, mas se isto acontecer não se preocupe, estou aprendendo a ser homem.

        É Mamãe, agora sou um Escoteiro, e isto significa muito. Poderei olhar as águas do oceano de outra maneira. Vou entender porque as ondas do mar batem na praia, Irei entender as gaivotas que voam pelo céu azul. Irei aprender a beber na cuia onde fica a nascente, a pureza daquelas águas que nos dão a vida. E sabe Mamãe, vou dormir em uma barraca junto aos meus companheiros e me deliciar com os sons da floresta. Afinal Mamãe não diziam os poetas que sem sonhos, a vida é uma manhã sem orvalhos, um céu sem estrelas, um oceano sem ondas, uma vida sem aventura, uma existência sem sentido? Ah! Mamãe! Enxugue estas lágrimas, seu filho vai partir, mas vai voltar. São poucos dias e eu pensarei em você. Nunca vou esquecer a minha querida mãezinha. Você sabe que sempre estará em meu coração.

        Quero chegar à floresta e ver as aves que moram lá, quero ver os peixes que pulam na lagoa encantada, quero andar nas trilhas da imaginação e ver as pegadas dos animais. Como deve ser belo Mamãe poder sentir a brisa da madrugada, olhar o nascer do sol, o cantar da passarada vai ser um doce amanhecer. Mamãe deixe eu lhe dar um beijo, neste teu semblante preocupado, nesta tua tez franzida, nos seus olhos molhados e pedir para sorrir. Sorria mamãezinha querida, seu filho já vai crescer. Ele vai aprender a cozinhar. Pode Mamãe? Será que vou gostar? Ah! Mamãe eu acho que vai ser o máximo em minha vida. Vou poder sentir o aroma das flores, flores que aqui nesta cidade não vejo mais. Irei subir em uma montanha e avistar o mundo aos meus pés. Poderei gritar para as nuvens que agora sou uma delas. Quem sabe bem lá do alto irei ver o Gavião passar?

        Mamãezinha meu amor, te amo demais, mas preciso enfrentar a vida. Um dia eu vou crescer e preciso aprender as maneiras de viver como um homem respeitado. Quero aprender com a natureza o que aprendi com a senhora. Sabe Mamãe, me contaram tantas coisas que eu quero viver também o que os outros viveram. Quero fechar os olhos e ver o som de uma bica gelada, beber a água da fonte, sentir seu sabor, deixar a bica dos sonhos molhar meu rosto alegre. Pois é mamãe, pense no seu filho feliz, junto aos seus companheiros, eles são bons Escoteiros e brincam de aprender a crescer. Eu quero também contar estrelas, pois eu nunca contei. Vou descobrir onde fica a constelação de Aquarius, quem sabe verei a Gemine o Caranguejo, do Escorpião eu terei medo, nossa Mamãe são tantas. Mas já conheço o Cruzeiro do Sul no hemisfério celestial sul. São tantas coisas no céu que penso que ele é imenso demais Mamãe.

         E o tal fogo de conselho que eles falam muito? Acho que amarei demais. Ver o fogo esvoaçante, querendo andar pelo céu, as labaredas brilhante a fazerem escarcéu. E as palmas minha Mãe? Dizem que elas são lindas, e as esquetes nunca esquecidas as risadas coloridas, alguém a gritar! – Sou o próximo! Disseram-me que farei parte em uma. Vai ser a primeira vez. E os aplausos Mamãe eu sei que serão demais. Pois eu vou me preparar com alegria e quem sabe serei um ator por um dia? É Mamãe dizem que no final do fogo todos choram, mas é de alegria, eles dão as mãos entrelaçadas e cantam uma canção tão linda que tenho de decorar! - “Não é mais que um até logo, não é mais que um breve adeus”!  

        O último beijo de hoje Mamãe. O Chefe está chamando, a patrulha me esperando e tenho que partir. Irei acampar nos montes, nos altos dos horizontes para aprender ser alguém. Voltarei de novo a casa e serei um homem digno, a senhora pode acreditar. Sabe Mamãe uma estrofe de um poema que não esqueço? – “Mamãe, um dia fiz a promessa, a todos eu prometi, que seria homem honrado, e do escotismo uma apaixonado, subindo lá nas alturas, em busca de aventuras, que só podemos encontrar no meu escotismo amado”. Adeus Mamãe preciso partir, você que fica não chore com minha brusca partida, e se um amigo me procurar diga a ele onde estou. Que ele coloque a mochila aprume sua bandeira e cante uma bela canção, com um belo sorriso no rosto, e corra para me encontrar.

Adeus Mamãe, adeus não até logo, pois logo eu voltarei!

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Fuligem, o meu cinto Escoteiro brincalhão.


Lendas escoteiras.
Fuligem, o meu cinto Escoteiro brincalhão.

           Nem vem que não tem. – Não tem o que Fuligem? – ele me olhava com aquela cara de “besta” que eu conhecia há muitos e muito anos. – Pode tirar o cavalinho da chuva. Não vou para a reunião com você hoje nem que a vaca tussa! – O que é que eu fiz Fuligem? – O que fez? Só um paspalho escoteiro como você faz uma pergunta desta. Seja homem meu caro. Aceite que você é um idiota! – Fiquei a olhar o Fuligem. Nem sabia ao certo quando ele falava sério ou estava-me gosando. Pensei com meus botões o que tinha feito. Olhei bem para fuligem. Estava limpo. Na quarta usei metade da pasta Kolynos para fazer a melhor limpeza que tinha feito. O couro estava perfeito. O que ele queria agora? – Olhei para ele e o “pestilento” começou a rir. – Fuligem! São quase uma hora, você sabe que não gosto de chegar atrasado! Tá bem! Desta vez eu vou, mas na próxima se não engraxar o sapato não conte comigo. Só ando com Escoteiros que se orgulham do uniforme!

          Sempre foi assim. Desde que comprei o Fuligem na loja da capital pelo correio. Eu tinha um ano de promessa e custei a juntar o dinheiro para comprá-lo. Assim foi como meu chapéu de três bicos, com meu bastão de ponteira de aço, com meu cantil francês, com meu canivete suíço e com minha faca mundial. Meu uniforme e lenço mamãe fazia, mas o resto eu ralava para comprar. Engraxando sapatos, limpando quintais, ajudando seu Manezinho no Armazém fazendo entregas. Olhei para meu Vulcabrás e ele não estava sujo. Não o engraxei na semana, achei que não precisava. Fuligem não perdoava. Ele gostava de massacrar. Não esqueço o dia que fui para a sede, já nos meus treze anos e ao passar na vendinha do Seu Nestor para comprar balas de hortelãs um freguês dele olhou minhas pernas e disse – Lindas! Se você fosse uma moça a gente ia conversar! Fuligem virou bicho. Tire-me logo e dê uma surra neste filho da mãe! - Não Fuligem é o Vadico meu amigo de escola.

          E quando mamãe fez um uniforme novo? As passadeiras ficaram estreitas. Ele não conseguia passar. – Meu pai do céu! Ele dizia. Nesta casa só tem Jerico ou Asno? Tal mãe tal filho? Naquele dia fechei a cara para ele. Ele sabia que tinha ido longe demais. Abaixou cabeça como se estivesse envergonhado. Fui na caixa de sapato e retirei outro cinto Escoteiro que tinha de reserva. Não era tão bonito como Fuligem, mas ele precisava de uma lição. Quando coloquei o cinto ele gritou – Não, por favor! Perdoe-me, eu falei demais! – Desta vez nem liguei e fui para a sede escoteira. Fui triste mesmo sabendo que o Segunda Mão era um bom cinto. Calmo, educado e ponderado, pois tinha sido de um Escoteiro antigo que me presenteou. Acho que tinha mais de quarenta anos, falava pouco, não reclamava não chingava e nem me desafiava como Fuligem.

      Fuligem quando chegou da capital ficou todo prosa. Novo em folha, couro brilhante com flor de lis, metal com um brilho de dar inveja e Foi logo dizendo - É melhor saber antes que não gosto de Escoteiro babão! Ou você está bem uniformizado ou não está. Sou exigente, meião nos trinques, calça e camisa bem passada, o lenço bem dobrado e o anel até na gola. Chapéu meu amigo tem de estar com as abas largas. Se torto me esqueça! – No início não liguei para ele. São coisas de novatos ainda sem aquela fleuma de um bom mateiro. Eu já conhecia este tipo de prosa. Foi com meu chapéu, com meu lenço e meu bastão. Mas o tempo foi passando e fuligem aprontando. Era minha calça sem passar, meu lenço mal dobrado, meu chapéu torto, Fuligem não deixava nada passar. Nos acampamentos se chovia ele gritava – Corra seu idiota, se o couro molhar vai doer prá dedeu!

       Lembro de um fato interessante em Santa Mônica uma cidadezinha lá pelas bandas do Rio Tico-Tico. Nem lembro o que fui fazer lá. Armamos barraca em um campinho de futebol na entrada da cidade e fora alguns garotos olhando de longe não vi mais ninguém. O dia acabava e escurecia. Depois do jantar fomos dormir, pois no dia seguinte iriamos dar uma chegada em Campos Gerais. Dormi feito um anjo, mas ao acordar cadê meu cinto? Mãe de Deus levaram o fuligem. Não me dei por vencido, pois sabia que ele ia berrar feito um bode preso no toco da porteira. Não deu outra, com meu cavalo de aço (bicicleta) rodei a cidade rua por rua. Em uma delas ouvi a voz dele – Socorro! Vado sua besta, me tire daqui! A mãe do menino ficou envergonhada e pediu desculpas. Fuligem ria a mais não valer. “Num” falei que ele ia me encontrar, menino dos infernos! Saí dali correndo.

         O tempo passou, um dia tive de dizer a ele que precisa trocar o couro. Ele berrou, gritou e disse que preferia morrer. Manfredo um sapateiro disse que podia fazer um recauchutagem sem mudar seu estilo anterior. Deixei-o na sapataria e um dia depois Manfredo veio me procurar dizendo que eu levasse o cinto urgente. Ele não aguentava mais a faladeira dele. Nunca viu um cinto falante e igual aquele ele queria distancia. Fuligem envelheceu o couro. Pediu para aposentar, pois preferia morrer a trocar o couro. Foram mais de quarenta ano com Fuligem. Está comigo ainda, guardado no meu quarto e pendurado em um local gostoso, onde ele pode ver a janela e os passarinhos cantarem no Pé de Oliveira que tenho no meu quintal.


       Hoje já Velho eu lembro dos meus amigos. Amigos que foram meus companheiros de aventuras, meu bastão com ponteira, meu chapéu de três bicos, meu lenço verde e amarelo encantado, meu lampião vermelho e Fuligem. Deixo minha faca meu cantil e meu canivete suíço sem comentar. Eles não falavam muito, mas também foram companhias de aventuras que nunca mais os esquecerei. Pelo menos uma vez por semana abro minha caixa de guardados. Lá estão todos eles menos fuligem e o chapéu de três bicos que sempre estrão pendurados na parede. Nunca durmo sem rezar e eles sempre me acompanham. Sei que durmo pesado. Sei que eles conversam a noite toda. Sei que relembram o escotismo do Vado o Escoteiro que eles fizeram parte. Mas todos eles fizeram parte da minha vida. Se um dia me for já pedi a minha querida Celia que os guarde com ela. Não coloque no meu túmulo. Se eles estiverem de acordo que os doem para um Escoteiro jovem, que tem amor as suas tralhas escoteiras como eu tive e que os ame como eu os amei! 

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Marie, a escoteira que sempre aceitou desafio.



Lendas escoteiras.
Marie, a escoteira que sempre aceitou desafio.
(esta é uma história de ficção, nada mais que isto).

          A história de Marie sempre me fez lembrar o ensaio escrito por Elbert Hubbard no seu celebre conto que ficou conhecido no mundo inteiro como a “Mensagem a Garcia”. Muitos explicam a sua maneira o que ele quis dizer, mas eu sempre penso que todos nós Escoteiros deveríamos ter também um pouco do teor desta mensagem. Hubbard disse que ele o homem chave da história deveria ser imortalizado em bronze e a sua estátua erigida em todos os colégios da terra. Uma história para lideres que não perguntam onde é o acampamento, não tem dificuldades para chegar lá seja onde for. Quando você menos assusta ele bate a sua porta. É uma história conhecida, mas faço um pequeno resumo, pois a história toda é bem maior. O ensaio relata a história de "um camarada de nome Rowan" que heroicamente, contra todas as adversidades, entregou uma mensagem do presidente estadunidense McKinley ao general Calixto Garcia Íñiguez, líder das forças rebeldes cubanas durante a Guerra Hispano-Americana. Em síntese a história ficou famosa porque Rowan diferente de todos os outros não perguntou ao Presidente quem era Garcia, onde ele estava e como chegaria lá. Pegou a mensagem, colocou em seu bornal e partiu. Dias depois a mensagem foi entregue apesar de todas as adversidades.

           Marie a escoteira não ficou famosa só por isto. Acho que poucos ficaram sabendo dela. Mas desde que nasceu mostrou uma extraordinária força de vontade. Aos cinco anos lia perfeitamente. Conversava qualquer assunto e seu lugar preferido era a biblioteca da cidade. Aos sete entrou para os lobinhos. Gostou tanto que nunca mais saiu do movimento Escoteiro. Sua fama de líder iniciou quando uma forte Tromba D’água caiu sobre a cidade. Muitos desaparecidos e muitos desabrigados. O prefeito não sabia o que fazer as autoridades só reclamavam da falta de verbas estaduais e federais. Marie com seus onze anos reuniu sua patrulha. As outras a seguiram. Lobo é com vocês conseguirem comida para todos. Morcegos põe a cuca para funcionar. Leve quantos for possível para a Escola Estadual. E assim as patrulhas começaram a trabalhar. Marie não parava. Estava em todo lugar. O prefeito vendo seu trabalho correu a ficar do lado dela. Ela riu e deu uma enxada para o prefeito. Excelência! Ela disse, comece limpando a lama que entrou na casa do senhor Amadeus.

            O prefeito não gostou. Seus auxiliares corriam dela. Ela soube das verbas estaduais e federais. Cobrava de cada um e não aceitava promessa. Nunca faltou a uma reunião escoteira. Quando descobriu que os que perderam suas casas no Bairro Jardim das Flores não tiveram nenhuma colaboração financeira mandou um e-mail para o Ministro das Cidades. Não recebeu resposta. Combinou com todos do grupo e amigos do colégio para enviar e-mails, pelo menos quatro por dia. O ministro respondeu que a verba estava com o prefeito. Ela botou a boca no trombone. O prefeito nada. Fez um cartaz e saiu pela rua gritando onde estava à verba dos sem casa! Em pouco tempo tinha uma multidão com ela. Ela deu queixa na delegacia e o delegado não queria aceitar a ocorrência. Ligou para a Polícia Federal e não foi bem tratada. Marie desistir? Nunca. Escreveu diretamente para a Presidente. Se foi ela ou não a responsável, o certo é que as casas começaram a ser construídas.

            Todos que a conheciam sabiam que quando crescesse ela poderia ser Presidente. Tinha jeito para tudo. Sabia reclamar, mas sabia elogiar e sempre dizia – Vamos fazer juntos. Interessante que Marie nunca aceitou ser prima, monitora nos Escoteiros e nas Guias. Ajudava em tudo. O grupo sabia o que ela fez. No comércio conseguiu todo material de campo para todas as patrulhas. Quando acampavam os mantimentos ela conseguia. Como guia participou de uma Aventura Sênior. As atividades não foram ruins apesar de que as patrulhas nunca foram acionadas. Mais na base do eu sozinho e você meu amigo. Dois fatos ficaram conhecidos. Um Chefe novo deu nela uma cantada. Ela o pegou pela mão e o levou a presença da equipe dirigente – Agora repita o que me disse Chefe! O moço envermelhou, gaguejou e pediu desculpas. Exigiu uma reunião com a equipe dirigente. Falou sobre palavrões, a falta de espírito Escoteiro, namoros escondidos e a indisciplina de alguns (não de todos). Queria uma providencia. O Alto Falante do campo alertou a todos sobre o que ela pediu. Não resolveu, mas diminuiu. Ela dizia sempre que vestir o uniforme é fácil, mas mostrar o espírito Escoteiro aí à “porca torce o rabo”.

           Marie fez dezoito anos e não quis ser pioneira. Preferiu participar da chefia. Inscreveu-se em todos os cursos. Sua fama de líder e direta nas palavras já era do conhecimento dos dirigentes. Isto atrapalhava Marie, ela queria ter uma vida simples, conhecer alguém, namorar e quem sabe casar e ter filhos. Sonhava em ter um casal. Na cidade todos os partidos a procuravam. Ofereciam tudo. Nunca aceitou. Ela gostava do Giovani que nunca olhou para ela. Ele como todos os rapazes da cidade achavam-na metida, dona de todas as ideias e não gostavam de sua liderança. Homens são sempre assim. Nunca querem ser mandados principalmente por mulheres. Acham que são eles os donos das ideias. Marie sabia que nem todos. Marie tinha 23 anos quando vários homens a espancaram. Quase morreu. Perdeu o olho direito. O delegado tinha uma rixa com ela, pois ela interferia em tudo por isto os culpados nunca foram encontrados. Nunca não, Marie fez questão de colocar na rádio e no jornal da cidade o nome de cada um. Muitos filhinhos de papai. Tiveram que abandonar a cidade para sempre.
         O Grupo Escoteiro onde Marie atuava crescia assustadoramente. Ela pediu a direção regional para ajudá-la a organizar outros grupos. Nunca deram bola para ela. Acho que não gostavam dela. Pessoas com liderança se não souberem se conter em alguns casos ficam antipatizadas. O coração de Marie não ligava para os invejosos, egoístas e os falsos que lhe dirigiam palavras só para agradar. Marie estudou. Fez direito, Abriu um pequeno escritório de Advocacia. Tornou-se uma advogada respeitável. Sua fama de honesta e sincera correu mundo. Aos 48 anos ainda participava do escotismo. Foi convidada diversas vezes para diversos Talk show. Marie era diferente de muitos que quando adquirem status profissional esquecem-se do escotismo, dos seus amigos. No seu país Marie fez tudo para que o escotismo fosse reconhecido. Nunca participou de eventos escoteiros nacionais tais como Assembleias, Congressos, Atividades nacionais onde só adultos participavam. Ela conhecia o esquema. Tudo era carta marcada apesar de muitos jurarem que não. Ela não gostava disto.
        Nunca foi agraciada com nenhuma medalha escoteira. Recebeu sim diversas condecorações de outros países. Uma vez a inscreveram para o Premio Nobel. Todas admiravam sua performance de ajuda ao próximo sem nunca desistir do resultado. Sua fama correu mundo. A própria liderança escoteira mundial a convidou diversas vezes para seus congressos. Sempre recusou. Muitas organizações reconheciam nela uma líder que nunca sabia dizer não. Quando ela completou 56 anos seu nome foi cogitado para Ministra do Supremo Tribunal Federal. Morreu dois anos depois vítima de um câncer no seio. Nunca ligou para si. Acredito que pensava que os outros vinham em primeiro lugar. Suas exéquias foram comentadas na imprensa escrita e televisada vinda de todas as partes do mundo. Muitos políticos e empresários famosos lá estavam. Disseram que foram prestar sua última homenagem a uma mulher de fibra. Ao lado do seu esquife estava a Patrulha lobo. Não faltou ninguém. Alguns de sua época fizeram questão de comparecer uniformizados. O mundo girou muitas vezes depois que Marie se foi. Marie nunca mais foi lembrada pela imprensa. Ela tinha o escotismo em seu coração e até o ultimo momento fez dele sua filosofia de vida.

Sempre Alerta Marie, que seu exemplo seja seguido por todos Escoteiros e Escoteiras do mundo!    

sábado, 1 de fevereiro de 2014

A pimenta, o cachorro, o jacaré e o escambal. (baseado em fatos reais)


Conversa ao pé do fogo.
A pimenta, o cachorro, o jacaré e o escambal.
(baseado em fatos reais)

          - Foi confirmado. Virão quatro tropas escoteiras do Distrito. Cada uma com quatro patrulhas. Virão também varias patrulhas seniores. Os lobinhos ficarão no campinho do Seu Altino. O galpão vazio foi cedido sem ônus. Nosso problema são as patrulhas. Acredito que com os seniores seremos mais de trinta patrulhas. Precisamos de um bom local para receber todos. Serão cinco dias. Pensei em vários. Defini quatro locais. Conto com vocês de visitá-los e ver se podem receber tanta gente. Conversem com o proprietário. Eles sempre ajudam. O Chefe Jessé não disse mais nada. Entendemos. Afinal seriamos anfitriões e tínhamos que caprichar. Tiramos a sorte e lá fomos nós para a Serra do Marimbondo. Um ótimo local. Acampei lá muitas vezes. Mata, bambus, nascente, riacho com quedas d’água, e um descampado arborizado. Perfeito.

             Após o almoço colocamos o pé na estrada. De bicicleta. Apenas oito quilômetros. O plano era ver e fazer um pequeno esboço de Gilwell do local. No domingo poderíamos retornar antes do meio dia e almoçar em casa. Na Fazenda do Seu Inácio ele como sempre um grande amigo dos escoteiros. Querem almoçar? – Agradecemos. Saímos almoçados. Ele ofereceu um franguinho para nós fazermos no almoço. Agradecemos. Cada um levou um pouco de macarrão, uma batata, sal, e duas linguiças. À noite a sopa seria um maná dos Deuses. A fama do Fumanchu nosso cozinheiro era conhecida por muitos. Interessante, no passado todas as patrulhas tinham seus cargos e sabíamos os que se sobressaiam nele. Era ponto de honra. Ser cozinheiro era uma honra. Conheci muitos que se orgulhavam. Chegamos barraca pronta, lusco fusco da noite e Fumanchu fazia a sopa deliciosa de macarrão. Fomos tomar um banho e no retorno levamos lenha para uma fogueira a noite.

              Fumanchu estava cabreiro. Olhava-nos de modo estranho. – Não sei se vão comer – disse. – Por quê? Romildo o Monitor inqueriu. – Fiz uma besteira. Vi um pé de pimenta malagueta coloquei uma, experimentei nada, coloquei outra e outra. Tá duro comer. Arde feito o “capeta”. – Capeta não arde Fumanchu, eu disse. Olhei a sopa. Uma fumacinha saia de dentro do caldeirão. Experimentei. Ardeu e como ardeu! – coloca água quem sabe vai dar – disse Rael. Colocou. Nada. Coloca uma colher de açúcar! Disse Zezito. Nada. Uma fome do inferno. Nunca tive tanta fome. Com a concha coloquei um pouco no meu prato. Tentei comer. Virou uma meleca. Agua, açúcar e nada adiantou. Sem nada para comer. Só um pacote de bolacha do Tiãozinho. Dormimos com a barriga reclamando. Cedo todos acordaram. Um café foi feito sem nada. Alguém deu a ideia de ir buscar o frango do Seu Inácio. Ofereci para pegar uns peixes. Era bom nisto. Rael sumiu na curva da estrada em busca do frango salvador. Eu cortei um bambu fino, pois o bambuzinho chinês para pesca não tinha ali.

               Não demorou Rael chegou com o frango. Fumanchu já tinha esquentado água para o frango amolecer e tirar as penas. Preparou umas brasas e transpassado por um pedaço de madeira verde, o frango rodava em cima para ficar no ponto. No remanso da curva do riacho sentei. Joguei a vara. Não demorou nada. Um puxão. Era um belo piau. Segurei com força. A linha era fina. Não podia perder. A vara quebrou no meio e o piau saiu com ela riacho acima. Mergulhe atrás. Um lindo jacaré correu em cima da vara. Engoliu o peixe quando pulou e levou meu anzol. Voltei triste para o campo. Mais tristes fiquei. Fumanchu cochilou, o vira latas do Seu Inácio sumiu com o franguinho. Putz! Meio dia sem comer nada. Desmontamos a barraca. Na fazenda do Seu Inácio ele viu que nós estávamos querendo alguma coisa. Contamos. Ele riu a vontade. Chamou Dona Cidinha sua esposa. Ela riu – Serve um feijão com farinha? Tenho ovos e carne de porco da lata. Tem também torresmo. Precisavam ver o sorriso de todos. Fumanchu mais ainda.


                 Chegamos em casa às seis da tarde. Sem planta, sem esboço de Gilwell. O Chefe escolheu o Vale das Flores. O acampamento distrital foi um sucesso. Seu Inácio ficou triste. – Gente! Se fosse lá nas minhas terras eu tinha separado um boizinho para vocês! – Época boa. Tudo se conseguia com facilidade. Dois dias sem comer. Valeu. Dizem que é com fome que se aprende. Quem disse isto é um idiota. Fome? Naquele domingo quase segurei o Jacaré pelo rabo. Um ensopado de jacaré? Só quem viu sabe como é o jacaré. E chega de lembranças.