No mundo dos sonhos com as fábulas escoteiras

No mundo dos sonhos com as fábulas escoteiras
A aventura está apenas começando

domingo, 16 de junho de 2013

O lindo Balão Azul do Escoteiro Zezé dos Pinhais.


Lendas Escoteiras
O lindo Balão Azul do Escoteiro Zezé dos Pinhais.

Levei o dia todo, a minha tarde inteira,
Não joguei futebol e até nem quis brincar
De soldado e ladrão...
Ajoelhado na sala, a minha brincadeira,
Foi cortar os papeis de cores, e os juntar.
Fazendo o meu balão...
J.G. Araújo Jorge.

             Eu estava ali com todo aquele populacho. Espremia-me para ficar a frente. Meus olhos brilhavam e meus lábios sorriam levemente mostrando o êxtase que sentia, me arrebatava como se fosse ele levado pelo ar. Quantas vezes sonhei em voar pelos céus em um balão. Meu arroubo de criança só via o encanto. Meu entusiasmo cobria o perigo e a alegria de estar ali não me deixava triste em desobedecer meu pai e minha mãe. Eu tinha duas forças que me faziam sentir bem. Balões no céu e ser Escoteiro. Todas as vezes que Seu Nonô Baloeiro soltava seu enorme balão eu corria para lá. Meu pai descobriu algumas vezes. Meu pai! Nunca me encostou um dedo. Chegava a casa e ele pacientemente dizia –Zezé balão mata. Muitos morreram assim queimados. Uma dor horrível. Quando não morrem ficam marcados para sempre!

            Mas eu, nos meus treze anos sabia que o perigo era grande. Mas fazer o que? Eu amava os balões. Quando ele se elevava ao céu, quando os foguetes estouravam, quando se lia a placa que os baloeiros colocavam, eu pulava de contente. Minha alegria era contagiante. Se pudesse eu ficava ali por toda a noite a ver os balões subirem aos céus. Um espetáculo que a criança que era se arrebatava e nos meus sonhos eu estava lá, junto ao lindo balão colorido que subia sôfrego aos céus até que um vento sul ou vento norte o levasse para longe. Muitas vezes sugeri em Reunião de Patrulha que fizéssemos um dia uma competição de patrulhas para ver quem soltava o mais lindo balão. Nunca aprovaram. O Chefe Valdez muito educado dizia – Balão só trás a infelicidade. Alegrias de uns tristeza de outros.

           Nas reuniões de Tropa, nas excursões, nos acampamentos eu vibrava como se estivesse soltando balões. Para dizer a verdade eu não sabia daquela minha sina. Nos meus sonhos de adultos eu estaria lá com seu Nonô Baloeiro, a fazer e a soltar os balões. Invejava toda sua equipe. Trabalhadores, sem nada a receber. Tentava explicar isto ao Chefe Valdez mas ele sorria de leve e dizia – Zezé, eles sabem trabalhar em equipe mas muitos deles gastam o que não tem para que o balão suba aos céus. Eles deixam suas famílias, sacrificam o pequeno salário que recebem e nem pensam o que suas escolhas podem fazer aos outros. Fecham os olhos para as desgraças, as desventuras e a infelicidade dos queimados, a miséria por ter perdido seu ganha pão, sua casa.

           Zezé dos Pinhais sentia pena mas ele não sabia quem um dia disse para ele – O que os olhos não veem o coração não sente. Verdade ou não os balões e o escotismo eram os sonhos de Zezé. O acampamento anual se aproximava. Iam acampar no Rancho da Lagoa Dourada. Ele nunca tinha ido lá. Mas não importava. Fosse onde fosse Zezé vibrava. Amava sua Patrulha Morcego. Sentia uma enorme alegria em estar junto aos seus amigos da patrulha. Vibrava com os jogos, já estava ficando bom em pioneiras e quando do fogo de conselho Zezé olhava para o céu estrelado e pensava – Não poderia ter um enorme balão passando?

           Zezé não contou a ninguém. Em casa escondido construiu um lindo balão azul. Ele sonhava em fazer um. Sonhava em ver o balão coriscando nos céus em uma linda noite de inverno. Não haveria foguetes. Ele não podia comprar. Sabia que todos seus amigos na patrulha nunca iriam “vaquear” para comprar. Custou para comprar o papel, construiu devagar à cangalha e depois a tocha. Levaria para o acampamento escondido. Não mostraria para ninguém. Ele sabia que na segunda noite haveria um jogo noturno. Iria fingir ter dor de cabeça e zarparia para uma área descampada e então soltaria seu balão. Sabia como fazer. Seus olhos cintilavam quando pensava no seu plano.

            O grande dia chegou. A sede escoteira lotada de gente. Pais e mães preocupados pedindo aos chefes para tomarem conta. Dois ônibus e uma longa viagem. Chegaram à tarde. Um lanche já havia sido preparado. A patrulha sabia como fazer. Barracas armadas rapidamente. Cozinha, mesas, toldos e em pouco tempo o campo de patrulha já podia dar todo o conforto de uma casa na selva. Houve até momentos que Zezé se esqueceu do seu balão. Mas ele não saia de sua cabeça. Dito e feito. No segundo dia o grande jogo. Zezé falou ao Monitor que falou ao Chefe. - Está dispensado, disse o Monitor. Logo que o Jogo começou “Guerra” Zezé saiu de mansinho nos fundos de seu campo de patrulha. Nas mãos o bornal com seu lindo balão azul. Sonhava! Sorria! Cantava canções de louvores. Avistou um belo campo e um rio que corria com suas águas tranquilas em direção ao mar.

            Zezé tirou o balão. Desdobrou. Pegou a cangalha e a tocha. Quando ia acender a tocha para que o gás espalhasse pelo balão ele ouviu um choro de criança. Não viu ninguém. Onde seria? Largou seu balão e foi até a barranca do rio. Sentado em um tronco uma menina de cinco anos chorava em prantos. Ela estava toda queimada. Zezé sentiu o cheiro de carne viva queimando. Zezé não sabia o que fazer – Venha comigo, vou levar você até o acampamento. O Chefe vai lhe ajudar – Ela não respondia, mostrava sua casa toda queimada. Zezé viu saindo da casa um Velho e uma velhinha também queimados. Saíram gritando. Uma dor terrível. – Meu Deus! Pensou Zezé. O que foi? O que foi? – Corra menino ele o Velho dizia. Corra! É um balão nos céus. Matou minha família. Destruiu minha casa, queimou minha plantação de milho!

            Zezé acordou dentro da barraca. Ainda bem que foi um sonho. Sonho terrível. Eu poderia destruir uma família com meu balão? No ultimo dia Seu Pataxó, um índio que morava próximo ao rio contou a história do Velho Manequinho, Dona Valquíria e sua filha Martinha a quem chamavam de Por do Sol e que morreram no ano passado. Um balão caiu na plantação de milho, que atingiu sua casinha de sapé e não deu tempo para fugir. Morreram todos. Os olhos de Zezé se encheram de lágrimas. Poderia ter sido o meu balão pensou. Eu poderia ter matado todos eles! Juro meu Deus! Nunca mais mas nunca mais mesmo vou tocar em um balão. Direi a todos meus amigos o mal que ele faz!


           Assim como Zezé tem muitos jovens que sonham com balões. Que está historia sirva de lição. Não é uma lenda. Todos os anos centenas de casos como este acontecem. Morrem adultos e crianças, perdem-se plantações que foram plantadas com o suor de quem precisa viver.

"Balão no céu, perigo na terra". Todo mundo já deve ter ouvido essa frase em algum lugar, mas as pessoas não costumam dar muita atenção a ela. Os incêndios causados por balões, podem ser bastante graves e podem destruir as casas, indústrias, plantações e até mesmo causar mortes. Seja um bom Escoteiro. Nunca solte balões!

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Saudades do meu Lampião Vermelho encantado.



Lendas escoteiras.
Saudades do meu Lampião Vermelho encantado.

                Minha Avó olhava para mim e dizia – O lampião cum corosene só serve pra infeitá os comudu da casa. Era assim que ela falava. Eu gostava de minha avó. Mesmo com seu palavreado de mulher simples da roça, ela era a grande mãe que não conheci. Criou-me desde que nasci em uma casinha de barro e que ela sempre mantinha limpa e asseada. Minha mãe morreu de parto e ela sozinha me criou. Plantava roça para sobrevivermos, não deixava que eu andasse de qualquer maneira e fazia questão que fosse à escola mesma que tivesse de andar seis quilômetros todos os dias.

               Um dia ela remexendo em um baú, tirou de lá um Lampião Vermelho a querosene praticamente novo. Lembro que ela disse que meu tio que morava na capital o trouxe para ela a muitos e muitos anos atrás. Sabe o que ele me disse? Ela dizia - Disse que este lampião é sentimental. Fala, chora e ri. Claro não acreditei. Olhei-o. Estava novinho. Era lindo! Não queria testar. Faria isso só junto aos meus amigos da patrulha Raposa em um belo acampamento de verão. Deixei-o guardado em meu quarto até o dia que ele seria entregue ao intendente da Patrulha Raposa. Esqueci-me de dizer, participava de um Grupo Escoteiro na cidade. Todo sábado eu ia com meu uniforme, marchando a pé pela estrada sempre cantando uma canção escoteira.

               Tinha um pequeno prego na parede em meu quarto. Pela alça o coloquei lá. Já ia saindo quando ouvi um barulho que parecia um toque na parede. Voltei-me e vi o Lampião Vermelho. Balançava e fazia sinais e dizia: - Gostei de você. Vamos viver juntos por longos anos. Você nunca vai se arrepender de me ter como amigo. Não era possível pensei. Lampião Vermelho não fala. Mas como soube de um chapéu de três bicos de um "Velho" "Chefe" Escoteiro e um bastão totem da Patrulha Pantera que falavam, porque não acreditar no lampião vermelho?

             No sábado seguinte o levei até a sede. Foi apresentado a Patrulha e ninguém ligou para ele. Não davam importância. Vi que ele olhou para mim com os olhos tristes. Achou que seria bem recebido. E o pior aconteceu. Quando o doei para a Patrulha ele chorou. Claro não vi chorar, mas fui embora tristonho. Soube que tinha chorado na reunião seguinte. Deu-me saudades e fui até ao almoxarifado. Ele estava caído no chão, a querosene não sei como jazia em uma poça ao lado dele. De novo em sinais me disse da sua tristeza. – Não me deixe aqui. Não tenho amigos, tentei falar com a barraca e as panelas, mas elas nem ligaram para mim. O único que me disse alguma coisa foi aquele feioso e metido lampião a gás. Ele se acha o tal.

          Dei uma desculpa ao Monitor e o levei de volta. Um belo sorriso eu vi no vidro que ele portava. Pendurei-o no velho prego do meu quarto. Vi que ele deu uma sonora gargalhada. De novo em casa, disse. Não sei por que comecei a gostar do Lampião Vermelho. Quando chegava da escola ou dos folguedos na rua, sempre ia ao meu quarto e dar um sorriso para ele. Ele sempre me dizia que quando fosse ao acampamento iria mostrar o quanto podia me ajudar. Nem prestei atenção a isto. Mas o dia do acampamento chegou. Minha mochila eu já tinha arrumado e ele esperando que eu o colocasse também na mochila. Esqueci-me dele.

          Vesti meu uniforme e fui até a cozinha pegar minha ração de campo. Cada um de nos levava uma pequena quantidade que no acampamento seria juntado às demais. Era assim que fazíamos, pois gastar com taxas era difícil. Minha Avó já sabia como preparar. Linda minha Avó. Quando coloquei a mochila e dei até logo a minha Avó ouvi um barulho no quarto. Lá estava ele a balançar na parede e a dizer – Não vai me levar? Não foi para isto que fui feito? Sorri sem jeito e o coloquei na alça da mochila junto com a meia lona da barraca. Coube direitinho. Ele deu uma boa risada e disse – Vamos meu amo, vamos para um lindo acampamento e eu estarei ao seu lado. Em frente marche!

         Os seis quilômetros foi feito com sempre cantando. Achei que ele cantava também, mas como? Lampião na fala e não canta. Mas o meu falava e cantava. Na sede ninguém o notou. Colocaram-no na carrocinha todo material de campo e por cima amarraram o lampião a gás que sorria todo dengoso. Foram três dias de acampamento. Como sempre eu adorava. Os raposas eram unidos e pareciam uma família quando acampavam. Eu era o cozinheiro da patrulha. Sabia que gostavam de meus “quitutes”. Fazia tudo com presteza e as noites o Lampião a Gás iluminava tudo em volta.

          No segundo dia aconteceu um acidente. Bem não sei se foi um acidente. Fizemos um tripé e colocamos lá o Lampião de gás e o meu Lampião Vermelho. Vi de longe que os dois se estranhavam. Por duas vezes o lampião de gás bateu com força no meu lampião vermelho. Ele quase caiu. Ficou quieto. Saímos para fazer um grande jogo a tarde e só voltamos lá pelas seis já escurecendo. O Monitor gritou com todos: - Algum animal jogou os dois lampiões no chão. O lampião gás jazia com o vidro quebrado e camisinha em pandarecos. O lampião vermelho estava em pé e nada quebrado e quando olhei para ele o danado sorriu.

            Não ficamos no escuro à noite. Acendi o Lampião Vermelho e apesar de não ser uma luz clara que fazia o campo ficar como o dia o danado resolveu bem o problema. À noite eu estava sentado à beira de um pequeno fogo em frente a minha barraca logo todos se aproximaram. Ficamos ali conversando, cantando e vi que o Lampião Vermelho sorria. Estava feliz. Piscou para mim e por sinais me disse: Está vendo? Afinal eu sou um lampião dos bons! Pensei comigo, metido mesmo este Lampião Vermelho.

           No outro dia enquanto fazia o café da manhã e assava uns pães do caçador, o Monitor e mais dois da Patrulha se aproximaram. Começamos a conversar. Logo a conversa evoluiu para o Lampião Vermelho. Todos diziam que ele dava um aspecto mais mateiro ao acampamento. A noite ficava mais linda e as estrelas no céu brilhavam mais efusivamente. Não tinha pensado por este lado, mas olhei para o Lampião Vermelho pendurado próximo a nós em um tripé mais reforçado e vi que ele balançou para um lado e outro. Sorria como sempre o danado.

           Ouve outros acampamentos. Outras excursões. Lá estava o Lampião Vermelho a nos guiar e com sua luz bruxuleante nos trazia mais próximo à natureza. Ele mesmo nos ensinou como preparar o seu pavio para dar maior claridade. Ensinou-nos também que a querosene devia ser colocada pela metade em seu bujão. Ensinou que o pavio não devia ficar alto se não a chama forçava com a fumaça e iria sujar o vidro. Notei que os outros também passaram a conversar com o Lampião Vermelho.

             Por diversas vezes os patrulheiros da Raposa iam me visitar só para conversar com o Lampião Vermelho. Ele quando era noite pedia para acendê-lo e lá fora em frente ao meu barraco de barro, levávamos um banco de madeira e dois banquinhos e ficávamos horas e horas conversando. Minha Avó ao longe cantava uma canção sua predileta e olhava para nos embevecida e orgulhosa. O Lampião Vermelho agora era mais um da raposa. Ele também contava histórias, pois nunca mais perdeu uma atividade da patrulha.

              Um dia consegui passar em um vestibular para uma faculdade. Claro, já quase adulto e tive que ir para uma cidade grande. Iria levar minha Avó comigo, pois sabia que ia trabalhar de dia e a noite estudar e precisava dela como ela precisava de mim. Conversei horas e horas com o Lampião Vermelho. Vi que a tristeza e a dor da despedida o fizeram chorar baixinho. Eu também chorei. Não sabia o que fazer. Levá-lo comigo ou deixá-lo com a Patrulha? Dei a ele inteira liberdade de escolher. Você decide meu querido Lampião Vermelho.

             Não foi uma decisão fácil. Mas ele preferiu ficar com o novo Escoteiro que estava na Patrulha vindo do lobinho. Vi que eles se entendiam perfeitamente. Ele mesmo me disse que na cidade seria somente uma relíquia ou uma recordação de um passado saudoso. Ele não queria ser uma recordação. Achava que tinha muito ainda para iluminar as noites escuras dos acampamentos junto aos jovens escoteiros sonhadores. Assim como foi meu amigo e iluminou meus dias de juventude ele achava que iria ajudar em muito a nova juventude que iria aparecer na patrulha.

             O dia em que o Noviço foi buscá-lo, ele me olhou e chorou. Eu também chorei. Disse para ele: - Lampião Vermelho você me fez chorar muitas vezes. Deu-me muitas alegrias também. Mostrou-me novos caminhos, novos horizontes. Iluminou minhas noites alegres e tristes. Fez de mim um homem com sua maneira honesta de ver as coisas.  Não queria perder você, mas o destino muitas vezes não nos dá condições de escolha.


            Adeus meu querido Lampião Vermelho. Adeus. Espero que faça a todos felizes como me fez feliz por todos estes anos que ficamos juntos. Fiquei ali na porta do meu barraco de barro, a ver o Lampião Vermelho balançar e ficar sorrindo para o Noviço. Notei que os dois conversavam animadamente. Minha Avó veio de mansinho e me deu um abraço. Chorei nos braços dela. Nunca mais voltei àquela cidade. Nunca mais soube onde anda o Lampião Vermelho que fez parte da minha vida. Acho que ainda existe e deve estar fazendo milhares de acampamentos, excursões e vivendo uma vida feliz junto aos escoteiros que sempre amou.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

A fabulosa odisseia da Matilha cinzenta.



Lendas escoteiras
A fabulosa odisseia da Matilha cinzenta.

((Os personagens - Tiquinha (Lucilene Bastos), Patropi (Paulo Fernando), Mister Mosca (Joel Silveira), Neka (Antonia Farisson), Grilo (Jorge Assunção) e Professor (Pedro Sales))).

                       - Tiquinha, quando vai terminar as férias? – demora ainda Patropi demora muito, semana passada você já tinha perguntado. Mister Mosca era o único que estava plugado na Internet. Neka e Grilo jogavam paciência e o Professor era o único que estava a escrever em um caderno. – Todos as terças eles se reuniam em casa de um dos participantes da Matilha Cinzenta. A alcateia estava em férias. Sempre fora assim em julho. – Precisamos mudar isto, não dá sem reuniões só porque alguns chefes vão viajar, disse Neka – Eu concordo com você, sem uma reunião uma excursão ou um acantonamento e sem escola o tempo não passa! Disse o Grilo. – Olhem, não somos uma matilha? Afinal na jângal os lobos não se viravam sozinhos? Disse o Professor. Todos olharam para ele. Fale mais Professor. – Bem acho que podemos fazer uma atividade de um dia só para nós. Não estamos em férias?

                         Todos eles pertenciam a Matilha Cinzenta. Estavam juntos a mais de dois anos exceto a Tiquinha e o Grilo com um ano. Eram grandes amigos. Sempre as terças se reuniam em casa de um deles. Hoje estavam na casa do Professor. Dona Filó sua mãe sempre dava uma olhada no quarto para ver o que estavam fazendo. Agora estava na cozinha preparando um lanche para eles. Ela gostava de todos da Matilha. Eram seis e grandes amigos e muito educados. Jovens naquela idade não costumava ser assim. Mas Dona Filó nunca imaginou o que eles naquele instante estavam planejando. Se soubesse não estava sorrindo e sim chorando. Não só ela, mas como todas as mães e pais dos seis loucos e sonhadores lobos da Matilha Cinzenta.

                           Ficaram ate às sete da noite quando os demais pais foram buscá-los. O local foi escolhido pela internet. Um lugarejo antigo, onde existia um trem que aos sábados e domingos fazia o trecho explorado turisticamente. Na internet viram as fotos. Lindas, maravilhosas. E a nevoa que encobria com uma bruma cinzenta a cidadela? E aquela estradinha que levava a riachos de pequenas cascatas com águas cristalinas? Era demais. Poderiam achar a Pedra do Conselho. Quem sabe o Lobo Gris estaria lá? Todos estavam com a adrenalina à flor da pele. Discutiram a hora de saída, hora de chegada, o que deviam levar apetrechos com uma bússola (não entendiam nada dela) e lanterna. Um lanche extra no caso de demora de retorno. Como iriam ficar fora o dia inteiro teriam de mentir. Detestavam isto, mas não tinha saída. - Não dizem que somos todos viajantes do tempo, estagiando nesta odisseia de uma longa viagem cheia de aventuras, peripécias e eventos inesperados? Disse o Professor. Concordaram com ele.

                          Em um gravador com a voz dentro de um latão de cem litros imitaram a voz do Balu. Ele dizia que estavam chamando os lobos para uma reunião especial que ia durar o dia inteiro no sábado. Os pais deviam trazê-los pela manhã e busca-los à tardinha. Levar um lanche reforçado. Ao receberem o telefonema os pais não duvidaram. Quando ficaram sós na sede, pois os pais confiavam e os deixavam na porta indo embora em seguida eles partiram para o ponto de ônibus. – Acho que estou com medo – disse Neka. – Calma, vais ver que será tão divertido que o sorriso ficará sempre presente em você e todos nós – disse Patropi. O ônibus os deixaram na Estação Ferroviária. O trem não demorou. Os passageiros sorriam com aqueles seis jovens de mochila e uniformizados de azul. A maioria sabia que eram lobinhos e lobinhas. Ninguém se perguntou onde estavam os chefes.

                          Quase duas horas de viagem. Chegaram. A estação era bem antiga. Desceram e subiram uma grande escada de ferro. Logo em uma passarela enorme tiveram uma bela visão. A cidade aos seus pés e a bruma cinzenta em volta. O Professor sabia onde deviam ir. Pesquisou muito. Atravessaram a cidade e ninguém estranhou aqueles jovenzinhos de azul boné estiloso e mochila as costas sem um adulto. Ninguém se perguntou. Logo avistaram a estradinha. Linda. Em volta um arvoredo cheio de pássaros e beija flores coloridos. Estavam em êxtase. Maravilha tudo aquilo. A estrada diminuiu. Agora era uma trilha. Ninguém queria parar. Cada um se sentia em plena Jângal. A mente buscava a Akelá ou quem sabe o Balu atrás de alguma árvore. Nem pensavam em voltar. Todos sonhavam em chegar à Pedra do Conselho. Sabiam que lá estaria o lobo Gris e seus irmãos. Foi Patropi que disse estar com fome. Pararam para um lanche. Conversavam entre si cada um fazendo perguntas que o outro não sabia responder.

                         Eram duas e meia da tarde, hora de voltar. Mas e o riacho com cascatas de águas cristalinas? E a Pedra do Conselho? – Neka que tinha um relógio marcou o tempo. Seguiriam por meia hora. Se nada encontrassem meia volta. Viram o riacho. Lindo, nada mais que um banho, pois não foram ali para isto? – Um banho lindo e formidável. Brincavam, gritavam, riam cada um olhando para o outro e mostrando a alegria de estarem ali. Esqueceram-se das horas. O sol sumiu. Assustaram-se. Tiquinha pensava como voltar. – E agora? Perguntou. – Calma, disse o Professor. Todos nós devemos agir com calma. Vamos aproveitar antes de escurecer e voltar para vermos se achamos a estrada. O dia se foi. Não enxergavam nada. Tiraram as lanternas. Mesmo assim não viam nenhuma estrada. Outra trilha e a noite chegou sem lua. Nem as estrelas eles viam. – Que burrice fizemos? Disse o Mister Mosca – Não devíamos ter vindo – disse o grilo. Só Patropi e o Professor mantinham a calma. Eram uma da manhã de domingo. O Professor achou por bem parar. Seguiriam no dia seguinte. O que os pais iriam dizer ficaria para depois. Agora era dormir um pouco. A Tiquinha descobriu um isqueiro em sua mochila. Com lanternas juntaram uns gravetos. A fogueira esquentou a cada um. Os olhos fixos nas chamas que subiam aos céus.

                       Acordaram pela manhã com um Canário Belga cantando e um Bem Ti Vi procurando com seu cantar sua companheira. Olharam em volta, nenhuma trilha. Tiquinha começou a chorar. Neka também. Patropi soluçava. Mister Mosca e Professor de olhos fechados não sabiam o que fazer. Só o Grilo ainda sorria. De que ninguém sabia. – Na sede os pais desesperados. Policia, bombeiros, O Diretor Técnico, a Akelá, o Balu e vários Escoteiros falavam ao mesmo tempo. - Onde foram? Ninguém sabia. Fizeram varias equipes para perguntar na redondeza. Ninguém viu. – Capelão um bêbado do bairro disse que eles pegaram o ônibus da estação ferroviária. Ninguém acreditou nele. – Farofa era Monitor da Falcão. Chamou a patrulha. Só vieram cinco. Os demais estavam de férias viajando. – Vamos achá-los disse. Faremos duplas, uma delas pegue o ônibus da estação. Tendo alguma noticia ligue para os outros.

                   O domingo se foi. Nada da Matilha Cinzenta. À noite ninguém podia fazer nada. Na mata a Matilha não tinha saído do lugar. Sabiam que estavam sendo procurados. Dividiram os lanches para dois dias. Muitos saquinhos de biscoitos, batatas palhas e balas. O choro agora era de todos. Neka segurou na mão de Tiquinha, que pegou na mão de Patropi e assim todos deram as mãos. Resolveram rezar. – Pai nosso, que estais no céu, santificado seja o teu nome... Se alguém pudesse ver aqueles seis lobinhos rezando em plena mata escura também iria chorar junto a eles. Mais um noite em que dormiram juntos e abraçados. Uma fogueira cujas fagulhas subiam aos céus, iluminando uma coruja astuta que olhava para eles sem saber o que estava acontecendo. Dormiram e sonharam com Deus, com Jesus sorrindo para eles e dando esperanças.  Acordaram na segunda feira. Ninguém apareceu.

                    Farofa não desistia. Ele mesmo foi até a estação. Ficou lá mais de quatro horas conversando com um e outro. Os patrulheiros insistiam em voltar. – Farofa, não adianta, ninguém viu e ninguém sabe, disse Lumpaza. Mas Farofa não desistia. Risoleta trabalhava na banca de jornal. Viu os Escoteiros perguntando. Lembrou-se dos lobinhos. – Foram no trem de sábado para Paranapiacaba. Não vi eles voltarem, pelo menos no horário que trabalho aqui. – Pronto. Uma pista. Farofa ligou para o Chefe Trovão. Sabia que ele daria noticia a todos. Sabia que em pouco tempo Paranapiacaba estaria cheia de bombeiros, policias, a turma de sobrevivência na selva e helicópteros. – Eu vou no próximo trem disse – Toda a patrulha disse que agora era questão de honra eles serem os primeiros a encontrarem os cinzentos. Em Paranapiacaba só um guarda civil lembrou deles. – Pegaram a estradinha da serra do mar. Farofa conhecia tudo ali com a palma da mão.


                    No final da estradinha duas trilhas. Japirú era bom em pistas. Logo viu as pegadas deles. Fácil de seguir. A Trilha acabou. Matos quebrados. Seguiram em frente. Mais meia hora e lá estavam eles abraçados e chorando. A fome apertava. Quando viram os Escoteiros foi um grito de esperança. Um mês depois eles contaram na Alcateia tudo que aconteceu com eles. Mas não com orgulho e sim como um “mea culpa”. Ninguém nunca deveria agir como eles. Não leva a nada. Mentiram para os pais, para os chefes. O lobinho não diz sempre a verdade? E eles não sabiam como agir. Se adultos se perdem e muitos morrem, eles nunca poderiam ter feito o que fizeram. Seus pais choraram tanto de alegria que nem brigaram. Mas ficaram de castigos em casa por três meses. Queira ou não os seis lobos cinzentos da grande odisseia nunca foram esquecidos. Todos os lobos falavam deles para todo mundo. Uma fama se criou e até hoje naquele Grupo Escoteiro as historias contadas não condizem com a realidade. Mas todos tem seus heróis aventureiros. Se fosse para o bem que seja. Não faria mal a ninguém. Seja sim ou não, que a Matilha cinzenta aprenda com seus erros. 

domingo, 9 de junho de 2013

O inesquecível Chefe Bolota, ele sim era o “cara”!


Conversa ao Pé do Fogo.
O inesquecível Chefe Bolota, ele sim era o “cara”!

                       Nunca esqueci o dia que ele chegou à sede. Todos se assustaram. Eu mais ainda. Quando o Chefe Jessé o apresentou e disse que o Chefe Bolota seria o novo Chefe da tropa todos arregalaram os olhos. Ali na sua frente um homem baixinho, não mais que um metro e cinquenta e cinco ou menos, gordinho, cabelos crespos amarelados e seu rosto era admirável. Duas bochechas vermelhas gordinhas escondidas por uns olhinhos azuis diminutos. Moreno. Bem moreno. – Deu um belo de um sorriso e disse – Vim para aprender com vocês. Nossa! Onde amarrei minha égua? Eu pensei. – Tropa! Disse o Chefe Jesse, infelizmente fui transferido para Aguas do Sul.  Não posso mais continuar com vocês. Sei que sabem como levar a frente às atividades. A cada quinze dia voltará aqui e vamos conversar. Mas a responsabilidade da tropa ficará com o Chefe Bolota!

                       Uma palma mexicana foi dada ao novo Chefe. Ficamos assim meios cismados, pois como o Chefe Jesse tínhamos grandes liberdades. Acampávamos quando decidíamos. E reuniões eram quase todos os dias. Será que ele iria mudar? Chefe Jessé se foi. Chefe Bolota ficou. Sorria, quase não falava. Achamos sua voz um pouco estranha. Porque não o conhecíamos na cidade? Dois meses depois aprendemos a gostar do Chefe Bolota. Mais parecia um de nós. Ia à casa do Pedrinho, na minha, na do Romildo enfim ia à casa de todo mundo. Os pais o adoravam. Passaram-se quase cinco meses quando ele apareceu com o Padre Werner Braum da Paróquia de Santana. Todos conheciam a fama dele.  O chamávamos de alemão de Hitler. Sem conhecer ele e o  Hitler tínhamos um medo danado dele. Foi o Chefe Bolota quem nos apresentou. - Amigos e irmãos escoteiros, vocês não sabiam, mas sou sacristão na Igreja de Santana. Pronto estava explicado.

                     Agora tínhamos de participar da missa do Padre Alemão. Ninguém faltava. Chefe Bolota sorria de alegria. Pegou alguns de nós e fez um coro. Queria que outros se tornassem coroinhas. Chefe Bolota estava mudando tudo. Não era aquilo que fazíamos. Mas o olhar do Padre Werner era mortal. Ninguém dizia não. Um dia tivemos uma enorme surpresa. Um caminhão do Sexto Batalhão da Policia Militar parou na porta da sede. Um sargento pediu ajuda. – São para vocês! Menino! Ficamos espantados! Mais de duzentas mochilas praticamente novas,  quarenta barracas de duas lonas, oito barracas de oficiais, cantis, machadinhas, picaretas nossa! O que era aquilo? – Um pedido do Padre Werner ao comandante para vocês. “Enricamos” estávamos ricos. Por mais de cinco meses não faltamos às atividades da igreja de Santana. Mas nem tudo dura para sempre. As saudades das excursões, dos acampamentos, das atividades volantes, bivaques, tudo agora estava paralisado.

                        Chamamos o Chefe Bolota. Fizemos um Conselho de Tropa. Explicamos. Ele entendeu. Mas não sabia como conciliar com a igreja. O que ele diria para o Padre Werner? – Na semana seguinte chegou ele e o padre Werner no dia de reunião. Ficamos calados. Esperávamos o pior. – Escoteiros, acho que me enganei com vocês! – Putz! A barra ia pesar pensei. – Enganei mesmo. Vocês são escoteiros e a vida que devem levar é no campo e não na igreja. Vamos fazer um trato. Pelo menos uma vez por semana irão à missa. Uma vez por mês irão se confessar. Portanto nos demais dias, façam o escotismo como ele é. Aventuras, nada mais que isto! – Grande padre Werner.

                       Chefe Bolota estava conosco. Precisavam o ver cantando junto à carrocinha quando íamos para o campo. Sede? Uma vez passamos dois meses sem reunião lá. Foi na época que atravessamos as corredeiras do Rio Doce em Derribadinha. Uma aventura e tanto. Chefe Bolota caiu da jangada. Gritou não saber nadar. Vários de nós a ajudá-lo até uma grande pedra no meio do rio. Ele contava para todo mundo sua façanha e seus heróis. Não sei se ele se tornou um grande mateiro, não sei. Um ano e meio conosco nos deu a noticia – Fui aceito em um seminário. Sempre desejei ser um homem de Deus. Partiu assim como chegou. Quatro anos depois apareceu na sede. Apresentou-se como um novo padre no mundo. Rezamos com ele ali na sede uma linda missa escoteira.


                       Partiu para uma paróquia no interior de Pernambuco. Nunca mais o vi. A tropa sempre ao redor do fogo lembrava-se dele. Dávamos risadas, contávamos casos que foram repetidos por muitos e muitos anos nos fogos de conselho da vida. Chefe Bolota era figura central nas enquetes, jograis e histórias que por muitos e muitos anos aconteceram em nossos Fogos de Conselho. Sempre é bom ter boas coisas para lembrar. Chefe Bolota foi Chefe escoteiro. Pouco tempo. Mas acreditem, marcou mais que o nosso antigo Chefe Jessé. Tempos que se foram. Tempos que se dizia – Se tens uma Corte de Honra funcionando, tens uma tropa em ação. Assim éramos nós. Amigos e irmãos uns dos outros. Acampando com a Patrulha ou com todas juntas sempre riamos e dizíamos – “E quem precisa de Chefe”?

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Aqui se faz aqui se paga.


Lendas Escoteiras.
Aqui se faz aqui se paga.

                Narville ouvia calado. Ele sempre foi assim. Preferia ouvir a discutir, pois achava que seu silêncio lhe daria sempre paz de espírito. Seu pai um simplório carroceiro um dia lhe disse – Narville, a maior parte dos problemas do homem decorre de sua incapacidade de ficar calado. Ele olhava nos olhos do Chefe Wantuil do Grupo Escoteiro Águia de Haia. Um nome que todos sabiam o significado. Mas o Chefe Wantuil com toda sua arrogância não sabia. A princípio Narville achou que ele lhe daria um sorriso e dizer – Bem vindo, precisamos de voluntários, mas não. Tentou encobrir sua presunção de dono da verdade e só saiu um monte de asneiras. Finalmente completou – Narville, você é um simples vigia das Casas Noêmia, trabalha a noite, acho que nem estudo tem. Como posso aceitá-lo no Grupo Escoteiro? O que você pode trazer de benéfico aos jovens classe média que temos aqui? Se observar bem todos os chefes tem curso superior ou então estão terminando. Melhor procurar outro Grupo Escoteiro. Aqui não tenho lugar para você!

                Falar mais o que? Discutir com o Chefe Wantuil? Falar umas poucas e boas para ele? Ele já tinha lido que a maior parte dos problemas do homem decorre de sua incapacidade de ficar calado. Não foi Abraham Lincoln quem disse que melhor permanecer calado e que suspeitem tua insensatez, que falar e eliminar toda a dúvida disso? Narville era realmente na sua aparência um pobre coitado. Vestia mal. Ganhava pouco. Aprendera tanto com seu pai, um simples carroceiro, mas que para ele era um sábio. – Não diga a coisas com pressa Narville, mais vale um silencio certo que uma palavra errada. É mais fácil a gente se arrepender de uma palavra que de um silêncio. Ele sabia disso. Tinha visto agora nas palavras do Chefe Wantuil. Palavra errada, na hora errada pode se transformar em ferida naquele que disse e naquele que ouviu.

                  Desde pequeno que Narville sonhava em ser Escoteiro. Nunca pode entrar. Primeiro porque precisava trabalhar. Seu pai o deixara órfão aos dezesseis anos e antes tinha que ajudar sua mãe nas trouxas de roupa que lavava para algumas famílias da cidade. Depois para completar o dinheiro que precisavam para sobreviver ele trabalhava. Sempre fora bom aluno e estudava a noite. Dona Noêmia das Lojas do mesmo nome lhe dera um emprego. Salário pequeno. Passava sempre em frente ao Grupo Escoteiro e sonhava que um dia seria um. Mas onde estava o seu tempo? Não tinha. Sabia que eles iam acampar excursionar, entravam em matas fechadas, atravessavam rios e ele sonhava. Quantas vezes olhava no espelho e se via com aquele uniforme caqui, aquele lenço verde e amarelo e aquele chapelão.  Foi crescendo com seu sonho. Um dia Conseguiu o emprego de vigia noturno. Agora tinha as tardes de sábado, mas seu sonho foi destruído pelo Chefe Wantuil.

                  Não ficou com raiva. Ele era uma alma boa. Não tinha e nunca teve raiva de ninguém. Achava que cada um tinha suas razões. Narville tinha um segredo. Só dele, de sua mãe e dona Noêmia. Ela o vira uma vez estudando após o horário e sentiu que ele precisava de sua ajuda. – Narville, eu vou pagar a faculdade para você. Se um dia se formar vais trabalhar para mim aqui? – Falar o que para dona Noêmia? Um ano, dois cinco anos. Formou-se em direito. Uma luta para passar no exame da ordem, mas conseguiu. Ninguém sabia do seu intento. Sua mãe e dona Noêmia estavam presente na sua colação de grau. Logo foi transferido para o departamento Jurídico. Colocou seu único terno cinza e entrou na sala humildemente. Foi bem recebido. Em trinta dias conquistou amigos. Já era outro homem.

                O nome do Chefe Wantuil surgiu em destaque nos jornais. Foi acusado de roubo na firma que trabalhava. O juiz decretou prisão preventiva por trinta dias. Seu arroubo de arrogância afugentou os dois únicos advogados da cidade. Não tinha ninguém para defendê-lo. Narville achou que era hora de retribuir. Foi à prisão. Viu os olhos de Chefe Wantuil em lagrimas. Quem poderia imaginar aquela cena? Narville era bom advogado. Com a ajuda de um amigo detetive logo descobriu quem era o culpado. Chefe Wantuil no julgamento foi declarado inocente. Seu nome ficou marcado no grupo. Não o queriam mais. Nem deixaram entrar na sede para se explicar. Sempre tem aqueles que aproveitam dos que um dia estiveram no poder e humilharam todos. Não é assim que dizem que quem aqui faz aqui se paga?


              Chefe Wantuil ficou marcado para sempre. Narville não pode fazer nada. Seu sonho de ser Escoteiro foi adiado, mas dois anos depois organizou um novo grupo. Pequeno, sem grandiosidade. Trabalhar com poucos. Convidou o Chefe Wantuil. Este com lágrimas nos olhos aceitou. Tornaram-se amigos, foi seu padrinho de casamento. Mudou muito. Aquela arrogância ficou no passado. Ele aprendeu que nunca mais iria cair na tentação do discurso banal, da explicação simplória. Agora era outro, sua fala era como se estivesse dizendo – Calma! Agora eu tenho calma para dizer, calma para ouvir!        

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Escoteiro não durma. Se dormir você morre!


Lendas escoteiras.
Escoteiro não durma. Se dormir você morre!

                      Ainda faltava uma hora e meia para chamar Meiasuja. Meu amigo de muitos anos e Escoteiro sênior como eu. Meus olhos queriam fechar. Um sono incrível. Não sei se aguentaria sem dormir por muito tempo. A noite estava gostosa. Uma brisa fresca, um céu estrelado e naquela clareira da Floresta da Jiboia nada dizia que seriamos incomodados por chuva ou outros “bichos” naquela noite. Meus olhos fecharam. Tentei abrir. As pálpebras não obedeciam. Forcei novamente. O melhor era levantar beber um pouco de água, passar um pouco no rosto e tomar um café que estava quente no bule em cima das brasas do fogo, pois assim meu sono seria espantado. Por pouco tempo é claro. Já tinha feito aquela rotina por duas vezes. Abri os olhos. O que vi me matou de susto de uma só vez! Fiquei paralisado. Meiasuja tinha me prevenido. Melhor fazer uma guarda, cada um fica três horas e meia. Lembre-se não durma! O Seu Ptolomeu foi sincero em tudo que nos contou.

                      E dai? Adiantou? Consegui abrir o olho, mas não consegui me mexer. Era a visão da morte. Não dava um níquel pela minha vida. Os dois eram enormes. Seus olhos eram brasas vermelhas a brilharem no escuro. Seu Ptolomeu disse que não era comum Pumas daquele tamanho na região. Eles lá na roça os conheciam como Onça Pé de Boi. Matavam para viver e quando apareciam o gado ia aos poucos sendo sacrificado. Diziam continuou ele que eram animais fantásticos e que muitos caçadores e pescadores que conseguiram sobreviver juram que era uma Onça enorme, andando sempre aos pares com uma femea. Assim era difícil escapar. Encurralavam em algum lugar e enquanto matavam um e comia a femea esperava sua vez. Se vocês estiverem armados, matem primeiro o macho. Só assim poderão sobreviver, pois a femea vai fugir. Pescoço, você e Meiasuja tomem cuidado. A Suçuarana que aqui chamam de puma podem matar vocês só com uma pata.

                      Não me mexia. O corpo tremia. Urinei na calça uma vez. Seriam varias naquela noite. Olhava aqueles olhos vermelhos que não piscavam. Os dois pumas estavam um ao lado do outro e a menos de três metros onde estava. Meiasuja estava atrás de mim dormindo nem imaginava o perigo que corria. Pensei em acordá-lo, mas estava tremendo. Se ele acordasse e gritasse já era! – O que fazíamos ali? Por Deus deveríamos ter voltado. Seu Ptolomeu foi enfático. Agora era tarde de mais. – Tudo começou no Conselho da Tropa Sênior. O Grande Acampamento Distrital Sênior que fazíamos a cada dois anos seria em nossa cidade e iria acontecer uma grande Olimpíada Técnica Escoteira. Precisávamos de um local para alojar mais de duzentos seniores de seis distritos Escoteiros. Não poderia ser um lugar qualquer. – Era condição mínima ter uma mata, um rio ou riacho mais largo, remansos para banho, se possível quedas d’água para pioneiras de grande porte e muita madeira. Todos nós conhecíamos uma infinidade de lugares, mas mesmo assim o Chefe Pantaleão no Conselho de Tropa Sênior deu sua opinião que prevaleceu.

                      Vocês são doze. Duas patrulhas. Tem muitas estradas vicinais que ainda não exploramos. Vamos nos dividir em duplas.  Levar toda a patrulha não vai dar tempo de achar um local novo e desconhecido para todos. Vamos sair pela manhã do próximo sábado e voltar no domingo à tarde. Vamos sortear aonde cada um vai. Na semana seguinte nos reuniremos para ver o que vocês encontraram. Assim foi dito, assim foi feito. Nosso destino seria a Floresta da Jiboia. Nunca estive lá. Tinha ouvido falar. O Rio Taquari corria em suas entranhas mais fechadas. Até pescadores evitavam ir lá. Mas éramos seniores. Afinal o difícil para nós era fácil. Impossível? Nunca, dizíamos. O possível se faz agora e o impossível daqui a pouquinho.

                      Para ser sincero não dei muita bola para o que disse o Seu Ptolomeu. Já vi onças muitas vezes e a maioria se espantava e sumia no meio das matas. Portanto estas tais pumas quando nos visse fariam a mesma coisa. Iriam fugir como o diabo foge da cruz. Ainda bem que o Meiasuja deu a ideia da sentinela. Mas não achei que adiantou muito. Estava petrificado olhando aqueles enormes pumas a minha frente. Como sênior aventureiro já tinha visto a morte de perto muitas vezes. Naquele buraco fedido no Espinheiro da Maloca, onde nunca tinha visto tantas surucucus reunidas em um só local. Ou mesmo na Garganta do Espantalho, onde caí dentro de um buraco de formigas gigantes. Safei-me de muitas e outras borrava de medo. Nunca fui valente. Mas gostava daquilo que fazia. Agora não. Sabia que não haveria escapatória. Atrás de mim, deitado em uma manta e com a cabeça na mochila Meiasuja dormia como um neném recém-nascido.

                       Um dos “monstros” sem pêlo deu mais um passo a frente. A femea fez o mesmo. Estava morto e não sabia. Olhavam-me dentro dos olhos. Não aguentei mais. A calça ficou toda molhada. Perdi os sentidos. Não tive sonhos e nem pesadelos. Acordei uma hora depois pensando estar no céu. Os dois pumas estavam deitados aos meus pês e dormiam como anjinhos. Acho que aproveitando o calor das brasas do fogo que já se extinguia. Cutuquei Meia suja. Ele custou a acordar. Fiz o sinal de silêncio com o dedo à boca. Ele então viu os pumas. Saímos pé ante pé. Subimos na primeira árvore que encontramos. Cada um em um galho. Ficamos lá por um bom tempo.  Pela manhã os pumas foram embora e nós também. Sempre a olhar na longa trilha da mata se eles resolvessem nos emboscar. Foi duro sabe muito duro. Não tinha levado roupa reserva. Todo molhado e vi que não era só isto, pois tinha mais coisa na roupa. Saímos da mata duas horas depois.

                     Passamos pela fazenda do Seu Ptolomeu. Ele abanou a mão. Estava dando um trato na sua vacada de leite. Não paramos para comentar. O medo era demais. No Conselho de Tropa Sênior todos deram boas risadas. Alguns não acreditaram em tudo que contamos. Que seja. O Acampamento Sênior Distrital foi realizado com muito êxito. Nossa patrulha não ganhou nada nas olimpíadas, mas eu e Meiasuja fomos batizados de “Escoteiros Melosos”. Bem não foi propriamente meloso, mas o nome próprio não deve ser colocado aqui. Um dia na Barbearia do Mico Preto, eu cortava o cabelo e o Seu Ptolomeu entrou. Quando me viu riu e disse – Sabe? Nunca mais vi os dois pumas. Não perdi mais nenhum boi. O que vocês fizeram para eles sumirem deste jeito? Falar o que? Será que eles aproveitaram o calor do fogo e o calor de dois meninos Escoteiros e em troca da amizade e hospitalidade oferecida foram embora?


                  Um dia chamei Meiasuja e disse – Acho que devemos voltar lá. – Nem pensar Pescoço, nem pensar! Mas no meu intimo queria saber se os pumas ficaram meus amigos. Uma dúvida que persiste até hoje. Cresci e não voltei. Não soube de mais nada deles na Floresta da Jiboia. Soube sim que outras patrulhas acamparam lá e nem sinal dos pumas. Ainda bem. Histórias são histórias. Acreditem se quiser! Risos.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Nazareno, o menino Escoteiro que falava com o céu.



Lendas escoteiras.
Nazareno, o menino Escoteiro que falava com o céu.
(um conto baseado na doutrina espírita).

                Quanto tempo? Muito. Mais de vinte e poucos anos. Uma vida. Não sei onde ele anda hoje e se ainda continua nos caminhos que escolheu. Não digo que foi um santo que foi um pecador nada disto. Poderia dizer que nasceu em uma família errada, na cidade errada.  Nazareno nunca foi um crédulo, um homem de Deus. Na época ele não teve escolha. Como Escoteiro sempre foi considerado um simples menino sem muitos conhecimentos religiosos afora os que lhe foram colocados como o correto como coroinha da Paróquia São Geraldo. Seus pais até imaginaram que ele poderia ser um padre, um bispo um cardeal. Sonhos de muitos pais em cidades do interior. Não porque fosse um prodígio em religião ou milagreiro, nada disto. Eu pessoalmente na época, com parcos conhecimentos espíritas achava que ele estava em contradição com as leis da natureza. Claro que tinha excepcional inteligência para sua idade e em alguns casos poderia dizer mesmo que ou fazia milagres ou tinha parte com o demônio. – Deus me livre! 

               Nazareno procurava sempre esconder suas possibilidades de falar com os mortos. Ninguém sabia. Dizem hoje que a mediunidade faz parte da natureza. Que todos nós sem perceber somos médiuns, uns mais outros menos. Não vou entrar no mérito da questão. Não estou aqui para escrever sobre uma crença, uma Doutrina, uma ideologia ou uma filosofia como querem alguns definir o espiritismo. Prefiro ficar com Mateus, em 15, 14 que dizia: – “Deixai-os; cegos são os condutores de cegos. E se um cego guia a outro cego, ambos vão cair no abismo”. Quem sabe é melhor ficar com Nathalia Wigg que disse – “A maior mediunidade que um homem pode desenvolver é a capacidade de amar”. Quando era lobinho sempre o achei taciturno, reservado e retraído. Brincava, cantava, mas não parecia estar ali junto com seus amigos de matilha. Quando passou para Escoteiro o encontrei uma vez depois da reunião chorando. Seus olhos cheios de lagrimas. Seu corpo tremia. Sempre assim calado, sem dizer nada. Perguntei o que havia e ele me respondeu melancólico que eu não iria entender. Ninguém o entendia. Isto aconteceu várias vezes. Nunca comentei o caso na Corte de Honra.

               Cidade pequena, praticamente católica como ajudá-lo? Quantas vezes ao sair da barraca pela manhã, com o sol já despontando no horizonte, eu o avistava sentado em um lugar qualquer, olhando para o céu? Um dia me disse – Monitor sabe de uma coisa? Tem alguém me dizendo que devemos esperar que se o amor se propagasse no mundo com mais força que a violência a violência desaparecerá, a maneira da treva quando a luz se lhe sobrepõe. Eu tinha treze anos, não entendia nada do que dizia. O dia amanhecia e lá estava a Patrulha nos seus afazeres. Nazareno corria com os outros nas atividades, mas quase não sorria. Só uma vez o vi sorrindo quando alguém brincou no Fogo de Conselho com os novatos com a velha brincadeira do Serafim. Você conhece o Serafim? Não? Aquele que fica assim? Ele ria. Não aquela gargalhada de quem conhece a brincadeira. Eu mesmo ate hoje dou boas risadas.

              Acredito que tudo piorou quando na missa de um domingo qualquer, a tropa estava presente e ele sem ninguém perceber foi ate onde estava o padre e em alto e bom som disse para todos os presentes: – “Somos companheiros otimistas no campo da fraternidade”. Se Jesus espera no homem, com que direito deveríamos desesperar? Aguardemos o futuro triunfante, no caminho da luz. A terra é uma embarcação cósmica de vastas proporções e não podemos olvidar que o Senhor permanece vigilante no leme! – Todos os presentes na igreja ficaram estupefatos. Ninguém entendeu nada. Pudera entender o que? Um menino Escoteiro com chapéu na ombreira, olhando para o céu e de mãos postas dizer aquelas palavras? Era santo? Ou estava tomado pelo demônio que fingia para todos ali presentes? O padre ficou possesso.

              Na escola sua professora Dona Neide, uma matrona dos seus quarenta anos sem filhos, magra, parecendo a Olivia Palito esposa do Popeye o pegou varias vezes de olhos fechados, escrevendo sem parar no seu único caderno que era para fazer a lição de casa. O pegou pela orelha e o arrastou ate o diretor. Era difícil entender o que estava escrito vários rabiscos que precisariam ordenar para entender. E depois? Como explicar aquelas palavras? – “Quando cada um transforma-se em livro atuante e ao vivo as lições para quantos nos observam o exemplo, as fronteiras da interpretação religiosa cederão lugar a nova era da fraternidade e paz, que estamos esperando”. Não foi uma só vez. Foram várias. Ninguém para explicar e ajudar. As brigas homéricas do padre versus professora versos pais versos chefes eram constantes. Cada um querendo que o outro resolvesse.

                Ao fazer quatorze anos já com sua Segunda Classe, Nazareno desistiu de sua Primeira Classe. Pela primeira vez pensou em abandonar o Grupo Escoteiro. Ele sabia que era o único lugar que ninguém perguntava e se preocupava com sua maneira de ser. O aceitavam como era. Mas eu, como Monitor de sua Patrulha ficava de olhos nele. Tinha medo que ele fechasse os olhos e desaparece em alguma mata ou bosque e pudesse acontecer o pior. Mal sabia eu que ele era assistido por milhares de espíritos protetores que iriam sempre lhe mostrar o caminho do bem. Um dia sua mãe procurou o grupo e disse para o Chefe umas verdades. Este me chamou e ela sem papas na língua disse em alto e bom som que nós não nos preocupávamos. Que o deixávamos fazer suas ilusões mentirosas e até mesmo falar com Deus. Alguém soprou no ouvido dela e do padre que era mediunidade. A resposta dela já pronta dizia que não era mediunidade coisa nenhuma, era coisa do demônio ou dos escoteiros que o levavam a acreditar em tudo.

                Mal sabíamos nós que o fenômeno mediúnico já estava fazendo parte dele. Mesmo sendo uma criança a partir do momento que se deixa dominar a influência espiritual está presente. Ainda bem que ele tinha amigos que o protegiam na espiritualidade. Sabemos que quando isto acontece pode um espírito qualquer aproveitar a circunstância e querendo fazer coisas erradas, e claro por satisfação do obsessor que nada mais é alguém de um passado seu. Nunca vi em Nazareno ações destemperadas. Se fosse hoje poderia dizer que ele estava tendo comunicações mediúnicas na acepção da palavra. Mesmo que todos queriam interromper esse fenômeno não iriam conseguir. E tudo seria tão simples com a oração, a pacificação, o desligamento do mal e seria fácil fazê-lo desligar daquela ação.

                 O pior aconteceu. A família de Nazareno começou a ser estigmatizada. Todos passaram a evitá-los. O dia ele chegou e me procurou chorando – Monitor tenho de sair. Meus pais vão mudar daqui. Nem sei qual cidade vamos e eles me pediram e até ajoelharam em meus pés para procurasse ser normal lá. Não entendi, pois me acho normal. Nunca disse para você, mas vejo tanta gente quando ando, quando durmo, e ate aqui no grupo eles estão. Não fazem mal a ninguém, pois me disseram que onde houver um ambiente saudável, cristão, onde Deus está presente eles não faram nenhum mal. Sabe Monitor, aqui encontrei uma paz que não encontrava na escola e nem em minha casa. A Lei Escoteira e minha promessa nunca será esquecida.

                 Eles partiram duas semanas depois. O tempo passou. Esqueci-me por completo de Nazareno. Há vinte anos atrás sem perceber alguém me chamou quando descia a pé a Avenida Angélica. Olhei para trás e reconheci Nazareno. Vestia simples, uma camisa verde desbotada e uma calça jeans velha. Calçava um sandália de couro. Convidou-me para um café. Contou-me sua vida depois da mudança. Seus pais morreram logo. Disseram que foi de desgosto. Eu vim para São Paulo aqui me casei e aqui criei meus filhos. São três. Um deles é formado em engenharia. Os demais seguiram outro rumo, mas são pessoas honestas. Eu e Linda minha mulher descobrimos um Centro Espírita próximo a minha casa lá no Bairro Santa Amélia. Gostei quando me aproximei deles. Gente simples. Não são um órgão centralizador. Apenas alguns princípios básicos que sustentam a Doutrina. Participo ativamente quando não estou trabalhando. Sou pedreiro e isto me dá o suficiente para minha família. Há algum tempo estou escrevendo. Ou melhor, psicografando. Ainda não tenho nenhum livro. A maioria do que escrevo são mensagens para pais saudosos, e graças a Deus eu tenho ajuda de amigos espirituais que fiz nesta jornada desde que estou lá.

             Fiquei ali com Nazareno por horas. Para dizer a verdade ele tinha uma voz que me encantava. Falava pausadamente sem ostentação. Seus olhos brilhavam quando falava da sua nova vida. Insistiu para que um dia fosse a sua casa. Sua esposa já sabia de mim, pois ele sempre contou sobre seus tempos de escotismo. Hoje não participa. Ainda se sente um Escoteiro. Mas suas horas de folga, seu tempo livre é dedicado a ajudar os que procuram no centro. Sabe Monitor, eu sou muito feliz em poder ajudar no tratamento, orientação dos problemas materiais e espirituais dos que procuram minha ajuda no Centro Espírita. – Monitor, ele disse, eu gosto de recepcionar os que nos procuram. Eu sei que o primeiro contato é a primeira impressão que cativarei para ajudá-lo em tudo que for possível.

            Não fui a casa dele. Talvez pela falta de tempo. Devia ter ido. Afinal sou um Kardecista de mão cheia. Não nos encontramos mais. Ainda tenho seu telefone. Todos os dias penso e ligar e não ligo. Quem sabe já escreveu um livro? Sinceramente? Gostaria de ler. Vou terminar por aqui. Desculpem os que ainda não professam a Doutrina Espírita. Não escrevi um conto com a intenção de catequizar ninguém. Respeitar a escolha individual faz parte da minha maneira de ser. Escrevi mais por recordar alguém que um dia me deu a luz para o espiritismo que conheço hoje. Como diz o nosso querido Chico Xavier: - “Acreditamos que o Criador nos fez rico a todos, sem exceção, porque a riqueza autêntica, a nosso ver, procede do trabalho e todos nós de uma forma ou de outra, podemos trabalhar e servir”.


Obs. Muitos dos escritos aqui foram anotados por Chico Xavier em suas centenas de livros.