No mundo dos sonhos com as fábulas escoteiras

No mundo dos sonhos com as fábulas escoteiras
A aventura está apenas começando

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

O último voo do Falcão.


Lendas Escoteiras.
O último voo do Falcão.

                O horizonte desaparecia no infinito. Quem o visse ali com as asas entreabertas naqueles penhascos longínquos do Pico das Mil Vidas nunca imaginaria que um Falcão estava vivendo seu ultimos dias de grandes jornadas. Sua vida estava se esvaindo. No seu pensamento lembrou-se de um poema que seus ancestrais lhe ensinaram – “Combati o bom combate, completei a carreira e guardei a fé. Não espero o prêmio da vitória, pois mesmo tendo levado uma vida correta nunca me senti um vencedor”. Ele sabia que seu fim se aproximava. Estava ali há vários dias. As forças já não existiam mais. Diziam que ele era a ave mais rápida do mundo. Suas asas pontiagudas e finas o ajudavam na caça em espaços abertos. Quanto tempo se passou quando lá pelos lados do Vale dos Sonhos coloridos, ele e Abbat voavam pelos céus, quem sabe para se mostrarem belos, majestosos e admirados pelas outras aves que nunca poderiam fazer o que eles faziam.

                Abbat, onde andará ela? Ainda no ninho do Sol Nascente? Mas suas duas proles não estavam crescidos e tinham ido procurar viver suas vidas em outras plagas? Abbat, sua eterna companheira. Lembrava que todas as manhãs ele via a gazela acordar, ele sabia que ela precisava correr lépida para sobreviver às sanhas dos leões. Não importa se você é leão, gazela ou um falcão. Quando o sol nascer era hora dos voos em busca do vento, olhar o firmamento e pensar que precisava se alimentar para sobreviver. Viu do outro lado do Vale da Felicidade um Jaguar. Enorme. Parecia um gato manchado de preto e amarelo. Estava firme com seu olhar tentando saber como chegar até ele. Tudo mudou. De caçador agora era a caça.

                Sabia que mais cedo ou mais tarde o Jaguar das Terras Altas chegaria onde ele estava. Sabia também que não podia voar, não podia reagir, a morte seria o fim da vida? Sua mente voava pelos campos floridos. Nunca esqueceu Abaat. Quantas vezes ele voou para levar a sua companheira e sua prole a refeição do dia? Lembrou-se dos mundos coloridos que conheceu. Voou para todos os lugares e conhecia o caminho do sol, das estrelas, era um falcão valente e que agora estava no fim da vida. Olhou para baixo e viu no Vale da Esperança vários meninos e meninas de azuis e lenços rindo e brincando. Já os tinha visto antes. Todos iguais com uma espécie de coroa azul na cabeça que chamavam de boné de lobo e um lindo lenço amarrado no pescoço.

                Olhou novamente. O Jaguar havia desaparecido. Ele sabia seu destino. Ele sabia que o Jaguar o encontraria. Pensou em seu Deus. Ele também acreditava num ser supremo. Deus! Ó Deus! Onde estás que não responde? Em que mundo em que estrela tu te escondes? Ele pensava e ria. Ele morreria com honra. A morte estava enganada. Eu vou viver depois dela! Olhou para o vale novamente. Os meninos de azuis montaram barracas, corriam satisfeitos, saltitantes, cantantes como o regato que com suas águas mansas corria lentamente pelo Vale da Esperança. Olhou sua plumagem. Considerava-se belo. Suas patas amarelas se tornaram lendas para quem as enfrentou. Seus olhos negros com anel amarelo eram enormes. Podiam ver o infinito. Amava suas asas, enormes. Com elas correu mundo.

                Sentiu um toque em suas asas. Assustou-se. Tão rápido o Jaguar o encontrou? Fechou os olhos. Não podia reagir. Não tinha forças. O Valente Falcão Peregrino agora era uma sombra do passado. Morrerei com honra pensou. Sentiu o toque novamente. Olhou. Não era o Jaguar. Era uma menina. Linda de olhos azuis. Com seu lencinho verde e amarelo no pescoço ela sorria. Ele queria falar, sabia que não seria entendido. Mesmo assim ele crocitava, piava e a menina entendeu! Tirou do seu bornal um farnel que seria seu lanche do dia e deu para ele. Sabia que a Akelá iria compreender. O Falcão sorriu. Ele precisava. Estava fraco. Cinco dias sem comer e beber água. Comeu tudo! Sentiu suas forças voltarem. Agora estaria pronto para enfrentar o Jaguar. Um apito ecoou ao longe. A menina de olhos azuis se levantou e disse – Adeus meu amigo Falcão! Ele não entendeu.

              Em um esforço sobre humano ele deu três passos para frente e alçou voo.  Iria fazer o ultimo voo do Falcão no espaço para ela. Para a menina lobinha. Queria que ela soubesse do seu agradecimento. Ela lhe devolveu a vida. Alçou voo rumo ao infinito e voltou célere. Fez uma virada lateral como fazia no passado. Viu que ela batia palmas. Partiu rumo ao Vale do Sol Nascente. Um voo que nunca na vida ele tinha feito com aquela velocidade. A menina sorria lhe acenou com os bracinhos como a dizer adeus. Ele partiu. Sabia aonde ia. Seguiria o sol no seu caminho para o oeste. Precisava encontrar Abbat. Viu o Jaguar próximo da escarpa onde estava olhando para ele. Sorriu. Não foi desta vez meu amigo. Quem olhasse para o céu, veria um Grande Falcão Peregrino com suas asas enormes, voando junto ao sol e que aos poucos desaparecia no horizonte.


              Não sei se ele encontrou Abbat. Deve ter encontrado. Ele sabia que sua linhagem não iria desaparecer no tempo. Suas duas proles velejavam pelos céus a mostrar sua raça, a mostrar sua força e coragem. Em sua mente eu sei que ele dizia para si próprio: - “Às vezes eu falo com a vida, às vezes é ela quem diz – Qual a paz que eu não quero conservar para tentar ser feliz”? 

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

O tempo e o vento para os Mestres de Campo.


Conversa ao pé do fogo.
O tempo e o vento para os Mestres de Campo.

                            Sempre temos lembranças marcantes das coisas lindas que o escotismo nos ofereceu em um passado distante. Ou quem sabe no presente de hoje. Eu sei que a maioria vai dizer que o fogo de conselho em um acampamento é o ponto marcante ou quem sabe o ápice. Sem sombra de dúvidas este marca mesmo a gente. Mas tem outras, muitas outras que às vezes ficam esquecidas e só o tempo nos traz de volta as lembranças daquelas noites gostosas, vividas em um acampamento qualquer. As patrulhas em seus campos, ouvindo as conversas aqui e ali, o lusco fusco da noite e os lampiões sendo aceso, um sorriso alto uma canção despercebida. A fumaça do fogo a lenha no fogão tropeiro ou suspenso e os cozinheiros preparando seu jantar com toda a patrulha em volta aguardando que o manjar ficasse pronto. A gente de olhos e ouvidos abertos na chefia, sentindo o vento no rosto também com nosso fogo aceso. Girando a manivela devagar, um belo naco de lombo, bonito de se ver e sentindo a carne ir tostando, outros chefes ali ao seu lado, de olhos pregados na carne, sentindo o sabor na mente. A gente via a noite suave chegando, a mostrar os primeiros vagalumes, a gente escuta uma patrulha dar o primeiro grito. Aqueles felizardos seriam os primeiros a jantar. A chefia sorri. E o Monitor correndo? – Sempre Alerta Chefe, Patrulha Gavião com jantar pronto. Aceitar jantar conosco?

                               O som do grito da segunda da terceira e da quarta patrulha e a gente sabia que nem assim o silêncio iria acontecer. A gente não estava com eles, mas imaginava. Sentados em bancos, ou no chão, com os pratos na mão, algumas patrulhas com mesas e bancos e eles não deixavam de matraquear. A noite está firme. O lampião aceso clareando o campo de patrulha e a gente de longe olhando e saboreando aquela noite gostosa. A alegria reinante não tem preço para pagar o que sentimos. E o olhar deles? No prato ou no rosto de um patrulheiro um sorriso e nunca a reclamar. Sem dizer que estava sem sal, sem óleo ou gordura. E a gente em volta do fogo no campo da chefia olhando os chefes que de olhos abertos perguntavam sem dizer – E esta carne, ainda não está boa? – Tome experimente – a gente corta uma tira com a faca mateira para um e outro. O estalar da boca, o sorriso e já era hora do nosso jantar. Bem próximo o barulho das patrulhas aumenta, eles em uma gostosa conversa ao pé do fogo dão risadas, alguns cantam e a gente sabia que o acampamento tinha atingido o ponto esperado.

                        O tempo. Ah! O tempo que um dia aconteceu e a realidade daquele momento ainda permanecem vivos em nossa mente. Um anoitecer delicioso, uma alvorada, um alvorecer, uma noite bem dormida, um jogo bem jogado, uma refeição bem nutrida, quem sabe um peixe bem pescado. Ou um tomate colhido no lago, um mamão achado ao sopé da montanha para uma sopa bem gostosa e a noite alta, o silêncio a dormir com eles esperando o amanhã. São coisas nossas e próprias de nós chefes que vivemos tudo isto. O tempo e o vento! O vento sul, do norte não importa. A soprar nas tardes quentes, um banho no riacho de águas geladas, a escoteirada vibrando, brincando de pic, nic, brincando de palmar na água, ah! O vento!  A alvorada, um passar de mão nos olhos tentando acordar, hora da ginastica, o sol surgindo, uma névoa que se vai. São somente lembranças, do tempo e do vento. Vento que tantas vezes sentíamos no rosto trazendo a fragrância das colinas tão perto, o perfume das flores nos montes, o frescor a substituir o calor de um dia bem vivido. Não dá para esquecer. São coisas nossas, são coisas de escoteiros.


                              Se você meu caro amigo ainda não sentiu o cheiro da terra molhada, não sentiu nas madrugadas o orvalho caindo e molhando sua face, ou então a chegada da brisa fresca antes do nascer do sol, se ainda não viu o sol se por, a cigarra cantando, o canto dos Jaburus, o uivo de um lobo guará, uma bela coruja a piar no galho de um jacarandá, o barulho das águas nas pedras fazendo chuá-chuá! Se você meu caro ainda não viu tudo isto está na hora de botar o pé na estrada. E se por acaso me encontrar na volta eu irei ver o seu sorriso e poderei dizer – Você é um Escoteiro de fato, pois este é o escotismo que sonhamos! 

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Como é gostoso sorrir.


Crônicas de um Chefe Escoteiro.
Como é gostoso sorrir.

           Eu sempre tive uma queda por Machado de Assis. Ele sempre foi prodigo em comentar sobre uma vastidão de temas e soube transportá-los para uma realidade que nos toca fundo. Hoje resolvi falar sobre como é gostoso sorrir. Abro meus escritos com o que ele escreveu – “Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho, há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas”! Adorável isto. Mas não é bom sorrir? E ver os outros sorrirem então? Lembro que a muitos e muitos anos estava dirigindo um curso Escoteiro e na equipe havia um padre sério que vivia de cara fechada. Todos tinham medo dele e não deixava saudades em suas palestras. – Padre eu falei, porque não sorri para os alunos Escoteiros? – E ele – Uai! Disseram-me que é assim que se procede em Gilwell Park. Ele tinha uma sessão quinze minutos depois. Entrou sério e sisudo. Uma época que os alunos levantavam-se na entrada do formador. Sentaram e ele de cara feia olhava todo mundo. Seus olhinhos miúdos corriam os bancos postados na orla daquela floresta. Todos calados pensando: Que diabo quer este padre? E ele olhando a cara de um por um começou a rir. Seu riso aumentou. Os alunos chefes não entendiam nada. Mas sua risada era contagiante. Logo em seguida um começou a rir e foi seguido por todos os participantes do curso. Ficaram lá rindo por muito tempo. O padre nunca mais foi esquecido e no inicio de outros cursos sempre me perguntavam – O Padre X está na equipe?

         Já me disseram muitas vezes que o salário de um Chefe está no sorriso de suas crianças. É mesmo. Existe algum mais lindo que um sorriso? E se for de criança melhor. Chegar ao seu grupo, ver a alegria estampada, ver o Diretor técnico vindo lhe cumprimentar e sorrir, os demais chefes sorrindo e olhando para você dizendo - Sempre Alerta meu Chefe, alegre em ver você de novo! Tem salário que paga tudo isto? Não tem. Aí você se enche de orgulho e diz em sua consciência, valeu ser voluntário. Ajudando o próximo estou ajudando a mim mesmo. Eu tive a oportunidade de ver belos sorrisos. Já notaram quando saem para uma atividade ou acantonamento? Todos chegando sorrindo e as mães preocupadas? Elas sem saber destoam do conjunto. Mas eles estão sorrindo de orelha a orelha. Muitos dormem nos ônibus e quando lá chegam é aquela alegria. E o Fogo de Conselho? Você já teve a alegria de ficar observando os rostinhos infantis e juvenis a brilharem quando as chamas altas querem tocar no céu? Prestou atenção neles? É Indescritível. Uma hora ou duas horas e eles pregados ali, sentados na grama, olhando sempre para o fogo crepitando e se aparece alguém para um esquete ou um jogral meu Deus! Os sorrisos dobram.

         Não sei por que alguns chefes são sisudos. Cara feia. São até bonitos, mas com seu estilo de chefão é de matar. Quando formam as crianças eles se portam como se fossem os Capitães da Guerra. Dão uma olhada de ponta a ponta e param em alguém que não está como ele deseja. Isto se não gritar pedido que fique firme. Acredito que ele ainda não pegou que o escotismo tem de ter alegria em tudo. Não existe hora nenhuma para ficar sério. Pode até ser uma atividade séria, uma cerimonia séria, um jogo sério (jogo?) não importa. Importa é a maneira de se apresentar e conduzir tudo isto. Amigos sorrir faz parte do bem viver. Já me disseram que sorrir sempre é um ótimo remédio. Os entendidos dizem que isto foi uma grande descoberta científica. Dizem que vale a pena dar uma boa gargalhada. Isto mesmo, ele contagia a quem está por perto e nos momentos difíceis lembrar coisas boas e tentar sorrir mesmo que por pouco tempo ajuda. Muitos comentam que nos piores momentos um sorriso torna as coisas que eram difíceis ficarem fáceis. Uma pesquisa revela o porquê rir é o melhor remédio, segundo os pesquisadores da Universidade de Oxford, na Inglaterra todos estes benefícios só existem quando se trata de um riso de felicidade e de euforia. O riso social, por vergonha, embaraço ou por educação, não tem o mesmo efeito.

             O escotismo é uma fonte inigualável de alegria e satisfação pessoal. Sabendo sorrir e valorizar seus amigos é meio caminho andado. Uma época eu fui sisudo. Muito. Chegava e todos ficavam calados. Mas a Escola da Vida me mudou. Hoje sorrio muito e poucos acham que estou sorrindo. De vez em quando fico no espelho treinando, mas não é fácil. Gosto de lembrar Baden-Powell sempre. Dizia que sempre foi feliz e gostava de fazer as pessoas felizes. Afinal não foi ele quem colocou lá na Lei Escoteira o Oitavo Artigo? – O Escoteiro é alegre e sorri nas dificuldades. Veja o que disse o poeta Dinamor: - Quem quiser vencer na vida deve fazer como os sábios: mesmo com a alma partida, ter um sorriso nos lábios. Quer viver mais tempo? Quer se curar rapidamente? Quer fazer do seu Grupo Escoteiro uma família feliz? Coloque um sorriso nos lábios, mas espere um sorriso autêntico, alegre e espontâneo, pois se não for assim todos saberão que você não está sendo verdadeiro.


            Antes de terminar me lembrei de um fato interessante. Estava eu e a Celia (se passou há uns dez anos) em um restaurante (simples não aqueles cinco estrelas) e ouvi uma gargalhada gostosa. Daquelas que a gente tenta dar e não consegue. Ao meu lado um casal novo dizia – Que falta de educação. O maitre devia colocá-la para fora. Virei-me e vi quem estava sorrindo. Nada mais nada menos que Dolores. Uma antiga Chefe de lobinhos hoje com seus oitenta e sete. Levantei-me e fui até a mesa do casal – Meus amigos superem se possível esse inconveniente, aquela senhora tem oitenta sete anos. Olhe bem ela vai viver mais vinte tranquilamente. Sabem por quê? Porque ela gosta de sorrir, ela enfrenta as dificuldades sorrindo. Completei com Martin Luther King – Pouca coisa é necessária para transformar inteiramente uma vida: amor no coração e sorriso nos lábios! 

sábado, 27 de setembro de 2014

A árvore da colina. “A paz esteja convosco!”


Lendas Escoteiras.
A árvore da colina.
“A paz esteja convosco!”

                - Eu só o vi uma única vez na vida. Na verdade aquele foi um dia especial, não me perguntem por quê. Notei sua figura surgindo na estrada do Alencar, a pé, com um cajado simples, mas com passadas belas sem se mostrar cansado. Ele não me disse quem era e nem eu perguntei. Quando se aproximou de mim senti um brilho em sua figura e inexplicavelmente ele se transformou. Juro que ao longe estava com uma bata branca e ali na minha frente estava agora com um lindo uniforme Escoteiro. Como ele podia fazer aquilo? Era mágico? Se fosse o truque era perfeito. Não usava o chapéu e eu sei que aquela áurea brilhante o chapéu tiraria toda sua pose badeniana. Quem seria? Ele sorria para mim, um sorriso gostoso, dentes alvos olhos negros, cabelos castanhos compridos.

                  Parei ali para descansar um pouco da minha jornada e fazer um café. Precisava. A Árvore da Colina já era minha velha conhecida. Pequena, mas com uma folhagem que em todo seu redor fazia uma sombra invejável. Não havia nascente, não havia rios e nem tampouco regatos por perto. Somente a árvore para nos dar o descanso devido. Pensava em chegar ao acampamento da patrulha ao entardecer. Uma obrigação com meu pai me obrigou a ir depois deles. O destino não era longe. Após a curva do Falcão já se podia avistar a mata pequena, a cascata e o bambuzal. Tirei a mochila, pendurei meu chapéu em um galho e duas achas facilitarem o Tropeiro que iria fazer. Na mochila tinha café e pó. Meu canecão militar serviria para esquentar a água.

                  Levantei e disse bem vindo! Ele sorria. Não era bonito, mas tinha alguma coisa especial que encantava a todos em seu redor. Em vez de sapatos usava uma sandália. Calado se assentou a sombra junto ao tronco. Fechou os olhos e parecia rezar. Passei o café e  ofereci a ele. Olhou meu cantil, estava cheio pela metade. Passei para suas mãos e ele bebeu devagar, parecia sorver o líquido com carinho de quem tem sede. Tomou o café me olhando nos olhos. Minha caneca de esmalte parecia brilhar em suas mãos. Fechou os olhos e dormiu por alguns segundos. Acordou sorrindo e levantou. Colocou a mão em minha cabeça e disse – “Que a paz esteja convosco”. Partiu sorrindo acenando com a mão e ao longe vi que estava de novo com a bata branca e seu cajado.

                   Fiquei só naquela sombra da Árvore da Colina meditando. Quem seria? De onde veio e para onde iria? O sol já ia se por na Montanha do Cavalo. Era hora de partir. Ainda havia mais duas horas de jornada. Conhecia o caminho. Limpei o fogo, joguei uma pitada de água do meu cantil nas brasas, mochila nas costas e parti. Não olhei para trás. A Árvore da Colina tinha o dom de não deixar ninguém partir. A noite chegou mansa e calma. Meu caminho estranhamente era claro, uma estrela no céu jorrava raios brilhantes na estrada. Nunca tinha visto nada igual. Do alto da Colina avistei a curva do Falcão. Estava perto. Meus pensamentos giravam entre chegar e lembrar-se daquela figura tão simples, com um sorriso inesquecível e com uma áurea brilhante que me encantou para sempre.

                     Nunca soube quem era. Não perguntei. Acho que ele sabia que um dia eu iria lembrar-se dele e saber que ele veio do céu. Porque eu não sei. Eu era apenas um Escoteiro a ir para seu acampamento. Meu café ele tomou sorrindo sinal que não era ruim. Nunca contei esta história para ninguém. Eu sabia que a partir deste dia o meu mundo se transformou pra sempre. Sabia que agora a paz morava em mim. A harmonia e o amor reinavam. A paz de um sorriso predominava. Agora eu sabia que naquele dia, naquela Árvore da Colina, Jesus me deixou entrar em seu coração!  


E que a paz esteja sempre convosco! 

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

João Papudo que morava nas florestas verdes do Brasil.


Lendas escoteiras.
(Um repeteco gostoso de reler)
João Papudo que morava nas florestas verdes do Brasil.

            O aviso estava dado. Chefe João Soldado (era sargento, mas o apelido pegou) autorizou. Batista nosso intendente logo nos disse que não nos preocupássemos. O material estaria pronto em vinte e quatro horas. Platão o cozinheiro iria entregar a lista de mantimentos para cada um dia seguinte bem cedo. Tudo era dividido. Pedrinho o Monitor sorriu de orgulho da patrulha. Todos sabiam como e quando deviam fazer. – Sairemos na quinta pela manhã. Vamos aproveitar bem o feriado. A reunião de patrulha acontecia na casa do Mino Pastel o sub. monitor. Seriam quatro dias bem aproveitados. Destino? As Florestas Verdes do Brasil. Que nome eim? Mas foi Ditinho quem a batizou assim. Estivemos lá duas vezes. Na primeira vez ao chegarmos ao cume do morro do João Papudo ficamos abismados. A floresta era verde, um verde musgo lindo, no seu seio muitos Ipês das flores amarelas. – Ditinho, para ser o Brasil falta o branco e o azul, eu disse. Ele riu. Vado Escoteiro O céu meu amigo e as nuvens em sua volta.

         Ninguém nunca esqueceu João Papudo. Ele tinha no pescoço um papo enorme. Hoje chamam de Bócio que é devido ao aumento da glândula tireoide. Fácil de operar nos dias de hoje, mas naquela época não. Ficou nosso amigo pelo simples fato de o cumprimentarmos, tomar café com ele e comer sua “brevidade” uma das melhores que já comi. Ninguém gostava dele. Logo ele uma alma de Deus. Só por causa do papo no pescoço todos tinham medo e asco. Um absurdo. Na primeira vez que chegamos lá para acampar assustamos. Ele estava na porta com uma foice enorme. Ninguém se mexeu. – Um café? Ele disse. - Porque não? Respondeu Pedrinho. Daí para a amizade foi um pulo. Ele queria conhecer o grupo e a escoteirada. –Apareça amigo, será bem recebido. Nunca foi. Quando ele precisava fazer compras ou vender suas plantações só ia à cidade à noite, e enrolava no pescoço um cachecol para ninguém ver sua deformidade.

           Foi Motosserra, isto é o Lorenzo o escriba da patrulha quem deu a ideia de uma vez por mês fazermos uma campanha do quilo e levar para ele. Na primeira vez chorou e disse não. Ele não merecia. Não falamos nada. Deixamos lá e voltamos. Pedrinho colocou em votação qual o melhor local para acamparmos naquele feriado prolongado. Foi descartada a Lagoa da Lua Branca, a montanha do Gavião, o vale do Esplendor e as campinas da flor vermelha. Eram ótimos locais, mas as Florestas verdes do Brasil ganhavam de longe de todas e iriamos saudar nosso amigo João Papudo. Dito e feito, seis da manhã café no papinho, pé no caminho. Sete e meia a bordo das nossas máquinas voadoras chegamos. Na porta ninguém. Estranhamos. João Papudo sempre estava lá nesta hora. A porta estava aberta e chamamos. Nada. Entramos, pois ficamos preocupados. João Papudo estava gemendo e suando na sua cama de palha. Seu corpo tremia. No chão vimos muita água e sujeira, sinal que ele estava ali a mais de dois dias.

          O que fazer? Sabíamos que nosso acampamento nas Florestas Verdes do Brasil foi para o brejo. João Papudo tinha prioridades. Nunca iriamos deixá-lo ali a mingua e sem ninguém. Tinhamos que levá-lo urgente para o Hospital Santa Inês, o único da cidade. Mais de quinze quilômetros. Patrulha boa não se aperta. Luiz Nantes o Porta Corrente, nosso Sinaleiro e socorrista deu a solução. Mãos a obra. Duas horas e estava pronto. Fizemos uma maca com o toldo da cozinha, cada ponta amarramos em uma bicicleta. Usamos quatro e pé na taboa. Antes das onze estávamos na porta do hospital. Não o deixaram entrar. Ninguém se arriscou a ir ver o que se tratava. Pedrinho correu a chamar o Chefe João Soldado. Estava na sede do batalhão e veio correndo. Ameaçou, xingou fez tudo e eles nem deram bola. Foi até a casa do Juiz Ponderado e nada. Chamou o Delegado Praxedes e nada. Uma enfermeira Dona Adelaide nos chamou e deu uns comprimidos. Quem sabe ajuda? Com nosso cantil fizemos João Papudo tomar.

          Os Escoteiros e seniores do grupo estavam chegando. Uma aglomeração se fez. – Vamos levá-lo para a porta da prefeitura. Se o prefeito não tomar providências ele vai ver com quem estão se metendo, disse o Sênior Jovialto, nove anos no grupo. Um mestre na ação no grupo. Aliás, tínhamos poucos amadores. O prefeito chamou a policia. Chefe João Soldado era policia. Nem deu bola. A patrulha Touro correu a sede e trouxe um enorme toldo da chefia. Armado com rapidez no jardim da prefeitura. Uma cama foi improvisada. João Papudo era tratado pelos Escoteiros na porta da prefeitura. Doutor Melão o prefeito foi lá reclamar. Pé de Pato um lobinho segunda estrela pegou na mão dele. – Doutor prefeito, venha ver como ele está. Afinal o senhor não tem coração? Ele deu meia volta e sumiu nas salas da prefeitura.  O povo aglomerava na praça em frente. Doutor Noel um medico antigo na cidade veio ver João Papudo. – Malditos disse – Um simples bócio faz dele um homem marcado? – Venham comigo a minha clinica.

               A história termina aqui. Doutor Noel tratou dele e conseguiu uma internação para operar na Santa Casa da Capital. Dois meses depois eu estava recebendo o meu Correia de Mateiro. Orgulhoso, já tinha o cordão dourado e o vermelho e branco. Esperando a Primeira Classe. Poucos conseguiam. Tinham de ralar para conseguir. Todo mundo olhou para o portão. Eis que ali estava João Papudo em carne e osso. Agora não tinha mais o papo. Orgulhoso levantava a cabeça como a mostrar – Nunca mais! Doutor Noel, vocês e Deus me deram a alegria de viver. João Bonito (mudamos o apelido dele) entrou na ferradura, foi saudado com uma enorme palma escoteira. Não teve jeito, chorou igual menino. Fez questão de dar um abraço em cada um. Abraço gostoso, sincero, amigo.

             Seis meses depois João Bonito fez a promessa. Nunca vi ninguém chorar assim. Vá lá, uma promessa é uma promessa. Nossa tropa ganhou um novo assistente. João Bonito era um novo homem. Trabalhava durante o dia na prefeitura (o prefeito com vergonha e não querendo perder as eleições o admitiu como auxiliar geral) e a noite estudava. Três anos depois terminou o curso Técnico em Contabilidade. João Papudo perdeu o papo, mas ganhou uma cidade. Hoje e feliz cortejando Dona Mocinha uma alegre e linda jovem do Bairro Tatu Bola. Ficou um Chefe Escoteiro todo pomposo. As Florestas Verdes do Brasil tiveram nossas presenças por muitos anos. A casa onde João Bonito morava foi jogada ao chão para uma nova estrada até Muzambinho. Histórias que se foram histórias de Escoteiros. E quantas mais por este Brasil imenso?

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

As fabulosas aventuras de Tonico Caçarola.


Lendas Escoteiras.
As fabulosas aventuras de Tonico Caçarola.

                  Dizem que histórias são histórias nada mais que histórias. Mas tem umas que a gente acredita, pois se foi um Escoteiro quem contou merece credito. Melhore ainda se a gente estava lá presente e não tem como duvidar. Muitos amigos quando conto a história de Tonico Caçarola dão sorrisos e devem pensar: - Este cara sabe contar uma mentira. Mas eu juro pela dente enorme do Pasqualino Monitor da Leão que ainda está vivo que foi verdade. Quero que um raio caia sobre a cabeça de Satanás se não for verdade. Só posso dizer que os patrulheiros da Patrulha Corvo riam atoa com Tonico Caçarola. Afinal acampar é bom demais e comer bem melhor ainda. E eles comiam manjares dos deuses. Tonico Caçarola para mim foi um dos maiores cozinheiros Escoteiros de todos os tempos. No campo a turma ficava olhando de longe, pois ele não admitia que ninguém chegasse proximo ao fogão para ver o que ele estava fazendo. E quando ele tocava o sino (o danado tinha um) ninguém queria ficar para trás era uma corrida só. E olhe, se você batia o garfo no prato estava condenado. Ia para o fim da fila e só recebia metade da sua parte.

                 Moreno alto para os seus catorze anos, ele penteava o cabelo no estilo de Elvis Presley. Sem uniforme a gola da camisa era jogada para cima. Andava como se fosse passarinho, dando pulinhos. O moço era jeitoso mesmo. Metido a bonito, falava compassado, tinha uma voz grossa e sabia como utilizá-la para impressionar. Quem o via pela primeira vez na cozinha de um acampamento ficava embasbacado. Usava um chapéu branco enorme de cozinheiro, e mesmo grande nunca caia de sua cabeça. Uma jaqueta branca tão alva que nunca ninguém a viu suja. Não se sabe onde viu, mas um lenço de seda amarrado ao pescoço dava um ar diferente. Infelizmente não podia usar a calça azul dos cozinheiros, pois era obrigado a usar a calça do uniforme e sabia que isto não era roupa para cozinheiros. Quem não conhecia poderia dizer que era um “mascarado” aquele que só quer aparecer. O fogão de campo era de tirar o chapéu. Fazia questão de separar as bocas e no fim do fogão sempre havia uma pequena chaminé. Ninguém nunca viu a fumaça em seus olhos e ele estava sempre sério no preparo de suas guloseimas.

                  Diziam que a moçada de saia da cidade andava atrás dele como se fossem abelhas a procura do mel. Mas nem tudo que reluz é ouro dizem por aí. Tonico Caçarola sofria do intestino e ele se maldizia por ter aquela infelicidade. Se alguém chegasse para ele e dissesse: - E a barriga Tonico, como vai? - Era a conta. Ele saia correndo a procurava de um banheiro e se não encontrasse seus puns eram ouvidos longe e o cheiro? Impossível de ficar próximo. Uma vez quando o Cinema Palácios passava em sessão de gala os 10 Mandamentos alguém gritou alto: - E a Barriga Tonico, como vai? Foi à conta e ele teve um ataque. Ninguém ficou para ver o final do filme. Para desinfetar o cinema foi preciso trabalhar uma semana. Mas Tonico era demais. Fazia um forno de barro no campo que todos invejavam. Na festa do aniversário da tropa fez questão de fazer um Leitão a Pururuca e a fila que se formou era enorme. E olhe, acompanhada por três travessas de feijão tropeiro e muitos queriam saber o segredo do torresmo tão bem preparado.

                  A Patrulha Corvo era uma privilegiada. Todos queriam ser da patrulha, mas quem saia? Ninguém. – Foi em um sábado chuvoso que o Chefe Dentinho comentou que a tropa na semana seguinte ia receber seis meninas, pois foi autorizado a participação feminina. A tropa ficou em polvorosa. Tonico Caçarola ficou um dia passando seu uniforme. Um brinco. Os vincos espetaculares. O lenço parecia uma gravata de tão bem passado e tão bem colocado. E o chapéu? Deus do céu, ninguém conseguiu manter as abas retas como ele. A fivela do cinto parecia ouro e tão brilhante que doía os olhos ao olhar. – Sábado, dia da apresentação. O Chefe vendo que Tonico Caçarola estava muito bem uniformizado, o convidou para receber as meninas em nome de todos os Escoteiros. Um sorriso de ponta a ponta.

                    Bandeira, hino Nacional, as meninas curiosas com tudo. Hora de dar as boas vindas. Tonico Caçarola se dirigiu a todas que estavam formadas em linha. Fazendo uma pose de John Wayne, celebre ator de faroeste de Hollywood, levantou a mão esquerda, mostrou como se entrelaçava e esquerdamente cumprimentou uma a uma. Até hoje ninguém sabe quem foi, mas alguém gritou! – “E a barriga Tonico, como vai”? – Olhe todos já sabiam o que ia acontecer e não ficou um na ferradura. Tonico Caçarola corria desembestado procurando uma privada e dando puns para todo o lado. As meninas ficaram amarelas com o mau cheiro e saíram correndo da sede. O Chefe queria matar quem gritou. Sei que por muitos anos nenhuma menina quis ser Escoteira naquela tropa. Mas o danado de Tonico Caçarola com suas guloseimas faziam todos esquecerem  suas prontas investidas no ar respirável.

                     Sei que muitos anos depois eu e a Celia resolvemos jantar no Makano, um restaurante famoso em São Paulo e eis que para nossa surpresa o Maitre era nada mais nada menos que Tonico Caçarola. Bem agora ele pomposamente se intitulava Anthony Bassolet o chef. Quando o vi acenei e ele me reconheceu. Veio sorrindo com a pose é claro de grande chef. Seu estilo de andar e falar nunca foi abandonado. Levantei e apresentei a Célia a ele. A desgraça aconteceu. Meu Deus! Porque fui dizer aquilo? Foi sem querer ou foi maldade pura? Desgraçadamente depois do abraço eu perguntei: – “E a barriga Tonico, como vai” – Incrível! Era como se um fedor dos infernos caísse do céu no restaurante. Os puns de Tonico ribombavam como se fossem trovões nas noites de acampamentos. As Socialites, os novos ricos os políticos famosos que naquele dia jantavam corriam como se fossem leopardos em busca da caça. Eu mesmo peguei na mão da Célia e vendo a desgraça que tinha cometido saí correndo feito uma lebre e olhe nunca mais voltei no Makano. Sei que tudo foi apagado da imprensa. Afinal os donos eram sobejamente conhecidos da sociedade local e internacional. Ninguém nunca disse nada, mas sei e posso jurar que Tonico Caçarola foi para a Espanha. É maitre de um famoso restaurante em Valença. Só peço a Deus que nunca e em tempo algum vá aparecer alguém e perguntar em alto e bom som:


- E a barriga Tonico, como vai? 

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

E Galiostro finalmente dormiu na barraca dos seus sonhos.


Lendas Escoteiras.
E Galiostro finalmente dormiu na barraca dos seus sonhos.

          - Não sei Eva, ele está assim há vários dias. – Você perguntou? Perguntei mas ele me olhou sorriu e não disse nada. Nívia a mãe de Galiostro não disse mais nada. Ela até que pensou que ele estava a sonhar com o acampamento. Desde que pedira para ser um Escoteiro que ele mudou da água para o vinho. Parecia viver em outro mundo e esquecia-se de pisar no chão que o criou. Eva sua Avó estava preocupada. Nunca o viu assim e quem o conhecesse sabia como ele era. Espevitado, lépido, gostava de gritar, de cantar e diferente de todos os meninos quando levantava, chegava à janela e chamava em alto e bom som os pardais que já tinham partido em busca de alimentos. – Ela sabia que ele tinha as melhores notas, e sempre fora de uma educação que espantava toda a família. Nunca disse a ninguém porque pediu para ser um Escoteiro. Passou a sorrir mais, andava com uma cordinha pequena nos bolsos e vivia fazendo nós. Ela um dia o escutou na varanda falando baixinho: - Escota, balso pelo seio, Arnês, Pescador, aselha, direito, Laís de guia, fiel e fiel duplo. Que seria tudo isto?

            Agora ele ia para um acampamento. Ela viu que ele não tinha mais olhos para ela. Sabia que ele levantava e dormia pensando no acampamento. Quando arrumou seu quarto naquele dia viu um pequeno livreto. Folheou e sorriu. Estava escrito com desenhos - Como fazer uma pioneiria, o que são fossas de líquido e detrito. A barraca suspensa. A mesa de campo, o toldo e finalmente uma barraca armada. Ela toda marcada por Galiostro. Ele escreveu em baixo: - Custou, mas vou dormir na barraca dos meus sonhos! Que escotismo era este? – pensou. Já tinha ouvido falar deles, mas tudo era diferente, havia uma lei. Lei? Sim, uma lei que eles obedeciam. – Prometo pela minha honra! – Bonito isto falou para si mesmo Eva. Quando jovem soube que havia Escoteiras, mas nunca tinha sido. -  Sabe Nívia não sei como você o autorizou a ir com eles. Ele só tem onze anos! E se uma cobra o morder? – Eva estava preocupada, mas ao olhar para Galiostro viu que nada neste mundo iria fazê-lo mudar de ideia.

                    Galiostro tinha os olhos negros, grandes como seu pai, deixou o cabelo crescer até os ombros e mesmo seus amigos o chamando de “maricas” não ligou. Os cabelos loiros davam a ele uma conotação diferente. Tinha um porte de atleta e gostava quando olhavam para ele admirados. Quando foi apresentado à patrulha ninguém perguntou, ninguém se preocupou e só Nonato o sub foi quem lhe deu a mão e lhe deu as boas vindas. Ele sabia como os meninos eram. Mesmo sendo companheiros e Escoteiros havia um longo caminho para se enturmar. Foi então que Lobato comentou do acampamento. Ele aguçou a mente prestando atenção. Quando comentou que iriam dormir três em cada barraca ficou meditando. Foi para casa pensando. Três em uma barraca? Como seria? Ele ainda não conhecia a barraca da patrulha. Eram duas uma azul e uma amarela. Não eram grandes e não dava para ficar em pé.

                     Foi uma semana longa. Galiostro só pensava como seria dormir em uma barraca. Nunca tinha pensando nisto e agora ela não saia de seu pensamento. Soube que a maioria não tinha saco de dormir e improvisavam com folhas e capim seco colocados em dois sacos costurados fazendo um colchão. Ele teria que arrumar dois sacos para isto. Afinal ele iria dormir em uma barraca. Será que não iria ter medo? – Galiostro! Ele ouviu a voz de Dona Neném a professora dele. Piscou os olhos e pediu desculpa. – Você não prestou atenção em nada na aula de hoje! – Era verdade. Ele não tirava a barraca de sua mente. E se chovesse? Não iria entrar água? E se fizesse frio? Um cobertor a manta de seu avô resolveria? E se ventasse? E se a barraca fosse perdida em um vendaval?

                      Uma semana antes preparou sua mochila. Seu Tio Malta lhe dera. Uma mochila francesa ele disse. Achou pequena. Tio malta disse para ele – Galiostro, leve o necessário, nem mais nem menos! O que seria o mais e o que seria o menos? Viu a lista que o Monitor lhe dera. Cabia tudo. Só isto? Ficou pensando. – À noite seu pai chegou com um embrulho. – É para você! Galiostro sorriu. Gostava de um presente. Dentro de uma caixa um cantil com capa verde. Um cantil! Nunca pensou que teria um. Cinco da manhã. Galiostro estava sentado na cama. Sua mochila preparada. Seu cantil cheio com água. Vestiu seu uniforme devagar. Peça por peça. Olhava no espelho, mas seu pensamento era só a barraca. Deus meu! Eu vou dormir em uma barraca? Ele pensava e nada afastava ela do seu pensamento. Sete horas, sua mãe bateu na porta – Está na hora filho. Estava mesmo. Tomou café e calmamente beijou sua mãe e suas avó. Seu pai já havia ido trabalhar. Partiu a pé sorrindo. A sede era perto. Abriu o portão e sentiu uma lufada de vento no rosto. Era hora de partir para o acampamento.

                     Iriam de ônibus urbano até a estação. Lá pegariam o trem para Jambreiro e mais quatro quilômetros chegariam a Fazenda Trindade. Tudo foi dividido e Galiostro não reclamou quando ficou responsável por um facão que amarrou na mochila e o lampião vermelho a querosene. Onze e meia chegaram. Galiostro não cantou na jornada. Olhava o céu azul de brigadeiro. Bom isto pensou. Assim vou dormir mais tranquilo na barraca. O campo não demorou a ficar pronto. Ele havia aprendido na jornada do domingo que fizeram. Uma mesa com toldo, bancos toscos, um fogão de barro esquisito e a barraca. Ele fez questão de armar com Zé Antonio. Olhou por dentro. Pequena. Eram três a dormir ali. Ele aguardava a noite. Era a noite esperada. Comeu um lanche e na janta adorou a sopa do Vandeco o cozinheiro. Seus olhos não saiam da barraca mesmo no lusco fusco da noite. Olhou para cima. Estrelas mil brilhavam formando uma estrada de luzes no céu.

                       Nem prestou atenção ao Jogo do Fantasma. Nem medo teve do fantasma que apareceu no alto da montanha. Seu pensamento era um só. A Barraca! Fizeram um pequeno fogo em frente à barraca, ele se sentiu bem com o calor. Sua mochila estava na porta. Combinaram de preparar tudo na hora de dormir. Ele cantou o Cuco e a Canção da Lua. Gostava de cantar, mas não prestou atenção. Estava esperando a ordem do Monitor para prepararem as barracas. Jamiel Lourenço e ele prepararam o interior da Barraca. Chegou a hora finalmente. Deitaram. Ele no meio. A mochila serviu de travesseiro. Ele olhava a lona da barraca. Ouvia os grilos cantantes na noite do seu primeiro acampamento. Finalmente ele estava na barraca, mas não dormiu. Um trovão, um relâmpago. Galiostro sorriu. Precisava da chuva. Nos seus sonhos ela estaria lá na sua primeira noite de acampamento.


                         Os primeiros pingos, o som pedante da cascata na barraca. Um vento cortante querendo entrar pela porta. A barraca balançava, mas estava firme. Galiostro com as mãos entre a nuca sorria. Agora sim, ele era um acampador. A barraca para ele não teria mais segredos. Seus olhos se fecharam e ele se viu transportado em sonhos nunca antes imaginados. Finalmente Galiostro dormiu em uma barraca.