No mundo dos sonhos com as fábulas escoteiras

No mundo dos sonhos com as fábulas escoteiras
A aventura está apenas começando

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Quinzinho, um amigo de verdade.



Conversa ao pé do fogo.

Quinzinho, um amigo de verdade.

                           - Eu juro palavra de Escoteiro que não fui eu! – Mas você estava lá, disse que não podia ir conosco, pois estava com o pé doendo, se ofereceu para tomar conta do campo na nossa ausência. Nós confiamos em você e agora disse que dormiu? – Tico, por favor, eu dormi um soninho de nada! – Tico olhou para os outros Monitores e para o Chefe Darli. Ele mesmo como presidente da Corte de Honra não sabia que atitude tomar. Estavam em reunião da Corte há mais de uma hora. Marlon sempre foi um bom Escoteiro. Mais de dois anos na tropa, mas por duas vezes em um acampamento na fazenda do Seu Jorginho alguém entrou no acampamento e roubou todos os víveres. Tiveram de voltar. Na primeira vez Marlon deu a mesma desculpa, mas duas vezes é demais. – Espere lá fora Marlon. Vamos deixar a Corte de Honra decidir. Chefe Darli não dizia nada. Deixava que os Monitores tomassem as decisões a não ser quando ele via que alguém poderia ser prejudicado o que não era o caso.

                              Meia hora depois Marlon foi chamado. – Foi Tico quem deu a sentença – Marlon, infelizmente você foi suspenso por trinta dias. Achamos que não foi você quem tirou os mantimentos, mas alguém foi e por sua culpa. A tropa Escoteira ficou desolada. Acharam que Marlon não merecia a suspensão. Mas o Chefe Darli explicou que cada um de nós temos que assumir nossas responsabilidades e se algum acontecer não podemos fugir as nossas  culpas. Eu estava como Sênior na época. Tinha seis meses que fizera a passagem. – Quem seria o culpado? Quem tirou os mantimentos? – Metido a detetive, pois naquela época começaram a pipocar nas bancas livros de bolso e eu um leitor inveterado achei que tinha por obrigação de descobrir. Primeiro – Os roubos foram todos na Fazenda do Seu Jorginho. Segundo -  Marlon acampou em outros lugares e nada aconteceu. Terceiro - O local era longe da fazenda e impossível alguém de lá ir ao campo para isto. Quarto, melhor ir lá acampar e ver. Dito e feito. Mochila nas costas eu e o Gentil partimos em uma sexta a noite com as nossas bicicletas.

                            Combinamos eu e o Gentil o que fazer. Barraca armada, intendência pronta, toldos nos lugares e o Gentil partiu como se fosse fazer uma jornada de Primeira Classe. Eu fiquei encostado em uma seringueira a dormitar. Ou seja, fingia dormitar. Caramba! E não é que dormi mesmo? Acordei com tudo mexido na intendência. As linguiças, a farinha, meia dúzia de bananas, quatro laranjas, feijão cozido (levamos de casa) tinham desaparecido. Gentil não deu trégua. - O detetive de araque dormiu? - Fazer o que. Em volta da intendência nenhuma pista. Procurei até o bosque e nada. Voltamos para a cidade. Na semana seguinte voltamos. Eu não era de desistir fácil. À tarde, sonolento (fingindo) fui deitar na sombra da seringueira. E foi então que avistei o famigerado ladrão de comida. Desta vez ele não ia escapar. Atrás do bosque ele veio de mansinho, cabeça baixa, levantando e abaixando como se estivesse cansado. Nada mais nada menos que um Macaquinho carvoeiro. Um pobre coitado, magro pelagem caindo e um olhar triste, pois só andava de cabeça baixa.

                            Não caminhava em linha reta. Parecia não ver o caminho ou como se estivesse com sono. Entrou na intendência e eu atrás. Peguei-o pelo rabo. Guinchou alto. Um berreiro tremendo, tentou correr e se soltou da minha mão. Correu a esmo e bateu a cabeça em uma árvore na entrada do bosque. Porque não subiu em uma árvore? Pensei. Ele ficou grogue. Levei-o no colo até ao acampamento. Gentil chegou e deu belas risadas do ladrão de comida. – Melhor soltá-lo, veja – disse – está sozinho e seu bando? Realmente ele estava só. Nessa hora acordou. Levantou e vi em seus olhos manchados de vermelho que ele não olhava para mim. Só para os lados se virando sem parar. – Cego! Isto mesmo. O macaquinho era cego. Abandonado pelos seus. No bando se não podia se virar não podia ficar.

                            Resolvemos ajudar. O levei para minha casa. Foi sem reclamar. Dócil muito dócil. Havia uma seringueira enorme. Ele adorou. Todos os dias dava para ele um pouco de arroz e feijão, bananas e laranjas. Ele adorava. No sábado na reunião comuniquei ao Chefe Darli quem era o ladrão. Ele sorriu – Olhe Vado, eu sabia que o Marlon não tinha roubado comida. Isto não. Mas ele foi negligente. Isto um dia poderia prejudicar muitas pessoas. Melhor ele aprender agora a ser responsável com suas obrigações. Concordei com o Chefe. Levei Quinzinho (novo nome que eu e o Gentil colocamos nele) o macaquinho para a sede. Nós os seniores construímos um ninho de águia para ele em duas mangueiras que existiam lá. Paradoxo, um macaco em um ninho de águia. Todos nós levávamos comida para ele. Precisavam o ver nas reuniões, pulava, guinchava, gruía e fazia mil piruetas. Mesmo cego sabia que tinha amigos protetores. O seu bando o deixou e o bando dos escoteiros o adotou.

                        Aprendeu de tudo. Ensinaram-no a fazer a saudação. Vinham pessoas da cidade só para o ver fazendo a saudação, marchar, pular nos gritos de Patrulha. Ele conquistou um amigo, o maior amigo que já teve. Nada mais nada menos que Marlon. Sei que no Grupo Escoteiro ele ficou até morrer quinze anos depois. Nunca voltou a enxergar, mas agora sabia que seriam seus amigos. Estava em casa. Vivia feliz. Tinha uma nova família. Eu mesmo fiquei pouco tempo no Grupo Escoteiro. Meu pai doente foi para a capital e eu fui também. Mas sempre recebia uma carta, um telegrama falando de Quinzinho. Soube que ele não perdia um acampamento ou atividade extra sede. Acredito que todos que o conheceram nunca o esqueceram. Assim como foi comigo acredito que ficou gravado no coração de todos os escoteiros que o conheceram.

                       Ops! Não posso esquecer. Marlon juntou dinheiro, muito na época e comprou uma macaquinha fêmea que dizem jurou fidelidade para sempre a Juquinha. Que os digam o Prince, Caledônio, Naninha e a própria esposa Juquita, quatro macacos carvoeiros que pelas noticias que recebo estão morando na sede até hoje!     

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Micoçar o Charreteiro e o Comissário Escoteiro Viajante.



Lendas Escoteiras.
Micoçar o Charreteiro e o Comissário Escoteiro Viajante.
(uma história baseada em fatos reais)

                Tem dias que a gente fica assim meio “paradão”, vontade de fechar os olhos e não fazer nada. E o pior é que nestes dias as lembranças surgem e até a gente dá boas risadas com o passado. Micoçar tinha uma charrete. Transportava pessoas. Naquela época eram chamadas de “freguês”. O termo cliente surgiu tempos depois. Se não me engano eram uns vinte charreteiros. Viviam disto. Quase não existia taxi na minha cidade. Eles eram educados. Na estação da estrada de ferro formavam uma fila educadamente e ninguém atravessava o outro. Eu nos meus dezesseis anos conhecia todos eles. Micoçar era o mais conhecido por oferecer rosas às moças que alugavam sua charrete.

                 Um dia ele apareceu na sede Escoteira. Na sua charrete um “freguês”, ou melhor, Chefe Escoteiro. Desceu e garboso se apresentou: - Sou o novo Comissário Escoteiro Viajante nesta região. Chame seu Chefe. Caramba! Nosso Chefe era o Chefe João. Só ia a sede uma vez por mês. Sargento da policia militar. Gente boa. Um segundo pai para mim. Mas nossas reuniões não são como hoje. Sem aqueles programas de Bandeira, oração, inspeção, chamada, jogos. Éramos duas patrulhas sêniores a Gavião e a Elefante. Só bem mais tarde foram alterados os nomes de patrulhas seniores para pessoas ou locais históricos. Não sei se o que fazíamos era o certo, mas dos treze seniores só um tinha entrado como escoteiro os demais vieram dos lobinhos. Romildo Monitor pediu ao Chiquinho para leva-lo a casa do Chefe João.

                  À tarde daquele sábado fomos chamados a casa dele. Ele estava sério. - O Comissário quer fazer uma reunião para mostrar como se faz. Disse que o que viu vocês fazendo estava errado. Exigiu que eu estivesse presente. Se não fosse Escoteiro eu teria mandado prendê-lo. Arrogante o moço. Eu não vou, mas vocês todos devem ir. A reunião ficou marcada para domingo pela manhã. Em frente à sede e atrás do Cine Pio XII. Havia um campinho de futebol onde nos reuníamos. Ele queria a tropa Escoteira, mas ela estava acampando na Caverna do Macaco próximo ao Rio Doce. No domingo lá estávamos. Ressabiados. Não sabíamos o que ele ia aprontar. Chegou como sempre com o Micoçar. Ele alugava a charrete pelo dia inteiro. Apresentou-se a nós – Sou Chefe Escoteiro do grupo tal. Como hoje viajo muito como representante comercial (conhecíamos como caixeiro viajante) fui nomeado Comissário Viajante para ensinar aos grupos da minha área como fazer escotismo e exigir o registro de cada um de vocês!

                 Assim ele começou a reunião. Tudo nos padrões que hoje conhecemos. Eu mesmo dei muitas sessões em cursos falando sobre isto. Não estava errado. Mas aprontou uma correria que nos deixou perplexos. Queria a todo custo fazer uma competição entre nós. Éramos amigos. Nunca gostamos disto. Nenhuma Patrulha era mais que a outra. Até ai tudo bem. A missa acabou e um mundão de gente ficou ali nos olhando. Nesta hora ele resolveu cantar uma canção. Hoje muito apreciada e até adoro cantar. Mas naquela época? A Piaba. Sai, sai, sai oh piaba saia da lagoa. E quem entrava na roda dava uma umbigada e tinha que rebolar. O povo todo em volta dando risadas. Nós vermelhos de vergonha. Na minha vez entrei rebolei um pouco e sem querer olhei para o Micoçar que ria a valer e gritava baixinho; - Telirio! Telirio! Para quem não sabe esse coitado (desculpe o termo) era o único Gay conhecido da cidade. Quer comprar uma briga? Chame o outro de Telirio. Desisti. Romildo também. O povo morrendo de rir. O chefão gritando: - voltem todos. Não dispensei ninguém!

                 Coitado. E quem obedeceu? Ficamos ali de braços cruzados morrendo de vergonha por ficar rebolando. O pior que hoje quando lembro penso comigo como eram os tempos passados. Hoje adoro cantar a Piaba e rebolar. Risos. Ele saiu com Micoçar e foi direto a casa do Chefe João. Micoçar olhou para trás rindo e falou baixinho para mim – Telirio! Oh! Vontade de esmurrar o Micoçar. Só sei que ele falou cobras e lagartos com o Chefe João. Ameaçou fechar o grupo. Ameaçou tanto que o Chefe João o pegou pela camisa, o arrastou até a Charrete de Micoçar e disse – Suma! Se aparecer na minha frente de novo deixo você uma semana no xilindró! Dia seguinte o Chefe João nos contou toda a conversa. Disse que não tínhamos seniores. Sim um bando de indisciplinados (até certo ponto com razão). Exigiu que se fizesse um Conselho de Tropa e destituísse ambos os Monitores. Disse que enquanto não fizermos tudo isto o grupo nunca seria registrado.

                  Interessante. Nunca fomos registrados. Nosso grupo tinha mais de trinta anos de atividade e nunca fizemos registro. “Belle Époque”, outros tempos. Uma Segunda Classe suada. Primeira Classe? Não era para qualquer um. Um orgulho do caqui curto. Orientar com os ventos, com a lua, com as estrelas e as constelações. Pescar para comer na hora, armadilhas de pássaros para um bom assado. Comer mandioca do mato, aipim. Uma sopa de capim gordura. Bananas verdes fritas na brasa. Bundinhas de Tanajura na panela estouravam como pipocas. Risos. Nunca desistíamos do escotismo. Tinha pena dos novatos. Quase não havia vaga. Trinta e seis lobinhos onde só podia ficar vinte e quatro. Cinco Patrulha de oito onde deveriam ser quatro. Sênior? Este sim. Não era para qualquer um. Duas Patrulhas só. Cidade pequena. Nesta idade a maioria dos rapazes estouravam a idade na tropa e tinham de trabalhar. Serem aprendizes. Não existia a Semana Inglesa. (parar aos sábados ao meio dia).

                   Outro escotismo? Pode ser. Escotismo do campo. Sem chefes. Só os monitores indo e vindo. Viver na natureza. Olhando as flores desabrocharem. Colocando os pés na água fria e cantar baixinho – Ah! Que gostoso! Olhar o sol caminhando para o oeste e dizer – É para lá que vamos! Hoje não dá mais. GPS, ele lhe mostra tudo. O Chefe ali com você. Alguns fazendo tudo. Você não precisa pensar. Nem calcular mais se precisa. O Google lhe dá as respostas de tudo. Tabuada? Ficou na história. Um celular ou um smartphones para quando der uma parada na jornada entrar no Facebook. Ver os e-mails. Isto sim é moderno. Olhar os pássaros? Os animais? Descobrir novos caminhos? Quem sabe olhar a abóboda celeste e descobrir as estrelas? Ver um cometa riscando os céus e saber de qual constelação estavam vindo ou indo? Nada disto. Tudo mudou e para melhor. Nesta época moderna não cabe mais um Romildo, um Jessé, um Taozinho um Israel ou mesmo um Micoçar ou eu mesmo. Belos taxis hoje. Uma charrete só como peça de museu.

E sabem? Eu e Micoçar anos depois nos tornamos grandes amigos. O tal Comissário alugou sua charrete por dois dias e não pagou. Foi embora e deu o cano. As patrulhas fizeram uma “vaquinha” e pagaram em suaves prestações. Sua charrete me levou a belos lugares por vales e rios desconhecidos. Charretes! Também foram engolidas pela modernidade. Pelos novos tempos!

sábado, 6 de abril de 2013

A matilha Vermelha e a Operação Cavalo de Troia




O cavalo de Troia foi um grande cavalo de madeira usado pelos gregos durante a Guerra de Troia, como um estratagema decisivo para a conquista da cidade fortificada de Troia, cujas ruínas estão em terras hoje turcas. Tomado pelos troianos como um símbolo de sua vitória, foi carregado para dentro das muralhas, sem saberem que em seu interior se ocultava o inimigo. À noite, guerreiros saem do cavalo, dominam as sentinelas e possibilitam a entrada do exército grego, levando a cidade à ruína.
Lendas Escoteiras

Lendas Escoteiras.

A matilha Vermelha e a Operação Cavalo de Troia


A matilha vermelha estava em polvorosa. A grande competição anual com tema livre estava marcada para o próximo sábado. Nos últimos dois anos eles ganharam o prêmio. O que os outros fariam? Eles iriam fazer uma grande apresentação – Uma mimica bem bolada de um sobrado em chamas, um neném chorando, um bombeiro passando etc. Gostaram muito quando Larissa deu a ideia. Riram muito de tudo. Achavam que a as demais matilhas iam rir a valer também. O primeiro prêmio estava no “papo”!

O premio era o máximo. Três caixas cheias de bombons Sonhos de Valsa para o primeiro colocado. Eles sabiam que a vitória estava na mão e os azuis? Eles eram o perigo. Sempre disputando palmo a palmo com os vermelhos.
Larissa era a prima da matilha e conversou com Téo seu segundo sobre o tema. Ela sabia que as outras matilhas não eram páreo para os vermelhos. Como descobrir o que os azuis iriam fazer? Afinal a preparação era segredo para todos. Cada matilha teve um mês para se preparar. E não era na sede por isso ninguém sabia o que iriam apresentar. Marcaram uma reunião na casa do Téo. Toda a matilha Vermelha. Eram seis. Laércio, Matilde, Noêmia, Vadinho, Larissa e Téo. A mãe dele sempre prestativa e alegre com os lobinhos. Serviu uma vitamina de mamão bem geladinho com biscoitos achocolatados.

Larissa repassou novamente a apresentação da matilha. Depois colocou o problema na mesa. Quem sabe o que os azuis irão apresentar? Ninguém sabia. Ficaram ali conversando por mais uma hora. Larissa muito esperta disse que sem saber o que eles os azuis iriam fazer não seria possível ter a certeza que iriam ganhar novamente. Alguém pode descobrir? Ninguém podia. Era uma reunião secreta que as matilhas faziam e ninguém podia se aproximar que não fosse da própria. Tive uma ideia! Disse o Laércio, e se colocássemos na reunião deles um Cavalo de Troia?

Poucos sabiam o que era isso. Foi o próprio Laercio quem explicou - O cavalo de Troia foi um grande cavalo de madeira usado pelos gregos durante a Guerra de Troia, como um estratagema decisivo para a conquista da cidade fortificada de Troia, cujas ruínas estão em terras hoje turcas. Tomado pelos troianos como um símbolo de sua vitória, foi carregado para dentro das muralhas, sem saberem que em seu interior se ocultava o inimigo. À noite, guerreiros saem do cavalo, dominam as sentinelas e possibilitam a entrada do exército grego, levando a cidade à ruína. Duvidas brotaram. Mas vamos fazer um cavalo de madeira e colocar no quarto do primo da matilha azul? Risos de todos. Nada disto tenho um plano disse Laércio.

Vamos dar a ele um presente. Um presente que ele não gosta. Ele vai deixar no quarto e não vai ligar. Dentro do presente iremos colocar um microfone em miniatura. Meu tio é detetive e acho que pode me dar um de presente. Quando soubermos o dia que irão se reunir, ficaremos próximos a casa dele e vamos ouvir tudo! Grande plano disse Larissa. Os demais ficaram meio assim. Acharam que não era próprio de lobinhos e da Lei do Lobinho. Mas no final Larissa convenceu todo mundo.

Uma semana antes todos já sabiam o que os azuis iriam fazer. Deram até risadas, pois as danças da Jângal já não eram mais surpresas e um deles soube de uma nova de Kaa. Treinaram a valer. Eles estavam no papo. O dia chegou. Sorrisos, um olhando para o outro. Melhor Possível! Melhor Possível Akelá! O Grande Uivo foi lindo. Todos pulando juntos e alto gritando – Melhor! Melhor! Melhor e Melhor! Fizeram um jogo de “cola” (um escolhido como cola, os demais soltos no pátio, o cola encosta em um e cola e vai tentando colar todos os demais). Mas a espera era mesmo na apresentação. 

Soninha da Verde com seus olhos azuis sonhava com os bombons. Zeraldo da Marrom pensava como seria bom ganhar e comer os sonhos de Valsa. Todos agora só viam as três caixas de bombons, pois era o maior premio que poderiam receber naquele dia. A hora chegou. Balu chamou todos até o anfiteatro. Aboletaram-se na frente. Ninguém queria ficar distante do palco. A Matilha Verde fez uma apresentação primorosa. A mãe de um deles era professora de canto e tocava violino. Treinou com eles uma canção linda. Uma apresentação de gala.

Depois foi chamado a Marrom. Fizeram um pequeno teatrinho contando a vida de Baden Powell. Perfeito, lindo mesmo. Ninguém sabia que eles poderiam fazer tão bela representação. Foi à vez dos vermelhos. Larissa toda posuda foi a primeira a interpretar o bombeiro. Cada um se esmerou quando chegou sua hora. Riram muito do Laercio interpretando o nenenzinho chorão. Muitas palmas quanto terminaram. Larissa olhava para cada um e sorria. Era como a dizer que não tinha para ninguém.

Mas meu Deus! Chegou à vez dos Azuis. Arrasaram. Simplesmente arrasaram. Não apresentaram nenhuma dança. O que ouve? Alarme falso no microfone do Laercio? O que eles fizeram até os vermelhos tiveram que aplaudir. Uma apresentação primorosa. A fábula da Estrela Verde. Apresentaram soberbamente. Linda a historia. Deus mandou varias estrelas a terra. Voltaram desiludidas muitos anos depois. Disseram que a terra é um mundo ruim. Gente se matando, roubando, não existe amor e quando existe é só uma paixão passageira. Porque continuar lá? Disseram. Deus então deu falta de uma estrela. Onde está a Verde? Perguntou. Ela? Disseram. Ficou lá, achou que poderia ajudar os humanos a mudarem de atitude. A serem bons. A amarem uns aos outros. Deus e as demais estrelas então olharam para a terra e viram um clarão verde em volta dela.

Uma lição de moral para os vermelhos. Não pensaram nos outros só em sí próprio. Queriam a todo custo ganhar e para isto não mediram as consequências. Foram desonestos. Esqueceram que todos na Alcatéia são irmãos uns dos outros. E o pior os azuis quando receberam o premio foram a cada um dos lobinhos com a caixa oferecendo. Não disseram tire um, mas fique a vontade para escolher seu bombom preferido. Larissa ficou envergonhada. Foi até aos azuis e abraçou a cada um individualmente.  

Finalmente a palestra da Akelá na Pedra do Conselho foi linda. Ela disse que na Alcatéia todos são estrelas. Que estamos ali para aprendermos que a amizade vale tudo. Que devemos ganhar se possível, mas se não for, que se aplauda o vencedor. Parabenizou os azuis por serem tão gentis em distribuírem com toda a Alcatéia o premio. Larissa jurou para sí que nunca mais fariam o que fizeram. O gesto dos azuis tocou fundo em cada um.

E assim termina a operação Cavalo de Troia. Tudo deu errado. Mas tudo deu certo para aprender a crescer internamente. Isto é ser lobinho. Uma lição cada dia e um coração firme nas sendas do escotismo honesto, leal e sincero. Como é bom ser lobinho ou lobinha. Sorrir, cantar e ver sonhos realizados na Alcatéia de Sheone. 

E a matilha Vermelha continuou unida por muitos e muitos anos. Alguns passaram para a tropa, entraram outros, mas a amizade, a fraternidade e o respeito faziam parte da vida de cada um.
Nas cerimônias do Grande Uivo, os Vermelhos saltavam com alegria e vivacidade a dizer a plenos pulmões quem eram e o que seriam – “Melhor, melhor, melhor? – Sim, melhor, melhor, melhor e melhor”.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Lendas escoteiras. E a vida continua.



Lendas escoteiras.
E a vida continua.

                     A primeira vez que conheci Pataxó foi há muito tempo. Ele era Sênior. Encontramo-nos em um acampamento distrital de patrulhas. Escolheram-me como Chefe do subcampo Sênior. Ele não era Monitor, mas uma tarde me procurou na barraca de chefia – Chefe! Pode me dar um tempo? – Claro meu jovem, o tempo que você quiser. – Por favor, não me ache infantil. Nada disto. Mas vim aqui para fazer escotismo e o que vejo são as guias e seniores conversando aqui e ali. Não quero que mudem nada, mas não é o que eu queria para uma confraternização distrital. – Assim sabe Chefe estou querendo ir embora. Sei que meu Monitor não vai entender, ele está namorando uma menina de outro grupo. Sei também que quando chegar ao grupo na primeira reunião eles irão fazer um Conselho de Tropa e claro, irão claro me punir de alguma forma. Se acontecer prefiro sair do movimento Escoteiro.

                       Sou um homem vivido. Sempre achei que tinha as respostas para tudo. Naquela hora não. Não sabia o que dizer. Falar o óbvio, os mesmo aconselhamentos sabia que não ia atingir o objetivo. – Pataxó, me faça um favor, chame seu Monitor até aqui na chefia? – Ele me olhou espantado e foi. Esqueci-me de dizer Pataxó não tinha descendência indígena. Era loiro magro e alto. Interessante um olho azul claro e outro castanho. Em menos de cinco minutos o Monitor chegou com ele. Estava preocupado. – Sempre Alerta Chefe! Monitor da Antares se apresentando. – À vontade meu amigo. Sente-se aqui. Vou lhe fazer um pedido. Claro você só atende se for possível. – Diga Chefe! Você já viu que estou sozinho aqui. São mais de quinze patrulhas seniores. Preciso de ajuda não para liderar vocês, mas para dar uma arrumação na bagunça do programa. Não quero desfalcar nenhuma Patrulha com um Monitor. Como sei que vocês estão em seis que sabe você poderia me ajudar deixando o Pataxó aqui comigo até amanhã tarde?

                      Pataxó franziu a testa e levantou as sobrancelhas. Não disse mais nada. Fiquei conhecendo o rapaz. Educado, prestativo e pelo que me contou era esforçado para atingir um objetivo que matinha em sua mente. Queria ter uma boa fábrica de móveis, pois era aprendiz em uma e lá estava aprendendo o ofício com amor e abnegação. Estudava também à noite. Era corrido para ele. Foi por dois anos escoteiro, mas quando conseguiu a vaga na marcenaria os sábados foram cortados. Voltou a menos de um ano para os seniores. Seu Marcondes dono da Marcenaria passou a fechar ao meio dia de sábado. Ele gostava do escotismo. Gostava de atividades aventureiras, de acampamentos e excursões. Fizera amigos na tropa. Agora era tudo diferente, as moças chamadas de guias estavam juntas nas patrulhas.

                     Em dois acampamentos ele se sentiu um peixe fora d’água, mas acostumou. Ficar o dia inteiro com elas – Na Patrulha somos seis, três são guias disse. Porque estranhou? Perguntei. – Bem Chefe, o Senhor sabe correr para o matinho ver se tem alguma delas, estar ali a subir em arvores, falsa baiana e construir um ninho de águia com elas não era fácil. Concordo que elas eram animadas, esforçadas e até em certos casos eram superiores a nós seniores. – Pataxó contou, contou e ficamos até altas horas da noite conversando. Ou melhor, ele falando. Eu só ouvia. No dia seguinte ele estava alegre, brincalhão, foi em sua Patrulha várias vezes e até me perguntou se podia voltar. – Você quer? Perguntei? – Sim Chefe, o Senhor não vai acreditar, mas a Franciele disse que sentiu saudades de mim! – Problema resolvido. Este escotismo moderno não é fácil. De vez em quando deixar falar e ficar calado é o melhor caminho.

                    Passou-se mais de dez anos quando encontrei novamente Pataxó. – Uma surpresa. Estava em meu Grupo Escoteiro em atividade num sábado à tarde com os escoteiros e uma Assistente da Alcatéia me procurou – Chefe tem outro Chefe da Bahia querendo falar com o Senhor. Olhei e lá estava Pataxó. Nos seus vinte seis anos. Um homem formado na família escoteira. Ao seu lado uma linda moça. – Olá Chefe, ele disse, lembra-se de mim? – Nunca o esqueceria. – Esta é Franciele. Minha noiva. Vamos nos casar no ano que vem. – Sabe Chefe, nunca o esqueci. O Senhor foi o único que me mostrou o caminho sem dizer nada. Sou eternamente grato. Ainda estou no Grupo Escoteiro. Hoje sou Chefe de Tropa Escoteira. Minha noiva me ajuda, pois temos duas Patrulha femininas. Mas separadas! E riu a vontade.

                   Nada como ver um final feliz. São coisas que encontramos sempre no escotismo. Tem fatos que nos marcam, ficam gravados na mente. Alguns amarrados com grandes amarras no coração. Naquela noite, levei Pataxó e Franciele em uma churrascaria. Passei em casa e convidei minha esposa. Que noite gostosa. Que noite linda em saber que Pataxó venceu seus temores. Que hoje é dono de uma grande loja de móveis em sua cidade – Chefe! – disse Pataxó - Eu sonho em ver nossos filhos de uniforme, sorrindo, juntos e aprendendo a ser alguém nas belas coisas que BP nos deixou! – Isto mesmo Pataxó pensei. Claro, Pataxó foi um vencedor. Nem sempre encontramos escoteiros como ele. Meu alerta a você Pataxó esteja onde estiver, pessoas como você fazem do escotismo o maior movimento de formação do caráter em todo o mundo!

terça-feira, 2 de abril de 2013

Lendas Escoteiras. Waldo, um Escoteiro e seu último por do sol.



Lendas Escoteiras.
Waldo, um Escoteiro e seu último por do sol.

                   Eu era Chefe de uma tropa Escoteira lá no Bairro do Berilo. Não era longe e a pé chegava a menos de quinze minutos. Era uma boa tropa. Quase não tinha problemas e os Monitores me ajudavam muito. No grupo havia uma tropa feminina, mas que não caminhava bem. Só duas patrulhas com doze jovens. Genny a Chefe era muito esforçada. Nilo e Bartilho eram meus assistentes. Não eram muito frequentes. Não sei se acontece com todo mundo, mas tem escoteiros tão bem comportados que quase passam despercebidos. Assim era Waldo. Entrando nos quatorze anos tinha todas as qualidades que a gente pensa em quem tem um elevado “Espírito Escoteiro”.

                    Na Patrulha Quati Waldo era uma espécie de conselheiro dos demais. Não era o Monitor, mas cativava a todos pela sua ponderação, pelo seu exemplo não só na tropa como na escola e em sua vida familiar. Quando eu tinha algum problema chamava o Waldo. Ele possuía um jeitinho próprio de conversar que conquistava qualquer um que estivesse ao seu lado. Não foi minha surpresa que um sábado de maio ao chegar à sede não vi o Waldo. Era o primeiro a chegar e o último a sair. Perguntei ao Antonio seu Monitor se ele sabia de alguma coisa. Não sabia. Pensei comigo – Deve ter sido o motivo muito forte para ele ter faltado. Fiquei de ligar para ele ou seus pais para saber se uma gripe o impediu de ir à reunião. Quem atendeu foi sua mãe. – Chefe, o melhor é o Senhor vir aqui em casa. Não dá para falar por telefone.

                       Só na quinta deu para ir até lá. Eu estava preocupadíssimo. O que seria? A Mãe dona Aurora e o pai seu Rodolpho me receberam na porta. Estavam tristes e taciturnos. – Chefe, falou dona Aurora, Waldo me pediu para ele mesmo dizer. Acho que o Senhor deve ficar prevenido. A notícia vai chocá-lo e muito. – Vi que lagrimas caiam dos olhos de ambos. O Senhor Rodolpho estava com a voz embargada. Subi ao quarto de Waldo, ele me esperava sentado na cama. Senti nele um sorriso tênue e sua voz que já era baixa de natureza estava rouca. Seus cabelos estavam caindo e aquilo me assustou. – Olá Chefe, Sempre Alerta! Ele tinha ficado em pé. Dei-lhe um aperto de mão e um abraço. – Waldo, todos estão sentindo muito sua falta e as saudades são grandes. Ele sorriu de leve. – É Chefe, vai ser difícil minha volta. Vou direto ao assunto. Melhor ser honesto com o Senhor. Estou com Leucemia no cérebro. O medico disse para minha mãe que eu tenho menos de quatro meses de vida.

                         Foi como se eu tivesse levado um soco, uma pancada. Fiquei chocado. Sentei em sua cama. – Calma Chefe, isto acontece com um e outro, eu fui o escolhido por Deus desta vez e sorriu. – Meu Deus! Pensei. Que calma deste garoto! Incrível! – Olhe Chefe, eu convenci minha mãe. Ela e meu pai não queriam, mas eu gostaria antes de ir me encontrar com meus ancestrais lá na vivenda de Capella, eu queria ir ao acampamento do próximo mês no Vale dos Sinos. – Mas como Waldo? Você mal fica em pé e nem pode andar direito! – Eu sei Chefe, mas eu preciso. Não posso partir sem ver meu último por do sol nas escarpas cintilantes. - Me lembrei do que ele falava. Lá das escarpas o por do sol era maravilhoso. O mais lindo que tinha visto. Eu nunca pensei que ele pudesse lembrar e nem eu mesmo me lembrava mais. Olhei para Waldo. Não podia negar aquele último favor. Se ele queria eu não iria dizer não.

                         Combinei com seus pais de passar lá no dia marcado pela manhã para pegá-lo. Não disse nada para a tropa e nem para os chefes. Insisti para que ninguém faltasse. Queria dar a ele uma despedida que ninguém jamais esqueceria. Seria o maior Fogo de Conselho que eu iria dirigir e ele participando. – Passei lá no dia determinado. No local do acampamento ele insistiu em ficar com sua Patrulha. Estava tremendo, fraquejava, mas dizia que iria dormir na barraca da Patrulha. Na chefia não era certo e não queria dormir sozinho completou. – Chefe, é câncer! E ria. Nada mais que o cancerzinho idiota. Não vai ter perigo para ninguém. Ele não é transmitido assim. Não é contagioso! – Menino! Que Escoteiro era aquele? Waldo de quatorze ano me dando lição?

                           Eu tinha levado uma cadeira de praia para ele ficar sentado. O dia que ele quisesse eu o levaria em minhas costas até as Escarpas Cintilantes. Ele recusou a cadeira. Vou fazer a minha Chefe. Devagar mas vou fazer. A Patrulha viu que ele estava doente. Disse para ela que ele estava se recuperando de uma forte pneumonia. Ele quase não participava das atividades, mas ajudava na cozinha sempre. Fez uma bela cadeira. Sentava e fechava os olhos. Seus lábios entreabertos pareciam sorrir. No penúltimo dia vi que ele respirava com dificuldade. – Waldo vou leva-lo para sua casa. – Chefe nem pensar. Me leve agora até as Escarpas Cintilantes. Meu tempo está se esvaindo.

                            Fui sozinho com ele. Em principio foi andando depois vi que não aguentava. O coloquei no colo. Uma palha de tão magro. Em menos de meia hora chegamos. Sentei junto com ele na barranca que dava para todo o Vale dos Sinos. Um espetáculo a parte. Deviam ser umas cinco e meia. Chefe posso fazer um pedido? Claro meu amigo. Claro. Quando eu estiver sendo guardando na terra dos meus ancestrais não quero que cantem a canção da despedida. Cantem todos aquelas alegres para que eu tenha boas lembranças. O sol foi aos poucos tentando se esconder atrás das montanhas do Grilo Feliz. Waldo sorria. Não tirava os olhos. Eu engasgado. Danação! Eu não era como ele. Estava difícil aguentar. Queria chorar e não podia. Não podia chorar naquele instante. Não podia. Eu sabia que eram seus últimos momentos. Waldo me olhou. Piscou os olhos e me disse – Chefe foi a maior alegria que já tive. Vou levar para sempre esta lembrança comigo. Obrigado Chefe. Obrigado. Foi aos poucos deitando no meu colo. Esticou suas perninhas secas. Waldo morreu sorrindo no meu colo naquele anoitecer de junho. Ficou ali imóvel como se estivesse dormindo.

                    Fiquei ali chorando por muito tempo. Alguém bateu no meu ombro. Olhei e não vi ninguém. Lá onde o sol se pôs vi uma nuvem branca brilhante que logo desapareceu. Desci as escarpas com ele no colo. Voltei para a cidade. Não chorava mais. Meu coração sumiu. Minha vontade não era minha. Naquele momento achei que eu também tinha morrido com o Waldo. No dia seguinte estávamos todos na sua exéquias. Cantamos ao som de um violão a Stoldola, Avante Escoteiro, Lá ao longe muito distante e outras. Todos cantavam com vigor escoteiro. Muitos choravam. Eu também. Não dava para segurar. Os anos passaram. Nunca me esqueci de Waldo. Nunca me apareceu em sonhos. Nunca falou comigo em espírito. Deve estar feliz, muito feliz em Capella, a terra dos seus ancestrais.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Rio Negro, a cidade das sombras!



Lendas Escoteiras.
Rio Negro, a cidade das sombras!

                       Um telegrama simples. Dizia: “Gostaríamos de contar com sua presença nas festividades do Grupo Escoteiro Enigma do Santo Sepulcro. Será dia 28 próximo em Rio Negro, a cidade das sombras. Todas as despesas serão por nossa conta”. Mais nada. Que seria isto? Alguma brincadeira? Eu recebia sim muitos convites para palestras e pequenos cursos escoteiros em várias cidades. Mas aquele convite era extraordinário.  Na internet só descobri uma cidade parecida próxima a Parecis, e mesmo assim diziam que a cidade não existia mais. Deve ser alguma brincadeira pensei. Pitágoras o Comissário sempre fazia isto comigo. Liguei para ele: - Não fui eu! Juro! Ele disse. Dei boas risadas, mas fiquei inquieto, ou melhor, encucado com tudo aquilo.

                      Não dormi bem. Não tive sonhos e nem pesadelos, mas acordei suando. Parecia que alguém dizia para eu ir à estação Rodoviária comprar a passagem. Liguei para a região para me informarem se tinha algum grupo com este nome. Riram na minha cara. Tirei o carro da garagem e fui até a Rodoviária do Tietê. Nem bem entrei vi um homem de paletó roxo, chapéu enterrado até os olhos, descalço, unhas enormes e com uma placa – Passagens para Rio Negro. – Aproximei. Ele levantou o chapéu. Enormes olhos negros. Um nariz comprido e afilado. Uma boca enorme cheia de dentes de ouro. Não tinha orelhas. Nas mãos em cada uma dois dedos.
Tirou do bolso uma passagem. – Mandaram-me entregar, o ônibus parte a meia noite. Terminal dois. O homem desapareceu. Procurei em todos os guichês da rodoviária e nada. Informei-me sobre a cidade. Ninguém conhecia.

                     Seja o que Deus quiser. Não costumo me esconder de desafios. Iria lá nesta cidade fantasma. A final sou um Escoteiro e o Escoteiro não foge dos desafios. Nunca! À noite já com minha mochila e de uniforme social fui para a rodoviária. Eram onze e quarenta da noite. Lá estava o morto vivo a minha espera. O “cara” era esquisito. Disse-me – Siga-me. E lá fui eu. Descemos umas escadas, um corredor escuro, um vento húmido e frio a soprar. Senti frio. Um frio que machucava. Vi o ônibus. Pequeno. Negro. Sem nada escrito. Na placa Rio Negro. A porta aberta. Entrei. Ele pediu a mochila – Vai ano meu colo disse – Sentei bem à frente. Não tinha ninguém no ônibus. O ônibus partiu em seguida. Só eu de passageiro. Alguém de voz rouca e cavernosa começou a cantar a canção da Promessa. Dormi. Acordei com o dia amanhecendo. Uma bruma cinzenta cobria minha vista. O ônibus parou. Desci. Suspirei fundo. Um Chefe Escoteiro de uniforme. Brim roxo. Todo roxo. Um lenço negro com uma caveira desenhada atrás. Sem sapatos. Descalço. Unhas enormes. Sempre Alerta Chefe! Sou o Funério, seu assessor pessoal, disse. Venha comigo.

                       Um carro negro fúnebre nos esperava. Atrás levava um caixão. Algum defunto para enterrar. A cidade era coberta por uma bruma cinza e seca. Quase não se via as casas. Aqui e ali pessoas atravessavam a rua devagar, como se estivessem pisando em brasas. Não havia barulho. Nenhuma ave por perto. Não vi cachorro e nem gato. O carro parou. Olhei o motorista. Sempre de costa. Um boné de couro preto. Abriu a porta e sai. Em frente a um cemitério. Aqui? Perguntei. Ele se virou. O rosto sem pele. Ou melhor, uma pele fina, mas só os ossos apareciam. – Não se preocupe Chefe. A sede do grupo é linda. Foi toda construída pelos habitantes do lugar. O Senhor vai gostar. Bragg! Comecei a tremer! Onde fui me meter? Ele me pegou pela mão como se eu fosse uma criança. Fui com ele. Não tinha outra saída. Nem sabia onde estava. Catacumbas e mausoléus enormes. Nomes estranhos. Aqui jaz – Baldassari, morreu por falta de sangue – Em outro dizia: Aqui jaz, Narkissa, a princesa beijada pelo Vampiro Damien. E assim se seguia. Meu Deus! O lugar era misterioso, amedrontador.

                     Fechei os olhos, um medo terrível. Abri. Lá estava a sede. Em letra góticas uma enorme placa: Grupo Escoteiro Enigma do Santo Sepulcro. Enormes caixões enfeitavam o teto da sede. Um belo esquife branco estava em pé, na porta e dentro um Chefe bem velho de bigode e cabelos brancos. Com o novo uniforme da UEB. Estranhei. A tropa, Alcatéia e os seniores formados na bandeira. Não havia bandeira nacional. Eram bandeiras negras com escritos em grego e latim e desenhos de zumbis e cadáveres. Um Chefe se aproximou. Bem vindo Chefe! Estamos tristes com sua chegada. Mas não estão alegres? Eu disse. Aqui Chefe é o contrário. Olhei a escoteirada. Todos de uniformes negros e os lobinhos de roxo. Ninguém sorria. Sérios. Como se estivessem mortos. Vi que nenhum dos jovens tinham olhos. Só um buraco fundo. Putz! Onde fui me meter? Porque aceitei? Não havia volta. Um zumbido e um grito e as bandeiras negras com símbolos vampirescos começaram a ser içadas. Vampiros enormes voavam sobre nossas cabeças. Ao terminal não houve oração. Olhei em uma catacumba mais alta e chacais davam uivos áulicos e lamurientos. Achei que um deles o mais forte poderia ser Duamutef, o filho de Hórus. Abraçaram-se todos os escoteiros e lobinhos e começaram a chorar. Todos se lamentavam por haver morrido. Morrido? Eram mortos vivos? Pensei em correr dali.

                     Pegaram-me pela mão. Levaram-me até um alto mausoléu. Diziam que eu estava no campo santo. Em volta de mim vi um jazigo cheio de ossos. Parecia que o cemitério estava acordando. Em cada catacumba, em cada mausoléu, em cada cova uma mão, uma cabeça e logo uma multidão de mortos em minha volta. Eram milhares. O Chefe do grupo me pediu para fazer a palestra. Todos aguardavam ansiosos este momento. De que meu Deus! Que palestra querem que eu faça? Nada sei do tal grande acampamento. Dizem que lá ficam todos os escoteiros que morreram, mas eu? A última vez que fui a um enterro faz anos! – Chamem Baden Powell. Ele entende disto melhor que eu!  Não Chefe, nada disto. Todos aqui querem saber como funciona a União dos Escoteiros do Brasil. Querem saber como funcionam as alcateias. Querem nomes de akelas que o Senhor conhece para visitarem a meia noite. Todos se preocupam com as tropas. Querem nomes também. Pediram sua opinião quem seria eleito este ano na Assembleia Nacional! Deus do céu! Que era aquilo? Ajuda-me Baden Powell! Socorre-me almas escoteiras do outro mundo que já se foram!

                     Chefe Patrulha Águia convidando para o jantar. Chefe Patrulha Cucu convidando para o jantar. Chefe Patrulha corvo se apresentando para avisar que o jantar está pronto. Acordei. Abri os olhos. Obrigado meu Deus. Era apenas um sonho. Um pesadelo. Estava com meus escoteiros num lindo acampamento. Vi o sol se pondo no horizonte. Bendito sol! Vi o regato de águas límpidas logo ali. Vi um peixinho pulando nas corredeiras. Graças a Deus. Graças a Deus. Ainda bem. Levantei-me. Espreguicei. Dei um enorme sorriso de felicidade. Havia dormido no tempo livre dado a eles para as refeições. Fui até o córrego lavar o rosto e me refrescar. Cantarolava o Rataplã, agora sim, eu estava vivo e gostava de estar. Levantei peguei a toalha para enxugar. Do outro lado do córrego, lá estava ele, o morto vivo da rodoviária. – Disse alto com voz grossa cavernosa e fúnebre – Sempre Alerta Chefe, à meia noite venho te buscar!

domingo, 31 de março de 2013

O destino de Lomanto Zarilson Mendes.



A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos.

Conversa ao pé do fogo.
O destino de Lomanto Zarilson Mendes.

              Desci da barcaça em Pedra Azul no porto da esperança e o vi na beira do Rio Amarelo. A principio tive dúvidas, mas depois a certeza era única. Era sim, tinha agora certeza absoluta. Ali estava o meu amigo Lomanto Zarilson Mendes. O homem mais procurado do mundo! Mudou muito nestes últimos vinte anos. Mais curtido e com aquele chapéu de palha e sua barba branca ninguém diria que era ele. Enchia a caçamba de uma carroça com as famosas areias brancas do Rio Amarelo. – Ei Lomanto! Gritei. Ele me olhou, pensou e depois viu que era eu – Chefe Osvaldo! Que prazer! Fui até lá. Abraçamos-nos. Quanto tempo eim amigo? – É Chefe, faz tempo. – Mas olhe meu amigo Lomanto, não estou entendendo você aqui neste serviço braçal? – Quer tomar um café comigo? Ele disse. Com a carroça cheia e um descanso, então posso explicar. Lá fomos nós até a Praça de Pedra Azul em um barzinho onde ele tinha amigos e fomos muito bem atendidos.

               Sentamos em uma mesinha embaixo de um Jacarandá enorme, lindo de morrer. Uma sombra para ninguém botar defeito naquele dia ensolarado com calor acima dos trinta graus. Olhamos um para o outro. Ele sorria. Um sorriso de alguém que encontrou a felicidade. Mas ele também não era feliz antes? – Minha mente voltou em segundos ao passado em Figueira do Rio Mimoso. Cidade onde nasci e cresci. Lomanto, quem não conheceu Lomanto? A cidade inteira sabia dos seus passos. Aos quatro anos diziam que tinha lido todos os livros da biblioteca. Uma mente privilegiada. No maternal as professoras não sabiam o que fazer com uma inteligência de um adulto doutor. Aos seis o colocaram no Grupo Escolar na oitava série. Não deu certo. Ele estava acima disto. O doutor Pilatos emprestou a ele seus livros de medicina. Era comum vê-los discutindo temas médicos na praça da cidade. O mesmo aconteceu com o Doutor Leimon um grande advogado e o Engenheiro Lamartine.

                 Seus pais nos procuraram no Grupo Escoteiro. Ninguém sabia o que fazer, mas recusar nunca. Os chefes de alcateia quebravam a cuca para moderar seus conhecimentos assim como quando passou para a tropa com oito anos. Errado? Não conheciam Lomanto para dizer isto. Se aos nove o vissem em um acampamento ficariam embasbacados. Lomanto era um mestre em tudo. Suas pioneiras tinham o acabamento dos melhores marceneiros do mundo. Fogões fechados e a vácuo, fornos de barro, escadas giratórias, amarras impossíveis de fazer assim como costuras de arremate que ele inventou com cipós. Aos onze insistiu em ir para os seniores. Com menos de seis meses tudo perdeu a graça para ele. Fez uma grande pesquisa sobre o escotismo. Estudou tudo que era publicado pela direção nacional. Aos quinze foi ao seu primeiro Congresso Nacional. Deixou todos embasbacados. Todos o procuravam para tirar dúvidas. Sabia de cor todas as publicações escoteiras no Brasil e no mundo. Sugeriram fazer dele aos quinze anos o novo Diretor Nacional de Formação de Adultos.

                     Foi uma discussão e tanto quando deram a ele aos dezesseis anos o certificado de DCIM. Foi convidado para palestras no mundo inteiro. No Grupo Escoteiro Manto Sagrado onde eu era o Chefe passei o cargo para ele. Foi bom, eu viajava muito. Convidado para cargos políticos recusou todos. Na cidade romarias de cientistas de todo o mundo era comum. Lomanto nunca cobrou nada de ninguém. Conseguiu um emprego nos Correios e lá recebia seus minguados salários. Jornais, revistas, TVs estavam sempre lá em busca de noticias. Lomanto ficou famoso. A WOSM ou OMME insistiram para ele ser o seu Diretor Geral. Não aceitou. Fazia palestras em vários países a convite e com passagens pagas. Foi agraciado com medalhas de diversas organizações escoteiras mundiais. Mas não ficava só nisto. Laboratórios farmacêuticos, grandes empresas de engenharia, outras de advocacia os procuravam sempre para pedir sugestões ou tirar dúvidas.

                      Todos nós que ficamos amigos dele estávamos preocupados. Isto não podia continuar. Seus cabelos aos dezoito anos estava quase todo branco. Seus olhos vermelhos pareciam não dormir nas últimas semanas. Um dia um helicóptero desceu sem nenhum aviso em Figueira do Rio Mimoso. Era a da Policia Federal. O levaram para Brasília. Ministros queriam falar com ele. Os presidentes do Congresso Nacional o intimaram para uma homenagem. O presidente do Banco Central exigiu sua presença. Queria opinião se subia ou baixava os juros. O Presidente da República o homenageou no Palácio da Alvorada. O novo Papa mandou um recado para ele ir a Roma. O pentágono ficou cismado. Nações do mundo inteiro mandavam espiões. Figueira do Rio Mimoso começou a ficar insuportável. Surgiram centenas de hotéis pousadas e campings. Restaurantes internacionais, livrarias e até uma TV se instalou ali. Um dia Lomanto sumiu. Ninguém conseguiu achá-lo. A policia federal e a Interpol fizeram tudo para encontrá-lo. Seus pais riam quando perguntavam. - Ele agora resolveu ir morar em um templo budista no Tibet. Quer ser um monge e descansar.

                       Aos poucos foram esquecendo-se de Lomanto. A cidade tomou enorme prejuízo com a estrutura hoteleira e outros que se formaram por causa dele. Quinze anos depois acharam que ele tinha morrido. – Pois é Chefe Osvaldo, dizia ele – Achei melhor assim e olhe hoje sou feliz. Conheci Noêmia, minha companheira com quem tivemos três filhos. Ela coitada nem ler sabe. Mas eu a amo demais. Não a trocaria por nada neste mundo. Fingi para ela ser um iletrado. Precisa ver como ela tenta me explicar às noticias que ouvimos no radio. Mudei de nome. Aqui sou conhecido como Arlindo Ladiscap. Ela nunca poderia saber o que eu era. Não esqueci nada e minha mente é a mesma. Aprendi a não pensar mais nisto. Aqui comprei esta carroça e faço carretos o que me dá o sustento que preciso. Levantei e me despedi de Lomanto. O trem da Central do Brasil que me levaria a Santos Dumont partiria dali à uma hora. Se não fosse só no outro dia.

                       Lomanto me pediu que não contasse a ninguém. Segredo de escoteiros. Dei minha palavra escoteira. Ele me conhecia e sabia que podia acreditar. Fui embora pensando o que é a vida. As escolhas que fizemos. Cada um sabe onde o sapato aperta. Lomanto poderia ter tido uma vida de rei. Seria mesmo um vida de rei? Entender suas escolhas só se estivéssemos em seu lugar. Escolheu ser um carroceiro, profissão digna, mas humilde. A maior inteligência de todos os tempos estava ali, apagada em um lar de quatro pessoas. Uma mulher e três filhos. Um lar de privilegiados. Mas quem disse que eu escolho a minha felicidade? Nunca. Você, só você sabe o que fazer para ser feliz. Que Lomanto com seu destino alcance o que quer. Que ele seja feliz para sempre!

Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz.