No mundo dos sonhos com as fábulas escoteiras

No mundo dos sonhos com as fábulas escoteiras
A aventura está apenas começando

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Balada do vento amigo. Deixa o vento soprar em meu rosto.


Balada do vento amigo.
Deixa o vento soprar em meu rosto.

Os ventos que às vezes tiram algo que amamos, são os
mesmos que trazem algo que aprendemos a amar...
Por isso não devemos chorar pelo que nos foi tirado e sim,
aprender a amar o que nos foi dado. Pois tudo aquilo que é
realmente nosso, nunca se vai para sempre...

Eu já ouvi o vento soprar, forte e viçoso nas montanhas douradas do Baependi. Ele rasgava o dia e as noites através das folhagens como se estivesse reclamando da invasão dos seus domínios. Eu já ouvi o vento soprar, nas imensas planícies do Vale Feliz. Ele procurava espantar as borboletas coloridas que ali estavam à procura do mel escondido nas flores que caiam no outono. Quando eu olho para o oeste, seguindo o sol que busca se esconder nos vales verdejantes, eu ouço o vento soprar. Ela canta suavemente para me entreter na busca do infinito. Dentro de uma barraca que parece sair voando, o vento sul açoita sem pedir permissão. As vozes das tempestades são enfurecidas por ele. Ele o vento não pede passagem, ele vai onde quer e ninguém ousa interromper.

Eu gosto do vento. Não importa de onde vem e para onde vai. Já estive com os ventos da primavera, que traziam o doce perfume das flores, das matas, das florestas distante. Eu já estive com os ventos do verão, com as bravias chuvas espicaçadas por ele. Ele mandava trovões, raios inimagináveis e depois da chuva ele trazia a bonança com ventos calmos, pacíficos e o cheiro da terra, o perfume das folhas molhadas, nos mais altos galhos a passarada a cantar toadas maravilhosas ao sabor do vento cuja chuva o vento levou. Eu já vi passar os ventos do norte nos picos gelados das Agulhas Negras, ele parecia sorrir com a vasta imensidão a perder de vista. Eu já vi os ventos das ventanias que jogavam tudo ao chão. Eu já vi os ventos das borrascas cinzentas no mar gelado. Era bom olhar o infinito e ver as gaivotas na sua eterna luta com os ventos. Elas sabiam que iam perder por isto aprenderam a voar com os ventos.

Quando em marcha de estrada e o sol a pino, eu me entregava aos ventos para me dizerem o melhor caminho. Beber a água da fonte, em uma sombra e os ventos soprando é indescritível. Eu já ouvi os ventos. Muitos. Os que se transformavam em arco íris, os que se transformavam em brisas, gostosas, sopradas de uma cascata borbulhante ou na madrugada a nos apanhar sem barracas tendo o céu de estrelas como casas, elas molhavam nossos rostos ao luar. Ventos do norte e sul, ventos do oeste e este, que eles soprem sempre trazendo a todos nós a alegria que merecemos. Um dia alguém me falou do vento – Sabes Escoteiro, se tens vento e depois água, deixe andar que não faz magoa, mas olhe se tens água e depois vento, põe-te em guarda e toma tento! É eu já ouvi o vento passar...

Deixa passar o vento
Sem lhe perguntar nada.
Seu sentido é apenas
Ser o vento que passa…
Consegui que desta hora
O sacrifical fumo
Subisse até ao Olimpo.
E escrevi estes versos
Pra que os deuses voltassem.
Ricardo Reis.




sexta-feira, 7 de novembro de 2014

A dor sofrida de Tonico Tonelada.


Lendas Escoteiras.
A dor sofrida de Tonico Tonelada.

                   Foi a pior reunião de Corte de Honra da sua vida. Lawrence pela primeira vez não sabia o que fazer. Tinha orgulho dos seus monitores e sempre achou que os treinou bem. Mostrou sempre o sentido da lealdade, da fraternidade e eles sempre levaram ao pé da letra seus ensinamentos. Era uma tropa exemplar. Nos acampamentos era difícil escolher a melhor patrulha, todas fora de série. Dona Lurdinha Diretora do Colégio Dom Pedro um dia disse a ele que se não fossem os Escoteiros ela nunca teria alcançado o padrão que o Colégio foi agraciado. Para melhorar a formação da tropa ele investiu muito em sí próprio. Cursos e mais cursos. Agora esperava a aprovação da Insígnia da Madeira mais uma etapa que lutou muito por ela, pois na Corte de Honra seus monitores cobraram.

                  - Chefe, disse o Monsanto, quer acabar com a tropa? O senhor sabe que admitir o Tonico Tonelada é acabar com tudo. Eu o conheço da escola, fico com pena, mas ele não tem amigos. Não pode correr, quase não consegue falar e andar. Quando tenta sorrir faz uma careta que dá medo. – Isto mesmo Chefe, disse o Logaritmo Monitor da Leão, se o senhor quiser tudo bem, ele pode ficar na minha patrulha, mas os demais patrulheiros não irão gostar. Garanto que muitos vão desistir. A patrulha não vai mais ganhar pontos em jogos, em acampamentos, em desafios e ninguém gosta de perder. Tonico Tonelada Chefe irá “enterrar” qualquer patrulha que entrar. – Chefe Lawrence não sabia o que dizer. Cada Monitor expos seu ponto de vista. Estava presente na Corte de Honra os sub. monitores. Disseram o mesmo. Ele tentou, não forçou, nunca fez isto. Para ele a Corte de Honra era sagrada. Sabia que quando começasse a ficar contra em tudo a democracia deixaria de existir na Tropa Escoteira.  

                   Dizem que os gordos não gostam. Odeiam ser gordos. Quantos e quantos meninos gordos estão aí querendo ser Escoteiros e tem vergonha de entrar? Sei que tem muitos que deram um passo e hoje participam ativamente. Ativamente? Bem esta é outra história. Seu nome era Laurindo Boaventura. Ninguém sabia seu nome, pois desde que conseguiu dar seus primeiros passos aos três anos puseram o apelido nele de Tonico Tonelada. Acho que foi o Chinfrim, seu tio. Um “bebum” para ninguém botar defeito. Bebia o dia inteiro. Que eu saiba nunca ficou sóbrio, mas coitado dele, morreu de cirrose com 28 anos. Tonico Tonelada nunca se preocupou com o apelido. Ele sabia que era gordo mesmo e até na escola seu pai fez uma cadeira especial para ele frequentar as aulas. Aos sete anos ele pesava mais de 130 quilos. Incrível como conseguia andar. Os pais de Tonico Tonelada tentaram tudo. Oito SPA, internações em clínicas especializadas, Conseguiu ficar um mês e meio no CCA (Comedores Compulsivos Anônimos), mas logo desistiu.

                      O Doutor Cazuza aconselhou – Olhem precisam procurar uma organização de jovens para motivá-lo. Sem isto ele não vive muito tempo. Tem de comer menos, se não perder pelo menos 40 quilos breve ele não anda mais. – Qual doutor? Perguntou dona Matilde sua mãe. – Não sei Jiu jitsu, Luta livre, boxe ou quem sabe o Sumô? – Assim o fizeram. Não ficou duas semanas em nenhum deles. Sem saber o que fazer uma vizinha disse – Porque não procura os Escoteiros? Sei que eles recebem bem todo mundo, quem sabe ele se anima e nas excursões e acampamentos ele emagrece. Meu sobrinho é um deles e diz que nos acampamento o Escoteiro cozinheiro é mestre de colocar açúcar na comida. Piada de mau gosto, mas mesmo assim eles levaram Tonico Tonelada ao Grupo.

                  Chefe Marcelio ouviu tudo o que os pais diziam. Eles contaram toda a vida de Tonico Tonelada, os médicos, os conselhos e agora sabiam que a vida dele estava por um fio. Tinha de emagrecer. – Senhor Natal, disse o Chefe Marcelio, sei que é uma situação difícil, mas veja nossa situação – Durante uma hora o Chefe Marcelio narrou como era às atividades escoteiras, as excursões, os acampamentos e no final perguntou – E então? Ele não vai aguentar? Quem sabe a emenda pode ficar pior que o soneto? Muitos irão sair porque sabem que ele vai ser sempre um perdedor. Chefe Marcelio não queria dizer isto e se arrependeu. Fez então uma promessa – Olhe, vou conversar com os chefes. Eles claro irão discutir com seus monitores e o que decidirem comunico ao senhor e a senhora.

                  Chefe Lawrence ouviu atentamente o Chefe Marcelio. Como era um bom homem não disse nem sim e nem não. Iria analisar e discutir com a tropa e os monitores. Assim foi feito. Agora que todos foram contra ele não sabia o que fazer. Na semana foi fazer uma entrega de sua loja na Rua do Ouvidor e ao descer da Van viu Tonico Tonelada atravessando a rua. Motoristas passando e chingando – Paspalho! Cuidado. Vai sujar meu carro seu merda se eu passar em cima de você seu gordo dos invernos! Ficou com pena. Pensou consigo que ele devia ter seus direitos. Era um ser humano. Conversou com Toninha sua esposa. Ela aconselhou a ele estudar tudo sobre os gordos na internet e os que conseguiram vencer sua doença, pois ele sabia que era assim. Duas semanas, pelo menos uma hora por dia até que conseguiu o endereço de cinco deles. Foi até a casa de cada um.

                  Era o primeiro dia de reunião de Tonico Tonelada. A Tropa sabendo que ele queria entrar pediu para votarem. A votação foi de 15 a favor e 13 contra. Todos prometeram ajudar por seis meses e se ele não mostrasse resultados infelizmente seria dispensado. Para isto fizeram uma programação especial para ele não se sentir um pária. Dependia de ele ser um Escoteiro ou não. Ele assinou um compromisso de honra. Fez a saudação escoteira e prometeu fazer tudo que os médicos aconselharam para perder peso. Quer ser Escoteiro? Se acha que quer tem de se esforçar. Disse Pintarroxa o Monitor da Falcão onde ele iria ficar.  Cada patrulha fazia questão de acompanhar. Na escola era olhado por seus amigos de classe e em casa recebia visitas uma vez por dia. Não foi fácil e ele sentia fome, sentia tremedeira e chorou muitas vezes. Mas no primeiro mês perdeu oito quilos. Em seis meses Tonico Tonelada passou dos seus 120 quilos para 85. Ainda era muito. Ele tinha de chegar nos 60 quilos. Difícil? Para Tonico Tonelada não. Quando ele conheceu os Escoteiros ele sabia que ali compromissos não eram para fugir. Escoteiros enfrentam desafios e não correm deles. Viu que tinham um código de honra e ele gostava disto. O Chefe Lawrence no primeiro dia disse a ele – Tonico é melhor ficar sabendo agora, qualquer um pode entrar como Escoteiro, mas ser Escoteiro não é para qualquer um!


                  A cidade aplaudiu, o colégio agradeceu e os Escoteiros do Brasil agora tinham em seu seio um verdadeiro jovem cujo Espírito Escoteiro era ponto de honra. Uma lei é para ser cumprida, uma promessa era para ser levada a sério. Tonico Tonelada conseguiu vencer. Ainda bem que os Escoteiros não fugiram na hora do apoio.  É meus jovens amigos, afinal não foi Baden-Powell quem disse que só os valentes entre os valentes se saúdam com a mão esquerda?  

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Palavra de Escoteiro ou palavra de honra? “Os dez artigos da Lei Escoteira”


Crônicas de um Chefe Escoteiro.
Palavra de Escoteiro ou palavra de honra?
“Os dez artigos da Lei Escoteira”

          Estava acampado como sempre fazia bimensalmente com os monitores e subs da tropa. Nos acampamentos de fins de semana eu sempre ia para o Sitio do meu amigo Tornelo. – Chefe, fique a vontade, nem precisa pedir autorização. Boa aguada muitos bambus um local excelente. Eram quatro subs e quatro monitores. Eles adoravam tais acampamentos. Eu também, pois tínhamos mais tempo para conversar, aprender fazendo e trocar ideias. Ouvir adolescentes e suas necessidades eram para mim uma alegria sem par. Com esta nova rotina a tropa deu um salto em motivação e crescimento. O dia já estava no fim e a noite chegava mansa. Jantamos um belo bife com arroz que estava soltinho. Um dos subs era um cozinheiro de mão cheia. Lá pelas nove eles chegaram de mansinho na porta da minha barraca. Eu tinha feito nos outros acampamentos dois bancos de troncos grossos que encontrei cortado perto da lagoa do Jacaré. Cada um foi se assentando e um deles já colocava as batatas no fogo já aceso. Eu terminara o café e no bule esmaltado já tinha colocado junto à fogueira pequena com pedras em volta para não espalhar as brasas.

          Era uma rotina que todos gostavam de participar. Ali ficamos conversando até que um Monitor me perguntou – E a história de hoje Chefe? Sorri de leve. Sempre tinha uma historia para contar. – Vamos lá eu disse. Hoje iremos falar da Lei Escoteira. Uma patrulha que sempre achou que a palavra do Escoteiro vale pela sua honra. Mas o que é honra? Melhor contar a história. Eles se serviram de um biscoito de polvilho e alguns do café que estava quentinho. Um silencio se fez em volta. Mal dava para ouvir os grilos e ao longe na lagoa uma sinfonia de sapos cururus se divertiam todas as noites. – Tudo começou quando a Patrulha Onça Parda estava reunida na casa do Escoteiro Santos Dumont. Estavam lá o Monitor Rui Barbosa, e mais os Escoteiros e escoteiras Olavo Bilac, Caio Martins, Anita Garibaldi, Barbara Heliodora e Joana Angélica. Era uma rotina, pois todas as quartas feiras se reuniam em casa de algum membro da patrulha.  – Chefe! Interrompeu um Monitor, mas estes nomes são verdadeiros? Olhe que todos eles fizeram parte da história do Brasil. Bem pensado Antonio. Mas faz parte da história.  

          - Bem continuando, depois de discutido as sugestões que dariam para o programa do segundo semestre, eis que Anita Garibaldi levantou um assunto – Olhem meus amigos, lembram-se da última reunião que o Chefe fez um Jogo Escoteiro usando a Lei Escoteira? – Sim, disseram todos. Mas foi um jogo meio parado disse Olavo Bilac. – Concordo disse Anita Garibaldi, mas acho que valeu para nós. Afinal somos Escoteiros e o que significa a Lei Escoteira para um escoteiro? – Uma discussão simpática começou. Falou Caio Martins, Santos Dumont, Barbara Heliodora e Joana Angélica. Rui Barbosa o Monitor só observava. Ele sempre se questionou sobre a lei. Cumprir ou não cumprir? Dizia para si. Fazer o melhor possível? Quem sabe assim era mais fácil. Foi Santos Dumont que abriu o jogo – Para dizer a verdade eu não sou muito de cumprir esta lei. Ela existe para nos dar um caminho a seguir. Cumprir todos seus artigos é impossível, finalizou. – Não sei se concordo disse Olavo Bilac. Anita Garibaldi não falava nada. Só ouvia. O mesmo fazia Joana Angélica. Barbara Heliodora não concordou. – Não acho que devemos seguir pela metade. Se ela existe e nós prometemos um dia fazer o melhor possível não podemos continuar assim por toda a vida.

          Joana Angélica que pouco falava lançou um desafio – Porque nós que achamos que a Lei é tudo para os Escoteiros, que falamos em honra em palavra escoteira e em ética escoteira não tentamos por dez dias cumprir a risca todos os artigos? Quem sabe, prosseguiu, poderíamos fazer uma espécie de aposta e os que perdessem pagaria para todos uma rodada de sorvetes na Sorveteria do Paulão? Todos deram opiniões. Foi Rui Barbosa quem finalizou – Se todos aprovam eu estou de acordo. Lembrem-se que faltar com um artigo da lei é questão de consciência do próprio membro da patrulha. Para isto se ele não está preparado para cumprir os dois artigos da Lei que vão reger este desafio, não vale a pena continuar. Caio Martins entrou na conversa – Seria o primeiro artigo? O Escoteiro tem uma só palavra e sua honra vale mais que sua própria vida? – Barbara Heliodora emendou – Este mesmo e eu acrescento o segundo. O Escoteiro é leal. Sem lealdade não existe amor, amizade, fraternidade e consciência de mostrar que acredita no que faz e sabe que os outros reconhecem seu Espírito Escoteiro.

             Aprovado o desafio, a reunião de patrulha terminou com um juramento de todos com as mãos entrelaçadas – Prometo ser leal e dou minha palavra escoteira que se errar direi a todos. – Era uma quinta, dia 12 de agosto. O desafio iria durar até o dia 22 de agosto. Rui Barbosa pensativo não sabia se conseguiria cumprir. Olavo Bilac ria baixinho – Este desafio eu tiro de letra - Caio Martins dizia para si mesmo que se quisesse vencer teria que caminhar com suas próprias pernas. Santos Dumont tinha dúvidas se também iria até o final. Anita Garibaldi não tinha dúvidas. Barbara Heliodora sempre se considerou leal e achava que sempre cumpriu os artigos da lei. Joana Angélica tinha medo de suas amigas de classe. Falavam muito palavrão e sempre contavam piadas que iam contra a ética e a honra. Os dez dias se passaram. Estavam todos reunidos na casa de Joana Angélica. Era a hora do acerto de contas. Hora que cada um devia dizer se cumpriu ou não a lei escoteira.

            Rui Barbosa deu o exemplo como Monitor – Não consegui no Sétimo artigo me perdi. Tudo por causa do meu pai. Encheu-me as paciências de tal maneira que fui indelicado com ele. Pedi desculpas depois, mas já havia infligido à lei. Joana Angélica sorriu baixinho e emendou – Eu também não consegui. O quarto artigo é danado. Amigo de todos? Isto inclui aqueles que não são Escoteiros. Tive que dar um empurrão na Rebecca minha prima. Entrou no meu quarto e fez uma bagunça que só vendo. Depois me arrependi. Afinal ela só tem cinco anos! Caio Martins só falou que cumpriu todos. Barbara Heliodora pediu desculpas, mas não cumpriu o quinto e o oitavo artigo. Não fui cortês com minha mãe e quando ela me repreendeu na frente de todos, eu chorei por dois dias. Nem me lembrei de sorrir. Olavo Bilac disse que cumpriu sem pestanejar e se precisasse ele ficaria para sempre cumprindo a lei escoteira. Anita Garibaldi também não conseguiu. Discuti com minha professora, pois ele me deu oito em história. Merecia um dez. Por último Santos Dumont disse que cumpriu todos.


            Os monitores e subs estavam de olhos arregalados. Chefe é história verdadeira? Quer saber? Eu não sei se eu iria cumprir como muitos fizeram. Não disse sim e não e encerrei a história com todos tomando sorvete na Sorveteria do Paulão. Empanturraram-se de tanto tomar sorvete. Um silêncio profundo em volta do fogo. Ninguém disse nada. Uma coruja piou ao longe. Os sapos pararam de coaxar. O céu ficou escuro e um relâmpago riscou o ar. – Boa noite meus caros monitores, chequem suas barracas a intendência, o lenheiro. Vem uma tempestade por ai!     

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

A rebelião dos bichos.


Lendas escoteiras.
A rebelião dos bichos.

               Tudo aconteceu na primavera daquele ano. Foi uma surpresa, para mim e confesso que fiquei surpreso. Muito. Vi que a sede Escoteira sem ninguém saber ou ser informado, se tornou uma selva de tantos bichos, aves e peixes. Como eles respiravam não me pergunte. Vieram de todas as partes do Brasil. Claro um representante de cada espécie. Desculpe. Nada de Arca de Noé não. O motivo era outro. Em cada grupo da fauna brasileira foi escolhido o mais douto, o mais sábio e o mais educado. Afinal entre eles a ética e o respeito existe. Eles pretendiam mostrar sua civilidade aos escoteiros de todo pais. Era uma revolta surda, mas educada, ficaram calados por muito tempo, mas tinham de tomar uma providencia. Não me deixaram entrar. – Aqui humanos não entram. Tudo bem eu pensei. Fiquei na janela assistindo. Que organização eles tinham. Chegavam papagaios, corujas, cisnes de todas as cores, gavião-carijó, águias, sem contar as duas onças, uma pintada e a outra parda. Eram centenas deles. O salão nobre ficou lotado.

                A Coruja-buraqueira foi escolhida para presidir os trabalhos. Pedindo a palavra ela começou: – Meus amigos, vocês sabem que aqui foram convidados somente às espécies da fauna brasileira. Ainda ontem o Quatipuru veio reclamar para mim que nunca o escolheram como nome de Patrulha. O mesmo aconteceu com o Tucunaré, O Sagui de tufo branco e outras centenas deles. Resolvi fazer uma pesquisa. Para mim é fácil. Sei que é difícil para os dirigentes escoteiros, mas deu para ver que os jovens hoje só querem nomes pomposos, se possíveis retirados da fauna americana ou europeia. Não vou citar aqui os nomes esquisitos em inglês que eles colocam. Até astronautas eu já vi. Um absurdo. E olhem meus amigos, tenho conhecidos nestes países e me disseram que lá ninguém liga para nossa fauna. Eles são autênticos. Uma palma estrondosa repicou no salão nobre.

               - Continuou a Coruja Buraqueira. Temos que tomar uma providencia. Afinal se os escoteiros e seniores não nos escolhem, é melhor que façamos uma revolução e quando eles forem acampar, iremos gritar infernizar a vida deles. As tais patrulhas de nomes esquisitos não terão mais nosso apoio. – Uma cobra venenosa, a Surucucu estava presente – Riu baixinho – Deixa comigo dona Coruja. Eu e a Cascavel do chocalho negro, damos umas mordidas e resolvemos logo este problema. Todos riram. – Não! Não é assim que vamos resolver. Precisamos estudar uma fórmula de mostrar o que somos, mas educadamente. Olhem, só para ter uma ideia, vou convidar para um desfile aqui no palco alguns animais, aves e peixes que nunca foram lembrados pelos escoteiros. Que façam uma fila e vão passando em minha frente dizendo seu nome:

                Começou o desfile. Ali estavam o Veado Catingueiro, o Quatipuru, a Cotia, O Touro Nelore. O desfile era longo. Logo veio a raposa verde, a Jaguatirica, a Doninha amazônica, O Zorrilho, a Baleia Azul, O Golfinho, o Boto cor de Rosa, o Ouriço Preto, o Puma do Pantanal e o Macaco Prego. Cantando veio o Macuco, a Codorna Amarela, o Aracuã do Pantanal, o Mergulhão Caçador, o Maçarico, o peixe Tucunaré, a Traíra, O Piau, a Jacupemba, o Sagui de Tufo Branco e o Príncipe Negro. Não faltaram o Bugio, A Ema, a Iguana, a Garça Branca, o Boto Vermelho, o Tracajá, o Canário da Terra, o Tatu Peba, o Gaivotão, o Mutum de Penacho, o Cervo do Pantanal, o Jacaré Açu, o Mocó, o Tuiuiú, o Tucano, o Quati, O Beija Flor, o Tamanduá Bandeira, o Martim Pescador, O Lobo Guará, a Ariranha, a Arara Azul... Um desfile enorme. Todos tristes. Atrás deles tinham mais de cem animais e aves para desfilar. Uma tristeza enorme no salão.

                 Foi o Beija Flor dourado quem tomou da palavra – Amigos e Amigas pretendo nunca mais beber do caldo açucarado que eles põem para mim nos campos de patrulhas. A Coruja Buraqueira concordou e disse: Eles não me verão mais nos galhos próximos aos Fogos de Conselho. O Canário Belga falou lá no fundo do salão: - Eles nunca mais me verão cantar nas madrugadas. Era uma choradeira só. – Vamos tomar uma posição rosnou alto a Onça Pintada. Vamos dar uma surra neles quando forem acampar! – Nada disto, replicou a Coruja Buraqueira. Vamos fazer um abaixo assinado. Quando o próximo sábado chegar, entregaremos uma copia a cada Patrulha que for a reunião. Cada um de nós que tem asas fica responsável. E assim foi feito. Levaram para as patrulhas, o abaixo assinado por mais de 5.000 membros da fauna Brasileira. Lá escreveram suas insatisfações com a escolha de nomes estrangeiros para as patrulhas e porque não se lembraram deles.


                   Fui embora e eles nem notaram. Estava triste. Era uma verdade. Não só nos nomes de patrulhas, mas também nas tropas e nos grupos. Chegaram ao ponto de copiar uniformes e chapéus esquisitos. Deu-me uma sensação de vazio por dentro. Que sabe daqui para frente, muitas Patrulhas novas irão pesquisar mais a Flora e a Fauna Brasileira? Seria verdade? Não sei. Seria bom se elas pudessem dar valor ao que é nosso, pois se não fizermos isto desde criança, ninguém lá fora vai fazer por nós. E olhe, não participaram desta reunião nossos heróis, nossos poetas, nossos homens que um dia fizeram desta nação um país hoje respeitado. Quem sabe um dia eles irão também se reunir e dizer o que pensam?    

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Mortimer, um lobinho amigo do além.


Lendas escoteiras.
Mortimer, um lobinho amigo do além.

Coveiro.
Numerar sepulturas e carneiros,
Reduzir carnes podres a algarismos,
Tal é, sem complicados silogismos,
A aritmética hedionda dos coveiros!

Um, dois, três, quatro, cinco... Esoterismos
Da Morte! E eu vejo, em fúlgidos letreiros,
Na progressão dos números inteiros
A gênese de todos os abismos!
Augusto dos anjos.

                     Mortimer era um infeliz. Era filho de Lomanto da Paz o coveiro do cemitério Flores Singelas. Na escola ninguém se aproximava dele. Tinham medo. Diziam que ele falava com os mortos. Não era verdade, mas que acreditaria nele? Sua casa ficava dentro do cemitério e mesmo linda, pintada de azul e branco com muitos manjericões e rosas brancas que seu pai plantava e cuidava com carinho, ninguém nunca pediu para conhecer onde morava. Sua mãe morrera quando nasceu. Seu pai o adorava e o tratava com carinho e um amor enorme. – Mortimer meu filho, um dia vão reconhecer que seja onde for a nossa casa é sagrada. Mas não adiantava o pai falar - Pai! Nós não recebemos visitas! Por quê? – Lomanto olhava seu filho e mesmo querendo explicar que todo mundo um dia iria morar ali, ninguém gostava de tocar no assunto. A morte sempre assustou os vivos.

                   Uma menina de cabelos loiros foi transferida para sua sala. Ele a olhava e quando ela olhava para ele ficava sem jeito e virava o rosto. No recreio ela o procurou. – Quer brincar? Mortimer assustou. Ele no recreio era um eterno esquecido. Ninguém nunca o chamou para brincar. Ficava sempre em um canto olhando todos correndo e sorrindo. Ela o pegou pela mão e começou a correr – Vamos! Tente me pegar! Foi o recreio mais lindo de sua vida. – Pai! Pai! Ele chegou correndo para contar – Pai eu agora tenho uma amiga! Lomanto riu e abraçou seu filho. Os outros jovens da escola olhavam o par com indiferença. Não diziam nada. O boato que corria é que se mexesse com ele os defuntos viriam à noite em seu quarto para puxar o pé. Um dia Noêmia o convidou para ir visitar sua alcateia. – O que é isto? Perguntou. – Uma escola diferente. Nada de carteira. Nada e quadro negro. A professora lá se chama Akelá. Ela tem ajudantes. Cada um tem um nome de bichos da floresta. É como se nós vivêssemos em uma grande floresta.

                  Noêmia contou muita coisa. Mortimer ficou perplexo com o que ela contava. Havia um herói menino chamado Mowgly. Ele se perdeu na floresta e foi adotado por uma Alcateia de lobos. Todos eram amigos dele. Outros animais o protegiam. O Balu um urso grande e peludo, a Baguera uma pantera negra enorme, Hati o elefante e uma grande cobra píton chamada de Kaa. Mortimer queria saber tudo. Noêmia o convidou para ir com ela sábado ao grupo escoteiro. Seu pai foi junto. Vestiram a melhor roupa que usavam na missa dos domingos. Mortimer ficou com medo quando chegou lá. Centenas de meninos vestidos de azuis e cáqui com chapelão. Ele se assustou. Sabia que todos conheciam o Menino do cemitério. O menino que fala com os mortos. Engano. Ninguem disse nada. Foi recebido com palmas. Mortimer chorou de alegria.

                   Em casa falou para seu pai – Pai! Eu nunca pensei que fizesse tantos amigos em um só dia! – Filho, o mundo é bom, tem aqueles que não te conhecem e te julgam pelo que ouvem ou veem sem olhar o coração das pessoas. Mortimer dormiu feliz. Sonhava com o próximo sábado. Sonhava em ser mais na Roca do Conselho. Disse para si mesmo que em breve estaria de azul e a gritar junto a todos no Grande Uivo. Mortimer passou a sorrir também na sala de aula. Chegava perto de muitos da classe e dizia, eu sou lobinho, lá eles são meus amigos. São felizes como eu. Eles cantam, dançam e sabem que a verdadeira amizade nasce de dentro do coração. Mesmo vocês não sendo meus amigos o Balu meu protetor me disse que não importa o que pensam de você, importa o que você pensa deles. E eu sou amigo de todos! – Toda a classe passou a ver Mortimer como mais um deles. Não era mais o filho do coveiro.

                  Dizem, eu não sei e nem posso afirmar que todos os domingos o Cemitério Flores Singelas enche de meninos que vão lá brincar nos arvoredos, no pequeno regato que nasce atrás das montanhas e eu soube que agora toda a cidade vê com outros olhos o lobinho Mortimer e seu pai Lomanto da Paz. Dizem também e eu não sei se é verdade que aprenderam uma lição com os Escoteiros. Eles e os lobinhos fazem questão da amizade. Dizem na cidade que lá todos que entram passam a ser irmãos. Até contam em rodas por aí que eles tem um pacto e quem entra passam a ser irmão de sangue para sempre. Agora que Mortimer cresceu e se casou com Noêmia disto eu tenho certeza. Que tiveram quatro filhos e Mortimer ainda mora no cemitério e é feliz eu também sei. Escotismo é assim, quem não tem amigos lá encontra um montão.


                  Esqueci-me de dizer que Mortimer hoje é o prefeito da cidade. A prefeitura vive cheia de Escoteiros e na porta tem uma grande placa escrita – Lord Baden Powell, cidadão do mundo, O Escoteiro Chefe Mundial e amigo e irmão de todos. Falar mais o que? Escotismo é coisa que marca que entra em nós para sempre. Dizer que somos aventureiros que somos Escoteiros e vivemos para ajudar o próximo é falar o obvio. Mortimer hoje corre o mundo dando palestras. Tornou-se um professor de história e escreveu muitos livros. Ninguem mais o chama de o amigo dos mortos, mas sim de o amigo do mundo. Graças a Mortimer eu também sou Escoteiro e esteja ele onde estiver receba meu abraço apertado, meu aperto de mão esquerda e meu Sempre Alerta!

terça-feira, 21 de outubro de 2014

As aventuras do Escoteiro Chico Landi. Aquele que superou os seus limites.


Lendas escoteiras.
As aventuras do Escoteiro Chico Landi.
Aquele que superou os seus limites.

                            Faz tempo que eu conhecia Chico Landi. Confesso que não tivemos um contato muito próximo, pois eu com meus dezesseis anos e ele com doze havia uma distância muito grande para sermos íntimos. Mas depois que tudo aconteceu seus feitos e histórias foram de conhecimentos de todos. Ele mesmo quando entrou para o restrito Primeiro Grupo de Giwell um dia em um acampamento chamado de Gilwell Park, pois nosso Distrito fazia realizar uma vez por ano com os chefes Insígnias, tive a oportunidade de ouvir dele toda a história que era contada no grupo e que virou mito e lenda o que não era verdade. Ela a história em parte existiu. Disse-me que seu pai era um fã incondicional de Chico Landi, um famoso automobilista brasileiro além de vencer varias provas internacionais e o primeiro brasileiro a participar da Formula um. Este era o motivo de seu nome. Seu apelido de Centelha na Tropa nunca pegou.

                              Chico Landi era daqueles que sempre dizia – Escoteiro não corre, voa! Escoteiro que é Escoteiro não chora da risada! A chuva para o Escoteiro é como pétalas de rosas a cair em seu rosto! Não existe para o Escoteiro a palavra impossível. Sei que ele tinha um caderno onde colecionava estas frases e ele mesmo inventava na hora outras tantas. A Baguira Vera e o Balu Nonato não sabiam como a Akelá Rosinha tinha tanta paciência com Chico Landi. Bem, era um ótimo lobo, mas não parava de reclamar – Kelá! Tem dois meses que fomos ao acantonamento, vamos fazer outro! Kelá chega de reunião na sede. Vamos passear no campo! Chico Landi adorava a natureza. Quando passou para os Escoteiros tudo mudou. Era uma Tropa quase autônoma de chefia. Marcio o Chefe tinha pouco tempo para dedicar e sempre reunia os monitores e subs em sua casa. Trocavam ideias, muitas vezes acamparam juntos e a Tropa seguia sozinha sem adultos. Monty o Guia dizia sempre – Onde tem um Escoteiro tem uma Tropa e onde tem uma Tropa tem aventuras.

                                A vida de Chico Landi se transformou a ponto de Dona Laurinda mandar chamar seus pais para uma conversa. – Chico Landi deixou de estudar, Chico Landi só vive nas nuvens, Chico Landi não pode continuar assim, só fala em escotismo, escotismo e mais nada! Doutor Juvenal pai de Chico Landi era um pai compreensivo. Conversou longo tempo com o filho. Chico Landi adorava o pai. Seguia seus conselhos a risca. Mas Chico amava o campo. Adorava correr pelas campinas, espantar as borboletas coloridas misturando com as flores silvestres os raios de sol de um amanhecer maravilhoso. Ele cantava e como cantava. Sabia fazer qualquer tipo de nós. Reconhecia na natureza qualquer gorjeio, qualquer canto – Olhe! Ouçam! É o pássaro Preto do serrado perdido aqui nas campinas! Pegadas? Chico era um bam, bam. Nos acampamentos sua Patrulha Lobo era a primeira em dar o grito para o almoço, jantar, prontos para inspeção, formaturas e apesar de não ser o Monitor era um motivador sem igual.

                            - Monty, por quê? Monty ria, ora, ora Chico Land, não podemos viver em um acampamento. A sede precisa de nós. Humm! Ele dizia se é assim então vamos fazer um Salcedo? Para quem não sabe Salcedo era um apelido que deram ao Comando Crow. Eles faziam diferente, um de cada lado, ao se encontrarem tinham de passar um pelo outro. Sempre um despencava no chão. A vida era bela para Chico Landi. Uma família que o amava, um grupo Escoteiro respeitado pela comunidade, uma Tropa de aventuras e uma Patrulha sem igual. Bem vamos dar os méritos a Dona Laurinda a professora e o Padre Gabriel. Eles também sem perceber faziam parte da família feliz de Chico Landi. A vida tem destas coisas, quanto menos se espera o destino bate na porta. Não tem jeito. Bateu levou. Desta vez foi uma pancada forte do destino na vida de Chico Landi.

                         Seis bandidos resolveram assaltar o Banco do Brasil. Único na cidade. Prenderam os quatro praças e o sargento Nonô na cadeia. Acharam que a cidade estava dominada. No banco Zé Pinta Cega um vaqueiro da fazenda Luvião não achou graça naquilo. Mandaram todo mundo deitar no chão e um dos bandidos dava chute nas costas e na cara dos clientes. Zé Pinga Cega não levava desaforos para casa. Seu 38 querido estava lá onde sempre esteve. Dentro do bolso comprido de seu paletó feito exclusivamente para carregar seu amigo de tanto tempo. Nenhum dos bandidos reparou nele. Pudera um anão não mais que um metro e cinquenta magro e um bigodinho a lá Charles Chaplin. Com três tiros Zé Pinga Cega matou três, mais um tiro e um caiu estrebuchando no chão, dois correram e Zé Pinga Cega correu atrás. Eles abriram fogo e o Zé Pinga Cega recebeu um balaço nos quadris, mesmo caído ainda atirou. Não acertou ninguém e desmaiou. Os bandidos fugiram sem levar nada.

                                   Levaram Zé Pinga Fogo para o Hospital de Eldorado a vinte quilômetros dali. O povo alegre dançava na praça festejando o acontecido. Ninguem notou que atrás de um pé de Jabuticaba centenária Chico Landi gemia e cantava. Um canto triste. Ele cantava o Rataplã. Ninguem ouviu a principio. Dona Modesta foi quem viu. Deu um grito de susto. Chico Landi sangrava e muito. Seu rosto branco como cera. Mais um para o hospital de Eldorado. Ele tentou imitar o seu herói. Aquele que disse que um Escoteiro caminha com suas próprias pernas. Não deu nem um passo. Ainda estava vivo. Alguém o viu correr para a pracinha quando o tiroteio começou. Uma bala perdida. Chico Landi ficou entre a vida e a morte vinte dias. A escoteirada, a lobada e os chefes todos os dias pegavam o caminhão do seu Rangel e iam para Eldorado visitar Chico Landi. Dona Neném sua mãe dia e noite ao seu lado. Seu Pai o Doutor Juvenal fez tudo que podia. Chico não iria morrer, mas estava tetraplégico. Nunca mais iria andar. A noticia caiu como uma bomba na cidade. A lobada e a escoteirada chorava em todos os cantos. O Padre Gabriel convidou toda a cidade para uma grande missa e pedir a Deus por Chico Landi. Era o menino mais alegre da cidade. Vivaz, grande Escoteiro, amante da natureza, era uma infelicidade ele ficar assim.

                            A praça tomada, quase toda a cidade estava lá. Muitos Escoteiros eram coroinhas e estavam no altar a espera do início da missa. A maioria dos presentes tinham os olhos cheios de lagrimas, A Akelá Rosinha, a Baguira Vera e o Balu Nonato choravam como bebês. Monty o Guia da Tropa estava firme com seu bastão em pé ao lado do altar. Não chorava, mas seu coração estava sangrando. Ninguem podia acreditar no que estava acontecendo. O carro do Doutor Juvenal e dona Neném estava chegando à praça. Traziam Chico Landi em uma cadeira de rodas meio caído do lado. Todos olharam para ele com uma pena enorme. Os soluços aumentaram. Alguém gritou – Uma palma para Chico landi! A praça ribombou de cima em baixo. Chico olhava aquilo sem acreditar. Ele não podia estar tetraplégico. Não podia. Deus não ia dar a ele este caminho.

                        Um grito enorme na multidão. Um silêncio sepulcral. Chico Landi se esforça e fica em pé. Impossível diziam os médicos que o assistiram. Chico sorria. Cambaleando foi até o altar. O padre Gabriel ajoelhou e gritou – Um milagre! Um milagre! Louvado seja Deus! Um coro de palmas durou bem uns vinte minutos. Sorrisos em profusão. Os seis patrulheiros da Lobo o carregaram dando uma volta pela praça. Chico Landi ria e chamava em alto e bom som – “Monty, Monty”! Eu quero acampar! Eu quero voltar ao campo nesta primavera, eu quero ver as flores no monte Sariel, eu quero beber a água da fonte do roncador. Monty, Oh! Monty. Papai e mamãe estão sorrindo eles não vão dizer não!

                             Eu e Jota Maro um Chefe novato, mas já Insígnia escutávamos aquela história absurda, mas tão bem contada que a gente chorava. Um choro simples de alegria, de saber que o final foi feliz. Chico landi levantou do banquinho de madeira que ele mesmo tinha feito. Eu juro por Deus que é verdade. Eu juro por tudo neste mundo. Chico landi ficou em pé, atrás dele um enorme raio de sol, seria o sol da meia noite. O fogo que estava quase acabando se alastrou. As fagulhas da noite iluminaram aquela clareira onde estávamos. Uma brisa gostosa vindo do norte nos pegou de pronto. Olhei para Jota Maro, ele sorria. Olhamos de novo para Chico Landi, ele olhava para o céu. Uma grande estrela brilhante estava lá. A maior estrela que eu já vira até então. Parecia que ela e ele eram um só.


                                  Paro por aqui. Para muitos seria uma história impossível. Para mim a verdadeira história de um Escoteiro que acreditou. Ele era o protetor da natureza. Viveu sua vida em função dela. Como dizia meu amigo Chico Xavier - Em minhas preces de todo dia, sempre peço coragem e paciência. Coragem para continuar superando as dificuldades do caminho naqueles que não me compreendem. E paciência, para não me entregar ao desânimo diante das minhas fraquezas!... “E guardemos a certeza pelas próprias dificuldades já superadas que não há mal que dure para sempre.”.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

O destino de Lomanto Zarilson Mendes.


Lendas Escoteiras.
O destino de Lomanto Zarilson Mendes.

              Desci da barcaça em Pedra Azul no porto da esperança e o vi na beira do Rio Amarelo. A principio tive dúvidas, mas depois a certeza era única. Era sim, tinha agora certeza absoluta. Ali estava o meu amigo Lomanto Zarilson Mendes. O homem mais procurado do mundo! Mudou muito nestes últimos vinte anos. Mais curtido e com aquele chapéu de palha e sua barba branca ninguém diria que era ele. Enchia a caçamba de uma carroça com as famosas areias brancas do Rio Amarelo. – Ei Lomanto! Gritei. Ele me olhou, pensou e depois viu que era eu – Chefe Osvaldo! Que prazer! Fui até lá. Abraçamo-nos. Quanto tempo eim amigo? – É Chefe, faz tempo. – Mas olhe meu amigo Lomanto, não estou entendendo você aqui neste serviço braçal? – Quer tomar um café comigo? Ele disse. Com a carroça cheia e um descanso, então posso explicar. Lá fomos nós até a Praça de Pedra Azul em um barzinho onde ele tinha amigos e fomos muito bem atendidos.

               Sentamos em uma mesinha embaixo de um Jacarandá enorme, com uma sombra linda e agradável. Uma sombra para ninguém botar defeito naquele dia ensolarado com calor acima dos trinta graus. Olhamos um para o outro. Ele sorria. Um sorriso de alguém que encontrou a felicidade. Mas ele também não era feliz antes? – Minha mente voltou em segundos ao passado em Figueira do Rio Mimoso. Cidade onde nasci e cresci. Lomanto, quem não conheceu Lomanto? A cidade inteira sabia dos seus passos. Aos quatro anos diziam que tinha lido todos os livros da biblioteca. Uma mente privilegiada. No maternal as professoras não sabiam o que fazer com uma inteligência de um adulto doutor. Aos seis o colocaram no Grupo Escolar na oitava série. Não deu certo. Ele estava acima disto. O doutor Pilatos emprestou a ele seus livros de medicina. Era comum vê-los discutindo temas médicos na praça da cidade. O mesmo aconteceu com o Doutor Leimon um grande advogado e o Engenheiro Lamartine.

                 Seus pais nos procuraram no Grupo Escoteiro. Ninguém sabia o que fazer, mas recusar nunca. Os chefes de alcateia quebravam a cuca para moderar seus conhecimentos assim como quando passou para a tropa com oito anos. Errado? Não conheciam Lomanto para dizer isto. Se aos nove o vissem em um acampamento ficariam embasbacados. Lomanto era um mestre em tudo. Suas pioneiras tinham o acabamento dos melhores marceneiros do mundo. Fogões fechados e a vácuo, fornos de barro, escadas giratórias, amarras impossíveis de fazer assim como costuras de arremate que ele inventou com cipós. Aos onze insistiu em ir para os seniores. Com menos de seis meses tudo perdeu a graça para ele. Fez uma grande pesquisa sobre o escotismo. Estudou tudo que era publicado pela direção nacional. Aos quinze foi ao seu primeiro Congresso Nacional. Deixou todos embasbacados. Todos o procuravam para tirar dúvidas. Sabia de cor todas as publicações escoteiras no Brasil e no mundo. Sugeriram fazer dele aos quinze anos o novo Diretor Nacional de Formação de Adultos.

                     Foi uma discussão e tanto quando deram a ele aos dezesseis anos o certificado de DCIM. Foi convidado para palestras no mundo inteiro. No Grupo Escoteiro Manto Sagrado onde eu era o Chefe passei o cargo para ele. Foi bom, eu viajava muito. Convidado para cargos políticos recusou todos. Na cidade romarias de cientistas de todo o mundo era comum. Lomanto nunca cobrou nada de ninguém. Conseguiu um emprego nos Correios e lá recebia seus minguados salários. Jornais, revistas, TVs estavam sempre lá em busca de noticias. Lomanto ficou famoso. A WOSM ou OMME insistiram para ele ser o seu Diretor Geral. Não aceitou. Fazia palestras em vários países a convite e com passagens pagas. Foi agraciado com medalhas de diversas organizações escoteiras mundiais. Mas não ficava só nisto. Laboratórios farmacêuticos, grandes empresas de engenharia, outras de advocacia os procuravam sempre para pedir sugestões ou tirar dúvidas.

                      Todos nós que ficamos amigos dele estávamos preocupados. Isto não podia continuar. Seus cabelos aos dezoito anos estava quase todo branco. Seus olhos vermelhos pareciam não dormir nas últimas semanas. Um dia um helicóptero desceu sem nenhum aviso em Figueira do Rio Mimoso. Era a da Policia Federal. O levaram para Brasília. Ministros queriam falar com ele. Os presidentes do Congresso Nacional o intimaram para uma homenagem. O presidente do Banco Central exigiu sua presença. Queria opinião se subiam ou baixavam os juros. O Presidente da República o homenageou no Palácio da Alvorada. O novo Papa mandou um recado para ele ir a Roma. O pentágono ficou cismado. Nações do mundo inteiro mandavam espiões. Figueira do Rio Mimoso começou a ficar insuportável. Surgiram centenas de hotéis pousadas e campings. Restaurantes internacionais, livrarias e até uma TV se instalou ali. Um dia Lomanto sumiu. Ninguém conseguiu achá-lo. A Policia Federal e a Interpol fizeram tudo para encontrá-lo. Seus pais riam quando perguntavam. - Ele agora resolveu ir morar em um templo budista no Tibet. Quer ser um monge e descansar.

                       Aos poucos foram esquecendo-se de Lomanto. A cidade tomou enorme prejuízo com a estrutura hoteleira e outros que se formaram por causa dele. Quinze anos depois acharam que ele tinha morrido. – Pois é Chefe Osvaldo, dizia ele – Achei melhor assim e olhe hoje sou feliz. Conheci Noêmia, minha companheira com quem tivemos três filhos. Ela coitada nem ler sabe. Mas eu a amo demais. Não a trocaria por nada neste mundo. Fingi para ela ser um iletrado. Precisa ver como ela tenta me explicar às noticias que ouvimos no radio. Mudei de nome. Aqui sou conhecido como Arlindo Landiscap. Ela nunca poderia saber o que eu era. Não esqueci nada e minha mente é a mesma. Aprendi a não pensar mais nisto. Aqui comprei esta carroça e faço carretos o que me dá o sustento que preciso. Levantei e me despedi de Lomanto. O trem da Central do Brasil que me levaria a Santos Dumont partiria dali à uma hora. Se não fosse só no outro dia.

                       Lomanto me pediu que não contasse a ninguém. Segredo de escoteiros. Dei minha palavra escoteira. Ele me conhecia e sabia que podia acreditar. Fui embora pensando o que é a vida. As escolhas que fizemos. Cada um sabe onde o sapato aperta. Lomanto poderia ter tido uma vida de rei. Seria mesmo um vida de rei? Entender suas escolhas só se estivéssemos em seu lugar. Escolheu ser um carroceiro, profissão digna, mas humilde. A maior inteligência de todos os tempos estava ali, apagada em um lar de quatro pessoas. Uma mulher e três filhos. Um lar de privilegiados. Mas quem disse que eu escolho a minha felicidade? Nunca. Você, só você sabe o que fazer para ser feliz. Que Lomanto com seu destino alcance o que quer. Que ele seja feliz para sempre!


Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz.