No mundo dos sonhos com as fábulas escoteiras

No mundo dos sonhos com as fábulas escoteiras
A aventura está apenas começando

segunda-feira, 10 de março de 2014

A lobinha Dorothy e a Cigarra Azul do Lago Dourado. Lá, muito além do arco-íris.


Lendas Escoteiras.
A lobinha Dorothy e a Cigarra Azul do Lago Dourado. Lá, muito além do arco-íris.

                       Era apenas uma cigarra azul. Nunca ninguém ligou para ela. No mês que todas cantavam para arrumar um namorado, ela simplesmente se calava. Gostava de ficar no tronco da frondosa figueira próximo de sua morada no Lago Dourado do Arco-íris. Era o mês das flores, das abelhas procurando mel, dos beija-flores coloridos a procura do néctar para sobreviver. Suas amigas estavam espalhadas pelo bosque, cantando, pois este era o destino de todas. Era como se fosse na Jângal, na época da Embriagues da Primavera, onde todos ficavam contentes, corriam pelos campos sorriam e cantavam. Isto não acontecia com a Cigarra Azul. Não ela. Nunca foi feliz. Não sabia por que todas as cigarras eram cinza esverdeadas e ela azul. Não podia entender. Na brisa fresca da manhã, ouviu uma vozinha doce e suave a lhe dizer – Canta minha linda cigarra. Porque você não canta? A cigarra Azul olhou espantada. Viu uma menina vestida de azul, com um lenço verde e amarelo e um bonezinho azul sorrindo para ela. – Quem é você? Perguntou a Cigarra Azul – Eu? Eu sou a Dorothy, da matilha azul como você. Sou uma lobinha minha amiga Cigarra Azul. Ela ficou a pensar como podia conversar com aquela menininha tão magrinha, com uns olhos fundos e tristes, que mal conseguia ficar de pé.

                    - Eu não posso cantar! Respondeu. Porque não pode? – Porque sou azul e todas são cinza esverdeadas. Sou diferente. Nunca terei uma família. Nunca serei ninguém! Dorothy pediu de novo, desta vez quase chorando: Cigarra Azul cante para mim. Prometo que cantarei com você. Irei aprender a letra e a melodia e ambas cantaremos juntas. A cigarra ficou pensando porque aquela menina insistia tanto para ela cantar. Dorothy então disse a ela – Sabe Cigarra Azul, eu também estou muito triste. Eu tenho uma doença que me acompanha desde que nasci. Meus pulmões sempre me dão falta de ar, tenho dificuldades para respirar e sinto um aperto no peito e tenho tosse. Sou lobinha, mas sou uma lobinha triste. Quero brincar e correr como todo mundo, mas a minha Aquelá não deixa. Diz que não posso ficar no sol, à noite não posso ver o céu, e nem ver o amanhecer do dia, pois não posso também pegar o orvalho que cai. Veja! Ando sempre com esta bombinha. Ela me dá certo alívio.

                     A Cigarra Azul ficou triste mais ainda. Viu que a menina dos olhos cinzentos era mais triste que ela. Resolveu cantar e sorriu para a Dorothy. - Você sabe cantar música Muito alem do arco-íris? Não sei, respondeu Dorothy. Mas cante que vou aprender. A Cigarra Azul tinha uma linda voz. Encantou logo a menina Dorothy. Assim ela começou:
 - Além do arco-íris, pode ser que alguém, veja em meus olhos, o que eu não posso ver. - Além do arco-iris, só eu sei que o amor poderá me dar tudo que eu sonhei...

                   Nesta hora Cigarra Azul parou de cantar. Sentiu que uma pedra atingira suas asinhas. Caiu no chão desmaiada. Dorothy não podia acreditar. Olhou e viu Pedrinho um lobinho com várias pedras na mão. Chorou e gritou com ele – Você matou a Cigarra Azul! Pedrinho ria. A Aquelá veio correndo e viu o que aconteceu. Durante todo o Acantonamento Dorothy chorou. Não se conformava. No dia seguinte após o cerimonial de bandeira, Dorothy deu mais ultima olhada para o tronco da figueira. Sabia que não ia ver nada, não custava olhar. Pedrinho a procurou chorando. Pedindo desculpas, pedindo perdão. Dorothy não sabia o que dizer. Afinal ele matou a Cigarra Azul! E então, surgindo no final do bosque eis que surge ela, a linda Cigarra azul, acompanhada de outra cigarra verde garrafa.

                  A lobinha Dorothy não cabia em si de contente. Ria, e até começou a cantar. A Cigarra Azul sorria. – Dorothy, a cigarra dizia – Este é meu namorado. Ele me socorreu. Levou-me até onde esta o Arco-íris. O homem que mora lá, um velhinho de asas azuis me colocou as asas de volta. Agora estou feliz. A Aquelá chamou todos para embarcar. Dorothy não queria ir. Vá – disse a Cigarra Azul. Volte no ano que vem. Estarei aqui para cantamos e sorrirmos muito. Quando chegou a sua casa, contou tudo para sua mãe e seu pai. Eles sorriram. Viram que ela tinha mudado. Já não usava a “bombinha”. Achavam que Deus lhe deu um presente. A saúde de Dorothy.

                   A noite de domingo seu pai disse que tinha alugado um filme para ela. Um lindo filme que ele tinha assistido quando criança. O Mágico de Óz. Era o filme mais lindo que ela tinha assistido. A menina também se chamava Dorothy e a musica era igualzinha a que a Cigarra Azul cantou para ela:

- Um dia a estrela vai brilhar, e o sonho vai virar realidade.
- E leve o tempo que levar, eu sei que eu encontrarei a felicidade,
- Além do arco-íris, um lugar que eu guardo em segredo e,
Que só eu sei chegar...  
 - Me fez ver que o amor dos meus sonhos tinha de ser você...

                   Todos os anos Dorothy ia sempre acantonar com sua Alcatéia no Lago Dourado. Lá ela encontrava a Cigarra Azul, seu namorado e agora eles tinham quatro filhos, duas lindas Cigarras verde garrafa e duas outras lindas cigarras azuis! Ei! Deixe-me contar. Pedrinho virou ao avesso. Transformou-se no mais disciplinado lobinho da Alcatéia. E assim termina a lenda e quem sabe a real história de Dorothy e a Cigarra Azul que morava lá, no Lago Dourado muito além do Arco-íris. 

quinta-feira, 6 de março de 2014

Uma ponte longe demais.


Lendas escoteiras
Uma ponte longe demais.

    Era uma vez... Uma ponte, simples de madeira com dois vãos, pequena, mas que acalentava os caminheiros que por ali passavam. Dizem que era longe demais, que não ligava a lugar nenhum. Pode até ser. Não era uma ponte qualquer, pois para mim ela tinha vida, ela tinha alma. Cansado de uma longa jornada eu sentei naquela ponte muitas vezes. Gostava de ficar ali, olhando um rio que passava sobre meus pés. Meus olhos acostumaram com aquelas ondas que brincavam de zig zag nas corredeiras que iam para o mar. Nem via o tempo passar, hipnotizado não queria voltar ao meu percurso. A ponte agora me dava vida, queria que eu e ela fossemos um só. Os incrédulos diziam que ela não ia dar a lugar nenhum. Eu sorria quando diziam isto. Uma doce mentira de caminheiros que não viram o brilho daquela ponte. Ela me levava ao Campo da Felicidade.

  Quando surgia a primavera eu corria para chamar meus amigos Escoteiros e eles sorriam como eu quando dizia que íamos acampar no Campo da Felicidade. Todos sabiam que íamos atravessar a ponte, que todos diziam ser longe demais... E diziam que ela não levava a lugar nenhum... Era longe sim, a ponte era longe demais e isto nos fazia voltar sempre... Ver a ponte de madeira rústica, olhar o rio com suas águas brilhantes a correrem para o mar... Na várzea das Borboletas azuis, em uma pequena trilha cheia de flores silvestres, avistávamos a ponte. A ponte que diziam ser longe demais... A ponte que não levava a lugar nenhum... Mas no levava ao Campo da Felicidade.

       Um dia, um dia que nunca esquecerei, um dia que ficou marcado em meu coração para sempre, a ponte não estava lá... A ponte que nos levava ao Campo da Felicidade tinha partido... A ponte longe demais agora não mais existia. A ponte que não levava a lugar nenhum agora era uma réstia de uma lembrança de um passado que se foi... Ficamos ali, cabisbaixos, deixando o sol nos queimar, nossas mochilas às costas pesando e nossa preocupação era uma só. A ponte longe demais partiu sem dizer adeus... Não era um empecilho para atravessar o rio, o rio que serpenteava suas águas e corria para o mar. A ponte que diziam não ligar a lugar nenhum agora era uma sombra, um arremedo de sonhos, uma alegoria de um carnaval que passou.

   Nunca mais voltamos ao Campo da Felicidade. Ele e ela, a ponte longe demais se completavam. Um não tinha serventia sem o outro. Algumas vezes volto meu pensamento no tempo que já se foi. Lembro daquela ponte, uma ponte longe demais... Uma ponte que não ligava a lugar nenhum, mas sem ela nunca poderíamos acampar no Campo da Felicidade. Não choro lágrimas doídas, não verto águas que os olhos deixam cair... Meu coração bate forte quando em minha mente eu vejo a ponte, a ponte longe demais... A ponte que diziam não levar a lugar nenhum. Vejo-me sentado, olhando o rio que serpentava naqueles campos que seguia seu rumo para o mar. Sei que não terei mais aquela visão que me marcou profundamente. Mas enquanto ela existiu me trouxe a beleza da vida, o sonho da natureza, me ligou de um ponto ao outro mesmo dizendo que ela era longe demais... Que não ligava a lugar nenhum!

A Ponte e a Cerca...

Na vida... Podemos escolher entre ser ponte... Que une uma margem à outra de um rio. Ou ser uma cerca... Que separa um território de outro. Se compararmos... Podemos perceber que se formos ponte... Iremos unir todas as coisas... Que por algum motivo nesta vida... Vivem separados.

Se formos cerca... Estaremos dividindo... Marcando espaço... Quando poderíamos formar elos... Entre mundos em duelos.

Como ponte... Podemos aumentar amizades... Fazer elos entre comunidades... Amar com mais intensidade... Juntar forças entre dois extremos em inimizades.

Como cerca... Aumentamos divisões... Isolamentos... Deixamos a vida mais solitária...
Esquecemos de ser humanitários... Quando poderíamos nos unir a quem necessita...
De alguém mais solidário.

Sejamos ponte na comunidade... Ponte em nossa família...
Ponte da fraternidade... Semeando amor em grande quantia.

Sejamos PONTE... Derrubemos CERCAS...
Seremos de companheirismo uma fonte...
Para que muita alma não se perca.
Marilene Mees Pretti.


Boa noite meus amigos e minhas amigas, que uma ponte possa me ligar ao coração de todos vocês! Uma ponte que não seja longe demais! 

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

A Árvore da Montanha. (Um tributo à canção símbolo dos escoteiros do Brasil)


Lendas escoteiras.
A Árvore da Montanha.
(Um tributo à canção símbolo dos escoteiros do Brasil)

¶ A árvore da montanha
Ole-li aio...

        Não se mede o tempo. O tempo não pode ser medido. O tempo eu o trago comigo presente nas minhas lembranças como se fosse ontem, tudo está ali na minha frente como se estivesse gravado em minha mente em um filme que nunca esquecerei. Tanto tempo se passou? Alguns dizem que sim, mas para mim cada história do meu passado se torna presente quando eu começo a lembrar. Foi em um acampamento na Chapada dos Lagos Negros. Naquela estradinha de terra a carretinha não tinha o barulho peculiar das rodas na engrenagem. Nas retas dois bastavam para empurrar e nas subidas todos colaboravam. Moleque o intendente sabia do seu ofício. Ganhou do Seu Toledo do Posto de Gasolina um galão de graxa. Das boas. Sei que ela durou anos. Todo mês Moleque lavava a carretinha e lubrificava. Fazia isto com um carinho enorme. A carretinha era como se fosse sua vida. Grande sujeito o Moleque.

¶ Esta árvore tinha um galho O que galho, belo galho.
Ai, ai, ai que amor de galho. E o galho da árvore...

        A jornada era para todos os sete patrulheiros uma diversão. O acampamento nós sabíamos que deixaria saudades. Duas coisas chamavam a nossa atenção quando acampávamos na Chapada dos Lagos Negros. Logo depois da Curva do Lobo Cinzento avistaríamos o Sitio do Seu Modesto. Gente boa, grande amigo. Gostava da gente como se fossemos seus filhos. Tinha dois e eles cresceram, mudaram para a capital e o deixaram sozinho. Dona Salete morrera há muitos anos e ele fazia de tudo não só para os filhos como para os amigos que lhe davam a gratidão de uma visita. Ele não estava na varanda, mas ela lá estava imponente, enorme mais de seis metros, há mais linda Porteira que tinha visto. Dava um ar clássico e acolhedor às paisagens do campo. Entre as duas sebes os mourões de madeira de lei se sobressaiam. Quem a fez era um artista. Ela era verde, uma verde oliva que se sobressaia na entrada do sitio. Corremos até ela, tiramos as mochilas e sem avisar ao Seu Modesto encarapitamos em cima dela no primeiro vão entre uma taboa e outra. Um de nós empurrava até o barranco, dava seu pulo certeiro e lá ia ela correndo ao vão do outro lado com aqueles sete Escoteiros sorrindo e com um cantar que nunca esquecemos.

¶ A arvore da montanha
Ole-li aio...

      O barulho que ela fazia era uma melodia doce e suave para nossa audição de Escoteiros mateiros. Na varanda Seu Modesto chegava e nos cumprimentava. Querem almoçar? – Grato Seu Modesto, temos de partir, queremos chegar até às duas da tarde! E despedindo dele e da porteira partíamos. Agora era o Morro da Saudade. Quase dois quilômetros de subida. Todos em volta da carretinha empurrando. Sabíamos que logo após a Curva da Nascente ela estaria lá, imponente, a desafiar a natureza com sua arrogância de uma altura e copa sem igual. A Castanheira se destacava sozinha naqueles pastos verdejantes. Única a desfilar pelas terras dos sonhos.  Ela com sua magnífica pose reinava sozinha. Era hora de encher os cantis na nascente e molhar o rosto, tirar os sapatos e sentir a água fria nos pés. Uma delicia incomparável! Depois um descanso embaixo dela, descanso que muitas vezes ficamos até o raiar do outro dia. A Castanheira nos fazia sonhar, uma Árvore na Montanha que chegava aos céus.

¶ Este galho tinha um broto Ó que broto, belo broto.
Ai, ai, ai que amor de broto. E o broto do galho E o galho da árvore.

          Nossas mochilas nossos travesseiros saudosos nos fazia sonhar ali embaixo daquele sombreiro maravilhoso. A Árvore da Montanha parecia sorrir. Desta vez não ficaríamos muito tempo. Hora de partir, podia chover ou escurecer e precisávamos chegar. Partimos. Sempre olhando para trás como a dizer a Castanheira que não era mais que um até logo, não era mais que um breve adeus. A volta já estava marcada. No topo da serra onde a Árvore da Montanha reinava avistamos a Chapada dos Lagos Negros. Dois lagos pequenos com um grande bosque em volta. Quantas vezes fomos ali? Nem lembro mais. Eu só lembrava da Montanha onde tinha uma Árvore.

¶ A arvore da montanha
Ole-li aio (bis)...

           Sonhos não morrem jamais, sonhos vividos são lembranças firmes na mente que dificilmente deixaremos fugir com alguma outra recordação que não queremos perder. Acampamentos? Foram tantos! Todos marcados no livro da vida. Os campos que nos receberam sorrindo, as selvas que se apaixonaram por nós, os vales que se deleitavam com nossas presenças. Uma noite, duas um punhado. Sem novidades no Front. Ali na Chapada dos Lagos Negros nos divertíamos em um acampamento gostoso, um vento sul com brisas frescas, sem chuvas, lagos a pedirem que banhássemos em suas águas cristalinas. Foi no penúltimo dia quando a noite chegou fizemos um fogo estrela no centro do campo de patrulha, Escoteiros sorrindo, uma conversa ao pé do fogo, canções indo e vindo e ao cantarmos a Árvore da Montanha veio à lembrança. Olhamos uns para os outros. Não havia o que discutir. Iriamos partir um dia antes.

¶Este broto tinha uma folha. E esta folha tinha um ninho.
E este ninho tinha um ovo.

            O acampamento estava supimpa, gostoso, mas não sei por que nos deu uma saudade enorme da Árvore da Montanha. Partimos à tardinha. Lá estava ela, pomposa, imponente como a nos dizer – Sabia que viriam! Montamos rancho ali, um jantar delicioso, um fogo quadrante sem fumaça para não machucar a Castanheira. A noite chegou. Não tinha problemas... Sete Escoteiros ali sob a Árvore iriam tê-la junto às estrelas cintilantes como sua barraca, dormir e sonhar com a vida escoteira. A Árvore da Montanha estava feliz. E ela junto aquelas sete almas nobres também dormiu. Era como se estivessem abraçados. Tornaram-se um só. Brancas nuvens no céu sorriram. A estrela Dalva apareceu como se fosse um anjo para olhar aqueles heróis e aquela Árvore centenária que abrigou para sempre todos os Escoteiros do Brasil. Da árvore do silêncio pende seu fruto, a paz.

¶ E este ovo tinha uma ave. E esta ave tinha uma pluma. E esta pluma tinha um índio.
¶ E este índio tinha um arco. E este arco tinha uma flecha. Esta flecha foi na árvore ó que árvore, bela árvore. ¶ Ai, ai, ai que amor de árvore.
E a árvore da montanha
Olé-li-aio (bis).



quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Carta de um Escoteiro 2° classe.


Carta de um Escoteiro 2° classe.
(Conto de autoria do "Chefe" Escoteiro Sergio Augusto Vanti)

Nada jamais continua. Tudo vai recomeçar! E sem nenhuma lembrança das outras vezes perdidas, atiro à rosa do sonho nas tuas mãos distraídas.

Querido papai

Andava eu pelas ruas como faço habitualmente buscando algum biscate que me permitisse beber um gole a mais... Tu sabes como sou. Deparei-me com a sede de meu velho grupo Escoteiro. A porta estava aberta, entrei tudo abandonado, cheirando a velho e mofo. Senti como um baque, um murro no peito a dor no coração. Vi-me menino em meio aos bons camaradas da patrulha, a formatura, os gritos de tropa, os jogos... Súbito alguém me chama pelo nome, me viro olho quem me chama. Surpreso, meio envergonhado vejo que é Mauro, meu antigo monitor.

      José és tu mesmo? Mas quantos anos, que fazes aqui? Um estrondoso silêncio é minha única resposta. Chega! É demais, viro as costas saio correndo o passado me afoga em meio a doces e dolorosas lembranças.

      Papai tu lembras quando eu era um menino, levaste a mim e meu irmão ao grupo escoteiro, pela primeira vez? Lembra que me contavas como sonharas em ser escoteiro e tua pobreza nada te permitia senão estudar e ajudar em casa? A tua alegria quando teus dois amados filhos te disseram “Sempre Alerta”? Eu me lembro de papai, isto eu não esqueci. Lembro-me da fé que tinhas no escotismo e dizias sorridente: - O velho BP sabia das coisas, “Os escoteiros podem guiar a nação”.

      Lembro-me do teu orgulho, não cabias em ti de felicidade no dia de nossa Promessa. Meu coração saindo pela boca, à seriedade de meu irmão, eu dizendo “Prometo por minha honra cumprir os deveres para com Deus, a minha Pátria e o próximo... Lembro, pai, naquele dia te vi chorar, quando me pusestes o chapelão. Só tinha te visto chorar uma vez, quando mamãe faleceu”.

      Corro para minha casa imunda, bato a porta, não consigo parar de chorar. Pai, a muito não cumpro minha promessa feita a Deus, a Pátria e a ti. Lembro-me do dia em que te falei: - Vou deixar a Tropa Sênior. Tu me perguntaste, por que meu filho? Até hoje não sei, pai. Do dia em que te disse: - Não vou estudar mais; Do dia em que saí de casa.

Voltei para te ver quando quase já não estavas aqui e partiste com tua mão entre as minhas, um sorriso no rosto cansado, dizendo, Sempre alerta, querido. Como pude como pude ser tão mau filho, tão pouco escoteiro? Tiro debaixo da cama uma velha mala com as poucas coisas que não vendi. Roupas, fotos amareladas, uma faca, lembrança da segunda classe, e meu uniforme cáqui, meu querido uniforme que eu desonrei os distintivos, o numeral.

      Lembras papai, com que felicidade nos entregou as custosas fardas, que no dia a dia de homem simples economizaste para mandar fazê-las?
Querias ver teus filhos, garbosos escoteiros. Estendida sobre a cama, encharcada de um pranto incontrolável, tento sentir as pontas de teus dedos no pano que muitas vezes tocaste, muitas vezes abraçaste com tanto carinho ao final de cada reunião.

      Pai, como errei tanto? Serei passível de perdão?

 Olho para o puído distintivo de Promessa sinto a dor abrasar meu coração. Devo estar ficando louco. Como uma adaga perfurando um corpo sedento de redenção... Sinto-te soprar em meu ouvido: Filho, sempre é tempo de cumprir nossa promessa!

Alucinado arrependido em doloroso despertar, entre soluços jogo-me de joelhos ao sujo piso, ergo a voz com o fervor de uma oração. Neste momento abençoado, eu renovo minha promessa, redimir-me hei de minhas faltas, deixarei esta maldita vida, cumprirei os meus deveres!

Por ti, meu amado pai, pelo escotismo, pelo Brasil!
 Palavra de escoteiro!
Sempre alerta, querido papai.
Teu sempre, José.


Chega uma época em que nos damos conta de que tudo o que fazemos se transformará em lembrança um dia. É a maturidade. Para alcançá-la, é preciso justamente já ter lembranças.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Os amores de Laureano, o Pioneiro do Rei.


Lendas Escoteiras.
Os amores de Laureano, o Pioneiro do Rei.

                  Laureano estava perdendo o estímulo para continuar no Clã Pioneiro. Os demais amigos ali eram entusiastas e as reuniões eram bem frequentadas. Laureano já tinha pensado em sair. Só um motivo o mantinha ainda no Clã. Rosália. Isto mesmo. Ele se apaixonou por Rosália. Uma paixão incrível, mas Rosália gostava de Almir. Laureano ia às reuniões e a via ao lado dele, muitas vezes de mãos dadas e olhares lânguidos, amorosos e todos sabiam que dia menos dia eles iriam se casar. Laureano devia saber que o caminho que escolheu não foi o certo. Tentou uma vez ficar sem participar por um mês. Quem sabe poderia esquecer-se dela? Impossível. Uma sede terrível abatia todos os dias seu pensamento. Sede de vê-la, olhar seu sorriso, sentir seus olhos nos seus. Amainar a dor terrível que jazia no fundo do seu coração. O pior de tudo era que Almir era um grande Pioneiro. A caminho de sua Insígnia de BP era um exemplo para todos. Sem ser mandão era um líder que sabia ser liderado. Em todos os programas que o Clã programava ele dava suas sugestões, mas aceitava de bom grado o que a maioria decidisse. Um concorrente no amor impossível de se derrotar.

                  Naquela sexta chegando à sede Escoteira viu o carro dela se aproximando. Quando parou notou dois jovens estranhos e sem perceber entraram no carro ordenando que seguisse em frente. Era um sequestro sem sombra de dúvida. Laureano ficou sem ação, pois foi tudo muito rápido. Nem mesmo os rostos dos bandidos ele viu direito. Gritou chamando os demais que já haviam chegado à sede. Um deles o Bertinho tinha um fusca e chamou Laureano para tentar encontrar o carro de Rosália. Gritou para os demais para avisar a policia. Bertinho era amigo de Laureano desde os tempos de tropa Escoteira. Aprontaram poucas e boas na Patrulha Touro. Virando uma esquina avistaram o carro de Rosália. Parado em frente um caixa vinte e quatro horas. Um sequestro relâmpago só podia ser. Bertinho parou o carro bem atrás dos bandidos. Um erro. Nunca devia ter feito isto. O certo era ir em frente e chamar a polícia. Mas Laureano não pensou duas vezes, correu até o carro de Rosália e tentou forçar a porta para retirá-la dali. Dois tiros. Um no peito e outro no pescoço. Laureano caiu. Jogaram Rosália pela porta.

                  Laureano ficou em coma quatro meses. Todo o dia lá estava Rosália ao seu lado. O Clã sempre que podia estava também presente. Quando acordou do coma o primeiro rosto que viu foi o de Rosália. Pensou que ela o amava e falando baixinho disse a ela tudo que sentia. Rosália já fazia uma ideia do amor de Laureano. Mas ela amava Almir. Teria que ser sincera. Explicou a Laureano tudo que sentia por ele. Nada mais que uma grande amizade. Laureano fechou os olhos. Preferia ter continuando naquele sono profundo, onde nada via a não ser uma nevoa ao seu redor. Lembrou-se da mulher de branco, do homem das barbas brancas que nada diziam e só sorriam. Quando abriu os olhos ela se fora. Sua mãe e seu pai estavam ali sorrindo para ele. A noite recebeu a visita de Almir. Que grande Pioneiro ele era. Foi franco. Explicou que amava Rosália. Na sua sinceridade o ódio de Laureano se transformava em amor. A escolha era de Rosália dizia, ou ele ou eu. Para ele não importava. Amava Rosália, mas devia saber perder. Não se ganha todas as batalhas.

                    Um ano depois Laureano já de alta pensava se devia voltar ou não ao Clã Pioneiro. Desde que saíra do hospital praticamente se escondeu de todos. Não respondia aos telefonemas, os recados, nada. Achou que estava esquecendo Rosália. Seu coração já não batia tanto. Uma tarde foi fazer uma inscrição para o vestibular. Já tinha feito pela internet agora era fazer o depósito. Ao sair do banco, deu de cara com ela. Foi uma surpresa. Como estava linda! Ela sempre foi à mulher mais bonita que tinha conhecido. Ela sorriu para ele. Caminhou até onde ele estava.  Ela deu para ele aquele sorriso encantador que fazia disparar seu coração. Cinco homens armados anunciaram o assalto. O vigilante reagiu. Uma troca de tiros. Ele pulou em cima de Rosália. Jogou-a ao chão. Fez de suas costas um escudo para ela. Desta vez não houve coma. Não houve volta. Laureano morreu ali com varias balas no corpo.

                     O cemitério da Saudade nunca viu tantos pioneiros e escoteiros juntos. Até de cidades distantes havia representantes. Nunca se viu tantos pioneiros cantando com emoção a Canção do Clã. Era como se Laureano fosse morar naquela montanha, bem perto do céu, onde existia uma lagoa azul. Nunca se viu tantos pioneiros chorando. A emoção tomou conta de todos. Não se sabe de onde, mas um clarim se ouviu. O toque do silêncio se espalhou pelos campos e montanhas onde um dia Laureano acampou. Alguém “acarapinhado” em uma arvore próxima começou a cantar a canção do adeus e todos acompanhavam. Morreu Laureano. Ele estava marcado para morrer. Ele tinha de passar por isto. Na primeira vez escapou, mas na segunda seria impossível. Outras vidas ele teria e se encontraria de novo com Rosália. Também com Almir. Estava escrito nas estrelas. Os amores de Laureano, um rei sem paixão que não perdoava ninguém, a morte encomendada. São coisas do passado. Lá na última morada de Laureano um casal, ela de branco ele com suas barbas brancas deram a mãos a ele e se foram. Uma nuvem os levou para o céu!     









domingo, 23 de fevereiro de 2014

Os heróis não tem idade.


Lendas escoteiras.
Os heróis não tem idade.

          Mariel não sabia mais o que fazer. Tentou de tudo e nunca foi sequer ouvida pelos seus pais. Mariel tinha um sonho, dizem que meninas de sete anos não sonham, mas não é verdade. Podia até ser um sonho novo que substituiu a boneca ModelMuse 2013. Seus pais diziam que era muito cara e ela estava crescendo muito depressa. – O que você quer de Papai Noel perguntou seu pai. Ela abaixou a cabeça e disse – Quero ser escoteira! Ela já sabia a resposta. Desde o dia que pediu para participar que seu pai foi contra. Sua mãe também. – Nem pensar, diziam. – Não vou deixar você ir para o mato, dormir na barraca, pode aparecer uma cobra ou um bicho qualquer. E se forem para longe? Não sabe que sumiu um Escoteiro no Pico do Roncador e até hoje ele não apareceu? – Agora eles perguntavam o que ela queria de natal pensando que mudou de ideia. Nunca há deixariam entrar naquela turma. Eles eram esquisitos, vestiam um uniforme e se achavam os tais. Ninguém sabia, mas o Pai de Mariel quando jovem queria ser um e não foi. Motivos? Ele nunca contou.

         Mariel em seu pequeno computador leu sobre tudo o que era os Escoteiros, o que eles faziam, leu as histórias dos acampamentos, aprendeu as provas e se ela entrasse hoje já sabia de tudo. Havia meses que ela insistia com seus pais e eles sempre negando. Chegaram ao ponto de dizer que se ela falasse mais no assunto eles a poriam de castigo. Sua mãe foi mais amiga, explicou para ela que ela era nova, eles não conheciam os responsáveis e se alguém a raptasse? Afinal eles moravam em um bairro nobre, seu pai era Presidente de uma Grande Empresa e ela seria presa fácil para sequestradores. Dizer para sua mãe que havia outras crianças iguais a ela não adiantava. Ela sempre dizia que os pais delas eram irresponsáveis.

        Uma tarde de sábado sua mãe foi com seu pai ao Mercado fazer compras. Dona Nana a cozinheira ficou responsável por ela. Mariel não perdeu tempo. Que seja o que Deus quiser pensou. Sei que é errado e estou desobedecendo meus pais, mas tenho que ir - pensou. Se pelo menos eu pudesse ver o que eles estavam fazendo já seria uma alegria para mim. Pé ante pé abriu a porta da Mansão e passou sorrateiramente pela portaria do Condomínio. Sabia que não era perto. Ficava a duas quadras do seu colégio. Foram mais de uma hora a pé. Ela não sabia pegar ônibus. Não foi fácil. Com seus sete anos ela era uma menina frágil. Seus pais não deixavam nem ela participar de atividades recreativas mais pesadas no colégio. Chegou ao Grupo Escoteiro bem na hora que estavam hasteando a bandeira. Ela ficou de longe olhando. Que belo espetáculo! Seus olhos se encheram de lagrimas. Era bonito demais. E os lobinhos e lobinhas correndo para formar? Que ordem, que disciplina. Ela já sabia que iriam fazer do Grande Uivo. Quem dera eu fosse uma delas. Sei tudo de cor! Disse.

         Esqueceu-se das horas. Quando viu estava escurecendo. Ficou olhando para eles até o final. Correu rua fora e quase foi atropelada. Chegou a sua casa já noite escura. Na porta carros de policia e de parentes. Entrou pelos fundos. – Quem foi papai? Ela perguntou. – Meu Deus! Você está aqui. A mãe e o pai correram para abraçá-la. Eles choravam de emoção. Pensavam que tinha sido raptada. Mariel sabia que o lobinho diz sempre a verdade e contou tudo para eles. Contou com lágrimas nos olhos. Sabia que o castigo viria. E veio mesmo. Mais de dois meses sem computador e sem TV. Mariel não se incomodou. Sim ficou chateada por ter feito tudo sem avisar, mas sabia que nunca eles deixariam ir. Todos os meses do castigo ela não parava de lembrar-se do que viu e sentiu. Ah! Se fosse verdade e eu fosse um deles sonhava.

          Paolo, Billy e Eddy Mário iam para a reunião dos seniores. Todos eles antigos no grupo. Foram lobinhos e agora estavam se preparando para conseguir o Escoteiro da Pátria. Eram amigos desde a Tropa Escoteira. Uma amizade que perdurou por anos. Pararam no farol na esquina da Rua dos Tamoios com a Avenida Campos Gerais. Esperaram o farol abrir. Era um local perigoso e já ouve muitas batidas. Da avenida viram quando um Audi em disparada não obedeceu ao sinal e avançou a toda velocidade. Da Rua dos Tamoios um Utilitário azul da Toyota em velocidade normal viu o farol aberto e entrou. A batida foi forte. Uma verdadeira explosão. O Audi ficou completamente destruído. O Toyota rodopiou sobre si mesmo e quando parou uma pequena explosão no motor. O fogo começou. Não havia o que discutir e nem pensar. Os três correram para o Toyota que pegava fogo. O Audi não estava em chamas. Paolo com se bastão quebrou o vidro da porta do motorista e tentou tirá-lo. Não conseguiu.

            Nada é impossível para escoteiros. Eles não deixariam o homem morrer. Alguém gritou da calçada que o Toyota ia explodir. Corram daí se querem viver! Gritaram. Billy pegou o bastão e foi para a outra porta. Quebrou o vidro e passou por ele, pois a porta estava emperrada. Cortou o cinto que estava preso com sua faca. Paolo e Eddy do outro lado arrastaram o homem para fora. O fogo aumentou. Billy sentiu seu uniforme pegando fogo. Pulou para fora do carro e se jogou ao chão rolando de um lado para outro. Conseguiu apagar, mas seu corpo teve diversas queimaduras. Graças a Deus ninguém morreu. O socorro chegou em seguida. O homem da Toyota estava desmaiado. No hospital Billy ficou internado por três semanas e saiu direto para a reunião de tropa. Sentia uma falta tremenda. Nunca faltou. Que chovesse canivete, mas ele estava lá na sua Patrulha Pico da Neblina.

          Quando Billy chegou uma salva de palmas e todos correram para abraça-lo e ele dizendo que não. As queimaduras não haviam sarado ainda. Aceitou aperto de mão, mas fez questão de dizer que ele e os amigos fizeram o que era certo. Todos eles a sua maneira agiram como Escoteiros. A formatura estava em andamento. Billy tomou seu lugar na patrulha. Notou que chegaram um homem, uma mulher e uma menina pequena e frágil. Eles tomaram lugar na bandeira. Após a cerimonia o homem pediu a palavra. Ele era a vitima do Toyota. Ele chorava. Quase não conseguia falar. Ainda não conseguia andar direito, pois sofrera uma fratura no braço e na perna. Foi até onde Billy, Paolo e Eddy estavam e lhes deu um grande abraço. – Nunca vou me esquecer de vocês! Ele disse chorando. Eu pensava que Escoteiros eram uma turma de arruaceiros, de jovens sem ter uma forma de vida e me enganei. Por anos neguei que minha filha fosse uma, pois ela sempre o desejou.


          Mariel mudou. Agora era um lobinha alegre e cheia de vida. Como era bom saber que seus pais também ajudavam o Grupo Escoteiro. Mariel no final do primeiro dia de reunião se ajoelhou quando os lobinhos e lobinhas faziam o Grande Uivo e mesmo sabendo que ela só iria participar depois da promessa, Mariel rezou. – Obrigado meu Deus! Consegui! Meu sonho se concretizou. – Todos olharam para ela espantados. Ela levantou, sorriu e gritou bem alto – “Melhor Possível”! Agora sou uma lobinha, e prometo a mim mesma que serei escoteira por toda a vida.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

O Caminho para o Sucesso.


Crônicas escoteiras.
O Caminho para o Sucesso.

           Lenin tinha oito anos. Um menino triste e como lobinho não sorria. Estava ali sempre nas reuniões de Alcateia porque sua mãe sempre o levava. Se dependesse dele não voltaria mais. Quando entrou pensou que era o que disseram para ele, mas se enganou. Não ia negar que fez vários amigos e que aprendeu algumas coisas. Quase nenhuma tinham significado para ele. Os chefes exigiam muito e sempre chamando a atenção. Ele preferiria sua professora. Ela pelo menos lhe dava os parabéns quando ele tirava uma nota mais alta. Sua matilha cinza parecia estar sempre cansada e desanimada. Ninguém corria ninguém se interessava. Diversas vezes falou com sua mãe que gostaria de sair. Não estava sentindo nada e nem gostando das reuniões. Sua mãe insistia. Disseram para ela que o escotismo era uma fonte de sabedoria, onde o menino aprende muitas coisas. Insistia para ele continuar. Obediente Lenin continuou.

             Corina ia para as reuniões sem nenhuma motivação. Porque deu sua palavra ao Chefe Jaildes antes de morrer, ainda continuava. Mas por quê? Afinal ela não gostava de seus lobinhos? Podia até ser. No entanto a cada dia mais e mais ela estava desanimada. Até que quando entrou pensou que seria diferente. Nos primeiros meses foi ótimo, mas o tempo foi passando e ela não encontrou o que queria como Chefe de lobos. Mas afinal de conta o que ela queria? O que pensava? Tinha inteira liberdade e nunca foi questionada na Alcateia. Acostumou a ver os minguados lobos e lobas presentes. Eram seis meninos e oito meninas. Dificilmente os 14 estavam presentes. Sempre tinha três ou quatro faltas.  Ela lembrava no passado quando a alcateia chegou a ter 26 meninos e meninas. Foram saindo um por um. Chegou a ter quatro assistentes, mas todos a deixaram na mão. Ninguém quer sacrificar. Só querem “moleza” ela pensava. Ela nunca olhou para dentro de si.

               Marco Polo estava desiludido. Dois anos de lobo e mais dois de Escoteiro pensava o que estava fazendo ali. Devia ter saído. E porque não saiu? Achava que foi porque sempre acreditou que tudo ia mudar. Um ou dois acampamentos por ano, o Chefe levava todo mundo e lá tinha lobos, Escoteiros e seniores. Seniores? Um dia pensou em ser um deles. Agora com treze anos dizia para si próprio que não ia chegar lá. Não via eles fazerem nada. Eram quatro dois rapazes e duas moças. De vez em quando davam um grito de guerra que ser sênior é bacana, que o sênior é o tal, que o senhor desconhece as dificuldades e por aí eles gritavam como se estivessem com sono ou quase dormindo. Chegou a comentar com Rildo da sua patrulha que ia desistir. Nunca falaria com o Chefe Benevides. Ele sabia que ia ouvir o que não queria. O chamaria de fracote e que ali na tropa era lugar para homens de coragem.

              Chefe Benevides era daquele tipo bonachão, sempre risonho. Era caixa de banco e nunca mandou em ninguém. Quando lhe convidaram para a chefia ele pensou que iria gostar. Até que não era ruim. Ver a turma esticada e correndo ao ouvir o apito lhe dava prazer. Mas ele gostava mais era de cursos. Lá todos da sua idade e ele podiam mostrar que era um grande Escoteiro. Adorava fazer amigos, discutia com qualquer um as vantagens do escotismo. Era bem quisto por muitos chefes que o conheceram. Mas sua tropa fazia pena. Insistia em ter quatro patrulhas mistas, mas até a Lobo que sempre a presença era boa estava agora diminuindo. Eram quatro meninos e oito meninas. Nunca a tropa cresceu e ele acostumou em ver patrulhas com dois ou três jovens. E dai? Ele gritava para todos. Aqui é lugar para quem tem fibra, afinal nem todos nasceram para ser Escoteiros. Quem faltar vai para a rua!

            Chefe Galdino tinha 63 anos. Mais de vinte e cinco de escotismo. Julgava-se o tal. Era o diretor Técnico. Mandava em tudo. Determinava o que fazer a cada um. Quando se aproximava um pai ou um interessado em ajudar ele ficava igual ao galo de briga. Bem vindo! Mas quero lealdade, meu grupo só tem amigos. Temos uma disciplina e não saímos dela por nada. Eu serei seu assessor pessoal e vou lhe ensinar tudo. Infelizmente o voluntário quando era encaminhado para uma das sessões desistia logo. Era só conversa atravessada e ele sentia que ali não era seu lugar. Na Alcateia a filha da Akelá fazia o que lhe desse na telha. Seu uniforme cheio de distintivos. Via que ela não gostava de dividir tarefas e nem pedir sugestões. Chefe Galdino sabia que ali era seu terreiro. Ele o galo mandava. O Distrital o admirava. Quando comparecia em reuniões do distrito e da região era festejado como um grande Chefe e dos mais antigos. Ganhou três medalhas. Se ele mereceu ninguém perguntou.

                Jofre sempre quis ser Escoteiro. Jofre não tinha família. Foi criado por uma amiga de sua mãe que sumiu no mundo. Jofre adorava Dona Lena. Estudou muito e se formou como Engenheiro de minas. Viajava muito e foi eleito para ser o Diretor/Presidente da empresa que trabalhava. Agora como executivo ele viajava pouco. Procurou o grupo Escoteiro perto de sua casa. Uma recepção fria, não era o que e esperava. Jofre era um homem instruído apesar dos seus vinte e seis anos. Conhecia bem sobre relações humanas e sentiu que naquele grupo isto não existia. Nem na área militar poderia ser visto o que viu. Jofre não desistiu. Chefe Galdino o olhou enviesado. Via ali um inimigo, mas não aceitar? Deixa-o comigo pensou. Como seu assessor pessoal eu o coloco no lugar ou ele sai daqui com o rabo entre as pernas! Sempre foi assim.

              Jofre não era homem de fugir. Desafios para ele eram como doce de leite que ele sempre comia com prazer. Comprou uma verdadeira biblioteca escoteira. Lia em suas horas vagas e mesmo não concordando com as normas do Regimento Interno ele fez dele seu amigo de cabeceira. Esperou pacientemente o dia da Assembleia de Grupo. Como não viu nenhum comunicado interpelou o Chefe Galdino. – Não fazemos sempre. Mas este ano é de eleição e vai ter. Jofre sabia que ele era o dono de tudo. Nas sessões os chefes também não abriam mão. Não davam valor aos assistentes. Não havia reuniões de Chefes de Grupo. A tropa definhava e a Alcateia também. Conversou com alguns pais insatisfeitos. Montou as claras uma diretoria. Um susto para o Chefe Galdino. Nas assembleias sempre comparecia um numero mínimo. Poucos pais compareciam. Naquela assembleia ele se assustou mesmo. Nunca viu tanta gente. A diretoria do Chefe Jofre foi eleita com folga de votos.

              Chefe Galdino chorava num canto. Chefe Jofre foi até ele e lhe deu a mão. – Preciso de você, você é importante no grupo. Um abraço sincero e Chefe Galdino de olho aberto aceitou continuar. O grupo cresceu. Em dois anos já estava com um efetivo de mais de oitenta membros. A chefia cresceu. A Akelá Corina não aceitou a nova liderança. Chefe Benevides não quis perder seu status. Lenin hoje é Escoteiro e vibra com sua patrulha e sua tropa. Marco Polo é sênior e adora dar o grito de guerra com eles. Tudo mudou da água para o vinho. Chefe Jofre era um democrata. Nada fazia sem consultar a todos. As reuniões de chefia passaram a ser toda primeira sexta feira do mês. A frequência do grupo aumentou. No ano anterior só seis jovens entre oitenta existentes saíram do grupo. O distrito a princípio ficou de olho. Afinal o distrital também era daqueles que não passavam o bastão a ninguém. O mesmo na Região.
       

Já dizia Zíbia Gasparetto que a vida nunca pune. Ela ensina do seu jeito. Sinaliza de diversas formas, tenta advertir as pessoas provocando situações nas quais ela pode perceber a verdade, mas para os resistentes, que se acomodam e não querer mudar, ela permite que colham os resultados de seus enganos para que aprendam o que já estão maduros para saber. A verdadeira família é aquela unida pelo espirito e não pelo sangue. Aquele grupo hoje se orgulha em ser uma grande família. Escotismo é assim, ser franco sem ser egoísta, mesmo a contragosto tentar o máximo aceitar as pessoas como são, mas orientando quanto ao melhor caminho. Fim.