No mundo dos sonhos com as fábulas escoteiras

No mundo dos sonhos com as fábulas escoteiras
A aventura está apenas começando

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

O pequeno Jor-el, o menino Escoteiro que veio das estrelas.



Lendas escoteiras.
O pequeno Jor-el, o menino Escoteiro que veio das estrelas.

          Sabe Chefe, eu o vi pela primeira vez em uma tarde chuvosa, estávamos em atividade no salão da sede, e ele praticamente apareceu do nada e se plantou em um canto. Ninguém notou acho que só eu. Estávamos em um jogo que chamavam de pescaria e por lerdeza ou por ver aquele menino ali plantado fui pescado. O senhor conhece o jogo. Dormiu, o cachimbo caiu. Mas tudo bem me aproveitei enquanto estava fora do jogo e me aproximei dele. Chefe! Senti uma vibração que nunca senti antes. Ele me deu um sorriso e me abraçou! Diabos! Abraçar um desconhecido? – Ele com uma voz de anjo, e nem sei se anjo tem voz me disse que sua missão era ser um Escoteiro por algum tempo. Bela maneira de pedir para entrar.

                    Ele parecia encantar a todos, pois em poucos minutos uma roda se fez em sua volta. Chefe Nantes chamou as patrulhas. Ninguém se mexeu. Parecíamos estar hipnotizados. Apitou de novo e com má vontade saímos dali. Quando formamos para a bandeira, pois era o final da reunião olhei para onde ele estava e não havia ninguém lá. Quer saber Chefe? Como o Chefe Bob o aceitou não sei. Ele era um Chefe durão, sem pais nada de vaga! Dizia sempre. No sábado seguinte ele estava lá. Ele foi apresentado à tropa. Chefe, Deus do céu, precisava vê-lo de uniforme. Incrível! Ele estava com um lenço azul celeste bordado com estrelas douradas e seu arganel era feito de brilhantes. Todos os monitores correram para oferecer suas patrulhas. Chefe Nantes não sabia o que fazer. – Olhem, não é comum isto, mas o Chefe Bob me pediu que ele ficasse três reuniões em cada patrulha. Não entendemos nada. Mas Chefe é Chefe e assim foi feito. Não soube se a Corte de Honra discutiu o assunto eu era um simples Escoteiro segunda classe.

                    Chefe meu amigo até hoje quando lembro fico paralisado. Sabe chefe eu nunca entendi aquele pequeno menino das estrelas que com um simples sorriso conquistava a todos. Ele começou com os Lobos e depois a Pantera. Eu era da Falcão e fiquei sabendo que seriamos os últimos a recebê-lo. Não antes da Tigre. Mas ele parecia não ter uma patrulha no coração, tinha todas. Sabia de tudo sobre elas. Um dia antes da reunião estávamos sentados embaixo da aroeira, uma rotina nos dias de calor ele começou a cantar uma canção linda. Chefe, meu Deus! Que voz ele tinha. E a canção? Falava de Escoteiros na montanha azul onde só o amor existe.  Os lobos largaram a Aquelá e vieram correndo. Os seniores e as guias deixaram a construção da quadra e vieram também. Ninguém falava, não havia barulho, só aquela voz maravilhosa que até hoje não sei explicar. Ele parou de falar e sem ninguém levantar começou a contar uma história. Que linda história. De um menino que conheceu centenas de planetas, que percorreu a via láctea, e todo o espaço sideral.

             Vi que ninguém piscava ninguém se mexia. Com um simples gesto ele colocou ali uma cópia do universo. Cópia? Não ria Chefe, eu sou péssimo em geografia e nada entendo de astronomia. Mas ele Chefe, falava de tal maneira que a gente parecia viver com ele à medida que explanava tudo do espaço sideral. Não vou dizer aqui os nomes de estrelas, de constelações e que em linguagem simples ele disse que se pode percorrer como se fosse nosso pensamento. Contou das belezas do universo e que um dia nós também iriamos ver com nossos próprios olhos. Sem ninguém perguntar Chefe ele contou de onde veio um planeta a bilhões de anos luz da terra. Não disse o nome, falou que não iriamos entender. Disse que sempre voltava ao seu lar após as reuniões. Só retornava quando precisava fazer algum estudo de comportamento humano.

          Levantou-se e pediu ao Chefe para continuar a reunião. Estava chovendo e ele olhou a chuva e ela parou. Um sol brilhou. Todos ficaram estupefatos. O menino Escoteiro das estrelas no primeiro acampamento vibrou. Chefe precisava o ver armando barraca com as próprias mãos. Contou depois que em seu lar no espaço ele usava a força do pensamento. Quando começou a montagem da Barraca suspensa Chefe, ele se jogava no ar e ria a valer quando fazia uma amarra, um nó, um arremate qualquer. As madeiras que ele cortou foram levantadas no ar com um simples olhar. Pode perguntar, não vou negar Chefe, ninguém ali duvidava de nada. Ninguém perguntou como ele fazia. Parecia que através do pensamento ele ia ensinando tudo sem falar diretamente. E como comia Chefe, parecia um esfomeado. Ria a valer quando mastigou pela primeira vez bife queimado do cozinheiro Jonny limbo.

         Foi no Fogo de Conselho que tudo aconteceu. Ele fez questão de preparar. Acendeu com um simples gesto. Levantou os braços e parecia que as estrelas dançavam no céu. Toda a área do fogo foi iluminada por uma luz brilhante. Parecia que do céu desciam anjos e estávamos todos parados, sem nada a dizer. Um silêncio rompido pelo canto da fogueira. Ele sabia, ele sabia! Cantava e nos animava a cantar. Pediu para Robespierre que tinha vindo dos lobos dançar a dança de Kaa. Mas ouve uma hora que ele disse – Meus irmãos Escoteiros é hora de partir, não vou dizer que é mais que um até logo, não será mais que um breve adeus, minha missão era alertar vocês que não estão sozinhos. Existem milhões de planetas com muitas pessoas fazendo o bem. Vocês ainda não chegaram lá. Lembrem-se é como uma escola, a terra ainda tem muitas etapas para cumprir. É como se ela estivesse fazendo o primeiro grau. Impossível levá-la a estudar com aqueles que estão fazendo pós-graduação. Não iria entender nada.

            Mas fiz questão de estar aqui com vocês. Por quê? Porque vocês tem uma lei. Uma lei que se pode dizer existe em todo universo. Palavra de honra, lealdade, cortesia, irmandade, disciplina, alegria e puro nos pensamentos nas palavras e ações. Não existe nada mais lindo que isto. Conheci o Chefe de vocês que criou na terra o escotismo. Ele veio para isto, era sua missão. Obra do altíssimo. Estivemos juntos em um planeta distante. Ele já está subindo degraus para chegar bem perto “Dele”. Nosso Deus supremo. Poderia ter feito esta jornada de outra maneira, mas fiz questão de estar aqui. De todos os excelentes Escoteiros do mundo senti nesta tropa uma força muito diferente do que encontrei em minhas viagens siderais. Aqui vocês tem o amor no coração. Não vi ódio, não vi rancores. Vi coisas que dificilmente se poderia esperar de alguém que mora em um planeta como a terra.


             Chefe, oh! Chefe! Ele falou tantas coisas bonitas e antes da chegada do vento sul que começou a soprar calmamente ele partiu. Seu pensamento vibrava com o nosso. Ali só se falava de amor ao próximo, de ajuda ao próximo. De ser um bom Escoteiro, um bom filho e um bom aluno. Piegas Chefe? Pode até parecer, mas quando aquele menino Escoteiro das Estrelas veio ao nosso grupo pela primeira vez, já sabíamos que ali estava um espírito de luz, tanta luz que como ele disse, teríamos que estudar muito e crescer além da imaginação para chegar lá. Mas um dia, um dia iremos chegar!

sábado, 4 de janeiro de 2014

A paz que o vento nos traz.


Um poema Escoteiro.
A paz que o vento nos traz.

Não sei se sabes, não basta dizer que ama a natureza.
Não basta dizer que concorda com o que dizem,
Não. Tens a obrigação como Escoteiro
Falar aos seus irmãos no mundo inteiro,
Mas fale claro, com amor e com certeza.

Diga a eles de sua vida aventureira,
Que sua escolha não tem nada de ilógico,
Você não vive mais seu habitat tecnológico,
Pegue sua mochila e sua bandeira
Vá correr mundo conhecer lugares
Esqueça esta vida baladeira.

Prenda bem seu lenço no arganéu.
Pendure seu bornal e lá dentro seu farnel.
Vá onde o sol te levar até o infinito,
Descubra lugares que pra muitos é um mito.
Muito além de o Arco íris encontrarás o céu.

Dizem alguns que é um céu Escoteiro,
Mesmo com chuva é um céu de brigadeiro.
Tente achar o outro lado da montanha,
Quem sabe um pote de ouro você vai encontrar.
Dirás então para si mesmo, que seu sonho nunca vai se acabar.

Conte a todos por que agora não desiste mais:
“ diga que não foi ouro, não foi prata, muito menos o dinheiro”.
 “Foi à fibra, foi à raça, que te fez um escoteiro." ♫ ♫
Já brinquei de calças curtas lá no fundo do oceano,
Meu lenço eu amarrei nas noites mornas de outono.

Sei que você não esqueceu o tempo não apaga,
A velha frase que a diz um bom mateiro
Você sabe, acredita nisto, de ninguém tem magoa,
Uma vez Escoteiro sempre será um Escoteiro.
Você sabe que é um herói verdadeiro,

Não tens a força de Hércules filho da guerra,
Mas tem a força que só tem um Escoteiro,
Coloque sua mochila, um sorriso e parta ligeiro,
Levante sua bandeira, cante uma canção.
Rataplã agora, Rataplã sempre, Rataplã no coração.

Avante Escoteiro avante, e diga ao mundo inteiro,
Que você é um valente um herói Escoteiro,
E cantando vá dizendo a todo mundo,
“Que não foi ouro, não foi prata, muito menos o dinheiro”.
 “Foi à fibra, foi à raça, quem te fez um escoteiro." ♫ ♫
Ch.Osvaldo


Frase final de um autor desconhecido.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Obrigado por me dar a honra de ser meu amigo e minha amiga!



O ANO FINDA, OUTRO COMEÇA, E COMO BOM MINEIRO DIREI AO ENTRAR EM 2014 - “A NÓS AQUI TRAVEIS”!

Obrigado por me dar a honra de ser meu amigo e minha amiga!

Hoje não vou escrever uma história. O dia foi para analisar o ano que passou. Um ano proveitoso para muitos e principalmente para mim que adquiri centenas de amigos. Os amigos chegaram e os recebi de braços abertos. Na minha página do Facebook, no Grupo Escotismo e suas Histórias, em meus sete blogs sem contar um Clube de leitura via e-mail onde os comentários do que escrevo são vários. Nem todos concordaram com tudo que escrevi, mas não dizem que toda unanimidade é burra? Bem vindos os que deram sugestões, os que fizeram críticas simpáticas, os que por falta de tempo nada disseram. Todos a sua maneira enriqueceram as minhas publicações.
Nunca em minha vida me senti tão feliz ou quem sabe, mais feliz do que se estivesse na ativa com os jovens. Publiquei milhares de fotos quase todas de jovens enaltecendo o escotismo, respondi centenas de e-mails de membros do escotismo todos com suas dúvidas. Em quase todas as minhas escritas fiz questão de falar em um escotismo autêntico, de uma Lei de uma Promessa, comentei sobre a honra, a palavra, a lealdade, a ética e tudo que nossos jovens precisavam conhecer e saber. Se não ajudei mais foi porque minha saúde não ajudou.
Não agradei a todos. Sabia que não. Usei da minha liberdade de pensamento para discordar com nossos dirigentes com os destinos do escotismo no Brasil. Não bati palmas como alguns queriam. Poucos formadores entraram em contato e por isto não dei um sorriso e um abraço, mas aos demais chefes eu fiz tudo para motivá-los. Sai duas vezes da minha caverna para visitar atividades escoteiras a convite. Senti-me honrado onde fui. Por falta de outros convites não houve mais visitas.
Não sei o que me reserva em 2014. Espero que repita 2013 um ano muito frutífero para mim. Entretanto o que vier aceitarei sem reclamar. Seguirei sempre nesta trilha de falar o que penso, de passar o que aprendi, de ajudar quando posso e estar sempre com um sorriso, claro quando não for chorar. Obrigado amigos e amigas por me aceitarem como sou. Estou orgulho de ser amigo de todos vocês.

Gostaria de estar presente e apertar a mão individualmente de todos. Não sendo possível o faço mentalmente com orgulho de ter você como meu amigo. Que 2014 seja o ano do escotismo. Não importa qual nação. Que a felicidade more no coração de todos vocês para sempre!

FELIZ ANO NOVO!

Chefe Osvaldo Ferraz.

Obrigado Senhor por tudo que me destes por todos estes anos.



Um poema sem nexo de um Velho Escoteiro.
Obrigado Senhor por tudo que me destes por todos estes anos.

“Senhor obrigado por ter feito de mim um Escoteiro”,
A ser também um mateiro, mil noites, em campos sem fim.
Por me deixar conhecer a natureza perfeita, a sua maior obra...
Obrigado senhor por me dar a visão, por ela eu vi o sol,
Vi a lua, as estrelas e o firmamento. Doces momentos, obrigado Senhor.
Tudo que me destes fez de mim o que eu sou. Me deste a água da fonte,
Fez de mim amigo dos animais, deixou-me andar pelas florestas do mundo,
Conhecer pássaros coloridos e Gaviões tão grandes que me fizeram sorrir.

Senhor eu agradeço de coração, pois me deu além do que merecia.
Meu deu o olfato para sentir o cheiro da terra, sentir o perfume das flores,
Deixou-me rolar em uma campina florida, sorrindo junto a borboletas douradas.
 Eu consegui Senhor só porque sou Escoteiro, senti o aroma da orquídea,
Nas florestas verdejantes e tão distantes que um dia explorei.
Eu sei senhor que fui um privilegiado, conheci a chuva tão doce a me refrescar.
E por ter me dado o tato eu a pude senti-la em meus ombros, O ribombar e o Estrondo, de uma tempestade juvenil.  Eu tive a benesse, de acariciar a
Pele de um esquilo, em um vale colorido quando o sol se escondeu.
Brinquei com os dedos no dorso, de um Lobo cinzento charmoso,
Que me aceitou venturoso como irmão de ideal.
Senhor quer alegria maior do que sentir o vento no rosto?  
Sentir o orvalho da madrugada? O sol nascer e o cantar dos pardais?
A audição que me destes, deixou-me ouvir os sons da natureza.

Meu Deus que alegria, ouvir o cantar da passarada, ouvir o trinar do bem-te-vi,
O som da cascata murmurante, o trovão da cachoeira distante,
O piar da Coruja no carvalho, ouvir o lenho arder nas noites de fogo amigo. As
Chamas tão vermelhantes, fazendo o lenho arder e fagulhas subindo aos céus.
O sorrir da meninada a cantar o Guinganguli, os olhos lacrimosos lembrando,
Da canção da despedida, cantada em versos sofridos, mas alegres no despertar.
Nada Senhor é mais lindo que sentir a respiração, ao subir em uma árvore.
A nadar num belo remanso e ver peixinhos a pular. E Senhor, ver todos,
Meus companheiros, cantantes alegres e faceiros, infantes lá nas estradas,
A marchar em terras desconhecidas, e na trilha do alvorecer!

Obrigado mesmo meu Senhor, por ter me dado o paladar. Estalar a língua no
Almoço e no jantar, feito pelo meu amigo cozinheiro. Ele um bom Escoteiro,
Não reclama mesmo se o sal faltar, se tiver picadinhos de folhas rosa,
 Se uma formiga no arroz pedir socorro, à gente a retira e nunca vai reclamar.
Tudo isto senhor será motivo de glória, pois sabemos que o que fizemos,
E o que somos, irá ficar na memória e para sempre em nossa história.
Obrigado Senhor, e nesta passagem de ano, eu nos meus setenta e três anos,
Ainda tenho no coração a alegria de um menino que nunca deixou de sorrir.
E sonhar. Sabe Senhor, a graça que me concedeu, de me dar grandes amigos.
Que os outros da minha idade, possam lembrar com saudade de tudo que aconteceu.
Aceite o agradecimento, de um Velho Lobo teimoso, que se acha venturoso,
Por ter estado presente em sua obra tão linda e eu só posso dizer:
Valeu meu Deus. Valeu! Escoteiro eu sou graças a ti!

   Vamos passando, passando, pois tudo passa. Muitas vezes me voltarei, as lembranças são trombetas de caça, cujo som morre no vento.

(Guillaume Apollinaire)

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Uma noite maravilhosa de Natal!


Lendas escoteiras.
Uma noite maravilhosa de Natal!

                 Eu sempre tive um carinho enorme pela noite de natal. Família reunida, muitos presentes, abraços uma bela ceia isto sempre me encantou. Triste eu ficava quando lembrava que muitos não tinham esta minha felicidade. Já passava da meia noite e junto com minha esposa admirávamos na varanda os foguetes e a luzes no céu. Uma enorme tristeza se abateu sobre mim.  Lembrei-me da última visita que fiz na casa do Chefe Maninho. Sempre foi um pai para nós escoteiros de Esperança Feliz. Dizem que ele entrou para o Grupo em 1943. Ficou mais de sessenta anos no escotismo. Sempre notei nele uma pessoa triste, um olhar perdido no horizonte, olhos fundos e sempre com uma lágrima furtiva que ficava tentando esconder.

                  Chefe Maninho morreu há dois meses. Nas suas exéquias poucos foram. Nunca entendi isto. Esperava uma multidão e não foi quase ninguém. Claro era difícil vê-lo sorrir. Acho que ninguém nunca recebeu dele um abraço. Era muito fechado em si mesmo. Nunca esqueci o que ele me contou um dia. O Fogo do Conselho havia terminado e ficamos lá eu ele, Rosa uma Chefe Escoteira, Nair sua Assistente e Paulo Alberto um Chefe de tropa. Ficamos conversando e a meia noite todos foram dormir. Ficamos só eu e ele. Não sei por que ele estava com os olhos marejados de lágrimas. – Calma Chefe eu disse. Está se sentindo mal? - Não meu amigo, respondeu. São as lembranças que não cessam. E então, começou a contar parte de sua vida que acredito era desconhecido por todos que ficaram ao seu lado por muitos e muitos anos.

                 - Chefe, eu perdi meu pai quando tinha dez anos. Eu o adorava. Ele era tudo para mim. Levava-me aos parques de diversões, me levava em alto mar para pescar, fomos acampar em lugares inóspitos e mesmo já sendo um Escoteiro eu vibrava em sua companhia. Ele era Militar das Forças Armadas. Segundo Sargento do Regimento de Infantaria e todos o admiravam pelo seu caráter, por ser tudo o que hoje não sou. Um pai alegre, prestativo, amigo e muito respeitado não só em seu regimento como em toda vizinhança. Ele mesmo me contou com orgulho que fora incorporado ao 3º Regimento do Exercito Brasileiro. Um regimento da Força Expedicionária Brasileira. Em poucos meses ele partiu para a guerra na Itália.   Eu e mamãe choramos muito quando ele partiu. Sabe amigo Chefe, ele partiu em uma noite estranha, cuja lembrança nunca mais me sai. Chamou-me e disse – Filho, seu pai vai lutar lá na Alemanha. Vou me cuidar. Ainda vamos fazer grandes coisas, eu e você. Eu voltarei.

                  - Nos primeiros meses ele escrevia sempre. Mamãe, minha querida mamãe! Ela lia suas cartas, baixinho devagar, dizia que logo estaria de volta, pois a guerra estava prestes a acabar. Todos os dias ele vinha em meus sonhos, e nele retornava como se estivesse me abraçando. Passou um ano e ele não voltou. No natal escrevi para o Papai Noel uma carta. Uma carta simples, só pedia ao meu bom amigo que trouxesse de volta o meu papai que foi lutar na guerra. – Olhe Papai Noel, você que pode mais que a gente, e tem uma força sem igual, me dê Papai Noel este presente, se possível nesta noite milagrosa de natal. Mas nada. Nem resposta. No ano seguinte escrevi de novo. – Papai Noel, meu santo e bom paizinho, eu tenho meu coração como uma brasa, nesta hora triste em rezar ao Senhor eu venho. Papai Noel, se todos têm o seu papai em sua casa, só eu Papai Noel é que não tenho?

                Os dias, os meses foram passando. Mamãe só vivia pelos cantos chorando. As cartas não vieram mais. O silêncio era completo. Lembro-me que um dia mamãe passou a se vestir de preto e nunca mais sorriu para ninguém. E para piorar tudo meu amigo, um tarde chuvosa do mês de julho, bateram em nossa porta e dois oficiais do Exército Brasileiro entregaram a minha mãe uma medalha. Disseram a ela que ele tinha sido um herói. Mamãe, mamãe, eu quero meu papai! Ela calada, taciturna não chorou mais. Seu rosto lindo que nunca esqueci agora parecia uma mascara de cera. Na missa dos domingos ela disse para o Padre Antonio que estava perdendo a fé. Perdeu seu marido na guerra, ainda tinha seu filho, mas o mundo para ela desmoronou.

                 Sabe meu amigo, aquele mil novecentos e quarenta e cinco foi o ano que mais chorei. Eu sempre a noite rezava. Não acreditava que ele tivesse morrido. Jesus, meu amado e bom mestre eu dizia, se os tais heróis não voltam para casa, será que vale a pena ser herói? Senhor Jesus, meu santo e bom paizinho, me dê neste natal um presente. Acabe com minha revolta e me traga de novo o meu papai que foi brigar na guerra. Eu sei que o Senhor pode tudo e sei que vai dar um jeitinho de mandar o meu papai de volta. – Olhei para ele e ele chorava. Um "Velho" de oitenta anos chorando. Continuou a me contar - Olhe meu amigo Chefe. Não dá para esquecer. Acho que mamãe sempre ouvia minhas preces, pois um dia, naquela noite de natal, eu dormi abraçado com o retrato do meu pai. E confesso que tive lindos sonhos com ele. E sabe meu amigo Chefe, ao acordar gritei surpreso, pois lá estava enrolada em meu sapato uma enorme bandeira do Brasil!

               Sem palavras. Chorava ali com aquele velho naquele fogo que aos poucos se apagava. A brisa vinha de leve a nos dar um pouco de calma, de frescor. As pequenas fagulhas ainda existiam naquela fogueira que eram agora somente cinzas. Havia ainda algumas fagulhas que se arriscavam ainda a subir aos céus. Lânguidas e serenas para logo serem levadas com o vento. Papai Noel. E quem ainda não acredita nele? O natal, linda noite para alguns, muitas tristezas para outros. Abracei com força o Chefe Maninho. Ficamos ali até o amanhecer.  Nunca mais o esqueci. Que Deus esteja com você meu amigo, nestes pastos verdejantes do céu, junto ao seu papai e sua mamãe!

(História baseada no poema de Orlando Cavalcante, “Oração de natal de um órfão de guerra”).

     

sábado, 28 de dezembro de 2013

A história de Natalie escoteira, uma Condensa do Castelo de La Possonnière.


Crônicas de um Chefe Escoteiro.
A história de Natalie escoteira, uma Condensa do Castelo de La Possonnière.

                    Conheci Natalie a muitos e muitos anos atrás. Trabalhava para uma empresa como técnico mecânico de máquinas pesadas e muitas vezes eu viajava em cidades por todo o país para dar assistência, treinar operadores ou mesmo até fechar alguma venda. Como Escoteiro que sou não deixava de procurar um Grupo Escoteiro nas cidades que ia. Em uma cidadezinha no interior de um estado brasileiro, me apresentei ao Chefe do Grupo que insistentemente achando que eu era um “expert” em escotismo me convidou para o período de um mês e meio que ficaria lá, a dar a ele assistência na reformulação do grupo e quem sabe na arregimentação de pais. Era uma área que dominava bem. Em todos os grupos que passei sempre fiz amizades com eles e a maioria se oferecia para colaborar como escotistas, diretoria ou mesmo instrutores de especialidades.

              No primeiro sábado que lá estive, fizemos um périplo pelas sessões e vi uma Escoteira de uns onze ou doze anos sentada em uma cadeira no canto do pátio. Enquanto todos se movimentavam ela permanecia lá, indiferente, sem se mexer e sorrindo. Era uma linda jovem, loira, olhos verdes, cabelos cor de palha, e magra. Muito magrinha. Tinha um sorriso encantador. Perguntei o porquê daquilo e ele me disse que em algumas reuniões ela sentava ali por algum tempo e parecia estar em outro lugar, vivendo outra vida e quando resolvia falar contava casos incríveis. Sempre disse que era a Condensa Natalie, nascida em 1770 na França, mais precisamente no Castelo de Lá Possonnière no Condado de Vendôme. Não entendíamos nada. Seus pais gente humilde nos pediu ajuda e ajudar como?

               Concordei com ele. Muitas vezes nós chefes nos colocamos como professores, padres, pastores, psicólogos, políticos como se fossemos super homens e somos somente um ser vivente como todos. Esquecemos que estamos ali para colaborar e não substituir alguém que pode realmente ajudar. A cidade era pequena, onze mil habitantes. Não tinha psicólogo e nem seus pais tinham condições de pagar. O Grupo aceitou, pois quando não estava “viajando” (maneira como ele dizia) era uma excelente Escoteira. Em seu colégio todos a adoravam, mas seus professores tinham medo de suas crises. Cheguei mais perto e perguntei inocentemente onde ela estava. Incrível a sua história:

             _ Sou do Condado de Vendôme, moro no castelo de La Possonniére, meu pai é o Conde Livorno. Minha mãe morreu quando eu nasci ao dar a luz. Estou com doze anos e meu pai foi preso. Ele me contou que houve uma revolução e ele podia ser preso. Disseram que ele era da realeza, pois estavam prendendo todo mundo que participavam da Corte. Isto aconteceu no inverno de 1793 e o nosso Rei Luis XVI foi levado ao cadafalso e decapitado. Uma onda de vingança estava ocorrendo na França. Meu pai foi preso. Morreu dois anos depois tuberculoso na prisão. Sempre achei que isto nunca aconteceria a nossa família. Éramos descendentes do Conde Pierre de Ronsar, um poeta famoso que foi dono do nosso castelo. Ela se calou. Seus olhos viraram como se fosse estrábica. Acordou de sua “viagem” como dizia seus pais e chefes e correu a brincar com sua Patrulha. Fiquei estupefato!

              Durante as duas primeiras semanas Natalie não disse nada e nem “viajou”. No hotel foi que fiquei sabendo que um menino surdo mudo de oito anos tinha desaparecido. A cidade em peso o procurava. Multidões percorriam as ruas e a noite com enormes tochas percorriam vielas, beira de riachos, rios e morros próximos. O padre rezava missa quase cinco por dia. Todas com a igreja cheia, pois pediam a Deus para que o menino fosse encontrado. O Delegado abanou a cabeça e pensou que ele já estava morto. Um filho da mãe de um estuprador de crianças. Dois dias depois no sábado fui à reunião do Grupo Escoteiro. Em dado momento Natalie correu para sua cadeira e balançando a cabeça viajou como sempre fazia. Agora dizia em voz alta e repetindo sempre - Poço do Roncador! Poço do Roncador! Poço do Roncador! Ninguém entendia nada. Ela nunca disse isto e quem sabe suas viagens estavam piorando? – Foi então que um lobinho veio dizer ao Chefe que havia um Poço do Roncador atrás da Serralheria do Bastião onde os meninos gostavam muito de brincar.

             O Chefe me chamou e fomos correndo até lá. O menino lá estava. Ainda vivo. Quase morto com água pela cintura. Eu mesmo desci pela corda e o amarrei para levantá-lo. A cidade inteira soube e correu para lá. Um grito de alegria saiu de cada um. Seus pais Riam e cantavam a mais não poder.


             Cinco anos depois voltei àquela cidade. Procurei o Grupo Escoteiro. Era outro Chefe de Grupo. Perguntei por Natalie. Foi embora disse. Seus pais não aguentavam mais a romaria que faziam em frente a sua casa. Achavam que ela poderia contar sobre parentes que já morreram outros querendo saber resultados de loteria. Um inferno. Fiquei pensando que o desconhecido para nós sempre é motivo de duvidas. A menina era “médium”. Um tipo especial. Uma grande amizade de seus anjos protetores. Uma vida no passado que não esqueceu. Mas histórias são histórias. Umas são alegres outras tristes. Mas todas elas podemos dizer – “São coisas da vida”! 

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Uma canção para o Canário Amarelo de Giacomo.



Contos de Natal.
Uma canção para o Canário Amarelo de Giacomo.

Imagine que não há paraíso. É fácil se você tentar
Nenhum inferno abaixo de nós, acima de nós apenas o céu.
Imagine todas as pessoas vivendo para o hoje .

         Era apenas um filhotinho de canário amarelo caído do alto de uma castanheira em flor. Ficava em pé com dificuldade e já sabia que não podia voar. Sentiu-se só e abandonado. Sua mãe saíra para buscar o almoço e não voltou. Estava ali há horas e a fome só aumentando. Tentou um lugar para esconder, pois sua mamãe canária lhe dissera para tomar cuidado com o Gavião Malvado. Ele podia morrer se fosse encontrado só. Mas o que ele poderia fazer agora? Não podia andar e nem voar. Era muito pequeno e ali perdido naquela grama alta seria descoberto logo. Poderia ser pelo Gavião Malvado, poderia ser por um animal da floresta e poderia ser também pelo filhote de homem. Eles gostavam de machucar os pássaros da natureza. Fechou os olhos e chorou. Dizem que canário não chora, mas ele chorava. Saudades de sua mamãe canária, saudades do sua Tia A coruja Buraqueira. Ela também o protegia, mas desapareceu como o vento na tempestade.

Imagine não existir países não é difícil de fazer,
Nada pelo que matar ou morrer e nenhuma religião também,
Imagine todas as pessoas vivendo a vida em paz.

              Ele ouviu passos. Pequenos passos de um menino pequeno. Ele o viu. O filhote de Canário Amarelo tremeu. Era sua hora de morrer. Meninos não gostam de pássaros assim disse sua mamãe canária. O menino vestia de azul com um lenço verde e amarelo no pescoço e um boné azul também na cabeça. Ele não sabia o que era isto. Mas viu que o menino sorria, não o maltratou. Tentou falar com ele, mas ele não o ouvia. O menino viu que ele não podia andar nem voar. Saiu correndo e algum tempo depois voltou. Colocou em sua frente semente de arroz cozida. Em uma latinha havia água de beber. Ele viu que o menino de azul tinha um bom coração. Se sentiu revigorado após comer e beber. O menino ficou ali, não foi embora. Um sorriso simples como a dizer – “Não tenha medo eu tomarei conta de você”. Ele dormiu em paz acreditando na paz do menino de azul. Não sonhou. Canários não sonham. Acordou sozinho, pois o menino de azul se foi. De novo sozinho. De novo o medo. Agora tinha água e comida e mesmo assim ele não podia fugir dos seus predadores.

Você pode dizer que sou um sonhador
Mas não sou o único, tenho a esperança de que um dia,
Você se juntará a nós e o mundo será como um só.

          A noite chegou. Ele não tinha medo da noite. Para ele o dia e a noite era igual. Gostava mais da noite, pois podia se esconder. Ganharia mais um dia na vida. Sabia que o menino de azul não ficaria ali por muito tempo. Viu ao longe um amarelo branco aparecendo. Era a alvorada. O dia estava chegando. Onde estaria o menino de azul que lhe deu água e comida? Onde ele foi? Não entendia porque ele sumiu. A comida não iria durar muitos dias. Ele era pequeno tinha de comer bastante. Sentiu seu corpo revigorar. Levantou as asas e ela bateu para cima e para baixo. Tomou distância em uma trilha correu e saltou para o espaço. Caiu feito uma abóbora madura. Ainda não estava na hora? Impossível, ele tinha de tentar e tentou muitas vezes. Qual foi sua surpresa que de tanto tentar levantou voo. Como era lindo voar. Rodopiou no ar varias vezes e quase foi engolido pelo Gavião Malvado que voava por trás. Ele não viu. Não sentiu o som de suas asas.

Imagine não existir posses me pergunto se você consegue
Sem necessidade de ganância ou fome uma irmandade do Homem
Imagine todas as pessoas compartilhando todo o mundo.

      Ele viu ao longe uma onça parda olhando por um precipício e sabia que devia ser sua caça. Ele estava à espreita, mas não atacou. Vou baixo para ver e qual foi seu espanto quando viu o menino de azul caído no buraco fundo. Ele estava com os olhos fechados e parecia estar com dor, pois chorava e cantava baixinho – Meu Jesus me proteja, não deixe que nada aconteça comigo neste dia de natal. Meus pais irão chorar quando não me virem na ceia da meia noite. Senhor Jesus amado, não quero que eles chorem. O filhote de Canário Amarelo sabia que precisava fazer alguma coisa. O menino de azul o salvou e ele tinha de fazer o mesmo. Pousou em um galho de uma arvore e ficou pensando. Sentiu um esvoaçar nos céus. Milhares de Canários Amarelos o procuravam por todos os lugares. Sua mãe o viu, voou até ele e com bico o beijou varias vezes. Ele contou para sua mamãe sobre o menino de azul. Ela lhe disse para não se preocupar. Mandou-o ficar ali na espreita enquanto ela iria montar um plano para salvar o menino de azul.

Você pode dizer que sou um sonhador
Mas não sou o único tenho a esperança de que um dia
Você se juntará a nós e o mundo viverá como um só.

         Não demorou muito tempo. Milhares ou milhões de canários chegaram com uma enorme rede de cipó feita por Araras vermelhas, tico tico da floresta, pardais das campinas verdejantes e tantos pássaros que agora só havia um objetivo. Tirar o menino de azul do buraco. Quinhentas andorinhas voaram por cima da Onça Parda. Não deram sossego e quando ela se sentiu bicada pelas andorinhas saiu em desabalada carreira. Em pouco tempo os Canários Amarelos jogaram a rede em cima do menino de azul que assustado sentou no meio da rede e foi levado pelo ar até onde estava acantonada sua Alcateia. O deixaram ali e dezenas de lobinhos e lobinhas batiam palmas por tão belo espetáculo. O menino de azul foi salvo. Naquela noite de natal ele e sua família cantaram felizes por estarem juntos. Os pais não sabiam que ele salvou um Filhote de Canário Amarelo e eles o salvaram de morte certa. Ele nunca mais esqueceu este dia. Para ele o menino de azul foi o melhor natal de sua vida. Ele sabia que o que fizerdes de bem sempre terá em troca o dobro.

Noite feliz, Noite feliz,
O Senhor, Deus de amor,
pobrezinho nasceu em Belém.
Eis na lapa Jesus, nosso bem.
Dorme em paz, oh Jesus.
Dorme em paz, oh Jesus.


A canção Imagine tanto a letra como a musica é de autoria de John Lennon.