No mundo dos sonhos com as fábulas escoteiras

No mundo dos sonhos com as fábulas escoteiras
A aventura está apenas começando

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O maior Jamboree Mundial já realizado no mundo.



Quem sabe o impossível acontece?
O maior Jamboree Mundial já realizado no mundo.

    Isto mesmo, já pensou? O maior Jamboree no Brasil? Onde a participação seria livre? Sem imposições ou escolhas? Seriam convidadas todas as associações onde existam Escoteiros e não importa suas ideologias. Diríamos a eles que são nossos convidados – Sejam bem vindos! Um orgulho recebê-los aqui! Somos irmãos e nada pode mudar isto. Iriamos dar um aperto de mão forte, um Sempre Alerta gostoso, e quem sabe até um abraço fraterno. Convidaríamos também Escoteiros e escoteiras do mundo todo. Dez mil vinte ou cinquenta ou cem mil Escoteiros. A maior concentração possível. Uniformes de todas as cores, parecendo com o Brasil de vários uniformes coloridos. Seria próximo a um grande lago onde os Escoteiros do Mar pudessem embarcar e fazer suas atividades, e teria que ser perto de um aeroporto para que os Escoteiros do ar pudessem voar em um aeroplano, esbanjando felicidades nas asas da imaginação. Seria permitida a participação de lobinhos e lobinhas em acantonamentos próximos, pois não haveria limite de idade. A meninada brasileira e mundial ficaria perplexa! Que linda atividade diriam. Seria mesmo. Ali não haveria discriminação. Europeus, africanos, australianos, asiáticos, americanos, pobres ou ricos dando as mãos numa fraternidade sem igual.

   Estou sonhando? Pode ser. Mas porque não convidar grandes empresas para patrocinar? Porque não ir até a Força Aérea para colocar aviões a disposição dos Escoteiros do norte e do sul gratuitamente? Isto não é feito para deputados e ministros? E o Exército? E a Marinha? Afinal mesmo com esta implicância com ordem unida tenho certeza que iriam ajudar. Porque não procurar a FIESP e pedir a ela uma colaboração? Afinal ontem fiquei sabendo que seu Presidente foi Escoteiro, contou “causos” de acampamento e falou bem do nosso escotismo em um programa de TV. Vamos colocar o moço em ação! Que tal a Coca-Cola? Que tal a Petrobrás? Que tal a Vale do Rio Doce? E os Políticos? Não. Isto não. Melhor deixar os políticos em paz. Eles irão querer fazer comícios, aproveitar a singela atividade para se promoverem e não faltarão chefes a colocarem os lenços nos pescoços graciosos. Necas da tal Frente Parlamentar. Ela me dá sono. Risos. Mas voltemos à realidade. Uma enorme Lista. A Votorantim estaria presente. A TAM e a GOL. A Embraer poderia ajudar. São milhares para transportar sem ônus. E o Carrefour? O Extra? A Wal-Mart? Não nos esqueçamos do Ceconsud, do Zaffari, dos Irmãos Muffato, do Condor Super Center, dos Supermercado de BH, do Sonda Supermercados para colaborarem na alimentação destes milhares e milhares de jamborianos. Podemos dizer que são tantas empresas que nenhum Escoteiro ou escoteira ficaria sonhando em participar. Sua participação seria uma realidade.

    Teria que ter uma organização perfeita. Não seria difícil. Chame aquele Chefe humilde do Grotão do interior. Ele é bom nisto e como ele temos centenas. São mateiros perfeitos. Pessoas assim é que precisamos na linha de frente. Chamem a Professorinha. Também temos milhares delas. São Akelás para ninguém botar defeito. Sabem amar os seus lobinhos como a sí mesmo. Esqueça os chamados da corte, os sabem tudo, os chefões os que têm “casta” e os portentosos e poderosos. Como somos irmãos de sangue vamos deixar que eles participem em um Sub.campo próprio com cerca eletrificada. Colocaremos um batalhão policial para tomar conta deles. Só podem sair acompanhados. Risos. Coitados, nada disto, pois são irmãos de sangue. Eles serão livre para andar e voar como todos. A impressa teria um lugar especial, toda ela sem exceção. Vamos chamar quem sabe bons relações públicas Escoteiros e que sabem se entender com eles. Conheço muitos. E depois de escolhido o local, e de enviar carta a todos os grupos Escoteiros do Brasil pedindo sugestões do programa, vamos convidar um Chefe de cada distrito para montar o maior programa sugerido por todos e que fará de um Jamboree Mundial uma apoteose. E então, e então vamos enviar os convites para os Escoteiros do mundo:

- Meus amigos Escoteiros e escoteiras. Estamos convidando vocês para o maior evento mundial já realizado em todos os tempos. Será realizado na Floresta da Esperança, bem perto da Cachoeira do Sonhos, onde se pode avistar a Montanha da Felicidade. Fazemos questão da presença de todos. Teremos a presença dos chefes de todas as sessões presentes. Eles irão abrilhantar nosso espaço reservado às autoridades. Teremos uma taxa. Pequena mas teremos. Vocês irão pagar quando chegarem à quantia de um belo sorriso, um Sempre Alerta gostoso, uma vontade de ser mais um, e olhem se possível tragam junto seu “espirito Escoteiro” e não se esqueçam da moeda da boa ação. Ela também será bem vinda. Após este singelo pagamento da taxa, vamos exigir de vocês pouca coisa. Deverão vir com suas patrulhas completas ou quase, pois será um Jamboree onde o Sistema de Patrulhas estará presente em todas as atividades aventureiras. Não se esqueçam de lavar, passar e vestir com garbo seus uniformes. Não vamos exigir as cores, aqui todos terão um lugar ao sol. Conversem com seus chefes, façam a lista do material, chequem para ver o que falta e deixem a tralha pronta para ser usada. Aguardem nosso contato. Iremos dizer onde deverão embarcar para a maior atividade escoteira já realizada no mundo.

       Pensamos em convidar o Espirito de BP, mas ele não foi muito simpático conosco, apareceu em nossos sonhos dizendo: - “Acorde chefe, vá trabalhar! você só tem um dia na vida, portanto aproveite cada minuto. Dormirá melhor quando chegar a hora de dormir, se tiver trabalhado ativamente durante o dia inteiro. A felicidade será sua se você remar a sua canoa como deve. Desejo de todo o coração que tenha sucesso e na linguagem escoteira:” BOM ACAMPAMENTO”.

Falar o que? Melhor é acordar dos meus sonhos, mas caramba! Que sonho eim? Já pensou? Milhares e milhares da nossa fraternidade mundial unida em um só ideal? Já pensou aqueles que não podem pagar estarem junto com os que podem? Felicidade é assim. E como dizia a nossa velha oração escoteira – “Uns tem e não podem. Outros podem, mas não tem. Nós deste belo movimento que temos e podemos agradecemos ao Senhor”!

domingo, 13 de outubro de 2013

As névoas brancas do Rio Formoso.



Lendas escoteiras.
As névoas brancas do Rio Formoso.

O nada é a profecia da minha partida
o tudo é sopro que busca aquiescer
sou uma cor do arco-iris... Perdida
o lume solar na gota de chuva a correr
para beijar a névoa que deita escondida
a deleitar-se nos braços do amanhecer
Cellina


                      Faz muito, muito tempo quando a nossa Patrulha Sênior descobriu as lindas e espetaculares cachoeiras do Rio Formoso. Eram incrivelmente belas. Ainda sem rastros humanos. Pensei comigo que precisava acampar ali. Três quedas simultâneas, um som imperdível das cataratas caindo sobre as pedras e dando outro salto no espaço. Em volta uma floresta ainda inóspita. A névoa se formava a qualquer hora do dia. Uma visão fantástica. Quando vi pela primeira vez eu estava com meus quinze quase entrando nos dezesseis anos. Descobrimos por acaso. Uma jornada até o Serrado do Gavião onde existiam milhares de Folhas Secas. Um terreno vazio, sem árvores e muitas folhas. Era um mistério saber de onde vinham. Soubemos da história. Vamos lá disse o Romildo. Patrulha Sênior, cheia de ardor, procurando aventuras, vontade de enfrentar desafios e nada como descobrir. Está no sangue dos seniores.

                    O caminho iniciava na Mata do Tenente, famosa porque uma tropa do exército ficou vinte dias perdidos nela. Saíram com dificuldade, fracos e quase morreram. Bem, eles não eram escoteiros como nós. Risos. A mata não era um obstáculo e o rio também não. Dava para andar bem nas suas margens. Com quatro horas de viagem, vimos uma bruma cinza que se espraiava no ar. A mata parecia que estava em chamas. Que seria? O ribombar da cachoeira nos fez estremecer. Um espetáculo magnifico. Incrivelmente fantástico! A cachoeira formava redemoinhos no ar. Uma nuvem de vapor cobria certas partes da queda d’água. Os pássaros se deleitavam. Voavam de supimpa naqueles redemoinhos e saiam do outro lado molhados como se estivessem sorrindo. Não entendemos o porquê da névoa. O Rio Formoso era todo formado por quedas de diversos tamanhos e na falta delas, as corredeiras davam outro brilho aquele magnífico rio. Quem o batizou deveria ter sonhado muito com coisas belas, pois o Rio era formoso e um grande espetáculo.

                    Pretendíamos chegar ao Serrado do Gavião ainda naquela tarde e se não parássemos nossa jornada seria cumprida. No entanto o espetáculo a cachoeira nos hipnotizava. Sentamos numa pedra próxima e os barulhos das quedas d’água eram tão intensos que mal dava para conversarmos. O ribombar das águas batendo nas pedras eram imensos.  Romildo levantou e fez o sinal. Mochilas as costas. Fomos em frente. Com tristeza, pois sabíamos que na volta o caminho não seria o mesmo. Voltaríamos pela Mata do Peixoto já conhecida. Subimos as pedras, olhamos novamente, pois íamos embrenhar na mata longe do Rio Formoso. Impossível prosseguir. Aquela cachoeira nos hipnotizou. Parecia dizer para nós que não podíamos deixá-la sozinha na noite que estava por vir. Paramos. Um círculo de seis seniores se formou. Ir ou parar? Seis votos a favor, nenhum contra. Todos escolheram e Romildo aceitou. Escolhemos um local próximo à primeira queda para pernoitar. Não armamos barracas. Iriamos dormir sob as estrelas em pedras lisas que as enchentes do Rio Formoso nos reservaram. Sem sinal de chuva. “Vermelho ao sol por, delicia do pastor”. A noite chegou um jantarzinho gostoso foi servido pelo nosso cozinheiro Fumanchu. Comemos ali mesmo olhando para as quedas no lusco fusco da tarde. Um espetáculo maravilhoso. Era uma visão dos Deuses.

                   Ficamos horas e horas sem conversar. O barulho era imenso. Cada um de nós meditava as maravilhas que nos são reservadas pelo Mestre. A noite chegou de mansinho, o espetáculo maior ainda estava por vir. Uma bruma em forma de nevoa branca foi tomando conta onde estávamos e penetrando na mata calmamente. Ainda mudos. Cada um olhando. Aqui e ali um canto de um gavião procurando seu ninho. Israel acendeu um fogo. Pequeno. As chamas se misturavam com a névoa branca. Raios vermelhos das chamas ultrapassaram a nevoa. Que espetáculo! Um céu colorido como se fossem milhares de arco íris noturnos. Ninguém queria falar. Ninguém falou em dormir. Não sei quanto tempo ali ficamos. Estávamos como encantados por uma feiticeira perdida no tempo naquela névoa e esquecidos de quem éramos.

                   Acordei de madrugada. Amanhecendo. O rosto molhado com o orvalho que caia da bruma branca que nos fez companhia toda a noite. Cada um foi levantando. Arrumamos nossa tralha. Comemos uns biscoitos de polvilho. Olhamos pela última vez aquelas quedas que nos levou sem saber a um paraíso perdido daquele rio que chamavam de Formoso. Calados e mochilas as costas nos pomos em marcha. Alguém olhou para trás, a névoa branca se dissipava. Deu para ver centenas de pássaros se molhando nos respingos da cascata imensa. Durante horas ninguém falou. Sempre olhando para trás. Somente o pequeno trovejar ainda se ouvia das quedas que já haviam desaparecido no horizonte. Nunca mais voltei lá. Ninguém de nós voltou. Passaram uma cerca de “arame farpado” em tudo. O homem só o homem resolvia quem entra e quem sai. Já não havia mais a natureza, pois foi substituída pelos desmandos do ser humano. Aquele que mesmo chegando depois dela, diz arrogantemente: “sou o dono da terra, dono da natureza”.


Quanto ao Serrado do Gavião é outra historia. Não deixou tantas saudades como a Névoa branca do Rio Formoso, mas valeu. 

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Chefe Falcão Maltês. Um perfeito cavalheiro.



Lendas escoteiras.
Chefe Falcão Maltês. Um perfeito cavalheiro.

             Não sei quem colocou o apelido. Nunca perguntei. Seu nome correto? Nem pensar. Ele não dizia a ninguém. Eu só sei que foi um grande amigo enquanto estivemos juntos. Disse-me um dia que fora Chefe do Grupo Escoteiro Estrela Cadente. Nunca tinha ouvido falar. Mas não é disto que quero falar sobre ele. Chefe Falcão Maltês era um cavalheiro. Como se diz hoje uma figura que merece um lugar entre os homens de honra deste país. Um digno Escoteiro. Nunca deixou alguém mais velho que ele em pé no ônibus. Ninguém sentava sem antes ele arrumar a cadeira e olhem, as chefes adoravam. Pagar despesas? Nem pensar. Se ele não pudesse pagar não iria. Dizia sempre que os homens devem ser boníssimos com as mulheres, pois são elas que carregam o fardo mais pesado.

             O que eu admirava muito no Chefe Falcão Maltês era seu modo de falar e dar exemplos aos escoteiros. Lembro que uma vez estávamos em marcha de estrada indo acampar no Vale da Tartaruga, e caiu um pequeno papel de bala na trilha onde percorríamos. Ele parou toda a tropa. Chamou a todos. Disse – Sabem que somos invasores? A escoteirada não entendeu nada. – Porque Chefe? Disse um deles. Porque a relva, as árvores, os pássaros, o rio e as montanhas estavam aqui antes de nós. Portanto eles são os donos. Vocês são intrusos. Vocês gostariam que alguém entrasse em suas casas, sem pedir e jogassem papeis de bala na sala? Ninguém disse nada. Um Escoteiro foi até lá e pegou o papel e guardou na mochila. E nos acampamentos? Sua inspeção era rigorosa. Não perdoava nada. Nem fossa mal tampada. – Escoteiros! – dizia ele, porque deixar que a abelha os beija flores, os pássaros do céu sintam o mau cheiro? Não é certo, não é mesmo?

           Um dia estávamos sentados na porta da barraca, um pequeno fogo crepitava e ele começou a cantar uma linda melodia. Todos acorreram para perto dele. Ele parou e os escoteiros ficaram intrigados. – Vou continuar, aguardem. Só quero aproveitar a oportunidade para dizer a vocês, que as músicas, canções tudo que existe é belo. Sabendo cantar e sabendo ouvir. Se um dia vocês ouvirem uma musica clássica, ou mesmo uma ópera em um lugar qualquer sei que não irão gostar. Mas se assistirem a um conserto de uma Orquestra sinfônica ao vivo, ou mesmo a uma ópera em um teatro tenho certeza que irão adorar. A Musica para se gostar tem de ter sentimento. Existem músicas e músicas para cada momento da vida. As clássicas relaxam e fazem sonhar, musicas de trilhas sonoras são lindas. As românticas para quando se tem um grande amor. Temos, continuou ele – Que aprender tudo que possamos absorver. As músicas de hoje cantadas ou não desde que não tenham segundas intenções em suas letras, são válidas. Mas existem outras e um Escoteiro deve estar preparado para descobrir, ouvir e sonhar com todas elas. Não é o barulho estridente da música que nos toca o coração. Ouvir boa música faz parte de nós escoteiros que vivemos nas montanhas acampando.

          Era assim o Chefe Falcão Maltês. Dizia sempre que podia que o Escoteiro é um cavalheiro, um fidalgo. – Lembram-se do que diziam da mulher de César? Assim somos nós, ele dizia. Não basta mostrar que somos, temos que se portar como tal. – Que tal dar a vez a um amigo? Abrir a porta para ele? Que tal dividir o doce, o farnel, seu cobertor, que tal dividir sua alegria, sua felicidade com quem não a tem? – Chefe Falcão Maltês deixou saudades. Sempre acreditei que todos nós chefes escoteiros devemos ser uma espécie de Chefe Falcão Maltês. Alguns dos nossos jovens precisam aprender boas maneiras. Claro, é função dos pais. Mas não estamos ali para colaborar? – Um dia ele me disse – Chefe Osvaldo, hoje muitos se apegam a entender o jovem como ele é e a justificar. Certo isto. Mas existem normas, direitos e deveres que são sagrados. Um pai nunca vai dizer ao filho se ele quer ir escola, se ele quer sentar a mesa para as refeições ou se ele pode escolher a hora para dormir. Isto faz parte da família. É sagrado. Temos de ser assim.

             Entendi perfeitamente seu recado. Não é porque os tempos mudaram que as boas maneiras, a educação, o cavalheirismo deve deixar de existir. O respeito aos mais velhos, o respeito ao meio ambiente, o respeito com as pessoas, o direito de um e o de outro nunca devem ser olvidados. Seria bom, seria bom mesmo que existem muitos chefes Falcão Maltês por aí. Acho que tem muitos jovens que se chamam de escoteiros e escoteiras que poderiam ouvir suas palavras e aprender.

               Já faz anos que não vi mais o Chefe Falcão Maltês. Soube que ele resolveu abrir um Grupo Escoteiro nos garimpos do Suriname. Um país perdido nas fronteiras do Brasil com a Guiana Francesa. Porque a escolha? Ninguém me disse. Quem sabe ele seria lá um novo Cavaleiro da Tavola Redonda? Quem sabe um Sir Lancelot filho do rei Ban de Benwick e da rainha Elaine? Afinal ele foi primeiro cavaleiro promessado pelo rei Arthur e nunca falhou em gentileza, cortesia e coragem. O Chefe Falcão Maltês não teve uma armadura de aço mas tinha um coração eorme. Acho que ele foi para aquelas paragens para dizer aqueles garimpeiros rústicos que não existe hora e nem lugar para ser educado e ter honra. Que ele seja feliz. Ensinou-me muito. Tem chefes que são e tem outros que dizem ser. Eu até hoje ainda não me situei. Que Deus me ajude a cumprir minha missão, claro se eu tiver uma para cumprir. 

       

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Você pode escolher se quiser o caminho da felicidade.



Conversa ao pé do fogo.
Você pode escolher se quiser o caminho da felicidade.

Ei rapaz, você mesmo, para onde vai? Está não é a estrada certa. Procure outra. Quem sabe aquela que ficou lá atrás, pois tinha flores azuis e amarelas na entrada do bosque florido. Não percebestes? Era lá que você devia olhar e quem sabe encontrar o que procuras. Eu vi na curva do caminho centenas de jovens sorrindo. Notou que eles brincavam de gente grande? Viu como eles eram solícitos quando perguntas-te se eles gostavam do que faziam? Sei que você gostou deles e porque não permaneceu lá? Todos insistiram para você ficar. Não se lembras daquele pequenino que lhe deu um aperto de mão esquerda e disse que ali morava a felicidade eterna? Então porque titubeaste? Porque não aceitou o convite feito de forma alegre e fraterna? Eles são assim, divertidos, amigos de todos e irmão daqueles que estão com eles nas veredas do bom caminho. Sabe quem são? Não sabe? Eles são Escoteiros, entusiastas joviais briosos brasileiros que vão se tornar homens brincando de aventuras.

Volte! Não siga nesta trilha que está cheia de espinhos. Ela não vai levar você a lugar nenhum. Não acredite que os outros que vais encontrar serão seus amigos. Eles estão perdidos como você. Eles não pensam mais, são mortos vivos a vagar por aí. Esqueceram seu passado, suas vidas seus sonhos. Eles não sonham mais. Sentam em qualquer lugar onde alguém lhe oferece o néctar do veneno que mata. Você não pode desejar isto. Ainda tens tempo. É só voltar nas passadas do tempo. Lembre-se daqueles que te amam, que desejam seu retorno. Eles imploram seu retorno. Volte, não fique na duvida. Você tem ainda vastos caminhos a percorrer. Não peço para acreditar no criador. Muitos que estão aí com você hoje duvidam que ele exista. Mas cada um tem o direito de criar seu próprio destino e você não precisa criar um onde um dia irá ver só a escuridão, quem sabe um raio solto no céu mostrando o lamaçal onde irás viver. Isto seria vida? Não escolha este caminho. Não é um bom caminho.

Volte! Procure a serra do amor perfeito. Encontre outros amigos, aqueles do sorriso franco, do abraço sincero, aqueles que te dizem para cantar com eles o Rataplã. Abriram-lhe uma vaga na patrulha da felicidade. Deixarão para você uma flor de lis para lhe indicar o caminho. Deixarão você um dia escolher se quer ou não ser mais um destes milhões de jovens amigos que o mundo abraçou. Sei que se tentar vai gostar. Vais sentir o cheiro da terra, do capim molhado, do doce cantar do riacho cristalino, onde na cascata da nevoa branca as borboletas dançam e cantam nas ondas que o vento sopra sobre elas. Encontre o novo mundo, um mundo de jovens que querem o seu bem. Vá com eles. Suba nas mais altas árvores, escale a montanha da alegria e volte depois para os seus que com os olhos cheios de lágrimas pois eles o receberão de braços abertos.

Escute por favor o chamado dos Escoteiros que insistem que você seja mais um deles. Abandone esta estrada que não tem fim. Abrace com eles a felicidade, a sede da aventura, a vontade de ser mais um, de ter amigos, de saber que agora tem com quem contar. Escotismo é isto. Um caminho certo para que você um dia possa orgulhar do seu caráter. Onde todos dirão que você é um homem de honra e não importam o que digam mais, importa sim o que você vai sentir no seu coração. E como diz o velho poema: Quem afinal se anima a escalar das serranias as alturas? Quem são aqueles que uma bandeira arvora nas asas da imaginação? Contemplais e vereis, são jovens Escoteiros, entusiastas, joviais briosos brasileiros que lá vão brincar ao léu de uma aventura.

“Já viste por acaso, a luz das madrugadas,
Uns veleiros azuis singrando mar afora,
Ou em marcha, a cantar patriótica toada,
Um grupo que na serra alcantilada
Em plena mata acampa e uma bandeira arvora?

Desta flotilha azul quem são os marinheiros,
Que se animam a escalar as serranias e alturas?
Contemplais que vereis, são jovens Escoteiros,
Entusiastas, joviais briosos brasileiros

“Que lá vão brincar ao léu de uma aventura”

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Minha incrível e saudosa Cascavel da pele vermelha.


Crônicas de um Chefe Escoteiro.
Minha incrível e saudosa Cascavel da pele vermelha.

        Não se enganem. Foi mesmo uma grande amiga. Não falo do ser humano, por favor! Falo de uma cascavel que morava nas Colinas do Pastor. Acho que foi em um inverno rigoroso que a conheci. Foi assim subitamente e não esperava. Andando na mata espessa fiquei preso com o pé direito entre dois galhos secos. Tentava sair e não conseguia. Não era longe do nosso campo de patrulha. Porque saí só? Quer saber mesmo? Fui procurar um lugar mais calmo para falar com o Miguel. Risos. Acho que vocês sabem quem é o Miguel e não dá para levar companhia. Estava eu lá olhando a folhagem de uma bela Aroeira Pimenteira, enorme, parecendo ter mais de duzentos anos de idade quando ouvi o chocalho. Nem deu tempo para fazer os “entretantos”. Sabia que o chocalhar de um chocalho é pernas para quem vos quero. Não deu outra dois passos e fiquei preso com o pé direito e o esquerdo ali se oferecendo para uma mordidinha que iria me fazer feliz para sempre lá no céu.

         Eu sabia que muitos falam mal das cobras. Dizem que são animais traiçoeiros e devemos ter o máximo de cuidado. Eu nunca tive medo delas. Sabia que só nos atacam quando se sentem ameaçadas ou algum infeliz pisa em cima delas. Até aquele dia tinha visto inúmeras Cascáveis. Nossa patrulha tinha um convenio com o Instituto Butantã em São Paulo. Eles nos mandavam as caixas de madeiras apropriadas e era só entregar ao Chefe da Estação da Vitória Minas e ele enviava. Em troca nos mandavam soro antiofídico que era doado para o hospital local. A Cascavel sempre foi a mais temida. Seu chocalho arrepiava os mais valentes dos Escoteiros e até o Zé Morto Vivo quase morreu quando foi picado e olhe, estava com um trinta e oito, um fuzil Mauser, duas facas e dois punhais. Não morreu, pois o humilde Zé Morto Vivo tinha uma reza “braba”. Portanto vamos dar um crédito as Cascavéis. Elas avisam e muito. Só um idiota e um imbecil não foge do seu chocalho.

       Falando em chocalho dizem que a gente pode saber quantos anos ela tem. Comentam a boca pequena que cada anel, ou melhor, cada guizo é formado quando ela troca de pele. A pele sai no sentido da cabeça para a cauda e ai, uma parte fica presa formando um dos anéis. Comentam também que a vida útil (ou inútil para quem já foi mordido e não foi desta para melhor) troca de pele três ou quatros vezes por ano. Portanto uma cobra com nove anéis no chocalho tem provavelmente entre dois e três anos. Mas vamos com a história da minha querida Cascavel da Pele Vermelha. Ela sim já me avisara que estava ali. Que eu me mandasse rápido pela trilha que tinha vindo. Mas o pé direito preso e ainda colocando as calças no lugar certo só me cabia rezar. Foi então que um Sapinho-cururu passou por mim e não viu a linda cascavel de bote armado. Bela refeição ela comeu.

         A cobra se esticou toda. O pobre do sapinho tentava mesmo vivo sair da barriga dela. Não conseguia. Fiquei com pena do sapinho. Tão miudinho e servindo de lauta refeição para Dona Cascavel. Consegui me desvencilhar e me mandei dali. Uma hora depois vi de novo a Cascavel da pele vermelha na porta do nosso campo de patrulha. Todos gritaram – Mata! Mata! E só vi o tripé de bastões balançar e servir aos valentes patrulheiros. Ela é claro deu no pé ou no rabo não sei. Passou meia hora e lá estava ela de novo a me olhar. Não olhava para nenhum dos big boys Scouts, só para mim. Caramba, pensei. Será que se apaixonou? Eu namorar uma Cascavel? Eis que neste interim vai a passos de tartaruga uma grande e deliciosa lesma. Pluf! Uma bocada e lá foi a lesminha para o fundo do poço da Cascavel.

           Estava agora entendendo a jogada da Dona Cascavel da pele vermelha. Ela sabia que ao meu lado um lauto almoço sempre aparecia. Fazer o que com sua escolha em me ter como Mestre Cuca Cobreiro? Melhor explicar a patrulha e deixá-la vaguear pelo campo. Ela não ia morder ninguém. Foi à conta. A Cascavel da pele vermelha virou o xodó da patrulha. Alguns até brincavam de pique esconde com ela. Boca Larga subiu em uma arvore e gritou – Você não me pega! Você não me pega! Coitado, só viu quando a Cascavel da pele vermelha começou a se enroscar no troco e ele pulou de uma altura de mais de dez metros. Nada demais. Apenas uma luxação que nós grandes socorristas que éramos o tratamos melhores que os médicos importados do estrangeiro.

          Durante os quatro dias de campo nossa amiga permaneceu lá. Quando fazíamos o sinal Escoteiro para ela, em troca balançava seu chocalho. No último dia vi que ela tinha engordado e já nem ligava mais para os girinos, sapinhos e outros bichos e insetos e só queria dormitar na minha barraca. Ficava lá horas e horas e até acostumei com ela à noite dormindo no pé da minha cama. Isto mesmo. Uma cama! Naquela época sempre fazíamos uma para nós. Época boa, bom recordar. Mas enfim, o último dia chegou. Formada a patrulha em frente onde estava arvorada a bandeira, chegou a hora do adeus. – Lobos! A Bandeira em saudação! No pé da arvore onde estava arvorada a bandeira a Cascavel da pele vermelha acompanhava a cerimonia. Tudo desmontado e já ensacado nas bicicletas era se despedir do local e se mandar. Seriam mais de vinte e cinco quilômetros a percorrer. Saindo às cinco da tarde no mais tardar às oito da noite estaríamos em casa.

           Olhei para trás e vi a Cascavel tentando nos acompanhar. Não deu. Pegamos uma descida que dava para fazer até cinquenta quilômetros por hora. Nem lembrava mais da Cascavel da pele vermelha e na segunda quando voltava da escola uma surpresa. No portão da minha casa lá estava a minha querida amiga a Cascavel da Pele vermelha. Como ela achou a minha casa não sei explicar. Expliquei a mamãe e ao papai como ela era. Minhas duas irmãs sorriram. Para dizer a verdade nunca dei alimentação para ela. Morou conosco por muitos anos. Seu Zé Carapinha nosso vizinho foi quem comentou que outra cascavel estava junto a ela. Partiram em um domingo de verão. Tempos depois passei a receber a visita dela e seus novos familiares. Uma dezena de cascáveis ali na porta de casa chocalhando como se estivessem nos cumprimentando. Fizeram isto por muitos anos até que nunca mais a vi. Por onde anda? Se estiver aqui no bairro é melhor esquecer. Todos tem medo dela. Se alguém a visse enquanto não a mandasse para a terra das Cobras Mortas não ficaria satisfeito.


          Cobras. E quem tem medo delas? Eu nunca tive. Sabia como evitar, como pegar, como correr mesmo com as calças na mão saindo em disparada do Miguel. Faz parte da vida de nós Escoteiros acampadores. De vez em quando sonho com ela, trocando a pele, engolindo um sapinho que gemia para sair de sua barriga. Sonho bobo não? É de vez em quando sinto saudade da minha amiga a Cascavel da pele vermelha. Que onde estiver que esteja feliz e que viva para sempre se é que não se reencarnou novamente. Risos!

domingo, 6 de outubro de 2013

Açu Pintassilgo, o Jacaré chorão do Lago Ness.



Lendas escoteiras
Açu Pintassilgo, o Jacaré chorão do Lago Ness.

       Ele não era um jacaré comum. Nunca foi. Não se enturmava. Morava na beira do Lago Ness. Não saia dali para nada a não ser um mergulho ou outro. Achou próximo aos coqueiros uma enorme pedra. Seu local preferido. Metade da pedra afundava na água escura e ele ali ficava o dia inteiro.  Metade fora d’água e a outra dentro d’água. Seus pais disseram que ele era um legítimo Jacaré-Açu, uma linhagem de muitos e muitos anos. Açu Pintasslgo nunca se importou com isto. Um dia um Escoteiro sentou ao seu lado e conversa vai conversa vem ele disse – Açu Pintassilgo, você sabe o que significa Jacaré para os homens? Dizem que seu nome deriva dos tupi-guaranis, Iakaré ou Yacaré, aquele do olho torto, encurvado e que vê pelos lados. Açu Pintassilgo não achou graça. Olhou para o Escoteiro e disse: E daí? Eu tenho orgulho da minha linhagem. Tanto orgulho que aprendi a ser amigo de todos. Você me conhece bem, sempre fui um cavalheiro com todos os Escoteiros e escoteiras.

        O Escoteiro não disse mais nada. Poderia ter dito que ele era o maior chorão do Lago Ness. Poderia ter dito que ele era motivo de piada para todos na patrulha. Poderia ter dito que nos fogos de conselhos era falar nele e todos morriam de rir. Mas o Escoteiro era leal. Não ia desfazer do Açu Pintassilgo. Isto não. Só que nenhum Escoteiro sabia que lágrimas de jacarés são falsas. Conta uma lenda que seus bisavós os crocodilos quando iam comer uma presa, eles engoliam sem mastigar. Assis para abrir a mandíbula ele precisava comprimir a glândula lacrimal e elas abertas começavam a lacrimejar. As lagrimas lubrificam o olho. Mas Açu Pintassilgo gostava de ver os outros dizer que ele era um Jacaré Chorão.

        Não tenho certeza, mas acredito que foi no verão passado que apareceu nadando uma linda Jacaré. Açu Pintassilgo apaixonou só de olhar. Amor à primeira vista. Naná Verdes Mares olhou Açu Pintassilgo e nem prestou atenção. Foi nadando e ao passar por ele deu um sorrisinho maroto. Açu Pintassilgo pulou na água e quando a procurou viu que ela sumiu. Agora Açu chorava mesmo. Perdeu seu amor e não sabia como fazer. O Escoteiro a tarde apareceu e ouviu sua história. Deixe comigo Açu, você sabe, vou espalhar aos quatros ventos do Lago Ness. Vamos encontrar sua amada custe e o que custar. Dizem que quem tem boca vai a Roma. Sei não. Meu fogão tem quatro bocas e nunca saiu da cozinha. Risos. Durante cinco dias os Escoteiros rodaram céus e terra atrás da amada de Açu Pintassilgo. Até duas patrulhas de Escoteiros do Mar vieram ajudar com seus botes.

          Foi uma luta, mas como os Escoteiros não desistem fácil eles encontraram Nana Verdes Mares tomando sol na Praia do Paco-Paco. Orelhudo era um Escoteiro calmo. Sabia conversar e nunca perdia a “fleuma”. Chegou devagar onde estava Nana Verdes Mares. Ela com seu olhar sonhador fixou Orelhudo e pensou – Que diabos este Escoteiro quer de mim? – Orelhudo não se fez de rogado. Contou tudo devagar, elogiando Açu Pintassilgo, dizendo que era um ótimo partido e ela seria feliz com ele para sempre. Nana Verdes Mares riu. – Olhe Orelhudo, eu já tenho namorado. Ele passa luas e luas sem me procurar e assim fica difícil para começar tudo de novo com outro. Você sabe que as femeas jacarés são as mais fieis que existem entre os repteis. Se vocês acham que podem ajudar procurem Dente Grande o meu amado e digam para ele o que pretendem. – Orelhudo pensou e pensou. Agora a barra pesou. Se o cara-jacaré tem dente grande o melhor é saltar de banda.

           Orelhudo contou para a tropa o que aconteceu. Infelizmente Açu Pintassilgo ficaria solteiro por muito tempo. Neneco Risadinha deu uma opinião. Somos vinte e oito e o tal de Dente Grande é só um. Quem sabe poderemos chamá-lo e fazer um acordo? Assim era Neneco Risadinha e logo contou mais uma de suas piadas – Amigos! Porque o Jacaré tirou o jacarezinho da escola? E rindo respondeu – Porque ele “réptil” de ano. E riu a valer. A tropa de Escoteiros percorreu todos os cantos do Lago Ness e deixou um aviso para Dente Grande. – Cinco Jacarés vindo do Japão estavam à procura dele. Souberam que ele era valentão e precisavam de um Jacaré durão para uma luta de Sumô de vida ou morte. Quando Dente Grande soube disto atravessou dois continentes até o Japão. Lutar era com ele. Mas um navio pesqueiro japonês o viu e o confundiu com uma orca negra. Dito e feito. Dente Grande foi pescado e dizem que hoje é o prato mais delicioso nos restaurantes japoneses. Eles acharam o Sushi de jacaré o melhor do mundo.

            Agora Nana Verdes Mares estava livre. Açu Pintassilgo deitou a correr sobre as águas do lago Ness até onde ela estava. Fez à corte, ela aceitou. Casaram-se e no dia do casamento Toda a Tropa Escoteira presente. Milhares e milhares de peixes, jacarés, crocodilos e centenas de passados enormes. Palmas, foguetes e a festa durou uma semana. Até o Monstro do Lago Ness esteve presente. Bonachão ria a valer das piadas de Neneco Risadinha. A que ele mais gostou foi a do peixe que estava nadando no mar e de repente veio uma onda tão forte que ele morreu afogado! E o monstro do Lago Ness riu a valer e riu mais quando Risadinha contou que conheceu uma loira e ela estava brava, muito brava com um peixe. De repente ela berrou para o peixe – Seu peixe desgraçado! Você vai ver! Vou afogar você!


            Bem apenas uma lenda e não dizem que lenda é lenda? Mas me contaram que enquanto durou o casamento de Açu Pintassilgo com Nana Verdes Mares, o lago Ness ficou infestado de jacarezinhos. E por muitos e muitos anos os dois viveram felizes para sempre!

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

A dor sofrida de Tonico Tonelada.



Crônicas de um Chefe Escoteiro.
A dor sofrida de Tonico Tonelada.

                   Foi a pior reunião de Corte de Honra da sua vida. Lawrence pela primeira vez não sabia o que fazer. Tinha orgulho dos seus monitores e sempre achou que os treinou bem. Mostrou sempre o sentido da lealdade, da fraternidade e eles sempre levaram ao pé da letra seus ensinamentos. Era uma tropa exemplar. Nos acampamentos era difícil escolher a melhor patrulha, todas fora de série. Dona Lurdinha Diretora do Colégio Dom Pedro um dia disse a ele que se não fossem os Escoteiros ela nunca teria alcançado o padrão que o Colégio foi agraciado. Para melhorar a formação da tropa ele investiu muito em sí próprio. Cursos e mais cursos. Agora esperava a aprovação da Insígnia da Madeira mais uma etapa que lutou muito por ela, pois na Corte de Honra seus monitores cobraram.

                  - Chefe, disse o Monsanto, quer acabar com a tropa? O senhor sabe que admitir o Tonico Tonelada é acabar com tudo. Eu o conheço da escola, fico com pena, mas ele não tem amigos. Não pode correr, quase não consegue falar e andar. Quando tenta sorrir faz uma careta que dá medo. – Isto mesmo Chefe, disse o Logaritmo Monitor da Leão, se o senhor quiser tudo bem, ele pode ficar na minha patrulha, mas os demais patrulheiros não irão gostar. Garanto que muitos vão desistir. A patrulha não vai mais ganhar pontos em jogos, em acampamentos, em desafios e ninguém gosta de perder. Tonico Tonelada Chefe irá “enterrar” qualquer patrulha que entrar. – Chefe Lawrence não sabia o que dizer. Cada Monitor expos seu ponto der vista. Estava presente na Corte de Honra os sub. monitores. Disseram o mesmo. Ele tentou, não forçou, nunca fez isto. Para ele a Corte de Honra era sagrada. Sabia que quando começasse a ficar contra em tudo a democracia deixaria de existir na Tropa Escoteira.     

                   Dizem que os gordos não gostam. Odeiam ser gordos. Quantos e quantos meninos gordos estão aí querendo ser Escoteiros e tem vergonha de entrar? Sei que tem muitos que deram um passo e hoje participam ativamente. Ativamente? Bem esta é outra história. Seu nome era Laurindo Boaventura. Ninguém sabia seu nome, pois desde que conseguiu dar seus primeiros passos aos três anos puseram o apelido nele de Tonico Tonelada. Acho que foi o Chinfrim, seu tio. Um “bebum” para ninguém botar defeito. Bebia o dia inteiro. Que eu saiba nunca ficou sóbrio, mas coitado dele, morreu de cirrose com 28 anos. Tonico Tonelada nunca se preocupou com o apelido. Ele sabia que era gordo mesmo e até na escola seu pai fez uma cadeira especial para ele frequentar as aulas. Aos sete anos ele pesava mais de 130 quilos. Incrível como conseguia andar. Os pais de Tonico Tonelada tentaram tudo. Oito SPA, internações em clínicas especializadas, Conseguiu ficar um mês e meio no CCA (Comedores Compulsivos Anônimos), mas logo desistiu.

                      O Doutor Cazuza aconselhou – Olhem precisam procurar uma organização de jovens para motivá-lo. Sem isto ele não vive muito tempo. Tem de comer menos, se não perder pelo menos 40 quilos breve ele não anda mais. – Qual doutor? Perguntou dona Matilde sua mãe. – Não sei Jiu jitsu, Luta livre, boxe ou quem sabe o Sumô? – Assim o fizeram. Não ficou duas semanas em nenhum deles. Sem saber o que fazer uma vizinha disse – Porque não procura os Escoteiros? Sei que eles recebem bem todo mundo, quem sabe ele se anima e nas excursões e acampamentos ele emagrece. Meu sobrinho é um deles e diz que nos acampamento o Escoteiro cozinheiro é mestre de colocar açúcar na comida. Piada de mau gosto, mas mesmo assim eles levaram Tonico Tonelada ao Grupo.

                  Chefe Marcelio ouviu tudo o que os pais diziam. Eles contaram toda a vida de Tonico Tonelada, os médicos, os conselhos e agora sabiam que a vida dele estava por um fio. Tinha de emagrecer. – Senhor Natal, disse o Chefe Marcelio, sei que é uma situação difícil, mas veja nossa situação – Durante uma hora o Chefe Marcelio narrou como era às atividades escoteiras, as excursões, os acampamentos e no final perguntou – E então? Ele não vai aguentar? Quem sabe a emenda pode ficar pior que o soneto? Muitos irão sair porque sabem que ele vai ser sempre um perdedor. Chefe Marcelio não queria dizer isto e se arrependeu. Fez então uma promessa – Olhe, vou conversar com os chefes. Eles claro irão discutir com seus monitores e o que decidirem comunico ao senhor e a senhora.

                  Chefe Lawrence ouviu atentamente o Chefe Marcelio. Como era um bom homem não disse nem sim e nem não. Iria analisar e discutir com a tropa e os monitores. Assim foi feito. Agora que todos foram contra ele não sabia o que fazer. Na semana foi fazer uma entrega de sua loja na Rua do Ouvidor e ao descer da Van viu Tonico Tonelada atravessando a rua. Motoristas passando e xingando – Paspalho! Cuidado. Vai sujar meu carro de merda se eu passar em cima de você seu gordo dos invernos! Ficou com pena. Pensou consigo que ele devia ter seus direitos. Era um ser humano. Conversou com Toninha sua esposa. Ela aconselhou a ele estudar tudo sobre os gordos na internet e os que conseguiram vencer sua doença, pois ele sabia que era assim. Duas semanas, pelo menos uma hora por dia até que conseguiu o endereço de cinco deles. Foi até a casa de cada um.

                  Era o primeiro dia de reunião de Tonico Tonelada. A Tropa sabendo que ele queria entrar pediu para votarem. A votação foi de 15 a favor e 13 contra. Todos prometeram ajudar por seis meses e se ele não mostrasse resultados infelizmente seria dispensado. Para isto fizeram uma programação especial para ele não se sentir um pária. Dependia dele ser um Escoteiro ou não. Ele assinou um compromisso de honra. Fez a saudação escoteira e prometeu fazer tudo que os médicos aconselharam para perder peso. Quer ser Escoteiro? Se acha que quer tem de se esforçar. Disse Pintarroxa o Monitor da Falcão onde ele iria ficar.  Cada patrulha fazia questão de acompanhar. Na escola era olhado por seus amigos de classe e em casa recebia visitas uma vez por dia. Não foi fácil e ele sentia fome, sentia tremedeira e chorou muitas vezes. Mas no primeiro mês perdeu oito quilos. Em seis meses Tonico Tonelada passou dos seus 120 quilos para 85. Ainda era muito. Ele tinha de chegar nos 60 quilos. Difícil? Para Tonico Tonelada não. Quando ele conheceu os Escoteiros ele sabia que ali compromissos não eram para fugir. Escoteiros enfrentam desafios e não correm deles. Viu que tinham um código de honra e ele gostava disto. O Chefe Lawrence no primeiro dia disse a ele – Tonico é melhor ficar sabendo agora, qualquer um pode entrar como Escoteiro, mas ser Escoteiro não é para qualquer um!


                  A cidade aplaudiu, o colégio agradeceu e os Escoteiros do Brasil agora tinham em seu seio um verdadeiro jovem cujo Espírito Escoteiro era ponto de honra. Uma lei é para ser cumprida, uma promessa era para ser levada a sério. Tonico Tonelada conseguiu vencer. Ainda bem que os Escoteiros não fugiram na hora do apoio.  É meus jovens amigos, afinal não foi Baden-Powell quem disse que só os valentes entre os valentes se saúdam com a mão esquerda?