No mundo dos sonhos com as fábulas escoteiras

No mundo dos sonhos com as fábulas escoteiras
A aventura está apenas começando

domingo, 24 de março de 2013

Pigmor, o castor manco do lago Grande Urso.



Só existe uma coisa importante em nossas vidas: viver a nossa lenda pessoal,
a missão que nos foi destinada. Mas sempre terminamos nos sobrecarregando
de ocupações inúteis, que acabam por destruir nossos sonhos (Maktub).

Lendas escoteiras.
Pigmor, o castor manco do lago Grande Urso.

“Terra do belo Olmeiro, lar do castor,
Lá onde o alce airoso, é Senhor,
Em um lago azul rochoso, eu voltarei de novo”!

                Era uma linda tarde de outono, mas Lisabel estava cansada. Afinal não era para menos. Quinze lobinhos ali soltos naquele sitio e só ela como responsável daria dor de cabeça em qualquer um. Lorraine e Javier na última hora disseram que só poderiam chegar no sábado à noite. Desmarcar o Acantonamento era impossível. Tudo tinha sido preparado. E lá foi Lisabel a enfrentar o desafio. Chegaram e logo arrancharam no Sitio Mimoso. Quinze lobos? Meu Deus, agora pareciam cem! Lisabel gritava chamando e logo eles corriam para todo lado. Conseguiu uma árvore próxima a casa e lá arvorou a Bandeira Nacional. Tinha no programa um estoque de jogos, brincadeiras, canções tudo que uma boa atividade deste porte requer. Mas não estava sendo fácil. Não mesmo. Ainda bem que dona Mercês mãe do Gustavo foi para a cozinha. Ela dava mais trabalho que seu filho. Queria ficar junto dele para protegê-lo, enfim uma mãe super-protetora.

              Após o almoço Lisabel reuniu os lobos e foram até próximo a um pequeno lago, e ao pé de um lindo Cajueiro, sentaram. Os lobinhos inquietos. Alguma coisa fazia ondas sobre as águas do lago. Lisabel não acreditou. Era um castor que logo mergulhou. Isto mesmo. Só se o proprietário do sitio o tivesse levado. Não havia no Brasil. Ela começou a cantar com eles uma canção. “A promessa de Mowgly”. Fizeram um jogo de faz de conta. Viu que a tarde se aproximava. Ainda bem. Logo seus assistentes chegariam e ela poderia descansar. Uma forte dor de cabeça. Os lobos sentaram em sua volta. Ia começar a contar uma história. Não lembrava. Assustou-se ao olhar novamente para o lago, parecia emergir de dentro das águas um velho com um chapéu e uma indumentária típica dos grandes caçadores de peles do passado. Um verdadeiro Mountain Men, ou melhor, um homem da montanha! Sorria, deu um olá simpático, chamou a atenção dos lobos. Eram seis meninas e nove meninos.

               - Sabem! Disse ele. Faz tempo que não vejo um Cub Scout. Quantas saudades! – O que é um CubScout logo perguntou uma lobinha. – Meninos lobinhos como vocês. – Lisabel ficou impressionada e assustada com ele. Uma figura imponente. Um cajado lindo. – Posso? Ele perguntou a Lisabel se poderia sentar com eles ali. – Claro que sim ela respondeu. – Por acaso viram um castorzinho deslizando há poucos instantes sobre o lago? Não? Vocês já ouviram falar de Pigmor, o castor manco do lago Grande Urso? – Também não? - Não Senhor responderam todos. - Querem conhecer sua história? Palmas e gritos. A lobada gostava de uma boa historia. – Bem vou contar, mas é uma historia triste, muito triste. Faz tempo, muito tempo quando conheci o John, ou melhor, o John Colter. Um pioneiro e um dos primeiros caçadores de pele a ser chamado de “homem da montanha”. Ficamos amigos em St. Louis uma cidade americana, lá pelos idos de 1807. Com ele fizemos uma serie de expedições até o rio Missouri para caçar castores e tirar suas peles.

               Os lobinhos assustaram-se. – Calma, foi em um passado muito distante. Nós vivíamos disto. Chegamos até a montar uma empresa de nome Rocky Mountan Fur só para vender as peles que conseguíamos caçar. - Mas vamos ao que interessa. Eu e o velho John rodamos meio mundo. Das Montanhas Rochosas até os grandes lagos de Michigan, Huron, Erie e Ontário. Diziam que eu e o John só caçávamos peles dos castores, mas não era verdade. Amávamos explorar o Velho Oeste americano. Nunca esqueci quando conheci Pigmor, o castor manco. Para ser sincero eu e o meu amigo chegamos às margens do Lago Grande Urso numa tarde de novembro. Eu nunca tinha ido ali e nem ele. O frio intenso, pois nevava a mais de seis dias. Montamos uma pequena cabana e quando ascendi o fogo vi um castozinho chegando e mancando. Assustei, pois sabia que eram ariscos e não se aproximavam. Sabia que ele e seus companheiros formavam uma colônia deviam ter um dique no fundo do lago. Nunca andavam sozinhos. Nós sabíamos que enquanto não passasse a nevasca nunca poderíamos caçá-los.

              - Olhei para o John e disse rindo: Não parece o Pigmor aquele velho caçador de ouro que morreu em Blue River Valley? Coitado. Achou que a riqueza fácil seria dele ali na região das Montanhas Rochosas. Morreu abraçado a um grande urso que encontrou na caverna do Mandor. Belas lembranças da famosa corrida do ouro em Breckenridge. Mas voltemos a historia. Vi que vocês querem saber tudo! Pigmor chegou até próximo ao fogo. Achamos ele diferente. Logo batizamos com o nome do meu amigo já falecido. Eu e o John ficamos calados. Não valia a pena dar um tiro ou mesmo matá-lo com um facão. Era raquítico, pequeno e descarnado. Seus olhos pareciam vermelhos e sentia que chorava por dentro. Ficou ali horas aproveitando o calor do fogo. Foi quando levamos o maior susto. Pigmor de cabeça baixa, deitado bem próximo à fogueira soluçou várias vezes. Começou a contar uma historia estranha. Isto mesmo, Pigmor estava falando. Como não sei. Castor falante? Nunca ouvi falar.

              Lisabel não estava acreditando no que via. Um velho curtido, uma capa estranha, botas de pele de urso, um lenço azul amarrado ao pescoço e um boné de peles de castores, de cócoras no meio do circulo, contava aquela história de uma maneira tão linda que até ela mesmo estava sendo encantada pelas palavras daquele velho caçador de peles. Notou que em nenhum momento os lobinhos tiravam os olhos dele. Sua dor de cabeça e seu cansaço havia desaparecido. – O Velho caçador continuou – Isto mesmo. Pigmor contava uma história muito triste, que aconteceu uma semana antes. Ainda não estava nevando e ele e seus irmãos da Colônia tinham terminado o dique onde iriam passar o inverno e aconteceu uma matança. Dois homens chegaram atirando. Pigmor correu para uns arbustos, mas levou um tiro na perna direita. Seu pai e sua mãe morreram na hora. Viu que somente Nakim, Molevo, Pariá e Jasmiel tinham se salvado pulando nas águas geladas do lago. Os dois homens jogaram uma banana de dinamite e quase destruíram o dique. Os quatro castores escondidos lá ficaram presos.

                  - Pigmor levantou a cabeça e me olhou dentro dos meus olhos. Depois olhou para John e continuou – Mergulhei até lá, estavam presos em uma toca sem poder sair. Tentei tudo. Jasmiel a Castora que seria minha esposa estava quase morta. Não sabia o que fazer. Melhor morrer com eles. Subi a tona e vi vocês. Acreditei que iam atirar em mim. Podem atirar. Eles irão morrer e eu quero morrer com eles. Iremos nos encontrar nas Grandes Tocas do Navarra onde se encontram os nossos ancestrais. – Pigmor se calou. Só ouvia soluços. Olhem não sei o que deu em meu amigo John. Não sabia que ele um dia poderia gostar de bichos, animais, ou seja, lá o que for. Mas mesmo naquela nevasca, escuro feito breu, o frio de rachar ele tirou a roupa e mergulhou nas águas profundas do lago. Passaram-se segundos e minutos. Nada do John vir à tona. “Diabos” pensei, será que ele morreu? A água estava um gelo! – Eis que os primeiros castores apareceram e logo em seguida o John com um castor no colo que julguei ser Jasmiel, a namorada de Pigmor.

                       Todos eles correram para a beira do fogo. Olhe eu juro pelas barbas do Coyote mais arisco de Yellowstone, pelas corcundas de um Bufallo das pradarias próximas a Little Bighorn em Montana que é verdade. Ficaram dois dias conosco. Pigmor e os seus irmãos mergulhavam de vez em quando para consertar sua toca no dique do lago. Uma semana depois Pigmor deu adeus. Hora de partir. Mergulharam na água do lago Grande Urso e sumiram. Nunca mais voltei lá. Disse ao John que minha vida de caçador peles e de castores tinha se encerrado ali. Ele nada disse. Juntamos nossas tralhas e partimos. Sabíamos que no então Território do Dakota seria feita uma grande corrida do ouro. Em Montana, Arizona, Nevada e Colorado só se falava nisso. Milhares de garimpeiros acorreram. Acampamentos e cidades mineiras surgiam da noite para o dia. Fomos para Black HIlls e ficamos ricos. Um dia John se desentendeu com um fora da lei. Morreu em um duelo em Virginia City. Eu resolvi fazer uma cabana nas montanhas e passar lá o resto de minha vida. Tropecei em um lago ao sul de Sonora. Vi um castor manco. Seria Pigmor? O levei comigo. Estamos juntos até hoje.

                           Ninguém falava nada. Lisabel viu que o velho caçador se levantou, deu um leve sorriso e disse adeus. Foi em direção ao lago. Andando sobre as águas todos notaram cinco castores nadando ao seu lado. Em segundos despareceram no fundo daquele pequeno lago do Sitio Mimoso. Um barulho de carro. Deviam ser Lorraine e Javier chegando. Eles adoravam os lobos. Um grito: - Lobo, lobo, lobo? E os lobinhos como a acreditar que outra linda história estava programada para eles, correram em direção ao Balu e a Bagheera. Lisabel ficou ali. Olhando para as águas do lago, que agora já noitinha uma bruma cinza se espalhava por sobre as águas. – Eu sonhei? Pensou Lisabel. Se sonhei os lobos também sonharam. Mas não é bom sonhar? Com terras altas, montanhas geladas, picos altos e longínquos, grandes lagos, é bom sonhar sonhos como este. Gostaria de ter conhecido Pigmor o castor manco do lago Grande Urso. mas...

“Tenho saudades daqui, destas campinas...
Ao norte eu voltarei, para as colinas,
Em um lago azul rochoso eu voltarei de novo”!


Como na lenda da Águia, que arranca suas penas e bico pra renascer como uma Fênix das cinzas, eu gostaria de perder a memória, me desfazer dos paradigmas, das inseguranças e medos, me perder em mim mesmo e começar do zero! Já que não é possível voltar no tempo, que Deus me de a dádiva do esquecimento.

quinta-feira, 21 de março de 2013

O assombroso Fantasma da sede do Grupo Escoteiro Tapajós. (baseado em um fato real)



Histórias escoteiras.
O assombroso Fantasma da sede do Grupo Escoteiro Tapajós.
(baseado em um fato real)

           Esta historia aconteceu há muito tempo. Lá pelos idos de 1961. Recém-admitido como funcionário da Usiminas conheci mais dois amigos que eram escoteiros em sua cidade de Origem. Carlos e Odair. O primeiro foi Escoteiro da Pátria em Juiz de Fora do Grupo Escoteiro Aimorés do meu grande amigo e falecido Chefe Darcy Malta. O segundo Escoteiro em Muriaé. Tornamo-nos amigos inseparáveis. O escotismo fazia falta. Porque não organizar um grupo? – Surgiu de surpresa. Um amigo de nome Raimundo morava em Senador Melo Viana, na época um distrito de Coronel Fabriciano e acho que ainda é até hoje nos convidou para almoçar em sua casa. Para surpresa o Pároco da Matriz também estava presente. Durante o almoço surgiu à ideia de montar um grupo ali. O Pároco se dispôs a ver as necessidades e providenciar.

             Seis meses depois o Grupo Escoteiro ia de vento em popa. Infelizmente um contratempo aconteceu. O Chefe Odair veio a óbito. Morávamos todos em uma casinha espécie de republica. Uma epopeia levar o falecido em sua cidade. Mas esta é outra historia. Perdemos alem de um grande amigo um excelente corneteiro. Ainda bem que o Grupo Escoteiro cresceu. Tínhamos mais de doze escotistas atuantes e a maiorias já DCBs.  Nossa sede era atrás do cemitério do distrito. Eram três barracões enormes, cujas janelas de fundo davam para toda a área do cemitério. Os três barrocões eram divididos entre as sessões. Um para os lobinhos, um para a tropa e outro para a diretoria e almoxarifado.

             Uma semana após o passamento do Odair o Zé Pontes da diretoria me procurou para avisar que reclamaram com ele da algazarra tremenda que faziam a noite e sempre após a meia noite na sede escoteira. Tocam corneta, bumbos, tambores e taróis Pensei comigo. Só quatro de nós tinham as chaves. Quem seria? – Melhor ir lá para ver. Ir sozinho? Sei que era um homem, durão, Chefe Escoteiro, mas nunca me dei bem com fantasma. Ir lá à meia noite, atravessar uma lateral do cemitério, abrir a porta e entrar e esperar até meia noite para ver a banda tocar estava fora de cogitação. – Carlos vamos nós dois. – Nem pensar, Chame o Zé Pontes, o Nonô ou então o Pároco. Ninguém quis ir. Cada um deu uma desculpa.

            A banda uma ou duas vezes por semana continuava tocando. Escoteiros e lobinhos evitando entrar na sede mesmo durante o dia. A “coisa” estava tomando proporções que poderia prejudicar mesmo a frequência dos meninos. Tinha que ir lá e desmascarar o tal fantasma. Quinta feira, armado de uma boa lanterna esperei dar onze e meia e lá fui. Confesso que tremia um pouco. Ao passar pelo cemitério criei na minha imaginação centenas de fantasmas a me observarem. Onze e cinquenta lá estava eu na porta do almoxarifado. Um silêncio de morte. Juntei todas as minhas formas e entrei. Um “besta” que sou fechei a porta comigo dentro. Porque fiz isto? Não sei. Sentei em uma cadeira em volta de uma escrivania. O silencio era total. Já estava respirando melhor. Acho que não tinha nada. O povo inventa!

               Levantei, acendi a lanterna e passeei com o facho de luz por toda a sala. Maldita sala! Uma corneta estava suspensa no ar. Outra tocou a toda no meu ouvido. Um berro da corneta e um meu. Larguei a lanterna e corri para a porta. Um custo para abrir. Bombo, tambor e corneta tocavam no meu ouvido. Gritava e berrava como um louco. A porta abriu. Sai correndo em desabalada carreira. As calças toda molhada. Senti algum mais que não vou dizer aqui. Fui direto ao Pároco. Ele dormia. O acordei. – O Senhor vai comigo – Chefe Osvaldo é impressão sua. – Vamos lá, não é o homem de Deus? – Lá fomos eu e ele. Vi que ele sorria, queria mostrar uma força que não tinha. Entramos, silencio. Ele me olhou – Tá vendo? Não tem nada. Uma corneta berrou alto no seu ouvido. – Ele gritou – Louvado meu Senhor Jesus Cristo. Me socorre.  Nem me olhou sumiu na porta na minha frente.

                No dia seguinte ele e mais diversos coroinhas e todas as Filhas de Maria, sem contar os Vicentinos lá estavam na sede para exorcizar ou sei lá o que ele fazia. Rezaram, cantaram e foram embora. Acho que deu certo. Os barulhos sumiram. Joguei a calça que usei naquele dia fora. Não dava nem para lavar. Até hoje não sei se foi o espírito do Odair. Ele nunca me disse nada. Uma semana depois fui pegar um guarda chuva em cima do guarda roupa na república que morávamos. Chovia a cântaros. Trovejava. Relâmpagos no céu. Carlos trabalhando de zero hora. (turnos alternados). Estava sozinho em casa. Subi em uma cadeira. Meu Deus! A dentadura do Odair aberta como se estivesse rindo para mim! (ele tinha dentadura). Cai da cadeira estatelado no chão. De novo correndo até o bar do Zaqueu. Melhor ficar ali até as madrugadas tomando umas e outra. Voltar para a casa? Vai ser difícil.

Final: - Um ano depois a convite montamos uma Tropa Escoteira na Paróquia de Coronel Fabriciano a convite do padre local. Hoje Bispo. Don Lara. Grade Chefe! – Sai da Usiminas, passei anos sem voltar lá. Hoje o Tapajós existe em Coronel Fabriciano. Um grande grupo. Orgulho da cidade.
Afinal são histórias. Acreditem se quiserem. Ainda guardo lembranças do Carlos do Odair e de tantos outros. Valeu uma época. Valeu uma vida!

domingo, 17 de março de 2013

Gloria feita de sangue. A última Luta de Manuelito.




Atenção! Se você tem coração fraco, não leia esta história. Pode se emocionar demais.

As mais lindas histórias escoteiras.
Gloria feita de sangue. A última Luta de Manuelito.

                      Não dá para esquecer, foi no último verão de sessenta e um. As chuvas de Santo Inácio que todos esperavam não aconteceram como o previsto e ali, a beira da Lagoa do Lagarto, o fogo de conselho já havia terminado. A escoteirada já se recolhera. Aqui e ali a fogueira ainda se esforçava para mandar aos céus uma ou outra fagulha brilhante. Todos já haviam se recolhido e eu resolvi ficar. Panchito me fazia companhia. Bom amigo. Conhecemos-nos em Aguascalientes no sul do México em cinquenta e oito. Ele já morava no Brasil há vinte anos, mas seus pais residiam nesta cidade e ele a cada cinco anos voltava para fazer uma visita. O motivo porque estava em Aguascalientes fica para outra história. Deitamos a beira da lagoa sobre uma lona leve e admirávamos o vai e vem dos cometas e satélites que giravam em torno da terra a grandes velocidades. Já sentia o orvalho da madrugada se aproximando quando vi que Panchito chorava baixinho. – O que foi? Perguntei. Olhe Chefe, sempre quando me lembro de Manuelito meu coração bate forte.

                      Deixei que ele se acalmasse e foi assim que ele me contou toda a história de Manuelito. – Era um jovem de seus doze anos. Magro, raquítico, tamanho normal para sua idade. Cabelos loiros, olhos negros fundos, nariz afilado estava na tropa havia oito meses. Falava pouco e ficamos amigos. Assim como ele eu também era da Corvo. O Gentil era o Monitor. Ótima pessoa. Tudo começou quando Gentil comentou que na Corte de Honra foi discutido a data do próximo Grande Desafio. Nos últimos três anos sempre foram realizados. Nunca fiquei sabendo como tudo começou. Toda a tropa só comentava a vinda de mais três tropas de cidades vizinhas. Ia ser um espetáculo a parte as disputas naquele ano. Seriam realizadas no Estádio do Azulão Futebol clube, pois no ano anterior houve grande aglomeração de pessoas no campinho de pelada em frente à sede prejudicando em parte a visão de todos. – Não estava entendendo, mas deixei que Panchito continuasse sua narrativa. – Chefe, precisava ver o olhar de Manuelito quando disse que o primeiro lugar ganharia uma Faca Suíça e um Cantil do Exército. Nunca o vi sorrir daquele jeito. – Fiquei com pena. Manuelito não tinha a mínima condição de chegar as finais.

                  - Sabe Chefe quando conto esta história para alguém, dão risadas. – Uma simples briga de galo? – Mas isto se faz em todas as tropas a século! Mas Chefe, conosco era diferente. Havia uma técnica própria. Cheguei a ver em um ano dois contendores ficarem uma hora e meia lutando. Vi tantas lutas que eu mesmo desisti, pois nunca cheguei além do nono lugar. Manuelito não. Perguntou-me a data, como ia ser a seleção e se todos podiam se inscrever. – Disse a ele tudo que perguntou e mais alem, disse também que ele nunca tinha lutado. Pediu-me que mostrasse como se luta. Ficamos uma hora lutando. Ele mal se matinha em pé. Caia sempre. Desistir? Jamais. Manuelito sonhava com a Faca Suíça. Só falava nela. Queria ter uma e sabia que nunca poderia comprar. Uma semana antes da seleção, que seria feita com todas as patrulhas por duplas Manuelito disse que estava preparado.

                     - Chefe, Manuelito estudou tudo. Desenhou. Treinou horas e horas em sua casa a ficar parado ou pulando em um só pé. Suas mãos as costas pareciam aço. Não se soltavam. Sabia fazer com perfeição uma Asa Direita ou esquerda (cotovelos em forma de V). O Joelho do Papagaio aprendeu rápido. Mas era magro, respirava com dificuldade e mesmo assim se mostrou um valente. O primeiro, segundo e terceiro lugar já tinham dono. Neco, Lastimer e Juventino eram os melhores. O quarto lugar foi disputado com galhardia. Manuelito a muito custo conseguiu o quarto lugar. O Chefe Wantuil não acreditava no que via. Ele ficou preocupado. O corpo de Manuelito não foi feito para aquele tipo de luta. Tentou falar com seus pais que sempre arredios não iam à sede. Desistiu e deixou que Manuelito participasse. Arrependeu-se muito depois. O grande dia chegou. Centenas de pessoas já estavam alojadas nas arquibancadas. Poderia jurar que ali no inicio do Grande Desafio tinha mais de três mil pessoas. Os parentes e vizinhos das outras três cidades compareceram em peso.

                       Chico Nonato o comissário distrital abriu a competição. Chamou um a um os dezesseis finalistas gritando alto seus nomes e conquistas escoteiras. Quatro por tropa. Formaram em linha. Todos parrudos, fortões e Manuelito se destacava pela sua magreza. Nas arquibancadas gritavam – Tira o magrelo! Tira o minhoca! Ele de cabeça baixa não se incomodava. Sonhava com a Faca Suíça. Ele sabia que não poderia ficar lutando por muito tempo. Sabia o que tinha internamente e se ele brotasse em seu estomago iria ser levado à boca e aí não ia ser fácil. Seria desqualificado na hora. Isto não poderia acontecer! – Não foi difícil para Manuelito chegar as quartas de finais. Aprendeu e treinou dias e dias a rodopiar com seu Joelho do Papagaio e deixava que os outros pulassem sobre ele. A Joelhada era fatal. Ninguém acreditava no que via. Ficaram quatro competidores finais. Ele ia lutar com um dos campeões do passado. Matusalém era famoso. Quando ele olhou para Manuelito sorriu. – Este está no papo. - Não quer desistir? Perguntou. Uma hora de luta. Sempre Manuelito se esquivando. Manuelito o sentiu no estomago. Deus! Deus meu! Não deixe que suba! Ajude-me. Eu preciso desta Faca Suíça! E meu sonho meu Deus!

                       Ganhou para espanto de todos. Sentiu que suas pernas e suas entranhas não aguentariam a final. Botelho Papa Léguas era o finalista da Tropa de Jaguatiruna. As apostas perdiam a graça. Ninguém apostava em Manuelito. Eram trinta por um e à medida que ele vencia caia. Agora estava em dez por um. Um silêncio enorme e a luta de morte começou. Ambos se estudando. Botelho Papas Léguas não subestimou Manuelito. Se ele chegou até ali é porque era bom. Viu uma brecha, viu os olhos de Manuelito piscando e se fechando. Deu oito saldo longos e pegou Manuelito de jeito com a asa direita. Manuelito conseguiu se esquivar, mas a esquerda roçou com força seu olho direito. Uma dor incrível! Manuelito quase perdeu o equilíbrio. Não iria aguentar outra. O sangue agora estava enchendo sua boca. A hemorragia que seu pai sempre falava estava chegando. Sabia que uma ou duas veias tinham partido. Se não parasse iria morrer.

                        Não podia, não podia parar! Meu Deus me ajude! Dê-me mais uns minutos, daria minha vida para ter esta Faca Escoteira!  Botelho Papa Léguas não sentiu piedade. Ele também queria ser o campeão do torneio. Nunca tinha ganhado. Entrara para o escotismo pelo premio e claro pela fama. Afinal perder para aquele escoteirinho de nada? Raquítico, pequeno, e agora chorando? Sim Manuelito tinha os olhos cheios d’água. A asa esquerda o pegou de jeito entre os olhos. O sangue quente na boca. Firmou os lábios. Tentou engolir. Não deu. Não iria soltar o sangue na grama verde. Seria desqualificado! Pulou uma duas vezes. Fez um sinal para Botelho Papa Léguas como a dizer – Venha moleza! Botelho Papa Léguas não se fez de rogado. Pulando com uma rapidez incrível preparo sua asa direita para liquidar logo esta contenda. Infelizmente ele sabia que Manuelito ia se estatelar no chão. Mas não podia ter pena nem dó e nem piedade. Como dizia sua Avó, jogo é jogado e lambari é pescado.

                        Manuelito viu num relance o que Botelho Papa Léguas ia fazer. Sabia que não podia desviar muito. Se pulasse o sangue ia jorrar de sua boca. Ele sentia mais e mais a pressão do sangue subindo goela acima. Uma dor incrível no cérebro, o corpo tremendo. Esperou. Faca Suíça! Não vou perder você. Deus vai me dar forças! Manuelito esperou até que Botelho Papa Léguas se virasse e novamente usasse a lateral esquerda para lhe bater a toda no seu ombro com a Asa Direita. Quando sentiu o hálito quente da respiração de Botelho Papa Léguas, Manuelito abaixou e levantou de uma vez. Pegou Botelho Papa Léguas desprevenido. Ninguém esperava que ele usasse este truque. Velho conhecido de todos. O vai e vem do corpo subindo e descendo. Botelho Papa Léguas perdeu o equilíbrio. Nas arquibancadas um murmúrio alto. Todos ficaram em pé. Não acreditavam no que viam. Todos só viram Botelho Papa Léguas se esparramar pelo chão. Os apostadores não acreditavam na cena estática que se apresentava. Eram dez por um. Impossível diziam.

                  Manuelito se equilibrou ainda na perna direita por alguns segundos. Suas mãos se soltaram e foram forçadas no ventre como a querer interromper o sangue que agora saia aos borbotões dos seus lábios. Não dava para segurar mais. Rodopiou em si mesmo e caiu esparramado no chão gemendo alto e querendo sorrir. Afinal ele ganhou a luta. A Faca Suíça era sua! O sangue vermelho se misturou ao verde da grama. Um colorido sem graça. Vários chefes acorreram. Viram Manuelito com enorme hemorragia interna. Desmaiado. A morte parecia que ia chegar. Um carro apareceu no campo. Ele foi transportado para o hospital da cidade. Uma semana depois souberam que ainda estava na UTI. Perdera muito sangue. Precisava ir para a Capital. Seus pais choravam, mas não condenaram o filho. Se ele morrer foi porque sabia que seu sonho seria maior que a morte!

                   Seis meses depois em uma tarde de agosto bolorenta, um sol preguiçoso no céu Manuelito apareceu na sede em uma cadeira de rodas uniformizado. A tropa parou espantada. Ele sorria, um sorriso tênue como se o sol ali como ele estivesse esperando para levá-lo. Seu pai estava junto. Disse que ele insistiu em vir. Queria receber a Faca Suíça dos seus sonhos. O Chefe Wantuil foi até sua casa e voltou com ela. Todo o grupo se formou. Honra ao mérito ao escoteirinho herói. Como bons escoteiros todos prestaram continência em posição de sentido a Manuelito. Pediu que eu entregasse a ele a faca e colocasse no seu cinto do lado direito. Uma honra para mim Chefe! Um Anrê foi dado. Uma explosão de alegria em todos os presentes. Um exemplo para ser lembrado por toda a vida.

                  Manuelito ainda viveu mais um ano. Morreu com treze anos. Só então ficamos sabendo que ele era tuberculoso. Sua família também. Uma época em que a medicina não tinha cura nestes casos.  Seu pai sabia, mas como tantos outros escondiam, pois ele tinha exemplos de pessoas portadoras de tuberculose que foram defenestrados pela sociedade. Eram párias abandonados à própria sorte.  Uma semana antes de morrer, Manuelito me pediu que quando fosse para o Campo Santo, que a Faca Suíça estivesse no cinto, pois queria estar uniformizado. Chefe, meu Deus! Quanta tristeza. Milhares de gente ali em volta da sua ultima morada chorando. Eu Chefe, era o que mais chorava. Não sabia como enfrentar tudo daí para frente. Ate hoje ainda vou lá visitá-lo. Falo com ele sempre. Sei que ele não está ali, mas isto alivia minha dor e me conforta.

                 Panchito se levantou. Chorava copiosamente. Desculpe Chefe. Desculpe. Melhor é ir para minha barraca. E lá foi ele me deixando ali a beira daquela lagoa cinzenta, ao lado de uma fogueira apagada, só cinzas e um orvalho caindo e molhando minhas faces. Vi que as minhas lágrimas também se misturavam ao doce orvalho do amanhecer. Uma bruma cinzenta pairava sobre a lagoa. Pensei em ir dormir e ir para minha barraca. Não fui. Sentei a moda índia e fiquei ali até o amanhecer de olhar fixo no horizonte, acima da Lagoa do Lagarto. Não houve sol aquele dia. Uma chuva leve e intermitente começou a cair. Um peixinho pulou sobre as águas cinzentas da lagoa. Minha mente voltava ao passado. Manuelito, um sonho realizado. Uma morte honrosa. Um menino que foi homem para aceitar o seu maior desafio. Uma luta sem gloria. Ou melhor, Gloria feita de Sangue! 

sexta-feira, 1 de março de 2013

“Pelas barbas do Profeta”. Adônis conseguiu sua Insígnia de Madeira.



Lendas escoteiras.
“Pelas barbas do Profeta”. Adônis conseguiu sua Insígnia de Madeira.

                     Ninguém acreditava que ele um dia seria mais um Insígnia de Madeira. Claro, todos sabiam que era um Chefe Escoteiro esforçado. Presente. Seus 25 anos lhe davam um aspecto juvenil. Quem não soubesse diria ser ele um Sênior ou Pioneiro. Foi sim Escoteiro quando jovem. Ficou menos de três anos. Não voltou mais. Um dia viu uma Patrulha em um shopping. Não gostou do que viu. Parecia não ter espírito Escoteiro. Não deviam estar preparados para esta atividade. Os interpelou. Não o levaram a sério. Foi para casa pensando. Criticar não adianta. Porque não voltar a participar? – Voltou. Cheio de gás. Foi bem aceito no grupo. Um ano como Assistente. Não perdeu tempo. Engoliu livros, fez todos os cursos que podia fazer. Era o orgulho do seu assessor pessoal.

                     Com dois anos na tropa assumiu a chefia. Não porque quisesse, mas o titular desistiu. Achou que não seu tempo estava sendo usado muito no escotismo e sua família estava sendo prejudicada. Adônis deu tudo de si. Os jovens o amavam e ele amava os jovens. Aprendeu a ser amigo. Aprendeu a ser um irmão mais "Velho". Aprendeu a respeitar. Sem ninguém saber começou a responder o questionário. Na parte prática já tinha feito o avançado. Seu “caderno” foi devolvido. O leitor colocou várias ponderações. Estudou tudo e enviou de novo. Mais uma vez devolvido. Espere mais um ano. Você é novo. Só está no escotismo há três anos. Não concordou. Enviou um oficio – Qual a idade para ser um Insígnia de Madeira? O leitor ficou sem jeito. 

                     Um dia, um sábado apareceu um chefe. Desconhecido. Olá! – disse. Entabulou conversa. Cutucou. Olhou seu programa, conversou com alguns meninos. Não disse para que veio, deveria ter dito. Adônis acreditava que entre escoteiros não existe segredos. A lealdade acima de tudo. O Chefe se foi. Dois meses depois o Comissário Distrital e um Assistente Regional apareceram na sede. Após o cerimonial ele foi chamado à frente. Entregaram-lhe a Insígnia. Ele tremeu. Ficou vermelho. O lenço de Giwell agora adornava seu pescoço. Os demais chefes do grupo o saudaram. Não estavam acreditando que ele conseguiu. A maioria tinha seis sete ou mais anos de escotismo.

                     Adônis não dormiu naquela noite. Pensava – O que muda em mim com este lenço? Sei que muitos me olharão com respeito, mas não sou o mesmo quando não o tinha? Meus conhecimentos não eram o mesmo? Agora irão me convidar para muita coisa no escotismo. Deverão achar que agora sou tutor e não mais tutorado. Só um lenço mudou tudo? Já posso dar curso? Serei aconselhador? Serei chefão? Que lenço é este que só me trás duvidas e não certezas? – Adônis dormiu. Sonhou muito. Teve até pesadelos. Leves, mas alguém lhe tomava o lenço no sonho. Acordou suado. Meu Deus! O que é isto?

                     Passou a ir para as reuniões sem o lenço. Deixou em casa também seu colar de contas. Pretendia fazer um enorme quadro com seu certificado. Desistiu. Cobraram dele sua Insígnia. Ele abaixou a cabeça e não disse nada. Durante meses tentava ser o mesmo. Difícil. O que um lenço não faz. Em minutos após você receber passa para outra dimensão. A dimensão dos que tudo sabem. Mas não era o caso dele. O que ele sabia aprendeu antes. O Distrital mandou lhe chamar. – Soube que não tem usado seu lenço? – Por quê? – Não sei respondeu. – Explique melhor – Ele não sabia o que falar. Queria dizer que era mais feliz antes de ter este lenço. Ria mais, achava que era irmão de todos. Agora tudo mudou. Os chefes o olham com outros olhos. Não gostava nada disto.

                     Um fim de semana prolongado resolveu reler o livro O Guia do Chefe Escoteiro de Baden-Powell. Já tinha lido. Ficou o dia inteiro com ele lendo. No sábado seguinte chegou à sede com o lenço e colar. Nunca mais o tirou. Viu que muitos chefes IM em seus grupos usavam o colar com o lenço do grupo. Não fez assim. Amava o Grupo Escoteiro. Todos sabiam disto. Não era usando um lenço do grupo que seu amor iria aumentar. Nunca aceitou nenhum cargo. Nunca aceitou ser considero melhor. Era apenas um Chefe, um Chefe amigo, simples, fraterno, um Chefe como tinha pensado BP no passado. Um Chefe portador e orgulhoso do escotismo com seu lenço da Insígnia de Madeira!      

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Zé Celso Pescador e o descomunal Mexilhão-Dourado.



Lendas escoteiras.
Zé Celso Pescador e o descomunal Mexilhão-Dourado.

              Zé Celso era Escoteiro da Patrulha Morcego. Zé Celso era um Escoteiro comum, nada de mais como menino. Claro, altura mediana, magro e franzino para os seus doze anos. Tinha os cabelos crespos apesar de sua cor branca. Sua mãe Dona Eulália e seu pai Senhor Chaparral eram brancos, mas diziam que seu avô por parte de mãe foi escravo da fazenda do Coronel Miltinho. Seu pai era mestre pescador. Viviam da pesca que ele retirava do Rio Tambaú. Os peixes estavam rareando. Já não eram mais como antigamente. Mesmo com a atuação dos Militares Ambientais, a pesca de rede era frequente. Zé Celso nasceu no rio. Adorava pescar. A Patrulha adorava Zé Celso, não só pela sua calma, pela sua educação, pela sua voz ponderada, mas também por que sabia que com ele comeriam uma boa moqueca de peixe. Alem de pescar era exímio nos pratos de pescados. Seja em panela ou assado na brasa.

             Quem me contou esta história não foi ele. Foi Wantuil seu Monitor há alguns anos atrás. Encontrei-me com ele na Barra do Jacu, onde levei um Clã Pioneiro para descer o rio até a foz do São Francisco. Os pioneiros se deliciaram com a história. No final ele foi ovacionado e até pagaram uma lauta refeição no refeitório do barco a vapor que viajamos. Quando contava a história me lembrei do conto de O VELHO E O MAR de Ernest Hemingway. A luta do "Velho" pescador pelo peixe da sua vida. Acho que todos devem ter lido. Mas vamos à história. Wantuil disse que foram acampar na barranca do Rio Tambaú bem próximo onde desaguava o Rio Colorado. Nada de novo no acampamento que significasse mudar o rumo da história a não ser no segundo dia centenas de urubus a voarem em cima do acampamento. O Chefe Mira Flores ficou cismado e tanto procurou que achou um enorme touro preso na beira do rio no meio de cipós trazidos pela cheia. Os urubus sabiam que era morte certa. Nada que o Chefe Mira Flores desse um jeito. O touro foi solto.

             Como sempre Zé Celso foi liberado para sua pescaria. Sabia que ali tinha peixes de bom tamanho e pretendia presentear a todas as patrulhas neste acampamento com um bom pescado. Depois da inspeção ele foi liberado. Era mestre em armadilhas. Fazia uma que era tiro e queda. Uma vara flexível de bambu, de mais ou menos dois metros e meio, um cabo fino de mais ou menos um metro prezo com um anzol grande. Bem abaixo no pé do bambu outro de uns vinte centímetros amarrado transversalmente com uma amarra diagonal. Na ponta deste menorzinho ele cortava fatias de mandioca que se encaixavam no bocal do bambu. Esticava o cabo segurava no anzol e enfiava a ponta na mandioca. Soltava devagar, pois se não ficasse bem preso sua mão ou seu dedo seriam fisgados.

              Zé Celso fez três destas armadilhas. Entrou na água por um oito metros e fincou cada bambu no fundo do rio. Ali não era fundo. Não mais que um metro e meio. Dava para ver a ponta das varas. Agora era esperar na margem que algum Piau ou então um dourado mordesse. Se desse certo e sempre dava em pouco tempo teriam um ou dois peixes fisgados. O primeiro cabo da vara se soltou. Vazia. Lambaris pensou. Eles sempre atrapalham. Meia hora, uma hora e a segunda vara entortou toda. Um peixe havia fisgado. Zé Celso correu para dentro d’água. Sabia que o peixe com sua força arrancaria em pouco tempo a vara da areia no fundo do rio. Quando foi segurar a vara levou o maior susto. O maior Dourado que ele já vira. Sem mentiras, pois o Escoteiro não mente tinha mais de doze quilos. Enorme. De vez em quando vinha à tona e dava um salto que maravilhava Zé Celso. O sol batia sobre sua pele e o peixe brilhava na sua cor vermelha e metálica.

              Zé Celso ficou ali segurando a vara fincada no rio. Não podia soltar. Sabia que gritar aos amigos não adiantava. Longe demais.  Esqueceu-se de avisar a eles onde estaria e o acampamento ficava a mais de dois quilômetros de distância. Meio dia, uma hora, duas três. O peixe não se cansava. Corria para todo lado.  Uma perna de Zé Celso começou a dar câimbra. Ele estoicamente não desistiu. Ficou ali. Era o seu maior peixe. Não iria perdê-lo nunca. Quatro horas, seis começou a escurecer. Agora sabia que já estavam o procurando. Em breve o achariam. Oito da noite, nove, uma hora da manhã. Nada. Um frio de doer. Zé Celso lá. Não largava o seu peixe de jeito nenhum. Seus lábios tremiam. Seus dentes batiam um no outro. Às quatro da manhã começou a se sentir cansado. Seu corpo não queria mais obedecer a sua mente. Fez o que nunca deveria ter feito.

               Pegou o cabo da outra vara. Amarrou a vara do peixe em sua perna. Arrancou a vara e se deixou levar na correnteza. Nadava bem e sabia boiar. O dia amanhecendo. Zé Celso boiado rio afora. Pensou que quando passasse por baixo da ponte do Cavalo Doido alguém o veria. O dia já havia amanhecido. Um pescador o viu. Foi até ele com seu barco. O ajudou até margem. Quando retirou a vara o peixe era só esqueleto. Um enorme espinhaço. As piranhas quando desceu o rio o comeram quase todo. Zé Celso chorou. Tanto trabalho por nada. A tropa o encontrou exausto próximo à ponte. O procuraram a noite toda.

              Zé Celso não pegou seu maior peixe. Mas foi ovacionado por todos os escoteiros. Ficou conhecido pela sua tenacidade. A cidade em peso soube de suas história. Quando passava na rua era cumprimentado. Na sua sala de aula a professora fez um discurso para ele. – Disse: - Que Zé Celso seja o exemplo para vocês. Desistir nunca! Nunca mais Zé Celso pegou um peixe daquele tamanho. Não desistiu de pescar e a patrulha comeu bons guisados de peixe frito na brasa. Sei que levaram a espinha do Dourado e colocaram no coreto em praça publica. Ficou lá por muitos anos. Todos até hoje imaginaram se Zé Celso tivesse pegado seu peixe. Como se diz por aí, nem sempre temos aquilo que gostaríamos de ter.

               Guardei esta história e até hoje conto para meus escoteiros. Uma lição de vida. Verdade ou não exemplos são feito para serem seguidos e o de Zé Celso não pode ser olvidado nunca!     

sábado, 23 de fevereiro de 2013

O Fantasma do Capitão Levegildo.



Lendas escoteiras.
O Fantasma do Capitão Levegildo.

                Se não me engano tudo aconteceu em mil novecentos e setenta e um. Mais precisamente em novembro. Feriado de quinze de novembro. Uma época que fiquei sem grupo e só atuava como Comissário Regional. Estava sentindo falta dos meus acampamentos a “escoteira”. (aquele que anda só). Fazia mais de dois anos que não fazia um. Falei com Celia que ia acampar no feriado. Ela não gostava destes meus acampamentos, mas sabia que era um dos meus prediletos e aceitava contrariada. Ia pegar um ônibus até o entroncamento de Cidade Nova com Monte Azul. Poderia ter ido de trem, mas era demorado. De ônibus fiz com três horas. De trem mais de nove. Meu destino era uma parte da serra da Mantiqueira pelo lado de Minas Gerais. Pretendia subir a serra por seis quilômetros até o riacho Seco. Risos. Nunca esteve seco. Sempre cheio. Sai na sexta à noite e voltaria na segunda à noite.

               O ônibus me deixou no entroncamento por volta da duas da manhã. Era o que planejara. Minha mochila estava pesada e ainda tinha meu bornal com meu farnel para seis refeições. Simples. Sempre foi assim. O arroz com feijão e eu completava com alguma pescaria ou caça. Caça simples com armadilhas. Cortei uma vara fina para me ajudar na subida. O sol estava nascendo quando cheguei ao Riacho Seco. Estava bem seco mesmo. Ainda bem que onde ia ficar tinha um bom remanso para nadar e pescar uns lambaris e traíras. Tirei as tralhas das costas e comecei a montar o campo. Uma pequena cabana com folhas e por cima uma lona simples. Eram duas lonas a outra seria para fazer um toldo no meu fogão tropeiro. Passei boa parte da manhã preparando meu campo. Não sei por que, mas senti que estava sendo observado. Olhava e não via ninguém.

                 Não vou mentir e dizer que não tenho medo de nada. Sempre tive. Mas o medo aprendi a combater com o medo. Quantas vezes no escuro não vi fantasmas de todos os tipos? Nossa visão cria fantasmas em um galho, um vento movimentando o capim o barulho da água e até a chuva nos ajuda a sentir a pele enrijecer e muitas vezes fechamos os olhos para quando abrir rezar para que os fantasmas da mente desaparecessem da nossa vista. Mas a danada da percepção de estar sendo observado não terminava. Cuidei do que tinha de cuidar. Preparei um ótimo lenheiro. Se o tempo permanecesse firme ia dormir sob as estrelas. Adoro isto. Acampar sozinho é uma dádiva. Os sons da natureza, dos bichos, pássaros dos insetos e do vento calmo ou forte para sul ou norte. Naquele sábado depois de tomar uma sopinha, sentei em um tronco frente ao fogo e quando ia iniciar a preparar meu cachimbo vi em cima do remanso uma figura brilhante.

                  A figura não se movimentava. Era diferente de tudo que tinha visto. Pelo menos pareceu. Pior é ficar calado enquanto ele fazia barulho. Vamos enfrentar o bicho, pensei. Claro com medo, mas lá fui eu até o remanso. A figura sumiu. Voltei. Uma visão de ótica? Acho que não. Sentei novamente no meu tronco. Fazia um pouco de frio. Fui até minha mochila e peguei minha manta. Quando sai debaixo do meu abrigo dei de cara com o fantasma. Não era grande. Era brilhante. Parecia uma figura destas do sertão com perneiras, uma bota cano longo um enorme bigode e um chapéu velho e amassado. – Olá! – Ele disse. – Olá! Respondi. – O fantasma falava. Bom isto. Nunca tinha visto nada na vida assim. Fantasma falante era novidade. Não tenho mediunidade. Nem vozes ouvia. Senti o coração bater mais forte.

                  - Posso tomar um café com você? – Claro disse. Fiquei olhando como ele iria tomar o café. Fantasmas são etéreos. Não seguram nada nesta vida. Mas eis que ele pegou minha caneca, tirou a chaleira do fogo e bebeu um belo gole. E olhe saia fumaça da caneca. Ele sentou numa ponta do tronco. – Sabe! Ele disse. Gostei de você. Entrou nas minhas terras sem pedir, mas vejo que é educado. Observei você o dia inteiro. – Só não gostei quando tomou banho e deitou na grama pelado. Não gosto de homens pelados. Já matei vários assim na minha vida. – Caramba! O fantasma era um pistoleiro! Estava começando a tremer. O medo chegou. Estava difícil dominar. Ele não parava de falar. Convidou-me a ir até sua fazenda. – Disse do horário. Pode ser amanhã? Ele riu e disse – tudo bem. Amanhã passo aqui a meia noite e vamos lá. – Não pode ser durante o dia? Não. Eles não permitem. – Quem é “eles”? Sem resposta. O fantasma sumiu.

                   Não tive problemas para dormir. Acordei umas vezes para o necessário e voltava a dormir. No dia seguinte ele não apareceu. À noite também não. Não haveria outra noite. Iria embora naquela segunda. Lá pelas duas da manhã de segunda ele me chamou. – Vamos lá. Só agora consegui me desvencilhar deles. – Sou conhecido aqui como o Capitão Levegildo. Andei matando muitos que eram contra mim. Esses quatro me emboscaram na estradinha quando estava entrando em minha fazenda e me deram dezenas de tiros. Não satisfeitos me pegaram e me levaram para um local podre, cheirando a enxofre e todo mundo ali parecia com o demônio. Escondi-me aqui, mas eles me acharam. - Vamos logo antes que voltem. – Fazer o que? Lá fui com ele. Não andamos muito. Uma choupana caída, muitas cinzas sinal que foi queimada. - Ali no canto sou eu disse. Uma caveira. Nada mais que ossos e ossos.

                   Preciso que me enterre. Só assim conseguirei fugir deles. Achei uma enxada. Cavei uma cova rasa. Coloquei lá a caveira. Depois que soquei a terra o Capitão Levegildo deu um enorme grito. Vi que mais quatro vultos brilhantes estavam carregando ele para longe. Voltei apressado para o campo. O dia começou a nascer. Juntei minha tralha e nem fiz a limpeza do campo. Desci a montanha em menos de uma hora. Na estrada peguei o primeiro ônibus.  Na janela vi o Capitão no alto do morro dizendo adeus. – Adeus mesmo. Aqui não volto nunca mais! Acredita? Não? Bem não posso convencer ninguém. Mas olhem, continuei acampando a “Escoteira” por muitos e muitos anos. Nunca mais vi fantasmas. Vozes eu ouvia, mas faz parte do ofício. Baden Powell dizia que só os valentes entre os valentes se saúdam com a mão esquerda. Não sou valente. Aceite minha direita. Desculpe BP. Risos.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

E o Pássaro Azul levou meus sonhos para nunca mais voltar!



Conversa ao pé do fogo.
E o Pássaro Azul levou meus sonhos para nunca mais voltar!

                - Porque Pássaro Azul eu não tenho mais direito em sonhar? E não posso mais acreditar em meus sonhos? – Seus sonhos são tristes, nostálgicos, não existe mais aquela alegria do passado. – Olhe dentro de você. Qual foi a ultima vez que cantou uma canção? Qual foi a última vez que apertou a mão de um amigo Escoteiro? Você se fechou dentro de si, só ouve a voz do vento e ele nunca trás para você a doce primavera do passado em forma real. – Seu mundo é imaginário. – Você ainda não viu que a forja que temperou o aço do que você foi feito acabou. – Não vai mais existir aquela alegria de tempos idos. Ela não pertence mais a você. Ela está em outros sonhos, agora dos jovens que fazem a sua maneira um belo escotismo.

                - Olhei para o Pássaro Azul que sorria um sorriso enigmático, como a perscrutar no espaço o que seria eu para ele. Tinha um porte altivo, sem encarar, procurava saber, e para descobrir todas minha vicissitude analisava os meus medos, as circunstâncias que cercaram a minha vida. Para ele eu não era casual e imperecível. Na sua maneira de pensar não existe o acaso. E para ele eu estava criando em minha mente uma possível volta no tempo, o que seria eternamente impossível. – Veja Pássaro Azul, você está analisando o meu sorriso, a minha atitude, isto até é fácil. Você é contra o que eu penso, acha que estamos vivendo um momento único na história.  – Deve ser por isto que levou meus sonhos. – Você não tem este direito.

                 - Às vezes Pássaro Azul eu me sinto só. Não do calor humano. Esses não me faltam. O Pássaro Azul não entendia o porquê minha luta era o nada contra o nada. Muitas vezes pensei em desistir. Mas seria o que sou? Seria o intransigente que me leva a sonhar o impossível? – O Pássaro Azul sorriu. – Todos nós somos um pouco intransigente. Do outro lado também eles existem. Mas eles são os que decidem e você não. Lágrimas caíram no meu rosto. O Pássaro Azul atingiu-me fundo. Não sei se merecia. Nos meus sonhos que ele levou não quis desservir ninguém. Acreditava que amava a todos que conheci. – Engano seu, ele disse. – Acredito que você ainda não viu a forma de amor que criou para você.

                 - Mas não fique triste. Ainda deixei pequenos sonhos contigo. Sonhos reais, palpáveis. Siga aquele poema que um dia falou das tristezas, ande sempre em frente, não crie ilusões, ilusões nada trazem de beneficio. Não ande nas sombras. Assopre o pensamento triste. Deixe escorrer esta lágrima que caem do seu rosto. Se necessário vá até o fundo do poço, mas volte renovado. O Pássaro Azul me trouxe uma lição de vida. Avaliar o que fui e o que devo ser deve a nova meta da minha vida. Sempre achei que fui feliz. A minha maneira acreditei. Tinha que mudar. Mudar para melhor. Cantar as mais belas canções. Procurar no espaço o que não encontrei na terra. 

                   O Pássaro Azul voou por sobre as nuvens fez uma ou duas paradas como a dizer pela última vez: - Não esqueça. Quando encontrar a sua alegria de viver, respire fundo. Deixe a energia cósmica entrar em você. Abra a janela. Deixe que os pardais procurem a luz para você. Se encontrar, coloque-a dentro do peito. Lembre-se, a felicidade é seu objetivo. E ele se foi zigzagueando pelo horizonte até desaparecer no azul do céu profundo. Meu coração encheu-se de júbilo. Perdi uma parte dos meus sonhos, mas ele me deu parte das respostas que eu procurava. A felicidade existe. Está ao nosso lado. Quando cantamos com o coração ela está junto. Lembrei-me de uma canção antiga, linda, que me marcou muito:

- Este ano, quero paz no meu coração. Quem quiser ter um amigo, que me dê à mão. – O tempo passa, e com ele caminhamos todos juntos. Sem parar. Nossos passos pelo chão vão ficar. Marcas do que se foi. Sonhos que vamos ter como todo dia nasce em cada amanhecer!