No mundo dos sonhos com as fábulas escoteiras

No mundo dos sonhos com as fábulas escoteiras
A aventura está apenas começando

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Crônicas de um Chefe Escoteiro. Minhas quinze horas de terror.



Crônicas de um Chefe Escoteiro.
Minhas quinze horas de terror.

       Não gosto de contar histórias assim. Acham que não aconteceu e minha imaginação e fértil. Não importa. Esta é a história de Katia. Katia era guia. Da Patrulha Sete Quedas. Katia adorava o escotismo. Estava nele desde lobinha e nunca perdeu uma reunião, um acampamento. Ela, entretanto tinha um segundo amor. Orquídeas. Era louca por orquídeas. Em casa tentava fazê-las viver e rejuvenescer. Nem sempre conseguia. Tudo que escreviam ou falavam sobre elas ela lia. Ela nem bem fez quinze anos e a passaram para guia. Disseram que era uma tropa nova formada só por moças. Ela achou bom. Teria maior liberdade o que não acontecia quando sub-monitora na tropa Escoteira. Ela sabia que havia mais de trinta mil espécies de orquídeas e fáceis de cultivar em casa. Lindas, coloridas, perfumadas cabiam em qualquer lugar e como era cuidadosa duravam anos. Seus amigos e até um professor de seu colégio já tinha ido visitar seu orquidário.
       Nos acampamentos sempre tentava descobrir alguma árvore, próximo ou não de uma floresta que tivesse uma orquídea. Quem sabe descobria alguma que não conhecia. Lorena sua monitora já alertara ela diversas vezes que nunca devia sair sozinha e sempre avisar aonde ia. Claro o tempo livre era pouco e Katia não perdia tempo. Já tinha dois dias que estavam acampadas em um sitio e bem próximo uma linda mata. Ela tinha certeza que iria encontrar lá a “Phalaenopsis”, pois o ambiente da floresta com pouca humidade era próprio para isto. No segundo dia logo após o almoço sabia que haveria um tempo livre de pelo menos três horas. Não era a cozinheira e pela manhã tinha construído uma bela de uma mesa com bancos reclináveis.
        Sabia que não devia sair só, mas estavam todas tão entretidas com seus afazeres que escapuliu e se embrenhou na mata. Não andou muito. Próximo a um pequeno vale bem profundo ela avistou em uma árvore o que achava ser uma “Phalaenopsis”. Não se fez de rogada. Tirou a blusa de frio e lá foi ela arvore acima, pois tinha um bom treino em subir em árvores. Encantou-se com a orquídea. Linda, maravilhosa. Esqueceu que estava em uma arvore escorregadia. Caiu, um tombo enorme, quando batia nos galhos da árvore sentiu que um galho havia atravessado sua coxa esquerda. Na hora não sentiu nada, pois rolou em uma ribanceira caindo entre um vale onde havia uma vegetação espessa que escondia o que havia por ali.
        Agora sim, via que não podia mexer com a perna. Uma dor terrível. Um braço estava quebrado. Não podia se movimentar. Teve vontade de chorar, pois sabia que ali dificilmente iriam encontrá-la. A tarde chegou e veio à noite. Ouviu vozes e gritos tentou gritar e não conseguiu. Alguma coisa a impedia de falar. Logo o silencio da noite voltou novamente. Para Katia seria uma noite de terror.
       A Patrulha deu falta dela logo após a chamada geral. Busca daqui e dali e nada. O desespero passou a acompanhar todos os participantes. A Chefe Maria Célia ligou para os bombeiros na cidade. Não demoraram e antes do escurecer mais de vinte homens experimentados na arte de sobrevivência na selva lá estavam. Até meia noite tentaram e depois só no dia seguinte. Uma nevoa espessa e terrível tomou conta da floresta. Não se via um palmo adiante do nariz. Todos choravam. Ninguém conseguia dormir. Os pais de Katia chegaram. Ainda bem que eram calmos. Diziam confiar na filha e em Deus. Ela tinha experiência e não se deixaria levar pelo desespero. Aconteça o que acontecer.
          Miltinho tinha cinco anos. Todos o chamavam de manteiga, porque ele não sabia. Sua mãe era assistente da tropa. Não tinha com quem deixar e o levou para o acampamento. Ele dizia ver coisas. Ninguém acreditava. Coisas de crianças diziam. Chamou sua mãe. – Mamãe, eu sei onde ela está. A mãe não acreditou. Ele pegou na mão do Capitão Marquetti. – Venha comigo, eu sei onde ela está. O capitão o olhou de soslaio. Resolveu segui-lo floresta adentro. Passava das quatro da manhã. O dia ainda não tinha amanhecido. – Alí ele apontou. O capitão Marquetti desceu até a ravina. Katia estava lá. Desmaiada. Praticamente com avançado estado de hipotermia. Sonolenta não ouviu e nem sentiu a chegada deles. O Capitão Marquetti viu que seu ritmo respiratório a estava levando a uma parada cardíaca. Se tivessem demorado mais meia hora Katia teria morrido.
        Ele chamou pelo radio outros bombeiros. Levaram Katia ao hospital. Um mês depois ela estava em casa. Não houve sermões, admoestações ou ameaças. Ela voltou a Patrulha e a tropa. E agora nunca mais, mas nunca mais sairia sozinha do campo de Patrulha. Bastou àquelas quinze horas de terror para aprender a lição. Que sirva para todos os meus amigos escoteiros.

sábado, 11 de agosto de 2012

As crônicas de um Chefe Escoteiro. O Escoteiro do Rio.



As crônicas de um Chefe Escoteiro.
O Escoteiro do Rio.

          Corria o ano de 1953. Levantei cedo. Não precisava, mas era terça feira. E as terças e quintas eram sagradas para mim. Estava em férias do colégio e poderia dormir até tarde. Mas repito, hoje era terça, dia de ver e namorar a Dorita. Entrando nos treze anos e apaixonado por Maria das Dores para ser mais específico. Tomei um café correndo e fui para a Rua Peçanha, logo no início da praça de esportes. Encostei a bicicleta no muro e fiquei esperando. Sabia que todas as terças e quintas ela chegava à janela de sua casa, me olhava uns minutos, jogava os cabelo loiros encaracolados de um lado e outro, dava uma piscada de olhos para mim e fechava a janela. Isto me encantava. Era lindo isto. Já namorava assim com ela por quatro meses. Eu sonhava com ela, mas primeiro o escotismo. Sempre foi assim. Quando a janela abriu o Israel chegou a toda velocidade com sua bicicleta.
         Espavorido chegou logo dizendo que estava na cidade um Escoteiro do Rio de Janeiro. Alguém já tinha levado ele para a sede Escoteira. Caramba! Pelas barbas do profeta. Meu namoro com a Dorita ficaria para a próxima quinta. E lá fomos nós em desabalada carreira para a sede. Mais de trinta Escoteiros e lobinhos lá se encontravam. Todos nós vibrávamos quando aparecia um Escoteiro ou Chefe de outra cidade. Ninguém ficaria de fora sem olhar e conversar com ele. No centro da roda ele chamava atenção. Uniforme diferente. Calça azul, camisa de mescla azul clara, meiões pretos e uma boina preta tipo Montgomery. E na boina tinha um lindo distintivo de metal em forma de asas com uma flor de lis.
         Cheguei e entrei na roda. - Sempre Alerta disse! Ele sorriu para mim. Sentei e ele continuou conversando com todos. Dizia que morava próximo a praia do Arpoador (não fazia a mínima ideia). Era Escoteiro do Ar. Já tinha viajado em diversos tipos de avião. Seu pai era Piloto da Panair do Brasil. Contou que fazia mil coisas como Escoteiro do Ar. Seu pai tinha um teco-teco e ele por diversas vezes dirigiu o monstro. Acamparam em Paquetá, em Niterói, na região dos lagos, já fora na Alemanha, nos Estados Unidos. Lindo! Que Escoteiro feroz. Um autentico acampador! Ficamos ali por horas. Todos ouvindo o Escoteiro do Rio contando suas aventuras.
         Lá pelas duas da tarde convidei a ele para ir almoçar comigo em minha casa. Agradeceu, pois estava na casa da avó e se não fosse lá almoçar teria que ouvir poucas e boas. Bem, durante a semana ficávamos o dia inteiro com o Escoteiro do Rio. Passeamos com ele em vários lugares e depois de consultar o Romildo nosso Monitor o convidei a ir a uma excursão noturna no Pico do Papagaio no próximo sábado. Iriamos logo após a reunião terminar e voltaríamos no dia seguinte à tarde. Ele aceitou só não tinha mochila. Sem problemas. Tínhamos guardado na sede várias ganhas da polícia militar. As demais patrulhas sabendo que ele iria resolveram ir também.
        Sábado, sete da noite. Lá íamos nós em fila indiana as quatro patrulhas e o Guia Zenir seguia em frente. Eu ia ao lado do Escoteiro do Rio. Orgulhoso. Iria contar para muitos que ele ficou do meu lado e subiu a serra comigo. O Pico do Papagaio era próximo a nossa cidade. O duro era a subida. Treze quilômetros que matava qualquer um. Eu já tinha ido lá varias vezes e jurava sempre quando ia que seria a última vez. Eram onze e meia da noite. O Escoteiro do rio começou a chorar. Paramos. Quem sabe um espinho? – Eu quero mamãe! Eu quero mamãe! – Deus do céu! O que era aquilo? Só então ele nos contou que tinha onze anos e passou para a tropa vindo dos lobinhos no mês anterior.
         Foi demais para mim e todos da Patrulha. Rimos a mais não poder. Achávamos que junto a nós estava um Super Homem e era um lobinho crescido e que nunca fez atividade em Patrulha. Estava morrendo de medo e de cansado. Distribuímos sua mochila entre nós, e voltamos à cidade. As demais patrulhas continuaram. Eram uma da manhã quando o deixamos na porta da avó dele. Os olhos cheios de lágrimas. Chorava de fazer dó.
         Bem, lá se foi o nosso herói. Mas sabíamos que ele iria crescer. Aprender e ser um bom mateiro, mas que servisse de lição para não ser gabola, mentir dizendo o que não era. Nunca mais ouvi falar no Escoteiro do Rio. Para dizer a verdade nem o nome dele ficamos sabendo. Quem sabe ele está aqui a ler esta história e vai lembrar? Alô Escoteiro do Rio, (hoje beirando os setenta anos) Sempre Alerta para você! Apesar dos pesares você significou muito para nós. Sempre Alerta! E meu namoro com Dorita continuou por mais alguns anos. Ela lá naquela janela encantada a piscar para mim e eu encostado no muro a sonhar!

Crônicas de um Chefe escoteiro. Vontade de acampar.



Crônicas de um Chefe escoteiro.
Vontade de acampar.

                    Tem dias que me vem uma vontade imensa de acampar. Vontade de pegar minha mochila e sair por aí. Você levanta, põe os pés no chão. Olha pela janela o sol entrando, dá um sorriso e diz! Bom dia a todos que não vejo e desejo que tenham um ótimo dia. E então começa a lembrar dos tempos passados, quando abria a porta da barraca, sorria e era hora de enfrentar um novo dia. Aí você cantava alto para todos ouvirem – Alô! Bom dia! Como vai você, um olhar bem amigo, um certo sorriso um aperto de mão! E a gente fica sem saber como e porque, e passa a sorrir e passa a cantar, alegre canção!
                    Eu adorava esta musica. Era um bálsamo quando me levantava e olhe que era antes das seis da manhã. Bem, agora não dá mais. O jeito é tomar um café e botar o pé na estrada mesmo tropeçando aqui e ali com minha bengala. Andar um ou dois quilômetros voltar e sentar para a respiração voltar ao normal. Ver um vizinho passar e dar bom dia e então fazer o que faço sempre. Sonhar acordado. Adoro isto. Sabem como fazer? Fácil. Fecho os olhos e deixo minha mente solta em busca dos meus desejos. Assim eu faço meu acampamento. Imagino que pego no meu baú minha mochila, meu cantil, minha faca, minha machadinha, minha bússola, minha lanterna, meu cabo solteiro de vinte metros e minha capa preta que nunca abandonei. Uma muda de roupa, shorts, cuecas, meias, material de higiene, uma toalha pequena alguns comprimidos, uma caixinha pequenita de primeiros socorros e lá vou eu. Não esqueci meu canivete suíço, meus talheres fixos, e duas caçarolas sem alça que se encaixam. Não levo barracas. Não precisa. Sou mestre mateiro, faço de olhos fechados uma boa cabana para dormir.
                 No bornal levo meu “farnel” para três dias. Ração B. Tudo muito simples. Nos meus sonhos sei que vou pescar uns lambaris e os adoro fritos no fubá. Acredito que aonde vou encontrarei algumas mandiocas, quem sabe uns inhames, ou mesmo mamão verdes para uma deliciosa sopa. Pode ser que dou sorte e encontro uns pés de maracujá. Não vou me apertar. Vou sozinho. Adoro acampar sozinho. Sozinho o silêncio me faz muito bem. Adoro acampar ouvindo a passarada. Quem sabe sentar a moda índia em uma campina, ou uma relva fresca e esperar que um lobo guará venha comer sementes ou mesmo venha lamber minha mão. Não é impossível. Já aconteceu antes.
                Lá naquela clareira onde estou, tem uma cascata. Linda. Aguas claras, límpidas, borbulhando na queda como se estivesse fazendo o sinal de pista – Agua boa para beber! Durante o dia, nada de novo no front. Quem sabe viria um quati para me fazer companhia. Quem sabe uma capivara me olharia com aqueles olhinhos maravilhosos. E depois de tudo pronto em meu campo de fantasia, eu iria sentar em frente ao remanso e iria ver os peixinhos a nadar. E à tardinha depois de um jantarzinho simples e iria ver o sol se por lá no alto do morro, seria uma visão fantástica. Que coisa maravilhosa. Adoro isto.
                 Quando a noite chegar, uma pequena fogueira. Claro, minha poltrona do Astronauta estaria pronta. Minha gaita de fole importada da Escócia iria tocar e lembrar belas músicas escoteiras. A árvore da montanha. Guinganguli. Toadas da serra. Terra do belo Olmeiro. Avançam as patrulhas e porque não a Canção da Promessa e antes de tocar a Canção da Despedida iria ouvir o som da floresta que é imperdível à noite. O doce farfalhar do orvalho veria se misturar às fagulhas da fogueira que de maneira faceira vão viajar ao sabor do vento. Se tivesse sorte, Veria a Coruja Buraqueira, com aqueles olhos enigmáticos e incrivelmente belos a piar para mim como estivesse dizendo – Meu amigo, boa noite. Seja feliz como eu sou vivendo aqui nesta floresta encantada.
                 Não sei se teria sono. Não sei. Mas lá pelas tantas, após deitar na relva e admirar as estrelas, o firmamento com aquele brilho próprio de um universo fantástico ia me perguntar por que ainda alguns duvidam da existência de Deus. Então iria me dizer boa noite. Ainda de olhos abertos através da porta da minha cabana eu sabia que os insetos noturnos fariam seu bailados e quem sabe vaga-lumes iriam dançar para me mostrar como estavam contentes em me fazer companhia.  Podem acreditar não ia faltar o grilo falante, pois sempre esteve presente para me desejar boa noite. Mas tudo que é bom dura pouco. Uma vez calma e linda me chama. Meu marido, hora do almoço. Acorde! Caramba! E lá se foi meu sonho acordado. E a tarde, quem sabe volto de novo as minhas viagens por este mundo de Deus como fazia antes? Como é bom sonhar! Adoro sonhar! 

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Os Pistoleiros, o Capitão Maneco, a linda Rosália e muitas outras lambanças.



Os Pistoleiros, o Capitão Maneco, a linda Rosália e muitas outras lambanças.

            São coisas da vida. As lembranças vêm e vão. Alguns dizem que são lambanças do destino outros que são fruto da minha imaginação. Que assim pensem, pois a dúvida gera o pensar e este pode até chegar à conclusão que foi verdade. E se foi ou não, não importa, minhas lambanças estão aos montes por aí e porque não narrar de forma divertida? E eu pergunto quem não tem lambanças? A vida passa e nossa mente fica presa ao passado. Interessante que quando nos lembramos de alguém a imagem que fica é do ultimo encontro. Se por um acaso do destino encontramos de novo esta pessoa um susto – Meu Deus! Como você mudou! Melhor dizer, como você ficou Velho e feio! Esquecemos que nossa carcaça já não é mais a mesma.
Mas vamos às lambanças, nem tanto divertidas como outras que aqui contei, mas vale a pena lembrar.
Primeira – Corria o ano de 1956, Israel nosso submonitor contou para a Patrulha Sênior sobre o casamento de uma prima em Lambari, um vilarejo perto de Suaçuí, onde passava o rio do mesmo nome. Seus parentes eram de lá e porque não ir a Patrulha e participar da festa? Sempre davam uma festança quando havia um casamento e podíamos nos divertir muito. Não haveria despesas, pois a comida era farta. Ele conhecia uma picada pela serra do Sapo Molhado, e achava que era menos de dez léguas (sessenta quilômetros). Se fossemos pela Rio Bahia seria mais de duzentos quilômetros. Era como perguntar se peixe quer minhoca. Claro que topamos.
Quatro da tarde de sexta feira partimos em nossas bicicletas. Ração A, material mínimo para eventualidades. Sete da noite e pegamos a tal Serra do Sapo Molhado. Quase matou todo mundo de cansado. Quase duas horas só de subida. Na descida devagar, muito buraco na estradinha de terra. Na beira de um regato resolvemos pernoitar. Enquanto Fumanchú fazia uma sopa armamos duas barracas de duas lonas. Quase meia noite, estávamos jantando quando chegou dois homens mal encarados, a cavalo e apearam dizendo – Cabe mais dois nesta comida? Estamos mortos de fome. Falar o que? Sentaram e nós mesmo demos nossos pratos a eles. Enquanto comiam ouvimos alguém gritando: - Zé Peixada e Pato Branco dou dois minutos para saírem daí se não vamos abrir fogo! Cacilda! Deitei no chão e todos meus amigos fizeram o mesmo. Os dois pistoleiros abriram fogo. Um tiroteio dos infernos. Mais de meia hora. Eles correram descendo o riacho e o tiroteio não parou. Duas horas depois um homem que se identificou como o Capitão Maneco da Polícia de Captura nos disse que escapamos por pouco. Os dois nunca deixavam vivos alguém que poderia dizer onde estavam. Minha calça estava molhada. Toda molhada. Já sabem. Sou mesmo um Zé Mijão. Uma de nossas barracas de duas lonas estava crivada de balas, mais de vinte tiros. Ficou como recordação na sede para contarmos a quem quisesse conhecer a história. E a festa? Mais maiô de boa, tamanhuço e biteleza! Um pitaco de bom. Mas esta é outra história!
Segunda – Ano de 1954, um domingo qualquer, eu e o Romildo resolvemos ir a uma matinê no Cine Pio XII. Matar ou correr com Oscarito e Grande Otelo era a fita do dia. De uniforme não pagávamos. O cinema era dos Padres Maristas que adoravam os escoteiros. Ainda não tinha começado o filme e o Romildo ficou a piscar para Rosália, uma morena baixinha, com um corpo escultural. Não era bonita, mas dava para o gasto. Risos. Eu sabia quem era e sabia que Romildo estava se metendo numa roubada. Dito e feito. Tonho Grandão chegou. Era seu noivo. Na hora que Romildo levantou para dar uma cantada. Corri e disse a Tonho Grandão que Romildo só estava dando um recado e diabos o danado me deu um tremendo de um soco no nariz. Que dor dos infernos. Sentei no chão do cinema soluçando e nunca vi tantas estrelas. Vi que o sangue jorrava. Romildo deu nele um soco no queixo e ele riu pegando Romildo e o jogando em cima das cadeiras.
Ele me pegou de novo pelo colarinho e ia dar outro murro quando chegou o Padre Pedro e separou. Tudo poderia ter ficado por isto mesmo, mas os pioneiros souberam e resolveram dar uma surra em Tonho Grandão. Disseram que não podia passar em branco. Bateu num Escoteiro? Tinha de bater em todos. O pior é que ele bateu em todos. Eram quatro pioneiros e Tonho Grandão deu neles todos. Risos. Só mesmo quando ele foi para o Pará em busca de Ouro é que ficamos livre dele. Livre nada. Voltou dois anos depois podre de rico. Meu nariz ficou por anos e anos amassado. Mas a males que vem para o bem. Passei a evitar brigas que era o meu forte e me tornei um Escoteiro da paz. Risos.
Lambanças? Algumas pequenas outras maiores e outras não se conta. Os arautos da boa nova podem não gostar. Mas era uma outra época. Gostosa, onde se brigava a muque e não havia facas nem tiros.
E como digo em meus contos,
Quem quiser que conte outra...               

quinta-feira, 19 de julho de 2012

O simpático ratinho de Madame Rosinha.



O simpático ratinho de Madame Rosinha.

           Lindolfo levou o maior susto. Ao ir para a reunião Escoteira naquela tarde de sábado, viu Madame Rosinha descer a escada de sua casa gritando e chorando alto. Ela dizia: “Um rato”. Um enorme rato. Acudam-me! Socorro! Lindolfo era lobinho da segunda alcatéia do Grupo Escoteiro Pico da Neblina. Já tinha feito sua boa ação, mas resolveu fazer mais uma. Porque não? Partiu célere escada acima a procura do famigerado rato de Madame Rosinha. Em todos os cômodos ele procurou e não achou. Quando ia sair viu um ratinho, com cara chorosa, em cima do armário da cozinha. Estava com a vassoura na mão e pensou em dar uma vassourada nele ou uma caricia. Achou que ele precisava mais de uma carícia.
           Ao sair disse para Madame Rosinha que não se preocupasse. Ele logo que a reunião terminasse viria com sua matilha verde e pegariam esse famigerado rato. Ela ficasse calma. Os valentes lobinhos não tinham medo de nada! Na reunião comentou com a matilha sobre o ratinho. Explicou que era um “coitado” e precisava e ajuda e não ser morto. Liz não concordou. Ela morria de medo de ratos. Dayane ficou na duvida. Robertinho riu e falou – Vamos matar o danado isto sim. Mas Miltinho e Naninha ficaram do lado de Lindolfo. A Akelá Safira comentou com o Balu Nonato que a matilha verde estava estranha. Ficavam só cochichando e ela não conseguiu saber o que era. O Balu Nonato era muito amigo de Miltinho, mas ele não contou nada. A reunião terminou com todos dando o melhor possível e dizendo para os chefes – Obrigado Chefe pela linda reunião. O senhor sabe que tenho orgulho de nosso Grupo Escoteiro! Era assim no Grupo Escoteiro Pico da Neblina.
           Fora da sede, a mãe de Aninha estava lá esperando. Ela pediu a mãe para ir com a matilha. Iam fazer uma boa ação. Dona Nivea era uma excelente mãe e não se opôs. Mal chegaram à casa de Madame Rosinha e viram o ratinho chorando em cima do armário. Foi Lindolfo que se aproximou pé ante pé e disse no ouvido do ratinho: Calma, vamos leva-lo para outra casinha. Vai ter tudo que tem direito. Miltinho já estava com uma caixinha e colocaram o ratinho dentro dele e foram embora. Tinham comprado queijo e uma vasilha de água estava na caixinha. O ratinho estava com fome. Muita. Comeu tudo! E agora? Onde vamos levá-lo? Todos viram que em suas casas seriam impossível. O medo de rato era comum ou é em todas as famílias. – Já sei! Disse Naninha, vamos voltar à sede e ainda deve estar aberta. Os pioneiros ficam até tarde. Levamos o ratinho para a Gruta da Alcatéia. Escondemos a caixinha atrás da caixa de nossa matilha e nos revezamos durante a semana para vir alimentá-lo! Todos concordaram.
              Assim trataram o Tibinho (nome que deram ao ratinho) por quase dois meses e foi então que o pior aconteceu. A Akelá Safira foi mexer lá e viu o rato. Uma gritaria danada. Saiu correndo e pedindo socorro. Custaram a explicar a ela o que tinha acontecido. Ela deu um ultimato – Depois do acantonamento não quero ver ele aqui. E agora? Na reunião de matilha chegaram a uma conclusão – Vamos leva-lo junto ao acantonamento. Lá quem sabe descobrimos um local onde ele pudesse viver para sempre? E assim foi feito. Na primeira noite do acantonamento aconteceu a maior alegria da matilha. As mães que foram cozinhar saíram gritando e berrando! Um rato! Não era um só eram vários. Agora sim. Descobriram a cidade onde o Tibinho podia morar.  Soltaram-no à tardinha. Tibinho olhou para eles e para seus amigos ratos. Olhou de novo para eles. Uma duvida ficou na sua mente. Ficar com eles ou seus irmãos ratos? Uma ratinha linda se aproximou e se esfregou nele. Pronto. Resolvido. Lá foi Tibinho com seus novos irmãos. A Matilha Verde ficou chorosa. Em todos os olhos lágrimas desciam, mas sabiam que esta seria a melhor maneira e a melhor ação que deveriam tomar.
             Por muitos anos a matilha verde pedia aos pais para passarem um domingo a cada dois meses no local do acantonamento. Os pais não sabiam para que, mas a Matilha Verde sempre se encontrava com Tibinho, até que um dia ele e Tibinha chegaram com vários filhotes. Foi uma festa. Uma alegria para a Matilha Verde. E assim acaba esta história. Uma união de lobos, todos pensando em fazer o bem. Lembra sempre que o Lobinho pensa primeiro nos outros, abre os olhos e os ouvidos, está sempre alegre e diz sempre a verdade.      

sábado, 7 de julho de 2012

A lenda da Escoteirinha e Árvore da Vida.



A lenda da Escoteirinha e Árvore da Vida.

       Conta uma lenda muito antiga, que existia em uma pequenina cidade, uma linda árvore que foi plantada em frente ao coreto da praça, e que ela sempre atendia aos pedidos dos meninos e meninas que ali se dirigiam. Ninguém sabia se era um abacateiro, ameixeira, ou mesmo uma árvore comum. Interessante. Nunca deu flores. Nunca floriu na vida. Talvez esta tenha sido sua maior tristeza. Não atendia aos adultos. Apesar de ser uma velha árvore ela sempre se sentiu como uma jovem e sabia que na mente dos jovens existia a pureza, os sonhos eram mais azuis e a vida era mais bela. Nem sempre os jovens lhe pediam o que ela poderia oferecer. Ficava triste com isto e a sua maneira tentava ajudar.
      Em uma tarde alegre, onde o sol ainda não havia se escondido atrás das montanhas, e quando os pardais procuravam nela seu ninho, fazendo uma algazarra que a divertia, viu pela primeira vez uma menina, pequena, miúda, rostinho simples, e com um lindo uniforme de Escoteira. Interessante que todos os sábados a menina, ou melhor, a Escoteirinha ia ter com ela, e ficava até o escurecer. Não pedia nada, só a olhava e sorria. A Árvore da Vida perguntava sempre a si própria - Será que ela não tem sonhos? Gostaria de saber e ajudar. A Árvore da Vida ficava encantada quando a escoteirinha aparecia. Foi então que viu na mente da escoteirinha que ela se preocupava com a Árvore da Vida. Você não tem flores? Não tem fruto? Á Árvore da Vida se emocionou. Ninguém nunca se preocupou com ela e aquela escoteirinha se preocupava. Foi então que há escoteirinha um dia passou a levar uma sacola de esterco e em uma das mãos uma pequena lata com água, e colocava aos pés da Árvore da Vida. Á Árvore da Vida chorava de alegria. A escoteirinha disse – Árvore, vou lhe chamar de Árvore da Vida. Você vai reviver. Você terá flores e será a única Árvore da Vida no mundo que vai dar todas as espécies de frutos.
        A Árvore da Vida chorava de emoção. – Como? Pensava. Ninguém nunca ninguém se preocupou se ela era uma árvore comum, se era uma árvore que pensava e nunca ninguém falou com ela a não ser para pedir. Ela atendia os sonhos da meninada. Ela sabia que a cidade inteira um dia descansou nas suas sombras e agora uma simples escoteirinha se preocupava com ela? – Mas um dia cinzento triste ela viu a escoteirinha sentar-se e encostar a cabeça em seu tronco e a Árvore da Vida viu que ela chorava. A Árvore da Vida ficou triste. Muito triste. Viu que a Escoteirinha em seus pensamentos chorava, pois não iria a um grande encontro que os escoteiros faziam e que chamavam Jamboree. Seus pais não podiam pagar. O quer fazer? Como ela podia ajudar a escoteirinha? Á Árvore da Vida soprou em sua fronte, uma brisa fresca, perfumada de suas folhas verdes e a escoteirinha dormiu.
          A escoteirinha acordou em um lugar lindo, com arco íris de todas as cores. Azuis, amarelos, verdes, uma relva cheia de flores silvestres e ela viu ao longe um enorme acampamento. Muitas barracas e milhares de escoteiros e escoteiras de todo o mundo. Assustou, pois ao seu lado a Arvore da Vida estava segurando suas mãos e dizia – Vamos minha amiga. Você vai participar do primeiro Jamboree Escoteiro no mundo! Vai conhecer seu fundador. E a Escoteirinha sorria. Um sorriso que poucas escoteiras sabem dar. Eram milhares de jovens, todos segurando sua mão e dizendo “Sempre Alerta” linda Escoteirinha! Era a maior felicidade que ela podia alcançar. Viu alguém batendo em suas costas se voltou e viu que era o fundador do escotismo. Abraçou-a e disse - Minha jovem escoteirinha, acredite, você é quem faz seus sonhos e os transforma em realidade. Nem todos podem ter o que querem, mas devem lutar para ter. Acredito em você. E você deve acreditar na sua promessa!
          Quem passou ali no coreto naquela tarde de um lindo por de sol, assustou-se. Em pouco tempo centenas de habitantes da cidade se aglomeraram, pois deitada encostada no trono de uma árvore simples daquela praça, que ninguém nunca deu valor, uma Escoteirinha sorria, em volta dela lindas borboletas de todas as cores sobrevoavam sobre sua cabeça, pássaros mil faziam seus cantos nos galhos da árvore e a Árvore da Vida? Florida! Linda! Cheia de frutos. Incrível! Nunca viram nada parecido. Uma brisa gostosa soprava trazendo perfumes de flores silvestres, e um papagaio verde e amarelo pousou em seu ombro e cantava – “Ela foi para o Jamboree, ela foi para o Jamboree!”.
          A história chega ao fim.  Ela sonhou.  E que sonho meu Deus! Não foi naquele Jamboree, mas sabia que um dia iria em outro. Seu sonho não ia morrer nunca. Ela iria crescer trabalhar e fazer seu sonho virar realidade. E a Escoteirinha foi para sua casa sorrindo e cantando – “De BP trago o espírito, sempre na mente, sempre na mente e no meu coração estará!” E a Árvore da Vida que existiu em seus sonhos nunca mais a abandonou. As pessoas sempre tem aquilo que desejam. E ela a escoteirinha sabia que um dia teria seu desejo realizado. Sonhe, sonhe muito! Acredite em seus sonhos. Alguém não disse que o futuro pertence àqueles que acreditam na beleza de seus sonhos?    

quinta-feira, 5 de julho de 2012

A mixórdia me pegou desfilando e que lambança meu Deus!



A mixórdia me pegou desfilando e que lambança meu Deus!

                 Uma mixórdia, ou melhor, uma verdadeira lambança. Ainda bem que nos meus artigos poucos me mandam queimar no fundo dos infernos! Risos. Quem sabe mereço? Mas o que fazer? Uma vez aqui quase houve um bate boca devido a escoteiros desfilarem. Assisti a tudo dando gargalhadas. Voces sabem, eu gosto de rir e já me disseram que o riso é uma homenagem que os idiotas prestam ao gênio. Risos. Não sei se é verdade. Adoro os politicamente corretos. A turma nova aprendeu que não se desfila, me disseram que tá lá no POR. Ainda não vi. Só tenho o antigo e agora vai mudar. Vamos aguardar.  Dizem que devemos andar garbosos, olhando para frente, mas sem marchar. Haja paciência! Um saco isto sim! (desculpe o termo ante Escoteiro)
                 Como marchei na minha vida. Adorava marchar. Tínhamos todos nós escoteiros um porte pseudo militar. Proibido hoje. Esqueceram-se de ver a maioria das fotos de BP e alguns dos seus relatos sobre o tema. Lá está ele sempre fazendo inspeção e os jovens perfilados. E quantas marchas para homenageá-lo. Mas hoje não. Isto já era. Hoje os tempos são outros. Dizem que existem motivos. Bah! Para os motivos. Gostava de marchar. Nossa tropa era perita. Mas olhe só fazíamos isto uma vez por semana à noite. Fim de semana nem pensar. Reuniões e atividades ao ar livre. Aos montões. Bem vamos à mixórdia que me levou a relatar estes fatos. – Eu estava com treze anos. Fazia parte da nossa banda, tocando um tarol fino que hoje quase não vejo mais. Tínhamos orgulho da nossa banda. Dizíamos que era a melhor da cidade. O Munir era o nosso maestro. Magro, parecia mais um palito uniformizado. Claro, os treinos eram de uniforme. Em um campo de várzea perto da sede para não incomodar, mas mesmo assim o campo se enchia dos vizinhos e amigos.
                 Na cidade havia três comemorações por ano que desfilávamos. Dia da cidade, dia da bandeira e o Sete de Setembro. Havia uma disputa entre nós e os dois colégios masculinos e um feminino. O Tiro de Guerra e a policia militar tinham uma banda de musica. Eram, portanto três bandas de jovens que se digladiavam nestes desfiles. Nos dias de desfiles, lá estávamos todos os membros do grupo Escoteiro de luvas cinza, de luvas brancas só a turma do cerimonial. Também usávamos as mochilas e uma vez sim outra não montávamos um campo de Patrulha na carroceria de um caminhão. Era uma festa. Claro, na sede o Chefe fazia uma inspeção que não perdoava ninguém. Orelhas, mãos, unhas, sapatos engraxados, meias com listras retas, quatro dedos de dobra do meião, chapéu com abas retas, lobos idem com seus bonés.
                Todos aguardavam até formarem-se e partir para o ponto de encontro. Que orgulho! A cidade em peso lá. Todos batiam palmas para nós. Quando chegávamos ao destino gostávamos de ver os “inimigos e suas bandas” o pior é que muitos dos inimigos tinham escoteiros em seus colégios. Risos. Mas o Berica, o Berica não era mole. Todo ano querendo ganhar da gente com a banda deles. A gente tinha até uma cantiga que dizia – “Arreda grupo que o ginásio vem, que catinga de macaco que o Berica tem!”. Mas a lambança foi outra. A mixórdia também. Apareceu ninguém sabe de onde, uma banda marcial. Depois soubemos que era de Colatina e foi convidada pelo prefeito. Que banda! Enorme. Correu o boato que eram treinados pela banda dos Fuzileiros Navais. Muito famosa na época. E agora José?
                Agora era enfrentar. Mas o Munir não sabia perder. Bem fardado, um esqueleto humano, com sua varinha mágica, nos levou no centro da banda marcial. Ela linda, 20 bombos, 30 tambores, não sei quantas caixas claras, tarois mil e dezenas de cornetas e clarins. Entramos no meio dela. Uma bagunça. Eles batendo e nós também. Ele meteram as varetas nas nossas cabeças. Revidamos. Uma briga geral. A escoteirada dando soco em tudo que encontrava pela frente. O Chefe João apitando feito um coitado. A policia militar interveio. Conseguiu separar. Chefe João ofegante! Isto é escotismo? Onde aprenderam? A cidade inteira deu risadas por muito tempo. Ainda bem que não tínhamos ainda o tal Conselho de Ética. Se não ao grupo tinha sido fechado e eu não estaria aqui contando esta mixórdia. Esta lambança. Como castigo ficamos sem participar de dois desfiles aquele ano. Aproveitamos e fomos acampar na serra do Caparaó, com lindos picos em sua volta. Um belo de um acampamento. Ufa! Que castigo eim?
                  Enfim, eu marchei muito. Muito mesmo e dei meus tapas também. Não sou santinho, sou Escoteiro sim. Minhas boas ações sempre existiram. Quando Escotista dei exemplo. Mas se marchar é errado que o céu me condene. Ou melhor, que a UEB me condene! Risos. Se pudesse, se algum dia fosse voltar a um grupo eu marcharia de novo. Mas olhem, faríamos belos acampamentos, faríamos lindas atividades aventureiras, nossas reuniões seriam dos monitores e dos jovens e não dos chefes. Continuaria a abraçar a todos. Meninas e meninos e sempre a dizer – Bem vindos! Adoro voces! Aceite meu aperto de mão sincero! E no sete de setembro lá estaria o grupo, com uma boa banda (claro que teríamos) a marchar orgulhosos usando as luvas cinza, brancas, e a turma do pavilhão da bandeira orgulhosa, um carro com um campo de Patrulha montado e lembrando... Arreda grupo, que o ginásio vem, que catinga de macaco, que o Berica tem!